Fama digital, sucesso real: do YouTube ao papel


Com milhões de seguidores na internet, Christian Figueiredo e Kéfera Buchmann lançam livros na feira literária e causam histeria por onde passam

Christian Figueiredo posa com fãs na fila do Espaço Maracanã; novo livro do jovem escritor já vendeu mais de 70 mil exemplares, segundo a editora - Fernando Lemos

Christian Figueiredo posa com fãs na fila do Espaço Maracanã; novo livro do jovem escritor já vendeu mais de 70 mil exemplares, segundo a editora – Fernando Lemos

RIO – “Você é de verdade!”, exclamou uma fã ao abraçar Christian Figueiredo durante o lançamento de “Eu fico loko 2: as histórias que tive medo de contar” [Novas Páginas] na Bienal do Livro. Mais de mil leitores — a maioria deles crianças e adolescentes — fazia fila desde às 11h da última sexta-feira para abraçar o rapaz de 21 anos. O visual do autor, que ostentava um penteado moderno e vestia uma camiseta de tema floral, o fazia lembrar um integrante de uma boy band de sucesso. O barulho da audiência, que, embalada pelos hormônios, se alternava entre gritos agudos e choro copioso, só confirmava a impressão de se estar diante de um fenômeno do star system musical. Figueiredo ficou até às 18h assinando livros no Espaço Maracanã, criado pela Bienal para dar vazão à demanda de público dos autores de best-sellers.

As sete horas não foram suficientes para ele. Sua popularidade fez com que ganhasse duas datas para encontrar o público. O autor volta ao Riocentro hoje, também a partir das 11h, para uma nova sessão de autógrafos. A carreira de Christian, no entanto, não está exatamente ligada ao fazer literário.

Os textos que fizeram dele uma espécie de Justin Bieber do mercado editorial foram postados primeiro em forma de vídeos em uma conta do YouTube. O “Eu fico loko” conta com mais de 3,2 milhões de inscritos.

— Transcrevi o roteiro dos vídeos para fazer o primeiro livro. O segundo é uma espécie de “proibidão”, com histórias que preferi não contar antes.

Transformadas em livro, que ganhou o mesmo nome do canal, as primeiras histórias de Christian venderam mais de 100 mil exemplares. Lançado às vésperas da Bienal, o segundo volume já chegou a 70 mil. Ele não é o único caso de youtuber que migrou da plataforma de vídeos para o papel. A Paralela, selo do grupo Companhia das Letras, lança amanhã na Bienal, às 14, a autobiografia “Muito mais do que 5inco minutos”, de Kéfera Buchmann, de 22 anos. O livro tem tiragem de 125 mil exemplares e, nas primeiras 48 horas de pré-venda, 16 mil cópias foram encomendadas.

Conforme Ancelmo Gois revelou em sua coluna de sábado, Kéfera tem o livro mais vendido da Bienal até agora. Assim como Christian, ela é uma comunicadora de sucesso e tem mais de 5 milhões de seguidores só no YouTube.

O aparato que os cerca é tão grande quanto o frenesi em torno deles. Só a empresa que gerencia a carreira de Christian, por exemplo, tem 12 funcionários. O tamanho é justificado pelo número de compromissos profissionais assumidos pelos escritores novatos. Com agenda cheia, eles têm rotina intensa. Nos dias que antecederam a Bienal, O GLOBO tentou entrevistar Kéfera em cinco oportunidades. A equipe da paranaense desmarcou todas as vezes.

Com a linguagem informal típica da internet, eles publicam regularmente monólogos sobre os dilemas dos jovens. Cada produção costuma superar a marca de um milhão de visualizações. Enquanto o senso comum diz que os adolescente estão distantes da leitura, os youtubers sustentam que a história não é essa.

— Acho que minha geração está acostumada a ler textos rápidos em tablets e smartphones. Ela não tem o hábito de ler livros, que demoram a ser concluídos. Eu estou trazendo a turma da internet, que nunca se interessou pela literatura. “Eu fico loko” é ágil e curto. Criei um estilo — diz, sem modéstia.

O fenômeno editorial não é restrito ao Brasil. Na Espanha, por exemplo, o youtuber Javier María escalou até o topo da lista dos mais vendidos após esgotar oito edições de cem mil exemplares nas primeiras semanas após o lançamento de “El libro troll”. Em uma matemática simples, seguidores se convertem em consumidores, e as editoras lucram. Em um ano de crise como 2015, isso ajuda.

— Com certeza é um nicho bom para a editora. Mas não lançamos o produto por lançar. É claro que autores como o Christian trazem faturamento, mas ele não publicaria se não tivesse conteúdo — diz Ludson Aiello, gerente de marketing do grupo Novo Conceito.

CUIDADOS COM A INFRA

Ao mesmo tempo, a imensa popularidade é motivo de preocupação para quem organiza os eventos. Sem a estrutura necessária, uma simples noite de autógrafos pode se converter em um caos de meninas histéricas se aglomerando. Na Bienal de São Paulo, quando marcou uma reunião com o grupo Novo Conceito para vender a ideia do primeiro livro, Christian publicou um chamado no Facebook, dizendo que estaria no estande. Tanta gente foi ao encontro do autor que ele precisou ser levado às pressas para um palco. O caso fez com que os organizadores tomassem uma precaução.

— Passamos a analisar as mídias sociais dos autores para não sermos pegos de surpresa novamente — diz Tatiana Zaccaro, diretora de núcleo da Fagga, que coorganiza a feira.

POR MATEUS CAMPOS | Publicado originalmente em O GLOBO | 07/09/2015

Na era do eBook, Bienal do Rio é analógica


Evento brasileiro menospreza livros digitais; visitantes utilizam tablets para acessar redes sociais e tirar fotos

Para diretora da feira, mercado ainda não começou no Brasil; Ziraldo autografou tablets com HQ digital

A era do livro digital já começou: e-books são lançados diariamente e os aparelhos para leitura proliferam.

Quem passeou pela Bienal do Livro do Rio, encerrada ontem, viu poucos sinais desse novo mercado.

Em sua 15ª edição, a feira foi um típico evento do século 20, feito para, grosso modo, vender papel. Nas raras editoras em cujos estandes havia algum sinal de e-books, o que se via era um ou dois tablets ou e-readers encostados num canto.

O mercado do livro digital ainda não começou no Brasil“, disse à Folha Sonia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [que organiza a Bienal]. “Ele vai ter uma virada quando os aparelhos digitais de leitura se popularizarem.

Nesse sentido, a feira poderia ter começado a conscientização com seu estande Bienal Digital, onde havia 16 tablets de fabricantes distintos, todos atraindo muitos visitantes -estes, no entanto, nada liam: jogavam, navegavam na web e tiravam fotos.

Os e-books foram mais discutidos do que vistos e lidos -houve palestras sobre eles e um colóquio para debater as bibliotecas da era digital.

Uma das apresentações contrariou a noção de que o mercado do livro digital ainda não começou no país. Carlos Eduardo Ernanny, criador da Xeriph [distribuidora de e-books que reúne mais de 150 editoras], disse já ter um catálogo de mais de 6.000 títulos digitais, a maior parte de editoras pequenas.

Quando se olha para as grandes editoras nacionais, o cenário é diferente: a DLD, distribuidora de e-books que reúne Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta e L&PM, tem hoje 650 títulos nesse formato, nem 1% do acervo total dessas editoras.

Nos bastidores, não há editora no Brasil que não esteja se mexendo“, disse Pascoal Soto, da LeYa. “Estamos atrasados em relação a Europa e EUA, mas temos de nos mexer para sobreviver.

FEIRA DE E-BOOKS?

Se os efeitos da tecnologia no mercado editorial foram debatidos, a discussão sobre como será uma bienal de e-books ainda é incipiente.

A gente tem até brincado sobre isso, se perguntando se, quando o mercado migrar para o digital, a feira vai continuar“, disse Sonia Jardim.

Um exemplo de como a feira pode continuar existindo em versão digital foi dado por Ziraldo, que lançou uma HQ para o iPad e esteve no estande da editora Melhoramentos para autografar tablets.

O esquema é análogo ao dos livros tradicionais: o leitor leva a obra [no caso, 15 fãs levaram iPads com a HQ] e o autor a autografa [em uma parte criada especialmente para isso] no aparelho.

POR MARCO AURÉLIO CANÔNICO | DO RIO | Para a Folha de S.Paulo | 12 de setembro de 2011

O alerta inglês para o desafio digital


A indústria criativa contribui com 5.6% para a economia do Reino Unido. E o setor editorial é a segunda maior delas. Isso representa um volume de negócios da ordem de 5 bilhões de libras [cerca de 10 bilhões de dólares]. Desse total, cerca de 180 milhões de libras ou 360 milhões de dólares, dizem respeito aos produtos digitais.

Esses foram alguns dos dados apresentados durante o Seminário Brasil-Reino Unido, que reuniu editores brasileiros e ingleses, durante a XV Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro.

Atualmente, existem 3.500 editoras em plena atividade no Reino Unido, segundo informou Emma House [The Publishers Association], uma das 12 integrantes da comitiva inglesa.

Nosso mercado é estimado em 70 milhões de pessoas, mas a exportação representa 40% das nossas vendas”, afirmou Emma, responsável pela apresentação dos dados ingleses durante o evento, acrescentando que, no ano passado, foram publicados 133 mil novos títulos no Reino Unido.

Segundo ela, o digital “está se tornando um sucesso” , o que faz com que os editores tenham que ficar atentos tanto para novos desafios quanto oportunidades de negócios.

O fim das fronteiras físicas do setor editorial afetam todo o mercado”, afirmou.

O evento foi aberto pela presidente do Sindicato dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, que fez um panorama do mercado brasileiro, a partir dos dados da última pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro realizada pela FIPE/USP.

O mercado, do ponto de vista das livrarias; o programa de bolsa de tradução da Fundação Biblioteca Nacional e questões relacionadas com a atual Lei do Direito Autoral brasileiro também foram temas de exposições, feitas, respectivamente, por Roberto Guedes [Livraria da Travessa], Moema Salgado e Gustavo Martins.

O Reino Unido está mais avançado no livro digital, assim, encontros como esse são importantes pela troca de experiências e também para expor o potencial do mercado brasileiro”, observou Sônia Jardim.

Do painel traçado por Emma, o diretor do Snel, Claudio Rothmuller [Elsevier] destacou o fato de, no ano passado, terem sido vendidos 144 milhões de e-books no Reino Unido, sendo, 45% deles para serem lidos no computador:

No meio digital, o papel das editoras muda e questões de branding se tornam importantes. A revolução digital representa uma mudança total nos modelos de negócios. Equivale a ter que viver sob a hiperinflação. E sobreviver à hiperinflação a gente sabe”, brincou.

Em relação à questão dos direitos autorais, o advogado Gustavo Martins observou que o livro digital vai “mudar o eixo de discussão” que vem sendo travada no Brasil. Segundo ele, a lei atual contempla assuntos relacionados com o suporte físico do livro, mas que o eletrônico “trará novos desafios”.

Para Emma, a lei brasileira não é muito positiva porque restringe o direito dos editores e amplia os direitos do público.
Cerca de 40 pessoas participaram, ao todo, do encontro. Da comitiva inglesa também fizeram parte: Emma Hayley [SelfMadeHero], Simon Littlewood [Random House], Cecilia Fanucci e David Salariya [The Salariya Book Company], James Papworth [Palgrave Macmillan], Georgina Green [HapperCollins], Andy Hine [Little, Brown], Emma Bourne [Oxford University Press], Claire Anker [The Publishers Association], Amy webster [The London Book Fair] e Odile Louis-Sidney [Templar Publishing].

Encontros desse tipo cumprem o papel da Bienal do Livro, não apenas em ser uma grande atração para o público em geral, mas também para contribuir com o aprimoramento profissional do mercado editorial”, afirmou Sônia Jardim.

Snel | 09/09/2011