Editora lança nova biblioteca digital


Editora colocar a disposição mais de 1.500 títulos nas áreas de direito e de gestão

Desde o início o ano, o PublishNews tem noticiado a criação de bibliotecas digitais. Primeiro veio a Árvore de Livros, depois a Biblioteca Xeriph e, agora, é a Saraiva que lança a sua biblioteca digital proprietária [a editora já faz parte da pioneira Minha Biblioteca]. A Saraiva colocou a disposição de instituições de ensino superior o seu catálogo de mais de 1.500 títulos nos segmentos de Direito e de Gestão. A ideia é oferecer e-books para cursos e disciplinas de direito, administração, economia, contabilidade de marketing.

Para Otello Betolozzi Neto, diretor de Novos Negócios da Saraiva, a biblioteca deles sai na frente por já ter na rua o Saraiva Soluções de Aprendizagem que já oferece uma biblioteca virtual, além de atividades digitais e kits de livros impressos voltados para esse mesmo público. Mas um serviço não concorre com os outros? Otello garante que não. “A Biblioteca Saraiva é uma solução pensada tendo em mente a ementa do curso ou da disciplina. Pode até haver uma sobreposição ou outra dos serviços, mas ela tem seu público”, argumenta.

O modelo de negócios da Biblioteca Digital Saraiva é semelhante ao já praticado pela Minha Biblioteca: as instituições de ensino podem escolher os títulos e pagam pelo preço de capa, com descontos em escala. Com isso a Saraiva garante que todos levam vantagens: a instituição, os professores e os alunos. Com o acervo digital, a universidade ganha diferencial competitivo e reduz gastos com espaço físico e manutenção de acervo; os professores têm mais variedade de títulos e autores e os alunos que têm acesso integral aos livros de todas as disciplinas.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 13/03/2014

Oito questões sobre as bibliotecas digitais


Joana Monteleone, da Alameda Editorial, analisa o fenômeno que tem dado o tom do mercado editorial nesse momento

A mais recente tendência do mercado de livros eletrônicos, tanto no exterior  quanto no Brasil, é a busca de composição de acervos de bibliotecas digitais. A principal diferença em relação ao modelo de livrarias é que passamos da figura do consumidor de livros para a do usuário de bibliotecas.

Essa diferença não é irrelevante. Provavelmente, os dois modelos conviverão. Mas para que ambos deem certo, é preciso pensá-los em suas especificidades.

No Brasil, há pelo menos três projetos privados significativos em andamento. Todos focam, essencialmente, possíveis compras do poder público, mas também estão em busca do usuário individual, em e-readers, tablets e telefones celulares. São eles o da Nuvem de Livros, da Gol Mobile [em operação]; o Biblioteca Xeriph, ligado ao grupo Abril [em lançamento]; e o Árvore de Livros, representado por Galeno Amorim, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional [em gestação].

Listamos abaixo oito questões que consideramos relevantes para pensar as bibliotecas digitais.

1. Biblioteca digital não substitui biblioteca física. Ambas são experiências importantes, mas complementares. O Ministério da Educação, que tem a missão de conduzir o cumprimento da Lei da Biblioteca Escolar [12.240/10], sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, não pode abusar do artigo 2º, que permite o uso de vários suportes, para ignorar o fato de que escola sem biblioteca física operando é escola ruim. O grande desafio de melhorar a educação nacional passa por não fingir que gadgets eletrônicos são uma espécie de emplastro Brás Cubas, que tudo cura.

2. Quando o consumidor ou o governo compra um livro, ele adquire um conteúdo específico, unitário. Quando o assunto é biblioteca, busca-se um acervo. Uma livraria vive muito dos livros da estação, que todos querem ler; uma biblioteca é útil quando sua coleção é representativa, seja pela especificidade, seja pela variedade. Uma livraria não deve ignorar a bibliodiversidade [muitos autores, editores, públicos e coleções diferentes], se quer manter um público cativo; uma biblioteca simplesmente não pode.

3. Os editores independentes, boa parte deles reunidos na Libre, mas não apenas, representam o maior e mais diversificado acervo de livros comprados pelas melhores bibliotecas públicas e privadas. Qualquer modelo de livraria digital sério tem de reconhecer este valor, dialogar com esses editores e remunerá-los pela qualidade e importância de seus catálogos. Quem privilegiar apenas os grandes grupos se parecerá com um catálogo de best-sellers, não com uma biblioteca.

4. Livraria não é mídia, é ponto de venda. Biblioteca não é ponto de venda, é espaço de consulta e estudo, muito mais do que de lazer. E isso é bom. Biblioteca que seguir a lógica de ponto de venda não vai funcionar, assim como crescem rápido, mas paradoxalmente afundam, sobretudo culturalmente, mas também do ponto de vista de sustentabilidade econômica, livrarias que vendem espaços como se fossem outdoor.

5. Remunerar bem apenas quem é mais acessado é reproduzir na biblioteca a lógica da livraria que vende espaço de mídia. Ou seja, o pior dos mundos.

6. Um dos motivos do fracasso relativo da biblioteca pública como instituição nacional, amplamente difundida no território do país, é que muitos políticos as entendem como depósito de livros, e o usuário é visto primeiro como potencial ladrão de exemplares do que como alguém que acessa o serviço público. O mínimo que se espera do universo eletrônico é que ele proporcione conforto ao usuário, e excesso de restrições não vai ajudar as bibliotecas digitais a se popularizar.

7. Numa biblioteca digital, o usuário não pode ter as mesmas restrições que numa biblioteca física, como pegar fila para acessar um livro ou ter pouco tempo para ler uma obra. Aliás, o ideal é que nesse novo mundo, o tempo não seja uma questão.

8. A prestação de contas aos fornecedores e usuários tem de ser, ao mesmo tempo, a mais simples e detalhada possível. As bibliotecas são, tradicionalmente, um espaço de questionamento e transparência. Criar uma relação de confiança entre todos os envolvidos é fundamental.

Por Joana Monteleone | PublishNews | 21/02/2014 | Joana Monteleone, historiadora, é editora da Alameda.

Bibliotecas digitais: um novo mercado a vista


Iniciativas no âmbito digital prometem dar fôlego extra à venda de e-books no Brasil

O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais do Brasil, realizado em 2010 pela Fundação Getúlio Vargas [FGV] mostrou que 79% dos municípios brasileiros têm, pelo menos, uma biblioteca municipal. Em média, elas fazem modestos 296 empréstimos por mês. O reflexo disso na indústria editorial, até agora, era muito pequeno: a mesma pesquisa mostra que apenas 17% dos acervos das bibliotecas municipais são resultado de compras, contra 83% de doações. Mas algumas iniciativas no âmbito digital prometem mudar esse cenário. Na manhã de hoje, os editores cariocas conheceram a novíssima Biblioteca Xeriph, criada pela distribuidora de livros digitais de mesmo nome. O foco é exatamente as bibliotecas municipais e corporativas. A favor do projeto, está a cartela de clientes da Xeriph que hoje conta com 280 editoras, com catálogos bastante diversificados.

Carlos Eduardo Ernanny, diretor da Xeriph, aponta que o grande diferencial da nova biblioteca digital é que ela não é focada ou especializada em educação. “Somos a primeira biblioteca de e-books no Brasil não pensada exclusivamente nos estudantes”, explica. Outras iniciativas como Minha BibliotecaPasta do Professor e Árvore de Livros [que deve entrar em operação em março] têm como foco principal escolas ou universidades. Neste aspecto, o negócio daXeriph é mesmo diferente. O Censo da FGV mostrou que apenas 8% das pessoas que frequentam bibliotecas vão para lazer e é essa fatia que a Xeriph quer fazer crescer e, depois abocanhar. “Não é que o brasileiro não lê. Ele quer ler, mas não tem acesso ao livro”, defende Carlos Eduardo. O executivo lembra ainda que a quantidade de bibliotecas que abrem fora do horário comercial é irrisória. O censo da FGV fala de apenas 12% das bibliotecas funcionam aos sábados, por exemplo. “A população economicamente ativa não tem acesso à biblioteca e é isso que queremos mudar.O nosso modelo tem capacidade real de transformar o perfil das bibliotecas no Brasil”, promete o diretor. E já que as bibliotecas digitais nunca fecham, funcionam sete dias por semana, 24 horas por dia, o executivo defende que uma biblioteca que tinha 300 acessos por mês poderá ter 5 mil usuários ativos.

A plataforma da Xeriph foi viabilizada depois da compra da empresa pelo Abril Mídia, em maio passado. No projeto, foram empregados R$ 1,5 milhão e a plataforma já está pronta, de acordo com Carlos Eduardo. “Já estamos em negociação com uma grande empresa que tem operações dentro e fora do Brasil e ainda com o sistema de bibliotecas de uma grande cidade brasileira. Assim que fechar o contrato, colocamos a plataforma em operação”, conta. Por questões contratuais, a Xeriph não pode ainda revelar os nomes dos seus clientes em potencial.

Modelo de negócios

“A nossa grande missão era encontrar uma prática rentável para as editoras”, conta Carlos Eduardo. Para chegar a um modelo de negócio que atendesse esse demanda, foi criado um pool de dez editoras já clientes da Xeriph. Durante oito meses, diversos modelos de negócios foram submetidos a esses parceiros, que escolheram duas formas de vendas. Na primeira delas, a biblioteca compra a plataforma e o acervo, a partir do catálogo das editoras. Cada livro, comprado a preço de capa, poderá ser emprestado para apenas um usuário por vez, por 14 dias. Findado o prazo, o livro é compulsória e automaticamente devolvido. A segunda opção é comprar a plataforma e ter os livros por subscrição, ou seja, a biblioteca paga pelo acesso que seus usuários fazem ao livro. No modelo de subscrição, a editora será remunerada pela audiência. Cada vez que um livro for emprestado, a biblioteca paga uma taxa à Xeriph, 60% desse valor é repassado às editoras. Nos dois casos, o usuário não pode fazer mais de dez downloads ao mês e nem emprestar mais de 5 livros de uma só vez. De acordo com Carlos Eduardo, essa é uma maneira de não atrapalhar o negócio de livreiros.

A plataforma permite que quando o usuário clique no livro que tem interesse, ele não vê apenas a capa, a sinopse e outros metadados, mas também a fila de espera do livro. Se há mais de 25 pessoas na fila e apenas um exemplar adquirido, isso implica que o 26º usuário vai ter que esperar mais de um ano para ter acesso ao título desejado. Assim, o bibliotecário pode tomar a decisão de comprar outros exemplares, isso tudo de forma muito simples, a um clique. “A fila é um termômetro: uma fila cada vez maiorpossibilita que as bibliotecas se tornem grandes clientes para as editoras”, defende o diretor. Para utilização da plataforma, foram criados aplicativos para iOS, Android, PC e Mac.

Árvore de Livros

O PublishNews adiantou, no final de janeiro, a criação da Árvore de Livros, capitaneada por Galeno Amorim [ex Fundação Biblioteca Nacional]. Ao contrário da Biblioteca Xeriph, a Árvore é focada nas escolas das redes públicas e privadas, mais especificamente nos alunos de ensino fundamental 2 e médio. A plataforma, que deve entrar em operação em março, vai cobrar uma assinatura anual de governos, prefeituras, escolas e empresas para que seus usuários acessem de forma ilimitada por meio de computadores, smartphones e tablets.

De acordo com material enviado às editoras e ao qual o PublishNews teve acesso, a expectativa é adquirir acervo inicial de 200 mil e-books para atender mais de 170 mil alunos.O modelo de negócios da Árvore de Livros foi desenvolvido com base em estudos, pesquisas e comparações feitas com modelos existentes no mundo. Foram feitas adaptações à realidade e às peculiaridades do mercado nacional, e levou em conta o perfil e as práticas leitoras vigentes nas bibliotecas e escolas do País. Em resumo, a Árvore adquire pelo preço de mercado pelo menos um e-book escolhido para compor o acervo da biblioteca digital de seus clientes. O livro digital pode ser emprestado de forma simultânea e sua licença de uso expira após 100 empréstimos. Cada vez que um usuário tentar ler um e-book que está emprestado é gerada uma nova compra do produto. Por exemplo, um livro adotado por uma rede de ensino que exija a leitura simultânea de 5 mil alunos. Isso resultará na compra de 5 mil e-book desse título.

Relatórios mensais vão servir de guia para acerto com as editoras participantes do projeto. Além disso, a editora pode monitorar online e em tempo real a quantidade de acesso e a leitura de seus títulos, além de ter acesso a dados estatísticos sobre o desempenho e a preferência dos usuários, formando um perfil de seus consumidores. Na apresentação enviada aos editores, há um e-mail pelo qual editoras podem enviar propostas: editoras@arvoredelivros.com.br.

Contraponto

Para José Castilho Marques Neto, secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], essas iniciativas que começam a aparecer no ambiente digital são muito bem-vindas, mas precisam ser vistas com ressalvas. “Não podemos construir um fetiche em torno dessas questões, nem dizer que são absolutamente importantes e nem dizer que não são importantes”, comenta. Ele defende que, no que tangencia o PNLL, sejam construídos, além de plataformas de acesso a e-books, programas pedagógicos de incentivo à leitura. “Nenhuma biblioteca – seja digital ou física – vai resolver o problema da leitura no Brasil”, comentou.

Castilho comenta ainda que não dá para “fazer marketing em cima dessas iniciativas” e conclui: “No fim, pode ser um bom negócio para quem produz, mas não vai ter o efeito desejado se não estiver dentro de um planejamento mais amplo”.

Evento em SP

Hoje pela manhã, a Xeriph apresentou a plataforma e seu plano de negócios para editores cariocas. No dia 13/02 será a vez de São Paulo. São esperados mais de 100 representantes de editoras paulistas. O encontro será no São Paulo Center [Av. Lineu de Paula Machado, 1088/1100 – Cidade Jardim], a partir das 16h.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 11/02/2014