Sobre o acesso ao livro no Brasil


Por Ivana Jinkings, editora da Boitempo Editorial | Publicado originalmente no Blog da Boitempo Editorial | 11/06/2012

A Boitempo considerou violenta e não está de acordo com a ação da ABDR – entidade à qual não é filiada – que provocou no mês passado a retirada do ar do blog Livros de Humanas. Nossa editora busca constantemente formas de tornar seus livros mais acessíveis ao leitor, sem prejuízo da qualidade editorial pela qual se tornou conhecida. Com esse fim, realiza com frequência eventos públicos e gratuitos com autores dispostos a disseminar as ideias que defendem e interessados na construção coletiva de alternativas. Grande parte desses autores têm sido trazidos ao Brasil às expensas da Boitempo e parceiros, casos de István Mészáros, Slavoj Žižek, David Harvey, Giorgio Agamben, Ellen Wood, Michael Löwy, Perry Anderson, Domenico Losurdo e muitos outros. Além disso, a editora traduz e edita textos de seus autores, que são disponibilizados gratuitamente aqui no Blog da Boitempo, realiza promoções periódicas, sorteios e vendas diretas em eventos acadêmicos com descontos de até 50% sobre o preço de capa.

Também acreditamos que o formato digital pode facilitar o acesso às obras, sobretudo devido às dificuldades de distribuição enfrentadas num país de dimensões continentais. O formato permite uma diminuição significativa no preço de capa. A Boitempo reduziu sua margem sobre o exemplar digital e se dispôs a praticar preços tão acessíveis quanto os do mercado internacional. Com essa nova política de preços de ebooks, nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais barato do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos. A editora também pratica o nivelamento dos preços dos ebooks a uma faixa fixa que vai dos R$ 5,00 aos R$ 45,00, muitas vezes equivalentes a uma cópia impressa malfeita, e com uma qualidade infinitamente superior à das cópias escaneadas, como só os originais possuem.

Com essas medidas, a Boitempo busca aproximar seu público, composto por estudantes principalmente, dos quais depende para continuar publicando. Os processos e custos de uma pequena editora são pouco conhecidos pelos leitores em geral. Fazer um livro é sempre uma aposta. É preciso o investimento inicial que envolve um processo com muitas etapas entre o original [matéria-prima] e o livro na gôndola da livraria [produto final]. Somente depois de um número significativo de vendas a editora começa a ter retorno, o que muitas vezes não chega a acontecer, casos nos quais é preciso arcar com o prejuízo. O retorno que a editora recebe [descontando custos, pagamento de direitos autorais, impostos, distribuição] é o que a mantém funcionando e o que permite publicar novos livros, alimentando assim o público-leitor ávido por conteúdo e qualidade. É uma cadeia produtiva de subsistência. Além de autores e editores, esse processo sustenta tradutores, revisores, diagramadores, capistas, sem mencionar a parte de papel e gráfica, o trabalho de divulgação, vendas e estocagem.

O compartilhamento de livros copiados no meio acadêmico existe há muito tempo. A internet apenas expandiu o alcance desse tipo de atividade, mas o princípio e a motivação são os mesmos: universitários em busca de conhecimento acessível, o mais acessível possível. A Boitempo, desde a sua criação, sempre lutou pela democratização do conhecimento, inclusive daquele viabilizado por ela mesma, como já pontuamos. Dessa forma, seria no mínimo contraditório reprimir nossos leitores por buscarem exatamente o que defendemos. Responsabilizar o leitor, a parte mais frágil e também a mais importante da cadeia editorial, é uma covardia. Assim como é um equívoco alguns leitores culparem as editoras, especialmente as pequenas, pelo custo dos livros no Brasil. Há outros setores envolvidos na definição dos preços, como as livrarias e o governo. Sem uma política pública que incentive a  disponibilização, as casas publicadoras não poderão diminuir o preço do livro sem comprometer a sua estrutura. Para uma casa publicadora independente, na qual as vendas governamentais são insignificantes, como é o caso da Boitempo, as limitações são ainda maiores. Somos 100% a favor da mediação do Estado no mercado editorial, pois cultura e conhecimento não podem ser tratados como mercadoria. Discutir a disponibilização de conteúdo está na ordem do dia e esperamos que as demais partes, incluindo os leitores, também estejam dispostas a esse diálogo.

Por Ivana Jinkings, editora da Boitempo Editorial | Publicado originalmente no Blog da Boitempo Editorial | 11/06/2012