Brasil e Índia no caminho da rápida adoção dos livros eletrônicos


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Ainda assim, a mesa “Inovando suas publicações com aplicativos” foi um exemplo lamentável desse tipo de coisa. O único interessante, que apresentou a Nuvem de Livros, poderia ter servido de pano de fundo para um debate importante: o interesse por “conteúdo grátis”, que é turbinado pelas telefônicas e pelos provedores de serviços da internet, para os quais quanto mais tráfego O 3º Congresso do Livro Digital, organizado pela CBL, revelou-se melhor que os dois primeiros em um ponto fundamental: um número menor de vendedores de apps e programinhas, que compareciam menos para demonstrar tendências e mais para propor a venda de serviços para os tupiniquins embasbacados pelas novidades, o que geralmente não conseguiam, porque o pessoal daqui é desconfiado e muquirana.

Provocado pelo “grátis” ou pelo menos “baratinho” é importantíssimo. Eles cobram pelo tráfego de informação através de seus sistemas, e quanto mais nós contribuirmos com conteúdo grátis, melhor para eles. Isso merecia uma discussão. Mas os outros dois “palestrantes” dessa mesa, que foi o ponto mais baixo do evento, eram apenas patéticos vendedores que pareciam nem saber que tipo de pessoas compunha a plateia.

As duas palestras mais interessantes do Congresso foram, na minha opinião, as de Jonathan Novell, da Nielsen, e a de Kelly Gallagher, da R.R. Bowker. Foi uma fantástica oportunidade de ver, na prática, como os metadados constituem, hoje, um elemento essencial para que a indústria editorial possa cumprir seu papel de entregar os livros a seus leitores.

Jonathan Lowell, da Nielsen, foi o primeiro. A Nielsen é uma empresa internacional de coleta e análise de dados de mercado. Há alguns meses, Roberto Feith, do SNEL, anunciou que havia tratativas para que a empresa instalasse no Brasil o seu sistema de rastreio de vendas on-line de livros, o BookScan [eles têm sistemas semelhantes para outros produtos de varejo], e nossa colega Roberta Campassi, depois da palestra, soube que ele confirmou que isso acontecerá até o fim do ano.

Alvíssaras. Poderemos ter dados confiáveis, pelo menos sobre as vendas de varejo, já que pesquisa de produção editorial da CBL/SNEL ficou comprometida com a apresentação de dados diferentes para o mesmo ano. Ao que tudo indica, pelo menos no que concerne às vendas no varejo, poderemos ter dados confiáveis.

O BookScan registra em tempo real as vendas nas empresas de varejo [e bibliotecas, para empréstimo], que aceitem instalar o sistema. Permite aos editores saber, em tempo real, onde foi vendido cada um dos livros, a que horas, qual o cartão de crédito usado, as condições de venda, se o comprador faz parte de programas de fidelização e coisas do estilo. Mas, como Lowell chamou atenção, esses dados por si só ainda fornecem “poucas” informações. A análise se enriquece geometricamente se os livros contiverem metadados enriquecidos, de modo que as tendências na compra de cada exemplar possam ser agrupadas de maneira efetiva por gêneros, e cruzadas com outras variáveis. Para informações mais abrangentes sobre o BookScan, veja http://migre.me/956Sm .

Os instrumentos proporcionados pelo BookScan só serão úteis se os editores aprenderem a “mastigá-los”, de modo a permitir uma tomada de decisão bem fundamentada. Os dados não decidem o que fazer, mas permitem que sua análise informe quais as opções que melhor se adequam a cada editora, a cada momento. As livrarias, por sua vez, passam a dispor não apenas dos dados provenientes de suas vendas, mas podem comparar desempenhos de títulos e gêneros em outras regiões, em outros tipos de varejo etc.

São todas informações que devem ser trabalhadas. O que, infelizmente, nem editores nem livreiros andam muito habituados a fazer, salvo as famosas e honradas exceções.

No âmbito da análise de dados a partir do comportamento dos consumidores, a palestra de Kelly Gallagher abriu outras perspectivas.

Gallagher trabalhou com um conjunto de dados proveniente da uma pesquisa recém terminada em abril passado, o Global eBook monitor all country comparison – Final report. Usou também, como exemplo, um relatório do PubTrack, o sistema que analisa casos específicos.

O primeiro relatório terá sua versão sintética, referida a dez países [Austrália, Brasil, França, Alemanha, Índia, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido e EUA] disponível gratuitamente para download em breve aqui. Mas avisou: o relatório específico sobre o Brasil, só vendido. Lição para os editores: informação aparentemente custa caro, mas vale muito quando se aprende a usá-la.

O relatório sobre tendências globais para o consumo de livros eletrônicos mostrou as razões do interesse da Amazon no mercado brasileiro, e que são as mesmas pelas quais eventualmente teremos mais editoras internacionais querendo pescar uma fatia desse mercado. A pesquisa mostra que 18% dos consumidores já haviam adquirido pelo menos um livro eletrônico nos seis meses anteriores à pesquisa, e que esse índice tenderia a triplicar em curto prazo. Outro ponto interessante mostra que, nos mercados mais “maduros” [Reino Unido e EUA, por exemplo], as mulheres, e mais velhas, compram mais e compram mais ficção. Nos mercados “emergentes”, como no Brasil e na Índia, são os homens, e de uma faixa etária mais baixa, e há grande interesse pelos livros da área técnico-científica e profissional. É mais fácil se atualizar na área técnica via livros eletrônicos.

Segundo o relatório, os Estados Unidos, Austrália e Reino Unido são os países com os maiores índices de adoção de e-books, mas a Índia e o Brasil são os que apresentam as melhores condições para um rápido crescimento. A combinação da análise das porcentagens com o tamanho da população [e o ambiente econômico geral] é que coloca o Brasil e a Índia na ponta de lança do crescimento numérico de e-books a curto prazo.

O outro componente dessa equação será a disponibilidade de e-readers mais baratos, se a Amazon e a Kobo conseguirem colocar seus aparelhos por volta de R$ 200.

Vale mencionar um aforismo do Ed Nawotka, o editor da Publishing Perpectives há alguns meses: livro pirateado é o que não foi lançado em condições adequadas. Eduardo Melo, da Simplíssimo, que participou em outra mesa no Congresso, também afirmou que, se os editores não ocuparem o espaço, os livros pirateados irão atender a essa demanda.

No segundo relatório Gallagher mostra um dos trabalhos feito sobre encomenda, no caso sobre livros de cozinha. A pesquisa parte do fato de que as vendas de livros de cozinhas [nos EUA] estavam em queda. Mas a análise dos dados desagregados por grupos geracionais mostrava que uma determinada faixa etária se comportava de maneira diferente, comprando cada vez mais livros de cozinha. Resultado: produção de material para aquela faixa etária pelo editorial; marketing voltado para o grupo; comercialização em pontos de venda frequentados pelo grupo etário. Essa análise foi possível combinando informações de diferentes fontes, desde as pesquisas da própria R. R. Bowker sobre comportamento de consumidores, até os dados do BookScan.

Editar é uma arte, mas é uma arte que pode e deve ser informada pelo conhecimento científico. Saber quem são e onde estão os consumidores é algo que se torna cada vez mais crucial para que os leitores achem os livros que querem, e o editor possa lhes oferecer esses produtos. Mas recuperar essas informações de modo inteligível, de modo a poder analisá-las e tomar decisões informadas exige um pré-requisito: que os livros que circulam na web – não apenas os livros eletrônicos, mas todos os livros, cujas operações de compra e venda acabam registradas na Internet – estejam acompanhados desse “recheio” fundamental: os metadados.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 15/05/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Nielsen mais perto de lançar o BookScan no Brasil


Presidente da empresa diz que já há contratos fechados com livrarias nacionais para coletar informações sobre vendas de livros

A Nielsen está mais próxima de implementar o BookScan no Brasil, o serviço da companhia que levanta dados sobre vendas de livros e já é usado em vários países, disse o presidente da Nielsen Book, Jonathan Nowell, em entrevista ao PublishNews. Segundo o executivo, que proferiu uma palestra no primeiro dia do Congresso CBL do Livro Digital, a empresa já fechou contratos com algumas livrarias brasileiras e está em negociação com outras para começar a coletar informações sobre o mercado nacional. “Ainda não temos uma data para lançar o BookScan aqui. Mas na Índia, por exemplo, que é um mercado mais complexo e desorganizado que o brasileiro, implementamos [o serviço] em seis meses”, afirmou Nowell.

O acesso às informações coletadas pela Nielsen é pago. Além de congregar os dados dos pontos de venda, o serviço permite fazer análises do mercado por gêneros, períodos de venda, regiões geográficas etc. O BookScan já existe em países como EUA, Reino Unido e Austrália, além de Índia e na China, países onde foi implementado mais recentemente.

Nowell falou no congresso da CBL sobre “Vendas globais de livros e a importância dos metadados”, e mostrou números para comprovar que quanto mais dados uma editora disponibiliza sobre seus títulos, mais as vendas sobem. Segundo o levantamento apresentado por ele, editoras que passam a fornecer dados completos – conforme o padrão da Book Industry Communications, há onze dados básicos, como título, imagem de capa, disponibilidade e ISBN, e quatro “aprimorados”, ou “enhanced” – aumentam em 35% suas vendas “offline”, fora da internet, e em 178% as vendas on-line. “Quanto mais ricos os metadados on-line, mais vendas, porque a informação melhora muito a descoberta dos livros na internet”, disse. O estudo completo da Nielsen sobre o tema pode ser acessado aqui.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 10/05/2012

Como os dados modelam o mercado editorial


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em O Xis do Problema | 18/08/2011

A informática permite hoje a coleta de dados importantes sobre o desempenho dos livros. É claro, desde que os metadados estejam corretamente assinalados e sejam “coletáveis”.

Os instrumentos para tanto são vários. Alguns podem estar dentro da própria editora, ou da livraria, consolidando dados sobre os clientes e vendas, devoluções, pagamento de direitos autorais, amortização do investimento, etc.

Um dos mais interessantes é o BookScan, da Nielsen International. Esse instrumento recolhe informações de vendas no varejo, a partir do ponto de venda, em mais de 31.500 livrarias nos cinco continentes. Apenas livros em inglês, na Inglaterra, Estados Unidos, Irlanda, Austrália, África do Sul, Itália, Nova Zelândia, Dinamarca, Espanha e Índia.

Os dados são recolhidos em diferentes formas, incluindo a participação no mercado de diferentes categorias de livros e por editoras individuais e seus respectivos selos editoriais, autor, e preço efetivamente praticado pelo ponto de venda. Cada venda individual é registrada, de modo que os relatórios podem ser exaustivos e incluem elementos para o acompanhamento e o planejamento de editoras de todos os portes. O BookScan captura os dados diretamente do sistema de vendas das cadeias de livrarias e das livrarias independentes, e os relatórios, em seus vários níveis, podem ser adquiridos tanto por editoras quanto bibliotecas e pela mídia, em tempo real.

Em 2009 a Nielsen lançou o LibScan, que registra a movimentação de empréstimo das bibliotecas. Estas têm que aderir ao sistema e permitir que o software da Nielsen capture as informações dos seus usuários.

A quantidade de informações é estonteante.

As cadeias de livrarias, com seus sistemas de “clientes preferenciais” [milhagem], organizam dados sobre seus principais consumidores e clientes. Cruzando essas informações com todas as compras feitas, saem relatórios sobre o tipo de livros adquiridos, a frequência de compras, o local e a hora dessas compras, e assim por diante. As carreirinhas de cliente preferencial e os descontos que oferecem são compensados não apenas pela maior frequência na loja, mas também pelos dados que proporcionam.

Quem já fez compras na Amazon, conhece os frequentes e-mail chamando atenção para sugestões baseadas nas compras de outros clientes que adquiriram o mesmo livro, ou livros do mesmo gênero, etc. A coisa vai se refinando ao ponto de permitir a elaboração de ofertas absolutamente personalizadas.

A Amazon não revela o funcionamento de seus sistemas, mas a simples observação do funcionamento das listas e do modo de operação da empresa permite que editoras tentem aumentar as chances de seus títulos subirem na classificação de vendas da Amazon segundo a categoria do livro. Um artigo interessante foi publicado no Digital Book World a esse respeito .

Do lado das editoras, essa pletora de dados possibilita muitos tipos de análises. Muito úteis para a administração geral do negócio, mas que trazem também um perigo embutido para os livros de qualidade que não conseguem índices altos de venda.

André Schiffrin, importante editor independente americano que viu sua empresa, a Pantheon, ser adquirida pela Random House [hoje faz parte do grupo de selos encabeçados pela KnopfDoubleday, ainda da Random House mas controlados pelaBertelsmann alemã], chamava atenção sobre como a tradicional perspectiva dos editores de que os best-sellers ajudavam a financiar os títulos mais arriscados foi sendo liquidada pelo processo de concentração e conglomerização do mundo editorial. Schiffrin escreveuThe Business of Books, livro com sua trajetória profissional e análise desses desenvolvimentos do mercado editorial, e que foi publicado no Brasil pela Casa da Palavra.

A cultura corporativa não se dava bem com esse raciocínio. Para as grandes corporações, cada um dos títulos tinha que ser rentável. Os publishers dos selos e cada editor tinham seu desempenho medido e avaliado segundo o histórico de vendas de cada título, e não simplesmente pelos resultados globais. O resultado, segundo Schiffrin, era a busca desenfreada pelos best-sellers, independentemente da qualidade do livro.

Palavras proféticas, que os mecanismos de captura e análise dos dados só mostram como podem se tornar cada vez mais precisos.

Os dados, entretanto, são neutros. O uso que deles se faz é que conforma o ambiente de negócios, que não necessariamente deveriam ser assim tão perversos [embora as chances de que seja assim cresçam cada vez mais].

De qualquer forma, as análises de Schiffrin, o BookScan e os outros mecanismos de coleta de dados de desempenho dos livros mostram simplesmente o quanto estamos defasados nesse sentido. Talvez menos na área do varejo. Tenho certeza que Pedro Herz, na Cultura, a Saraiva, a Submarino, a Livraria da Vila e as outras redes de livraria estão aprendendo rapidamente a usar melhor seus dados.

Mas todas elas enfrentam o dilema: ou desenvolvem sistemas de metadados para cada um dos livros que compram, ou ficam com informações incompletas, já que as editoras realmente me parecem não prestar muita atenção no assunto.

Em tempo: a Nielsen, no Brasil, faz pesquisas desse tipo para muitos produtos. Mas não de livros. Não sei se por falta de interesse deles ou de estímulo por parte dos editores e livreiros.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em O Xis do Problema | 18/08/2011

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

À beira do ponto crítico


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão

Às vezes, e parece que isso acontece com muito mais frequência hoje em dia, o futuro chega mais rápido do que se espera.

Seguidores desse blog, e dos meus discursos antes de existir um blog [este é de 2001!], sabem que há muito tempo espero o momento em que muitas pessoas passarão a ler mais e-books do que livros impressos. Errei no ritmo que isso ia acontecer. [Há dez anos eu esperava que isso acontecesse em 2006 ou 2007.] Errei em relação à questão da diferença que faria um aparelho de leitura [leio muito confortavelmente no celular, e antes disso num PDA, por isso achei que poucos iriam querer mais um aparelho somente para ler]. E estou repensando minhas expectativas em relação aos enhanced e-books e à utilidade da leitura social.

Mas há muito tempo ficou claro para mim que os e-books oferecem vantagens incríveis sobre os impressos – portabilidade, facilidade de compra e custos menores que devem inexoravelmente reduzir os preços – e que isso iria influenciar muitas das pessoas que, cada vez mais, estão na frente de uma tela a maior parte de seu tempo. E minha longa experiência lidando com a administração de livrarias deixou evidente que a consequente diminuição de vendas em lojas físicas iria levar a falências, o que aumentaria as distâncias para os clientes chegarem às lojas, e isso por sua vez motivaria mais pessoas a comprar livros impressos ou digitais online. O que iria levar a mais falências. É um círculo virtuoso se você estiver no negócio do e-book ou de vendas de livros impressos on-line. Ou se quiser ver os norte-americanos consumindo menos gasolina.

É um círculo vicioso – uma espiral mortal – se você é dono de uma livraria.

Michael Cader, da Publishers Lunch, informou [é preciso ser assinante para acessar os links] que os números da BookScan mostram uma queda na venda unitária de livros impressos em torno de 4,4 % de 2009 para 2010. Mas não acredite nesse número. Já está desatualizado. Cader fez uma análise mais profunda de mais dados recentes da BookScan mostrando que as vendas de livros impressos tinham caídomais de 15% em comparação com o ano anterior nas primeiras seis semanas de 2011! E a parcela de livros impressos vendidos online continua aumentando, então isso, quase com certeza, significa que as vendas em lojas caíram ainda mais rapidamente. As vendas de livros impressos em lojas podem ter caído 20% ou 25% em comparação com o ano passado? Claro que sim!

Vendas de iPads, Kindles e Nooks excederam as expectativas para o Natal de 2010. Dominique Raccah, chefe da editora independente Sourcebook, uma empresa com uma linha diversificada, informou em seu blog que as vendas em sua empresa em janeiro foram 35% através de métodos digitais!

Não me espanta que ela diga: “Podemos estar bem no ponto de virada. Suspeito que vamos ver alguma revisão quando os editores olharem seus números no final do primeiro trimestre de 2011.”

Ouvi o argumento de umas pessoas muito inteligentes falando que a adoção do e-book vai se estabilizar em algum momento. Como ela tem dobrado, ou mais, nos últimos três anos e tem sido frequentemente colocada entre 13 e 19% para nova ficção e não-ficção no último trimestre de 2010, sabemos que não poderá continuar a dobrar nos próximos três anos, ou iria ultrapassar os 100%. Mesmo assim, previsões de que as vendas de e-books chegarão aos 50% nos próximos cinco anos e que o espaço em prateleiras nas livrarias vai cair igualmente pela metade nos próximos cinco anos – que era a minha opinião – parecia algo bastante agressivo há seis meses.

Não parece mais.

A parcela de renda que a Borders representava para as editoras está ao redor de 8%. Poderia ser 10% ou 12% se víssemos só as vendas em lojas físicas. Assim, se a Borders desaparecesse completamente amanhã [e isso não vai acontecer] e mesmo se todo livro que eles vendessem em suas lojas fossem, de alguma forma, comprados na loja de outra pessoa [o que não vai acontecer], a redução da venda de livros em lojas seria tão grande que todas as outras livrarias, coletivamente, veriam um declínio substancial de vendas ano a ano.

Tudo isso significa que 2011 será um verdadeiro “apertem os cintos, o piloto sumiu” para as editoras. E Raccah está certa ao afirmar que as editoras ficarão um tanto quanto perdidas ao olharem seus números no primeiro trimestre desse ano.

Um impacto sobre o qual as editoras sofisticadas estão conscientes, mas que não é tão óbvio para olhos pouco treinados, é que com as vendas caindo, as porcentagens de retorno, inevitável e inexoravelmente, vão subir. Quando um editor calcula uma porcentagem de devolução para qualquer período – uma semana, um mês, um trimestre ou um ano – está medindo as devoluções recebidas e creditadas naquele período em relação às vendas feitas no mesmo período. Mas a devolução na verdade está ligada às vendas feitas em períodos anteriores; mesmo na pior das situações, poucos livros são devolvidos menos de três meses depois de seu pedido.

Então, o que está acontecendo agora é que os envios estão diminuindo – quase nenhum ou muito pouco para a Borders e com expectativas caindo em outros lados – enquanto que as devoluções estão crescendo porque estão sendo devolvidos os pedidos feitos a partir das expectativas mais altas dos últimos seis ou doze meses. Isso significa que as vendas por internet que estão sendo realizadas agora – envios menos devoluções – poderiam, para muitos, ser um desapontamento que beira a desolação.

E as porcentagens de devolução não são as únicas porcentagens problemáticas. Duas outras nas quais se baseiam as editoras serão mais desafiadoras.

A porcentagem do preço de um livro impresso que é constituído pelo “custo unitário de fabricação” é um. O custo unitário é algo extremamente sensível. Se você está imprimindo menos livros e se precisa segurar os preços de varejo [duas coisas que certamente acontecerão], a porcentagem da receita gasta na criação de livros impressos irá aumentar.

O segundo ponto problemático é que as editoras gostam de pensar os custos fixos como porcentagem. Muitas editoras ainda seguem a prática pouco inteligente de colocar um cálculo de porcentagem sobre os custos fixos em seus cálculos de cada livro. Mas se o volume de vendas cair mais rápido do que os custos fixos puderem ser reduzidos, essa porcentagem aumentará também. E não dá para reduzir de forma eficiente esses custos rapidamente. Demitir pessoas é geralmente uma ilusão; estamos sempre ouvindo falar de freelancers que conseguem trabalho porque as editoras demitiram a equipe que costumava fazer a mesma tarefa. Mas, além disso, custos de manutenção do espaço de trabalho e galpão de armazenamento, além de investimentos em sistemas não sobem ou diminuem de acordo com o volume [que é exatamente por isso que é um erro de lógica calculá-los como uma porcentagem da renda!]. Editoras que estão usando porcentagens sobre custos fixos para calcular suas margens em cada título que contratam vão descobrir que esses números precisam ser reconsiderados também.

Apesar de a Barnes & Noble sentir a queda nas margens de todas as livrarias físicas, eles estão, sem dúvida, bem conscientes da sua crescente importância para todas as editoras num futuro mundo sem a Borders. A B&N quase certamente estará procurando melhores termos de negociação e as editoras quase certamente sentirão a fraqueza de sua posição ao lidar com esses pedidos. E isso sem contar o fato de que as editoras realmente querem que uma Barnes & Noble saudável mantenha sua capacidade de mostrar os seus livros ao público.

Então, as vendas estão caindo, os retornos estão crescendo, o custo dos bens está subindo, as margens das vendas estão caindo, e manter os custos fixos corretos será um problema crescente. A boa notícia é que as vendas dos e-books estão crescendo e as margens deles – pelo menos até agora – foram bem preservadas.

Mas o primeiro sinal significativo de que os preços dos e-books vão cair chegou com a notícia de que e-books de 99 centavos de dólar estão começando a aparecer na mídia e nas listas de best-sellers que saem no The New York Times e no USA Today. Isso cria alguns problemas horríveis. Coloca autores anteriormente desconhecidos com livros por 99 centavos de dólar aparecendo como criadores de best-sellers. E encoraja as editoras já estabelecidas a cortar os preços para alcançar números de vendas que os coloquem nessas listas.

No mínimo, imagino que as editoras vão começar a pedir que o New York Times e o USA Today considerem a renda total que um livro gera no comércio [preço vezes unidade] quando criarem as listas, e não se baseiem somente nas quantidades de exemplares vendidos. Como as editoras estabelecidas compram muito mais anúncios que os autores de livros de 99 centavos, podemos esperar que eles, pelo menos, dêem alguma atenção a elas.

As editoras terão de lutar para manter seu negócio lucrativo e repensar muitas das práticas mais reconhecidas nas próximas semanas.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 02/03/2011 | Tradução Marcelo Barbão