“Os livros eletrônicos hoje são uma realidade”


Conforme a pesquisa Bibliotecas e Leitura Digital no Brasil, encomendada pela Árvore de Livros S.A. [noticiado este ano pela Revista Biblioo], o impacto dos livros eletrônicos [ebooks] nas bibliotecas tem se dado de forma positivo, pelo menos do ponto de vista dos profissionais destas instituições. Nesta pesquisa, estimulados a responder sobre o que acreditam que poderá acontecer com a chegada dos ebooks às bibliotecas, a grande maioria dos bibliotecários e demais gestores [82% dos que respondera] apontaram que os dois tipos de suportes [o livro impresso e o ebook] deverão conviver juntos em harmonia. No caso das bibliotecas universitárias, esse tipo de resposta esteve na boca de 100% dos entrevistados. Apesar da ampla aceitação, ainda existem muitas dúvidas por parte dos profissionais, o que acaba por inibir os avanços deste novo instrumento de leitura. Pensando nisso, o bibliotecário do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro [CT/UFRJ], Moreno Barros, tem se dedicado a ministrar cursos sobre o tema, mostrando como eles podem funcionar nas bibliotecas, explorando questões que vão desde os formatos de arquivo, aparatos de leitura, contratos de assinatura e o seu impacto nas instituições, tanto agora como no futuro.

Como você avalia o avanço dos livros eletrônicos sobre os tradicionais impressos?

Francisco, acho que é um caminho sem volta. Obviamente que o livro impresso não vai acabar, mas o livro eletrônico está aí e veio para ficar. E seu avanço e força se dá muito mais por uma lógica de mercado do que pelo embate do fetiche entre impresso ou eletrônico. Bastou que os varejistas e editoras entrassem de cabeça nesse mercado, que certamente tem menor custo de produção e é mais lucrativo, para ditarem o ritmo. Se você pensar bem, um editor pode determinar que um lançamento seja exclusivamente digital. E o que iremos fazer? Espernear? Como consumidores, nós temos muito a ganhar, pois é uma nova modalidade de serviço e produto, e podemos reivindicar preços mais justos, distribuição mais veloz etc. O momento é esse! Mas ao mesmo tempo precisamos estar muito atento a certas práticas que cerceiam o hábito de leitura e consumo de livros digitais, como o monopólio sobre plataformas de distribuição de livros e controle sobre formatos digitais. Mas bem, no final das contas, não restam dívidas: hoje eu leio muito mais conteúdo digital [seja livros ou não] do que impresso. Eu e muitos outros “nativos digitais” já representam uma fatia significativo de um mercado e de uma cultura de consumo de informação e literatura. Falar de livros eletrônicos poucos anos atrás era um futuro distante. Hoje é realidade. Então o avanço foi enorme.

Quais as principais dúvidas dos bibliotecários quando o tema são os e-books em bibliotecas?

Os bibliotecários normalmente têm dúvidas sobre os dispositivos de leitura [kindle, kobo, ipad, tablets, smartphones], as modalidades de empréstimo de livros eletrônicos e os contratos estabelecidos com as editoras. Esses três elementos englobam quase tudo o que diz respeito a uma estratégia de adoção de ebooks em bibliotecas, de diferentes tipos. Na verdade os bibliotecários já lidam com arquivos digitais há bastante tempo [repositórios digitais e livros em pdf para download, por exemplo], mas agora existe uma demanda específica para livros eletrônicos e isso exige um planejamento. É como se você estivesse criando uma coleção nova, que precisa ser gerenciada e disseminada. Não é muito diferente do que já estamos acostumados a fazer, mas por se tratar de um formato novo, é normal que essas dúvidas apareçam. Claro, à medida que as experiências forem sendo compartilhadas, os ebooks deixarão de gerar dúvidas e passarão a ser rotina padrão das principais bibliotecas.

Que conhecimentos básicos os bibliotecários precisam ter na hora de fazer aquisição deste tipo de material?

Além de conhecer bem a demanda da sua comunidade, uma boa estratégia é o bibliotecário confrontar os benefícios dos ebooks com os impressos, uma vez que o impresso ainda é o formato prevalecente e que utilizamos como parâmetro. E isso implica em uma série de medidas, como verificação de preços, disponibilidade de títulos, possibilidade de empréstimos simultâneos, decidir se a aquisição é perpétua ou leasing, se os títulos podem ser adquiridos individualmente ou em pacote, analisar como os arquivos digitais serão hospedados e distribuídos, se os formatos são compatíveis com os diversos dispositivos de leitura disponíveis no mercado, entre outras. Na maior parte, isso vai exigir uma conversa bastante estreita com as editoras fornecedoras e o bibliotecário assegurar que está fazendo um bom negócio.

Publicado originalmente em Biblioo | 12/09/2014

O impacto dos livros digitais nas bibliotecas


O Observatório do Livro e da Leitura divulgou nesta segunda-feira [14/04] o resultado da pesquisa Bibliotecas e Leitura Digital no Brasil, encomendada pela Árvore de Livros S.A. Respondida por bibliotecários e responsáveis por bibliotecas brasileiras, o estudo priorizou as bibliotecas públicas municipais que, segundo a pesquisa estão na quase totalidade dos municípios brasileiros, representando 52,5% das entrevistas realizadas. Participaram ainda da pesquisa bibliotecas comunitárias, universitárias e escolares. Foram entrevistados 503 representantes de bibliotecas de todas as unidades da federação em março de 2014.

Segundo Galeno Amorim, coordenador geral do Observatório, “a pesquisa foi feita para avaliar o estado das bibliotecas que atendem o publico, seja ela municipal, estadual, comunitária, rural, escolar, de universidade e até de empresas e órgãos da administração pública e, com isso, aproveitar para chamar a atenção sobre a necessidade de se criar políticas mais robustas e permanentes de financiamento desses equipamentos que podem ter um papel cada vez mais importante no momento em que a educação parece prestes a ganhar um novo destaque no cenário nacional para construir um novo futuro para o país”.

O estudo buscou compreender também como as bibliotecas se posicionam e se preparam para entrar na era do livro digital e passar a prestar esse tipo de serviço aos seus leitores e a muitos outros que poderão tornar-se usuários delas também”, acrescentaou Galeno.

De acordo com a pesquisa, os responsáveis pelas bibliotecas identificaram os diversos dispositivos de leitura, incluindo computadores, como sendo apropriados para serem utilizados pelos usuários em seus espaços de leitura. Os tablets, com 53,3%, um índice que chega a 70,5% no caso das escolares, lideram a preferência, mas os computadores aparecem logo em seguida, em situação de empate técnico, com 56,8%, seguido pelos notbooks [53,3%]. A pesquisa aponta que embora dedicados especificamente à leitura digital, os eReaders só aparecem em penúltima lugar, com 14,9%, só um pouco à frente dos smartphones [12,2%].

Que tipo [s] de aparelho [s] você considera mais apropriado [s] para os usuários lerem um eBook na sua biblioteca?
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Para a maioria absoluta dos bibliotecários e responsáveis pelas bibliotecas brasileiras [77,9%] que atendem diferentes públicos leitores, o tablet é o aparelho mais adequado para os usuários lerem eBooks quando estiverem fora da biblioteca. O notebook aparece como o segundo melhor colocado com 60,5% do total.

O impacto dos eBooks sobre a leitura e as bibliotecas

A pesquisa estimulou os entrevistados a responderem sobre o que acreditam que poderá acontecer com a chegada dos eBooks às bibliotecas. A grande maioria [82% dos que respondera] apontam que os dois tipos de suportes [o livro impresso e o eBook, sua versão digital] deverão conviver juntos em harmonia. No caso das bibliotecas universitárias esse tipo de resposta esteve na boca de 100% entrevistados.

Galeno acredita que este resultado indica que os bibliotecários e os responsáveis pelas bibliotecas estão percebendo que a tecnologia, em vez de representar mais trabalho e dispêndio de energia para eles, pode servir como uma alavanca para a atuação das bibliotecas. “É extraordinariamente importante esse posicionamento dos dirigentes e profissionais da área, que intuem que colocar o pé no futuro pode significar mais usuários, mais leitura e, com isso, certamente maior reconhecimento e apoio. Este ano será marcado pela chegada da era digital às bibliotecas no Brasil. Isso é altamente positivo para gerar leitura, leitores e, sobretudo, maior inclusão cultural e tecnológica na sociedade brasileira”, diz entusiasmado.

O que você acha que poderá acontecer com a chegada de aparelhos e eBooks na sua biblioteca?

Para Moreno Barros, bibliotecário do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e colunista da Revista Biblioo, não há dúvida de que os diferentes suportes continuarão a coexistir uma vez que, segundo sua opinião, “bibliotecário não trabalha com suporte, trabalha com conteúdo, documentos e informação, então essa discussão pra gente não faz sentido”. O assunto foi tema de artigo recente de Moreno: “O que os bibliotecários devem saber sobre os ebooks”.

Por outro lado, temos a responsabilidade da guarda, então é importante que estejamos atentos às mudanças de padrões tecnológicos [a escrita sendo a primeira tecnologia, os ebooks a mais recente]”.

Para Moreno, o que os bibliotecários não podem fazer é argumentar que não estão preparados para a mudança. “Basta entrar em qualquer linha de metrô nas grandes cidades e perceber como as pessoas consomem informação em seus celulares. Basta entrar em qualquer biblioteca universitária e perceber que os alunos estão mais com laptops à tira colo do que livros. Basta visitar qualquer biblioteca pública e perceber que as crianças estão mais interessadas nos computadores do que nos livros, os adultos mais preocupados com o uso de espaço público do que o acervo”.

Na concepção do bibliotecário, quem dita essas transformações é o mercado [tendo os avanços tecnológicos como sustentação] e depois os usuários. Os bibliotecários funcionariam apenas como receptáculo e eventualmente exercendo o papel de intermédio entre criadores e distribuidores de conteúdo.

Em determinado momento, bastará que uma editora decida comercializar seus livros em formato apenas eletrônico, para toda uma cadeia de distribuição logística ser alterada, simplesmente porque para ela é muito mais barato produzir e comercializar seus livros em formato digital, trabalhando em conjunto com outras empresas tecnológicas que mantêm o monopólio sobre a disseminação do conteúdo”.

Biblioo | 14/04/14