‘Booktubers’ fazem sucesso na web com vídeos sobre livros


Por Matheus Mans | Publicado originalmente no Blog Link | Estadão | 14 de junho de 2015 21h00

Canais especializados em crítica literária no YouTube fazem sucesso entre adolescentes ao comentar livros; alguns já conseguem até ganhar dinheiro com isso

CHICO GIMENES/DIVULGAÇÃO

CHICO GIMENES | DIVULGAÇÃO

Sob um forte sol, cerca de 400 pessoas se reuniram há duas semanas no Parque Villa-Lobos, em São Paulo, para encontrar seus ídolos. Entre gritos e declarações de amor, fãs tiravam fotos e pegavam autógrafos deles, que se desdobravam para atender aos inúmeros pedidos. As “celebridades”, porém não eram da música ou da televisão. São jovens que se dedicam a resenhar livros de papel em vídeos no YouTube: os “booktubers”.

O termo surgiu em 2011, usado pelo australiano de apelido Bumblesby como denominação para pessoas que faziam críticas e comentários sobre lançamentos editoriais no YouTube — inclusive ele. Canais falando sobre literatura já existiam, mas a chegada de um termo específico ajudou a modalidade de vídeos a ganhar projeção.

A professora de inglês Tatiana Feltrin foi a primeira a fazer vídeos falando de livros no Brasil. “Quando comecei, em meados de 2007, fazia isso sozinha”, comenta. “Até 2011, eu conseguia estar inscrita em todos os canais brasileiros sobre livros. Cerca de 50, chutando alto. Hoje em dia, é impossível.

Tatiana é prova de que o nicho se transformou em sucesso de audiência, dentro e fora do YouTube. Ela tem quase 10 milhões de visualizações em seu canal, o Tiny Little Things, onde aborda de Carl Sagan a Sêneca, e consegue faturar em média US$ 300 por mês com anúncios. Seus ganhos não param aí e incluem cachês para participações em eventos, palestras e vídeos pagos para editoras.

Apesar do crescimento da modalidade, Tatiana tem ressalvas. “A comunidade tende a crescer mais, mas não tenho uma visão otimista”, revela. “Estamos vendo muita gente começando canal para entrar na onda, ganhar notoriedade e livros de graça das editoras.

O evento do Parque Villa-Lobos, com fãs emocionados encontrando seus ídolos, foi organizado pelos donos de canais literários Cristiam Oliveira e Alison Iared [Índice X], Victor Almeida [Geek Freak], e Nathalia Cardoso [Leu].

A ideia surgiu como forma de reunirmos todos os booktubers existentes e encontrar pessoalmente nossos inscritos”, conta Cristiam. “A esperança era de que as pessoas se conhecessem e se divertissem, criando laços com o público.

De Santa Catarina, Pâmela Gonçalves veio ao evento para conhecer alguns dos quase 100 mil inscritos de seu canal. Logo que chegou ao encontro no Villa-Lobos, dezenas de pessoas começaram a correr em sua direção. Muitas choravam e gritavam. Ela justifica o sucesso. “Acho que é a união da popularização do YouTube e, ao mesmo tempo, o aumento do interesse por livros”, comenta.

Já para Victor Almeida, a popularização dos booktubers acontece pela linguagem utilizada. “Os canais literários propiciam uma forma mais divertida e dinâmica de conhecer e se relacionar com literatura.” Ele explica que “a descontração é a chave” para atrair a atenção dos jovens para o conteúdo dos vídeos e dos livros – que variam de livros infantojuvenis até Proust, dependendo do canal.

Segundo os donos de canais literários, a postura crítica com relação às obras é fundamental, independentemente do gênero literário ou se o livro foi enviado por editora. “Isso não interfere na análise”, diz Cristiam.

Essa nova dinâmica está transformando a relação entre jovens e literatura e, principalmente, entre livros e internet. Antes considerada uma inimiga do mercado editorial, a web está começando a se tornar aliada de editoras e autores.

O TRADICIONAL NA WEB

Além de fãs e booktubers, o encontro contou com a participação da Livraria Cultura — que cedeu um auditório para realização de debates e conversas — e de 12 editoras que enviaram livros e materiais promocionais.

A DarkSide Books foi uma delas. Apostando em uma ampla divulgação nas redes sociais e criando uma boa relação com booktubers, a editora tenta fortalecer sua presença na web.

Não existiria a DarkSide sem internet”, conta Christiano Menezes, sócio-fundador. “A relação entre internet e literatura traz novas possibilidades para criar, ler, discutir, interagir. Assim, buscamos ter um DNA totalmente online.

Ao observar as redes sociais das diversas editoras brasileiras, é visível a busca por integração no ambiente virtual.

Menezes indica que esta aproximação com os leitores pela web é o caminho para as editoras tradicionais. Ele ressalta, no entanto, que isso deve ser feito através de “diálogos verdadeiros”. “Senão não funciona.”

Vários autores também estão usando a web como parceira na divulgação de seus livros. Raphael Montes já possui três perfis lotados no Facebook [o que lhe dá 15 mil contatos na rede]. Antes espaço apenas para amigos e familiares, o autor hoje aceita solicitações de amizade de seus fãs. Mas ressalta: “A internet e a literatura não são inimigos, mas também não são gêmeos univitelinos”, comenta. “A obrigação do escritor é escrever. Só depois ele deve se preocupar com a internet.

Carolina Munhóz também é outra escritora que possui ampla presença na web. Com mais de 250 fã-clubes, a autora se valeu da influência na internet para ampliar a divulgação de seu trabalho. “A era das redes sociais está ajudando os autores. Temos feedback dos livros de forma instantânea”, conta.

Os escritores ressaltam a importância dos booktubers no atual momento do mercado editorial. “Os booktubers representam a democratização da opinião literária na internet. Qualquer um pode criticar, e é de igual para igual”, opina Raphael Montes. Para Carolina, esta nova fase da literatura na internet dá fôlego aos livros. “Com a popularização dos blogs e booktubers, a literatura é que ficou em evidência.

Por Matheus Mans | Publicado originalmente no Blog Link | Estadão | 14 de junho de 2015 21h00

‘Booktubers’ comentam livros do vestibular em vídeos na internet


Li ‘Vidas Secas’ só por ler, meio sem vontade. Anos depois, quando assisti a Tati, realmente fiz por interesse“, diz o arquiteto Rafael Ribeiro, 22. Ele se refere a Tatiana Feltrin, 33, dona de um canal no YouTube que comenta uma das exigências do vestibular: os livros.

Os chamados “booktubers” formam um grupo de fãs da literatura que se reúne pela internet. Eles leem pelo menos um livro por semana e comentam on-line. Entre as obras, estão aquelas de leitura obrigatória nas provas das universidades públicas.

Estou com um desafio de falar sobre cem obras da literatura brasileira. Já levantei os nomes da Fuvest. A cada 15 dias vou comentar sobre uma delas“, diz Feltrin, dona do canal criado em 2007 que leva o seu próprio nome.

Tatiana Feltrin, 33, pretende fazer vídeos sobre cem obras da literatura brasileira | Foto: Fabio Teixeira| Folhapress

Tatiana Feltrin, 33, pretende fazer vídeos sobre cem obras da literatura brasileira | Foto: Fabio Teixeira| Folhapress

Os vídeos são feitos, quase sempre, na casa de cada um e sem muita produção.

Eles não se sustentam com esses canais. O único pagamento vem do “Google AdSense”, ferramenta que conecta anunciantes com canais de produtores de conteúdo na internet.

Tatiana Feltrin, a mais antiga das “booktubers”, recebe perto de U$ 300 [o equivalente a R$ 900] por mês, marca que conseguiu alcançar há apenas um ano.

BOM HUMOR

A característica comum à maioria dos “booktubers” é a maneira descontraída com a qual comentam obras densas da literatura brasileira, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, exigido para o vestibular da USP deste ano.

O desafio dos cem livros da literatura brasileira, iniciado por Feltrin, teve 15 mil visualizações. Na apresentação, um dos temas foi “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, também na lista da Fuvest.

Nada perto do recorde da professora, 200 mil cliques no comentário sobre um best-seller que deve passar longe dos vestibulares: “Harry Potter”, de J.K. Rowling.

O público que visita as páginas é, em geral, composto por jovens de 14 a 20 anos, que ainda aproveitam a seção de comentários do YouTube para pedir conselhos sobre a escolha do curso.

Mariana Gastal mostra um dos vídeos gravados na sua casa em Brasília | Fonte: Beto Barata | Folhapress

Mariana Gastal mostra um dos vídeos gravados na sua casa em Brasília | Fonte: Beto Barata | Folhapress

Mariana Gastal, 22, “booktuber” e formada em publicidade e design, fala da profissão em um dos seus vídeos. “Passei a receber algumas mensagens de jovens que queriam saber sobre os conteúdos que eu estava estudando e como tinha escolhido qual carreira queria seguir“, conta à Folha.

Os vídeos, porém, não substituem a leitura completa dos livros, argumenta o professor de literatura Nelson Dutra, 60.

As provas têm exigências muito específicas que precisam ser estudadas com afinco. A análise aprofundada e crítica das obras se torna fundamental para entender as características de cada autor brasileiro e, claro, passar no vestibular“, diz.

Os “booktubers” entrevistados afirmam que não fazem críticas literárias ou resenhas. Eles classificam de comentários pessoais e dizem que a intenção é atrair os jovens para a leitura.

A verdade é que o jeito como esses livros são geralmente apresentados para os adolescentes durante a escola não gera qualquer tipo de identificação. Dessa maneira, passa a ser algo interessante“, diz Rafael Ribeiro.

Inspirado pela hoje amiga Feltrin, Ribeiro criou seu próprio canal no YouTube: o Bigode Literário, que já fechou parceria com quatro editoras e recebe passe livre para eventos de autores.

Apesar de não substituírem a leitura, o professor Dutra vê valor nos vídeos. “Melhor canal de literatura do que canal de besteira, não é?

Confira a lista dos livros exigidos nos vestibulares.

POR CAROLINA DANTAS | DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 04/05/2015, às 02h00

‘Booktubers’ dão dicas de livros


Quer saber quais livros bacanas você pode ler agora nas férias escolares ou ao longo de 2015? Pois você pode seguir, no YouTube, algumas dicas dos chamados”booktubers”. São internautas que fazem resenhas de livros e dão dicas literárias em vídeos.

O Abecedário selecionou alguns canais booktubers comandados por jovens e encontrou dicas bem interessantes de leitura, que vão de “Cidades de papel” [John Green, Ed. Intrínseca] –muito procurado por jovens especialmente depois do sucesso de “A culpa é das estrelas”, do mesmo autor,– a clássicos como “Laranja Mecânica” [Anthony Burguess, Ed. Aleph], publicado originalmente em 1962.

Para saber mais sobre a proposta booktuber, o blog conversou com o autor de “Então, eu Li“, comandado há dois anos pelo adolescente Daniel Destro, 15, morador de Barra Bonita, São Paulo [270 km da capital]. O autor diz que lê, em média, cinco livros por mês e resolveu compartilhar suas impressões sobre as obras.

O mais bacana é que Daniel recebe os livros de editoras como DarkSide, Arqueiro, Zahar, Aleph e Globo Livros para fazer as resenhas no YouTube. “Na hora de fazer resenha, minha opinião não é influenciada só pelo fato que ganhei o livro. E se eu realmente não gostar do livro, eu irei falar”, diz. Bacana, Daniel!

Fiquei curiosa para saber de onde surgiu essa sede pela leitura. “Comecei a entrar nesse mundo pelos quadrinhos da ‘Turma da Mônica’. Logo depois, ‘Turma da Mônica Jovem’. Mas o gosto de ler compulsivamente surgiu após ler a saga ‘Harry Potter’ [ J.K.Rowling, Ed.Rocco]”, diz Daniel.

E de que forma seu gosto pela leitura melhorou sua vida, Daniel? “É como se fosse um refúgio desse mundo maligno. Você esquece do que acontece na sua volta e viaja sem sair do lugar”, diz. “Além disso, o hábito da leitura deixa você um pouco mais criativo, você conhece diversas palavras, tem um conhecimento maior do mundo, pois você aprende diversas coisas. Por exemplo, na saga ‘Percy Jackson e os olimpianos’ [Rick Riordan, Ed. Intrínseca], você acaba de ler a saga sabendo um pouco sobre a mitologia dos deuses gregos.

Muito bacana. Eu ainda estou fazendo minha lista de obras para 2015. E você? Quais são seus 12 livros para 2015?

Por Sabine | Publicado originalmente em Folha de São Paulo | 09/01/2015