Sony joga a toalha


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 13/02/2014

Sony jogou a toalha no negócio de e-book e entregou seus clientes para a Kobo. Isso iniciou muitas especulações de que a Nook vai fazer o mesmo. Se a B&N fosse realmente forçada a escolher entre os investimentos que precisam ser feitos em suas lojas e os investimentos exigidos para competir na entrega digital, seria difícil que não preferissem salvar as lojas. A ideia de que outro varejista, talvez o Walmart, comprasse toda a empresa parece bastante lógica, mas não dá para descartar que existe uma ligação sentimental do principal dono da B&N, Len Riggio, com as lojas.

Apesar das esperanças e expectativas de empresas iniciantes como a Zola Books [que fez uma aquisição recente, tirando a Bookish das mãos das três editoras que a abriram], o Blio da Baker & Taylor, o Copia ou o projeto txtr, que antes se baseava em telefone, parece que estamos vendo o começo da consolidação do negócio do e-book. A verticalização pode funcionar, como parece acontecer com Allromanceebooks, mas só ser “administrado de forma independente” não foi suficiente para a Books on Board, uma empresa que terminou no ano passado, depois de muito tempo funcionando. [Até o momento, a Diesel, uma independente comparável, está se aguentando.]

A Sony é uma grande empresa com um negócio de e-books muito pequeno. Eles também foram realmente “os primeiros” na era moderna dos aparelhos de e-book. O Sony Reader e-ink é mais parecido com o Kindle e o Nook do que qualquer outra coisa que apareceu antes. Mas se o e-book já se encaixou em algum momento como objetivo maior para a Sony, não é claro qual foi.

A Apple abriu sua e-book store porque acharam que tinham um aparelho perfeito para o consumo de livros [o iPad], mas também tinham experiência com venda de conteúdo [iTunes]. Eles também veem potencial para iPads nos mercado escolar e universitário, então desenvolveram tecnologia para permitir que livros mais complexos – o tipo que ainda não conseguiu ter sucesso comercial – fossem desenvolvidos para a plataforma deles. Estabelecer seus aparelhos e o ecossistema do iOS no mercado educacional seria uma grande vitória.

O Google reconheceu há uma década que livros, sendo repositórios de informação que continham a melhor resposta para muitas buscas, eram um mundo no qual eles queriam estar. Com sua crescente posição em aparelhos – o celular Nexus 7 e os computadores Chromebook — e como os desenvolvedores do Android que compete com o iOS no mercado de apps, há muitas formas através das quais estar no negócio de e-books complementa outros esforços, incluindo talvez, concorrer com a Apple e o iOS nas escolas.

Eu já afirmei [entre outras coisas] que a venda de e-books não funcionaria como uma operação exclusiva; precisa ser um complemento a outros objetivos e atividades para fazer sentido comercial. A Sony descobriu que não servia para ela, quase certamente porque não acrescenta valor a nenhum dos seus outros negócios.

Claro, e-books certamente complementam o negócio central da Barnes & Noble. Você tem uma deficiência bastante óbvia se dirige uma livraria e não vende e-books, então todo mundo faz isso de uma forma ou outra. Entre os erros que a Borders é acusada de ter cometido antes de desaparecerem foi entregar seu negócio de e-books para a Kobo. Dúvidas sobre o futuro da Waterstones no Reino Unido incluem se foi inteligente entregar seu negócio de e-books para a Amazon. Se a Barnes & Noble não tivesse o Nook, eles teriam que fazer um acordo com quem tivesse o Nook ou com algum outro.

Tenho certeza que a Apple, a Kobo ou a Google ficariam encantadas em ter seus livros integrados nas ofertas da Barnes & Noble, e provavelmente a Amazon também, apesar de que o mais provável é que eles nunca seriam convidados. Todos eles mostraram interesse em se afiliar a lojas independentes, com o Google começando e desistindo, a Kobo agora tentando fechar algo, e, até a Amazon, que não conseguiu penetrar bem nas independentes com seus livros próprios agora oferece a elas um programa de filiação para vender e-books Kindle chamado Amazon Source. Mas certamente todos eles aproveitariam a chance de expandir sua distribuição aos clientes da Barnes & Noble.

É provável que a B&N acredite que o negócio do Nook só pode ser realmente bem-sucedido se continuarem investindo em aparelhos melhores e criarem uma presença global. Isso pode ser verdade, mas também poderia ser que a Nook seja útil para seu negócio de livrarias sem acrescentar continuamente aparelhos ou criar uma presença fora dos EUA onde não existem lojas da B&N. Cada vez mais pessoas estão se sentindo confortáveis lendo em aparelhos multi-funcionais através de apps. Talvez a B&N pudesse manter um negócio lucrativo com sua audiência usuária de Nook enfatizando mais as sinergias com as lojas [unindo impressos e e-books, como a Amazon faz com sua iniciativa Matchbook e como já foi tentado em escala menor por algumas editoras, seria uma forma] e não se preocupar tanto com tornar o Nook competitivo com as outras livrarias de e-books como um negócio independente.

O imprevisível aqui é se alguma empresa grande – sendo o Walmart uma das mais mencionadas — visse benefícios em participar do negócio de e-books [ou até todo o negócio de livros] em seu portfólio. Isso acontece no Reino Unido, onde uma rede de supermercados, a Sainsbury’s, comprou a maioria das ações da Anobii [uma startup iniciada por editoras inglesas, análoga à Bookish nos EUA] e a Tesco comprou a Mobcastporque o negócio do livro aparentemente combinava bem com suas ofertas e a base de seus clientes. [Tanto a Sainsbury’s quanto a Tesco fizeram declarações sobre fortalecer seu “entretenimento digital” e as propostas de varejo online. A Tesco está investindo em aparelhos também.] A Kobo tem como pilar de sua estratégia encontrar parceiros em livrarias físicas ao redor do mundo.

Em base global, fora do mundo da língua inglesa, o negócio do e-books ainda está na infância. Mas é difícil ver como qualquer empresa sem uma presença em inglês poderia desenvolver a escala para competir com aqueles que têm. Toda nação e linguagem terá livrarias locais que seriam as “primeiras” para os leitores daquela localidade. Algumas poderiam até ter a ambição de também dominar o negócio local de e-books, especialmente quando fica cada vez mais claro que os e-books canibalizam o espaço em prateleira das livrarias. Mas o custo de tempo e dinheiro, combinado com a vantagem competitiva de ter livros em língua inglesa em oferta não importa qual idioma seu mercado alvo lê, vai fazer com que uma estratégia “crie tudo sozinho” seja muito pouco atraente. Então pareceria que a Amazon, Apple, Google e Kobo estão posicionadas para crescer organicamente e fazer parcerias em todos os lugares. E isso vai exigir algum evento sério, como o Walmart comprando a Barnes & Noble, para quebrar o poder que este quarteto tem sobre o mercado global de e-books na próxima década.

Um acontecimento potencialmente perturbador que este artigo ignora é a possibilidade de que os e-books se tornem um negócio de assinaturas na próxima década. Tenho dois pensamentos abrangentes sobre isso.

Um é que o hábito de compra de livro a livro está bastante arraigado e não será mudado drasticamente com os e-books nos próximos dez anos. Não tenho ideia de qual porcentagem do mercado de e-books agora funciona por meio de assinaturas, mas acho que é seguro dizer que “bem menos do que 1%”. Então meu instinto é que seria necessário um sucesso incrível para chegar aos 10% nos próximos dez anos.

A outra coisa que devemos lembrar é que qualquer livraria de e-books sempre pode desenvolver uma oferta de assinaturas. A Amazon realmente começou isso com o Kindle Owners Lending Library. Você pode ter certeza que se Oyster ou 24Symbols começarem a juntar uma quantidade importante de mercado, todos os Quatro Grandes, que vimos aqui, encontrarão uma forma de competir por este segmento. [É bastante mais difícil acontecer o contrário; é muito menos provável que a Oyster ou a 24Symbols abram lojas normais.]

Então se a assinatura crescer ou não, as gigantes de vendas de e-books vão continuar as mesmas.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 13/02/2014

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Editoras lançam Bookish


Site é resultado de parceria da Simon & Schuster, Penguin e Hachette

BookishAs editoras Simon & Schuster, Penguin e Hachette, 3 das chamadas Big Six internacionais, juntaram forças e lançaram o Bookish, uma mistura de rede social, site de recomendação de livros [com recomendações “inteligentes”, segundo o portal] e livraria online, com livros de outras editoras além das 3 parceiras. Além disso, o Bookish também pretende ser uma publicação online, com conteúdo editorialmente independente sobre livros e autores de diversas editoras.

PublishNews | 07/02/2013

A Amazon é “predatória”, diz a Penguin


Editoras se defendem das acusações de cartel para fixar preços de e-books

A Penguin e a Macmillan, as únicas editoras que resolveram enfrentar nos tribunais as acusações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de que, junto com a HarperCollins, Simon & Schuster, Hachette e Apple, fizeram um conluio ao adotar o modelo de agenciamento e fixar os valores dos e-books, impedindo a redução de preços praticada especialmente pela Amazon, enviaram documentos com suas defesas na terça-feira, 29 – as outras editoras fizeram acordos com a Justiça americana.

Nos documentos, a Penguin acusou a Amazon de ter um comportamento “predatório” e “monopolista”, que poderia vir a prejudicar a indústria editorial no longo prazo. A editora argumentou ainda que a maior parte das conversas entre as editoras, usadas pela Justiça americana como prova de que elas fizeram um cartel, eram na verdade discussões sobre o “Projeto Z” – agora revelado como o aNobii – e o “Projeto Muse”, que é o Bookish.

A Macmillan também negou qualquer comportamento anticoncorrencial e afirmou que não há “nenhuma prova direta de conspiração”. Na semana passada, a Apple, que também não fez acordo e foi para os tribunais, argumentou em sua defesa que o governo estava se aliando ao “monopólio, e não à concorrência”. Com informações do site da The Bookseller.

PublishNews | 31/05/2012

Cenário das livrarias de eBook vai ficando cada vez mais definido


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin

A semana que passo, todo ano, na Feira do Livro de Frankfurt, é sempre a mais estimulante do meu ano de trabalho. A concentração das melhores cabeças e das pessoas mais poderosas no mercado editorial parece me levar a novos níveis de compreensão sobre nosso mundo editorial global, principalmente nesta época de rápidas mudanças.

Também conversei com um executivo de desenvolvimento de negócios de uma das empresas de tecnologia que está convertendo livros impressos e PDFs para ePub. Ele me contou que seu negócio permanece robusto, mas está se espalhando ao redor do mundo, já que novos mercados estão descobrindo que precisam colocar sua propriedade intelectual em formato digital. Concordamos que quem vive da transição digital – e isso certamente me inclui, no momento [afinal, por que você está lendo este blog?] – ainda tem mais alguns anos pela frente antes de precisar pensar em como ganhar dinheiro com a nova realidade [se precisarmos continuar ganhando a vida quando a mudança chegar].

Com os novos acordos anunciados em Frankfurt pela Kobo com a loja inglesa WHSmith e a francesa Fnac, junto com o aumento de abertura de lojas da Apple e da Amazon, o futuro cenário das livrarias de e-book está ficando cada vez mais definido. Parece que teremos três concorrentes globais principais que estarão ativos em todos os mercados – podendo ser Amazon, Apple e Kobo – e mais, talvez, um concorrente local em cada mercado. A Barnes & Noble desempenhou esse papel local de forma muito bem-sucedida, até o momento, nos Estados Unidos; a Waterstone’s vai tentar o mesmo no Reino Unido a partir do ano que vem; há competição local na Alemanha; e certamente haverá em muitos outros países, quando a revolução do e-book chegar a suas praias. O Google, sendo o Google, não vai desaparecer, mas permanecerá um concorrente relativamente marginal, pelo menos até colocarem mais energia em sua solução e na promoção do que têm.

Os acordos da Kobo servem para deixar o jogo mais claro, mesmo não mudando a situação no momento. Um observador atento da cena digital parou no meu estande em Frankfurt para discutir o acordo WHSmith-Kobo comigo e se perguntava se esse era o melhor acordo para os dois lados. A Kobo não deveria ter tentado fazer um acordo com a Waterstone’s? É inteligente para a WHSmith fazer um acordo no qual vendem os aparelhos, mas que os conecta com a loja da Kobo?

Mas isso, claro, é a chave para o acordo. A economia do aparelho não funciona, a não ser que você possa vender os e-books que o acompanham [essa é a resposta para todos os gênios que pensam que a Barnes & Noble é meio burra por não implementar o lançamento internacional do Nook!]. Nem a WHSmith nem a Fnac são somente livrarias. Os livros são apenas uma linha de produtos nas lojas que vendem outras coisas e possuem uma identidade mais ampla. Ao vender um e-reader ligado a uma loja de e-books que também serve a seus clientes, eles agregam valor para o consumidor de livros durante a transição e aumentam sua própria “vida útil” como vendedores de livros. Eles reconhecem que construir e manter uma loja de e-book não é algo trivial e, frente a vários concorrentes globais, tampouco é algo que querem empreender a partir de sua posição como livraria específica de um país.

Ao se aliar à Kobo, tanto a WHSmith quanto a Fnac podem entrar no mercado com e-readers quase ao mesmo tempo em que a Amazon entra com o Kindle. E a WHSmith, ao lançar os produtos e a loja para o Natal de 2011, deve deixar a Waterstone’s preocupada por estar alguns meses atrasada e porque quase com certeza terá uma loja menos amigável para o consumidor do que a concorrente.

A Barnes & Noble alcançou um incrível sucesso estabelecendo-se em segundo lugar no mercado de e-books dos EUA, mas sua situação pode acabar sendo única. Primeiro de tudo, estão no maior mercado de e-books [por valor, apesar de que mercados mais pobres podem ultrapassá-los em termos de unidade em algum momento] que veremos em uma década ou mais. Segundo, é uma livraria muito séria que construiu fortes relacionamentos entre as editoras no mundo todo, já há vários anos. E, terceiro, a maneira como executaram o seu plano para o mundo digital foi quase perfeita. Mesmo com este precedente como exemplo, não há nenhuma garantia de que a Waterstone’s, ou qualquer outra, possa repetir em outro mercado o que eles fizeram nos EUA.

Se for um jogo global e você tiver um concorrente global, assim como “todo um eco-sistema” que exige aparelhos ligados a uma livraria de conteúdo digital bem estocado e bem apresentado, podemos ver a briga sendo realizada pelos outros concorrentes tentando competir com Amazon, Apple e Kobo, seja Google, Copia, Sony, Blio da Baker & Taylor, ou os estreantes financiados em colaboração com as editoras: Anobii na Grã-Bretanha e Bookish nos EUA.

Se todo o resto for igual, posso ver um mercado global de e-books que, daqui a alguns anos, será 90-95% controlado por Amazon, Apple, Kobo e concorrentes locais em cada país, com o Google ficando com a maior parte do resto. O Google pode usar sua força nos títulos da cauda longa, porque descobrir conteúdo obscuro ou voltado para nichos poderia ser o seu forte; um editor universitário me contou em Frankfurt que já está vendo algum crescimento real em suas vendas no Google, algo que não ouvi de nenhum outro editor comercial ainda.

Mas muitas coisas podem não permanecer iguais. Uma fonte bem informada, da Digerati europeia, me contou que a Comissão de Competição Europeia pode proibir o modelo agência na União Europeia. Se isso acontecesse, seria uma grande ajuda para a Amazon. É irônico que o concorrente maior, mais forte e com mais dinheiro no mercado de vendas de e-books possa ganhar uma vantagem competitiva tão enorme dada por burocratas que ostensivamente querem estimular um mercado mais competitivo. As editoras podem ter suas dificuldades para compreender a transição digital, mas parece que as burocracias governamentais do mundo podem estar bem mais confusas do que as editoras.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

O mundo editorial não depende só de si


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 03/08/2011

No último dia 24 de julho, iniciou-se uma grande mudança no mercado de e-book. Teve seu primeiro impacto na Kobo, mas não tem nada a ver com a Borders.

A Kobo distribuiu uma nova app para o iOS [que é o sistema operacional da Apple para iPad e iPhone] que não contém mais o link direto para sua loja dentro do programa. Isso significa que comprar novos livros na Kobo exige que o usuário vá até Kobo.com através do browser [não é nada difícil, mas significa alguns passos a mais] em vez de acessá-la por um toque dentro da app.

Outras notícias nessa história ainda em andamento é que a app do Google foi “tirada” e que a app do Nook for Children não tem mais o link para a loja. Devemos esperar que as apps da Kindle e da Nook para adultos passem pela mesma mudança no futuro próximo [neste momento que o artigo está sendo publicado em português, Kindle e Nook já lançaram suas atualizações de app, sem o link direto para compra]. Isso quer dizer que a forma mais simples e direta de comprar e ler e-books no iPad ou no iPhone será através da iBookstore. Significará, certamente, um crescimento no market share da iBookstore à custa de todas as outras lojas de e-book. Também vai significar que muita gente que lê seus e-books num aparelho com iOS [sou um deles] e prefere usar qualquer uma das outras lojas [e também sou um desses] terá inconveniências e ficará aborrecido.

No entanto, também é verdade que a Apple vai se beneficiar desta mudança mesmo que muitos clientes fiquem ressentidos.

A questão mais enfática de tudo isso é que o mercado de livros é uma rolha flutuando numa correnteza de aparelhos digitais. Não controlamos nosso ambiente. Devemos continuar nos adaptando às decisões dos maiores players, alguns dos quais têm pouca disposição para dialogar e mínimos interesses no que é melhor do nosso ponto de vista, só se importando com a melhor estratégia para eles.

Sou culpado por manter uma visão centrada nas editoras em relação à possibilidade de que a Apple realmente forçasse a regra que levou a todas essas mudanças. Algo que começou a aparecer, como rumor, em fevereiro. Quer dizer: com esperança, quando ouvi pela primeira vez sobre essa possibilidade há seis meses, pensei que não aconteceria. Quis acreditar que como a Apple tinha se beneficiado substancialmente da presença das apps de e-books na sua plataforma, e como há milhões de pessoas que leem e-books em seus aparelhos Apple, mas preferem outros readers [apps] e outras eBookstores, que a Apple não forçaria essas regras que dizem que essas apps e livrarias estavam operando fora das normas.

Vou tentar não voltar a cometer esse erro. Uma das outras grandes empresas recentemente me elogiou pela facilidade com que aceitei a ideia de que empresas [e pessoas] agem em interesse próprio. Foi o que a Apple fez aqui.

O que isso significa depende da sua posição.

A Barnes&Noble [Nook], Google e Kobo se beneficiaram enormemente da chegada da Apple em abril de 2010 porque trouxe consigo o modelo de venda de “agência” que equilibrava os preços em todas as lojas para os e-books publicados pelas grandes editoras. Sem agência, muitos acreditam [e eu sou um deles] que as políticas agressivas de dumping do Kindle da Amazon em relação aos livros mais importantes teria diminuído seriamente a competitividade.

A B&N precisa de todo centavo que conseguir economizar, para investir no desenvolvimento do aparelho e no marketing; eles ficariam numa posição bem ruim se tivessem de abrir mão de margem de lucro para competir por consumidores.

A Google conseguiu fechar um acordo com umas 300 lojas independentes nos EUA para serem parceiras em seu programa de e-books. Poderiam não ter nem 10% disso se as independentes achassem que teriam de competir com o dumping de preços nos best-sellers. Quando a Random House aderiu ao modelo de agência no começo de março do ano passado – 11 meses depois que começou – uma das razões dadas foi responder ao desejo de lojas independentes em vender e-books, o que só seria possível se fosse pelo modelo de agência.

A Kobo sempre teve uma estratégia global que poderia permitir que crescessem mesmo se tivessem problemas no mercado norte-americano. Mas eles estavam tentando competir com os preços da Amazon nos tempos pré-agência e como o menor dos grandes players de e-books globais, eles teriam de ser considerados como os mais vulneráveis num ambiente caracterizado pela guerra de preços.

Essa mudança deve significar uma perda de vendas para todos eles. É difícil ver como poderia ser diferente.

A Amazon vai perder vendas também, mas eles podem ganhar no geral só porque a vida também vai ficar um pouco mais complicada para B&N, Kobo e Google.

Todas essas livrarias ganharam muito [mas não revelam seus dados] com o grande sucesso dos iPads e iPhones, além da capacidade de acesso, de forma direta e sem custo, a partir desses aparelhos. É claro que a Amazon e a Barnes&Noble venderam muitos Kindles e Nooks, claro [o aparelho da Kobo também está competindo e logo a Google vai lançar o seu], e estariam vendendo muitos e-books mesmo se os aparelhos da Apple não existissem. As editoras sabem que, entre 55-65% das vendas de e-books vêm da Amazon e 20-30% de seus e-books são vendidos pela Barnes&Noble; algumas dessas vendas são lidas em aparelhos dedicados e a maioria do resto em aparelhos com iOS. Mas eles não têm ideia de qual é seja a porcentagem. Agora vão começar a descobrir quando as vendas de outras livrarias passarem a vir da iBookstore. [Vendas da iBookstore, Kobo, Google e outras constituem entre 15-20% do total, às vezes até bem menos].

De todas as formas, o evidente benefício que a Apple e os aparelhos com iOS costumavam representar às livrarias agora fica reduzido em valor, mas o modelo de agência continua [para alegria de todos, menos da Amazon], assim como a capacidade de seus clientes usarem iPads e iPhones para consumir seu conteúdo.

Algumas editoras vão ter de reconsiderar suas estratégias.

Como a Amazon só vai aceitar contratos com os termos de agência com as Seis Grandes [eles têm formas de oferecer 70% de participação nas vendas, mas não abrem mão de ter o controle dos preços], como algumas editoras não gostam do modelo de agência e como a iBookstore não tem sido muito agressiva em termos de conteúdo como seus competidores [não tenho certeza sobre isso, mas parece que todos os outros players possuem equipes muito maiores buscando conteúdo do que a iBookstore], há editoras vendendo para as outras livrarias e não para a Apple. Eu imaginaria que elas poderiam estar esperando uma súbita queda de vendas através do iOS, apesar de não saberem exatamente a divisão de mercado.

E isso aponta para uma grande diferença entre as editoras e as livrarias. As livrarias sabem quanto de suas vendas são feitas pelas diferentes apps dos clientes. Eles também sabem quantos e-books estão sendo lidos em aparelhos com iOS. As editoras não têm ideia. No longo prazo, isso mostra como as editoras podem se beneficiar se novos players entrarem no mercado – Anobii no Reino Unido [que nos contou que vão repassar os dados para as editoras] e a Bookish nos EUA [que ouvimos, de forma indireta, que vão fazer o mesmo] – e conseguirem algum market share de maneira que possam fornecer visibilidade sobre o consumo, que as editoras não possuem agora.

E isso me leva de volta à metáfora sobre a rolha numa correnteza de aparelhos digitais. Não havia mercado de e-books sério antes de a Amazon lançar o Kindle, se dedicar realmente a vendê-lo, e usar a capacidade que tinham então para sacrificar margem de lucro e criar uma proposta comercial forte que foi a catalisadora para criação do mercado. Não havia competição séria para a Amazon até a nova diretoria da Barnes&Noble lançar o Nook com um compromisso forte de fazê-lo conhecido, usando sua presença em lojas físicas para apresentar os e-books a novos públicos e, com aparelhos mais inovadores, contribuindo para o explosivo crescimento da leitura em formatos digitais.

Não havia restrição na capacidade da Amazon de usar seu poder financeiro para dar descontos no conteúdo das editoras a fim de conseguir crescer no mercado até que o novo aparelho da Apple, o iPad, criou novos modelos de vendas que forçaram a estabilidade do preço e, ao mesmo tempo, deram às editoras uma nova capacidade de maximizar a renda e usar o preço como ferramenta de marketing.

Não havia forma eficiente de apresentar aos leitores de livros a conveniência da leitura digital sem o investimento num aparelho dedicado até que o iPad colocou essa capacidade em milhões de mãos que nem sabiam que queriam aquilo.

Não havia grande motivação para as lojas de e-book apresentarem interoperabilidade entre os aparelhos até muitos donos de aparelhos também se tornarem donos de iPhone e iPad.

Notamos que todas essas mudanças no mercado foram criadas por outros, não pelas editoras. Isso não é necessariamente uma coisa ruim, tampouco nova. As editoras também não participaram no investimento que criou as megastores e nem na Amazon nos anos 90, coisas que aumentaram suas vendas. O papel de uma editora é usar os canais que estão disponíveis para colocar livros nas mãos dos leitores.

Dentro da perspectiva da maioria das editoras, essa mudança poderia ter pouco impacto. Qualquer leitor que usa iPad ou iPhone e quer um livro, ainda pode encontra-lo e compra-lo. Se a loja da Apple se fortalecer à custa do Kindle e do Nook, isso constitui uma diversificação de mercado que é boa para eles [se o impacto cair de maneira desproporcional sobre o Nook, no entanto, isso será ruim.]

Mas a simbiose feliz entre eBookstores e a Apple, pela qual as primeiras têm acesso aos clientes que, de outra forma, não teriam, e a Apple é capaz de entregar a seus clientes o conteúdo que não teria em outras circunstâncias, parece ter chegado a um fim. E a iBookstore, que estava brigando por migalhas depois que a Amazon tomou metade do mercado de e-books dos EUA e a B&N mais da metade do restante, está a ponto de se tornar um competidor mais importante.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 03/08/2011

Mike Shatzkin

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

‘Livro em papel sempre terá um mercado’


John Makinson, diretor-presidente da Penguin, acredita que muitas pessoas querem presentear, compartilhar e guardar livros em pape | Photo: Daniella Zalcman para The Wall Street Journal

Poucos executivos do meio editorial têm uma visão mais privilegiada da rapidez com que a tecnologia digital vem transformando o setor do que John Makinson, o diretor-presidente da Penguin Group, a divisão de livros da Pearson PLC.

A editora publica mais de 4.000 títulos de ficção e não ficção no mundo. Decidir como e onde vender todos esses livros está muito mais complicado do que quando Makinson assumiu a presidência, em 2002. Na época, o negócio de livros digitais era pequeno e o impacto de descontos na internet não se fizera sentir em sua totalidade.

Entre as decisões cruciais de Makinson está a adoção do “modelo de agência”: nele, a editora estipula o preço de venda do livro digital e dá ao varejo 30% da receita. Hoje, o modelo está sendo examinado de perto por órgãos de defesa da concorrência nos EUA e na Europa.

A Penguin também é uma das três grandes editoras por trás do Bookish.com, site anunciado na sexta-feira que se concentrará em novos títulos e autores e venderá diretamente ao consumidor.

Diretor financeiro da Pearson de 1996 a 2002, Makinson, de 56 anos, também editou por um tempo a coluna Lex no “Financial Times”. Recentemente, falou ao Wall Street Journal sobre e-books baratos, leitura digital e livrarias independentes.

Trechos:

WSJ: O livro impresso, em papel, vai deixar de ser publicado um dia?

John Makinson: Não, não creio. Há uma diferença cada vez maior entre o leitor de livros e o proprietário de livros. O leitor de livros quer apenas a experiência de ler o livro e é um consumidor digital natural: em vez de comprar um livro barato descartável, compra um livro digital. Já o proprietário do livro quer presentear, compartilhar e guardar livros. Adora a experiência. À medida que formos melhorando o produto físico, em especial a brochura e a capa dura, o consumidor vai pagar um pouco mais por essa experiência melhor. Outro dia, fui conferir a venda de clássicos em domínio público em 2009, quando todos esses livros estavam disponíveis de forma gratuita. O que descobri foi que nossas vendas tinham subido 30% naquele ano. O motivo é que estávamos começando a vender edições de capa dura — mais caras — pelas quais o público se dispunha a pagar. Sempre haverá um mercado para o livro em papel, assim como creio que sempre haverá livrarias.

WSJ: A seu ver, qual será a participação de mercado do livro digital nos EUA em 2015?

Makinson: Bem mais de 30%. O ritmo de crescimento no Reino Unido e em outros mercados é um pouco mais lento do que se esperaria se olharmos para a experiência americana. É que a penetração de aparelhos de leitura se dá muito mais lentamente.

WSJ: A lista de best-sellers do Kindle, da Amazon, é dominada por títulos baratos, bancados pelo próprio autor. Muitos custam US$ 2,99 ou menos. Para editoras tradicionais, essas obras independentes são uma ameaça?

Makinson: Esse é um mercado novo que, economicamente falando, é inviável no formato em papel. Não há como imprimir, distribuir e fazer estoque de um livro a esse preço. Mas, como editoras, provavelmente teremos de participar. […] Além disso, vamos olhar para o catálogo. Talvez haja público para um western de US$ 1,99. É preciso muito cuidado, no entanto, para garantir que esse novo mercado não comprometa as vendas de Clive Cussler, Tom Clancy, Patricia Cornwell e Ken Follett.

WSJ: Qual o maior desafio para as livrarias num momento em que há milhões de títulos em papel à venda na internet e no qual a receita com livros digitais está dobrando?

Makinson: O varejo [tradicional] de livros tem futuro. O problema, em grande parte, não é só que há livrarias demais, mas que são muito grandes. Como diversificar a oferta ao consumidor para fazer um uso produtivo do espaço sem perder a experiência de se estar em uma livraria?

WSJ: Livrarias independentes sempre tiveram um papel fundamental no lançamento de obras literárias. Com o crescimento do livro digital e da venda on-line, quantas dessas lojas independentes vão sobreviver, considerando que estão sujeitas às mesmas forças que afetaram redes de livrarias maiores?

Makinson: Tenho uma livraria independente na Inglaterra, [a Holt Bookshop, em Norfolk, de cerca de 230 metros quadrados], então tenho um interesse aqui. Não quero soar ingênuo: vai ser muito difícil. Se formos ver as vantagens competitivas estruturais da Amazon em relação a uma livraria convencional, é espantoso. Mas as pessoas estão dispostas a pagar um preço maior numa livraria independente sabendo que podem comprar [o mesmo livro] por menos em outro lugar. É que o consumidor tem um envolvimento emocional com a livraria, sente que a livraria está prestando um serviço público, não só comercial. Não vejo indícios de que as livrarias independentes se tornarão obsoletas.

WSJ: O sr. lê em formato eletrônico?

Makinson: Quando viajo, uso um aparelho digital, principalmente para leitura de manuscritos. Se for só para ler livros, provavelmente vou optar pelo Kindle. Mas, se quiser viajar com um aparelho que me dê acesso ao e-mail em trânsito, é possível que leve um iPad. Também leio livros em papel.

Por Jeffrey A. Trachtenberg | The Wall Street Journal | 15/05/2011, às 19h08

Editoras de livros se unem contra a Amazon


Três gigantes do setor planejam lançar site de vendas de livros nos EUA

São Paulo – A CBS, a Penguin e a Hachette, três gigantes do setor de livros nos EUA, se uniram para criar o site de comércio eletrônico Bookish. A estratégia é uma tentativa de driblar a crise que o segmento enfrenta e também pulverizar o varejo, que na internet é concentrado nas mãos da Amazon, maior site de vendas online do país.

A ideia é comercializar títulos físicos e também livros na versão digital. Sem data exata para ser lançado, o grupo pretende colocar o site no ar durante o verão americano deste ano, ou seja, entre os meses de junho e setembro.

Segundo Andy Parsons, diretor de tecnologia do Bookish, a parceria entre as três editoras poderá se estender a outras companhias do setor. “O site também poderá ter ligação com outras varejistas online de livros”, disse o executivo ao Wall Street Journal.

Depois que a Borders, uma das maiores redes de livrarias nos EUA, anunciou concordata e o fechamento de 200 lojas no país, em fevereiro deste ano, o setor entrou em crise. A tentativa do Bookish e oferecer o maior números de títulos aos leitores, uma vez que as lojas físicas estão baixando suas portas.

Por Daniela Barbosa | Exame | 06/05/2011