Adolescente cearense é best seller na Amazon


Nita Cairu e a Espada de Gohayó

Nita Cairu e a Espada de Gohayó

Após sucesso de venda no Brasil, o escritor cearense Gabriel Damasceno, de 16 anos, entra na lista de mais vendidos do site Amazon em vários países. O romance Nita Cairu e a espada de Gohayó aparece neste domingo como o livro infanto-juvenil mais vendido na Amazon na Itália, em segundo lugar no ranking de best-sellers do Canadá, 12º nos Estados Unidos e 41º na Alemanha.

“Chequei minha conta na Amazon e vi que estava dólar, euro… eu pensei ‘Valha-me, de onde está vindo esse dinheiro?’. E só depois vi a lista dos mais vendidos nos outros países e vi meu livro na lista dos mais vendidos”, relata Gabriel.

Com as vendas em alta e repercussão na imprensa, Gabriel diz que começa a receber propostas de editoras e convites para o lançamento da obra. Neste mês ele estará em Fortaleza [18 de novembro, no Shopping Iguatemi], Quixelô [19], Quixadá [21] e em Quixeramobim [28] para sessão de autógrafo. Ele também já recebeu convite para o lançamento de Nita Cairu na Bienal do Livro de Fortaleza, em 2014, no Maranhão.

O romance é inspirado nas aulas de história do Brasil colonial, após a chegada dos portugueses ao território nacional. Nita Cairu une fatos e personagens históricos com aventura e romance fictícios.

“Nas aulas de história, me interessei bastante pelo assunto do Brasil colonial e estudei tudo o que podia. Como me aprofundei muito no assunto, achei que podia contar a história de uma forma agradável”, relata o escritor.

A personagem que dá título ao livro é uma adolescente da idade do escritor que teve a família assassinada em um ataque português. Após viver um tempo sozinha, ela se torna um vértice de um triângulo amoroso com um português e um índio.

Damasceno diz que fez questão de manter alguns fatos fiéis à história brasileira, mas não podia deixar de acrescentar um toque de inventividade. “Há um personagem, o Martin Afonso, que é idolatrado na primeira vila colonial do Brasil, da mesma forma como no livro, mas alterei a personalidade dele para dar aventura à minha história”, diz.

Gabriel Damasceno

Gabriel Damasceno

Trilogia

Inspirado em dois grandes sucessos mundiais da literatura infanto-juvenil, Harry Potter e Percy Jackson, Damasceno criou seu romance em formato de trilogia. O primeiro livro foi lançado no dia do aniversário de sua mãe, 24 de julho deste ano; as continuações já têm data de lançamento marcada: o próprio aniversário, 11 de março; e o dia de nascimento do pai, 9 de outubro.

“Quando pensei na história, pensei muito nos livros que gostei. Ele se encaixa muito bem no formato de trilogia, porque fica o mistério do sumiço de um espada sagrada, espada de Gohayó, no primeiro livro. Também tem a questão do marketing, não posso negar. Com três livros, espero ter uma boa repercussão em cada lançamento”, diz.

Publicado originalmente em G1 | 16/11/2014

Escritor lança projeto interativo e colaborativo para autobiografia


A prática antiga de “storytelling” [contar histórias] ganhou uma ferramenta moderna: o ator e roteirista britânico Stephen Fry lançou um site com textos, áudios e fotografias de sua autobiografia para que pessoas elaborem projetos que contem sua história de forma interativa.

Trata-se do YourFry, uma espécie de concurso de “storytelling digital”, lançado pelo britânico em parceria com a editora Penguin Books, que acaba de publicar a autobiografia do comediante, “More Fool Me”.

Este é um projeto interativo e colaborativo para reinterpretar as palavras e a vida das memórias de Stephen, tornando sua história pessoal em uma história global“, disse Nathan Hull, produtor digital de desenvolvimento da Penguin Books, em entrevista ao jornal “The Guardian”.

“O que criar?”, diz um texto de apresentação no site. “Texto, dados visuais, formatos interativos para a web, aplicativos, filme, fotografia, animação, criações em 3D ou experimentais… a tela, como dizem, realmente é branca.

Página inicial do site YourFry, criado pelo comediante britânico Stephen Fry | Imagem/Reprodução: yourfry.com

Página inicial do site YourFry, criado pelo comediante britânico Stephen Fry | Imagem/Reprodução: yourfry.com

Para estimular a criação de projetos, serão organizados “hackatons” [maratonas de hackers] em parceria com universidades, bibliotecas e comunidades de tecnologia pelo mundo. As propostas surgidas nesses eventos serão analisadas e selecionadas por um júri, em dezembro deste ano.

Entre os integrantes do grupo de jurados estão o criador da internet Tim Berners-Lee, o game designer do Xbox Studios Elan Lee, o diretor de filmes interativos Lance Weiler, a diretora do Silicon Valley Bank Claire Lee, além do próprio Fry.

Até agora, foram confirmadas maratonas na universidade especializada em mídia digital e design Ravensbourne [Reino Unido]; no Festival Mozilla, dedicado à internet [Reino Unido]; no Festival Sharjah Book [Emirados Árabes]; no espaço de tecnologia iHub Nairobi [Kenya] e nos Storylabs da Universidade de Columbia [EUA].

Fry se tornou um entusiasta da tecnologia, tendo investido em startups como Soundwave, HeadCast e Summly. Ele é também crítico de smartphones do jornal “The Guardian”, com resenhas feitas sobre os últimos lançamentos da Apple.

O ator e roteirista britânico Stephen Fry | Fred Prouser/Reuters

O ator e roteirista britânico Stephen Fry | Fred Prouser/Reuters

Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 29/09/2014, às 12h58

App reúne em mapa locais ligados à obra de Machado de Assis


Bentinho e Capitu, personagens do romance “Dom Casmurro” [1899], foram moradores da rua Riachuelo, na Lapa. Já em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” [1881], o narrador reencontra uma antiga paixão ao caminhar pela rua do Ouvidor, no centro da cidade.

As referências à cidade que pontuam a ficção de Machado de Assis [1839-1908] motivaram o projeto “Rio de Machado”, que lista 81 endereços citados nos livros do autor, além de 20 locais associados à rotina do escritor.

Idealizadoras do projeto, a curadora Daniela Name e a consultora digital Gabriela Dias reuniram, em um aplicativo, um mapa no qual cada local aparece contextualizado em relação à vida e à obra do escritor.

Fonte: Editoria de Arte | Folhapress

Fonte: Editoria de Arte | Folhapress

Desenvolvido pela produtora 32 Bits, o programa estará disponível para download gratuito em tablets e celulares a partir de 1º de outubro.

No dia 2, terá início uma exposição nos pilotis do Museu de Arte do Rio [MAR], na praça Mauá, baseada no conteúdo do “Rio de Machado”.

É um jeito de comunicar muito contemporâneo, que pode ajudar a formar e a conquistar novos leitores. Na Inglaterra, por exemplo, fizeram um aplicativo do [Charles] Dickens com quatro percursos pela cidade de Londres vinculados a personagens do autor“, conta Dias.

Por cinco semanas, a cada sábado [a partir do dia 4 de outubro], os organizadores do projeto vão promover visitas guiadas gratuitas por mais de dez endereços associados a Machado de Assis pelo centro da cidade.

O ponto de partida do passeio será o MAR, que receberá também um seminário sobre a obra do escritor, nos dias 1º e 2 de outubro.

POR FABIO BRISOLLA | Publicado originalmente em Folha Online | 22/09/2014, às 02h29

Escritores da nova geração debatem uso da internet


Brasília | Os limites e o papel da internet entre as novas gerações de escritores foi o principal tópico debatido pelos convidados da terceira mesa temática “A nova geração de ficcionistas”, encontro realizado na manhã de domingo [20] da Bienal do Livro e da Literatura, em Brasília.

Colunista da Folha e do “International New York Times”, a jornalista e escritora Vanessa Barbara, vencedora do Prêmio Jabuti na categoria reportagem com o título “O livro amarelo do Terminal,” se diz uma entusiasta do mundo virtual.

Eu adoro a internet. Sou muito otimista, claro, às vezes tem muita besteira, mas também tem coisas importantes, sem falar que é um espaço ilimitado para explorar, brincar“, destacou.

Autor do livro “Paralelos”, lançado pela Geração Editorial, Leonardo Alkmim, outro participante do debate vindo de São Paulo, concordou com a independência e democratização do espaço.

É uma plataforma importante não só como veículo de divulgação, mas como você pensa a literatura hoje em dia“, observou. “Antigamente, se você queria ser publicado tinha que chegar numa grande editora. Agora não, você publica o texto nesse espaço digital e se vender muito ou pouco ele estará lá“, constatou, revelando que flertou com vários outros caminhos da cultura, antes de se tornar definitivamente escritor.

Depois de escrever seus primeiro livros entre 9 e 13 anos, deu um tempo na literatura para ser baterista e ator de teatro. No palco, teve chance de trabalhar com nomes de peso do segmento, como José Celso Martinez Corrêa e Paulo Autran. Empolgadom escreveu duas peças abordando temas como violência urbana e conflitos amorosos.

O grande poder do autor é embarcar no seu sonho. Essa independência me fascinou e me trouxe de volta para a literatura, onde a liberdade é plena“, comentou.

Autora do livro “Desnorteio” [Editora Patuá], vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria iniciante, Paula Fábrio contou que desde cedo tinha fascínio pela escrita, mas que escrevia escondida da família porque todos em casa não achava normal que ela tivesse esse hábito. “Lá em casa não havia o hábito da leitura, todo mundo odiava livro” , lamentou, arrancando risos da plateia.

Com os 500 exemplares do livro lançados por uma pequena editora, esgotados, ela mesma trouxe cinco títulos para serem vendido na Bienal. “É o sistema de distribuição de livros para novos escritores no Brasil“, ironizou.

POR LÚCIO FLÁVIO | EM COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BRASÍLIA | 21/04/2014, 14h52

Três contos nunca publicados de J.D. Salinger vazam na internet


‘The ocean full of bowling balls’, ‘Paula’ e ‘Birthday boy’ surgiram online após aparecerem em um misterioso leilão no eBay

Biógrafo do recluso autor confirmou a autenticidade dos textos

Foto postada no 'eBay' mostra 'livro' que continha os três contos. Nota ao fim da página diz que os textos 'permanecem não publicados e guardados por J.D. Salinger' Reprodução / eBay

Foto postada no ‘eBay’ mostra ‘livro’ que continha os três contos. Nota ao fim da página diz que os textos ‘permanecem não publicados e guardados por J.D. Salinger’ Reprodução / eBay

RIO | Três contos jamais publicados de J.D. Salinger vazaram na internet após serem colocados à venda em um leilão misterioso no “eBay” e, em seguida, postados no “Reddit”. O estudioso Kenneth Slawenski, autor de “Salinger: Uma vida” (Editora Leya) confirmou ao site “Buzzfeed” a autenticidade dos textos.

Os contos já podiam ser acessados por pesquisadores, mas nunca tinham aparecido online ou ido para as livrarias.

“The ocean full of bowling balls”, disponível na biblioteca de Princeton, é considerada por especialistas a melhor obra não publicada de Salinger, e é uma espécie de prelúdio do título mais consagrado do autor, “O apanhador no campo de centeio”. A história aborda a morte do personagem Kenneth Caulfied, e foi originalmente escrita para a revista “Harper’s Bazaar”. Salinger, porém, mudou de ideia antes de ser impressa.

“Paula” e “Birthday boy” estão disponíveis na Universidade do Texas. O primeiro gira em torno de um casal — Frank e Paula Hincher —, em que a mulher, apesar de não poder ter filhos, insiste que está grávida. Em “Birthday boy”, o jovem Ray, internado aparentemente por causa do alcoolismo, recebe a visita da namorada Ethel. O casal têm uma conversa trivial, mas que depois se torna conflituosa.

“Buzzfeed” teve acesso aos contos e reproduziu trechos [em inglês].

O Globo | 28/11/2013, às 14h49 | © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

O autor usado pela internet usada pelo autor


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 26/09/2013

Você acha que usa a internet, mas está sendo usado por ela” diz o escritor Bernardo Carvalho. A ocasião foi o lançamento de Reprodução. O livro foi, segundo a matéria de Raquel Cozer, escrito “a partir do cenário ‘libertário’ e ao mesmo tempo ‘cheio de ódio’ da internet”.

Não é de hoje que ele se preocupa com a internet, ou que [bons] escritores alertam para os males da rede, mas enquanto um Scott Turrow o faz por razões corporativistas [é presidente da Associação dos Autores dos EUA] e um Johnathan Franzen, pelo gosto dândi-decadentista, Bernardo usa de sua “literatura de reflexão” para tratar do seu incômodo.

Em Reprodução, o personagem que encadeia a narrativa não tem controle, ou consciência, do que se passa. O título se refere a ele, que troca a reflexão pela reprodução automática da algaravia fascistizante das redes sociais. A ele o autor se refere como “estudante de chinês”, e os outros personagens o descrevem como “boçal”. É o adjetivo perfeito. “Boçal”, na origem do termo, era o escravo africano que chegava ao Brasil, não conseguia aprender o português, sofria de banzo, e por isso era tratado como idiota. [O oposto do xingamento “boçal” era o elogio “crioulo”, o negro que já era “criado” no Brasil, sabia a língua, era safo].

O “estudante de chinês” é o boçal do século 21: não consegue aprender a língua dos senhores [os chineses, como ele repete ao longo do livro], se desespera para fazer parte do novo ambiente [lê “revistas semanais”, jornais] e expressa seu banzo pelo passado vituperando [ou repetindo os vitupérios] nas redes sociais. É o idiota-útil “usado” pela internet, achando que a internet, por lhe dar voz [para papagaiar o coro dos anônimos], lhe confere poder. O uso de “línguas” como metáfora da internet matando a literatura está ainda na história do assassinato do último índio que falava a única língua capaz de pronunciar o nome de Deus. Ao cancelar distâncias e expor o mundo como “aldeia global” e inviabilizar a existência de aldeias remotas [“a diversidade é um repositório de adaptabilidades”], a internet estaria matando a chance de encontrarmos a pureza, a língua única para falarmos com Deus, trocando-a pela língua que todos falam e que não quer dizer nada, o chinês.

A China do “estudante de chinês”, por sinal, é uma perfeita metáfora para a própria internet: avassaladora, irrevogável, vulgarizante, desumanizadora e, sobretudo, com uma língua que é simples demais para fazer algum sentido. “Uma em cada três pessoas fala chinês”, “os chineses serão os novos senhores”, repete o “estudante de chinês” ao longo do livro. É na China, porém, que o autor situa uma “parábola” que ilustra sua denúncia de “infantilização do público da literatura pela internet”.

Conta a parábola que, num vale remoto de uma aldeia longínqua da China, um sábio escreveu um tratado sobre velas de cera, o que lhe trouxe fama e criou uma dinastia. Mais tarde, com a chegada do lampião, que iluminava o vale como uma “nuvem de vaga-lumes”, “o tratado escrito fazia séculos pelo patriarca passou a ser lido como poesia”. Mais tarde ainda, com a chegada da lâmpada elétrica e a nivelização brutal da Revolução Cultural, a herança e os ensinamentos do patriarca chinês tornaram-se motivo de vergonha burguesa. A metáfora aqui é escancarada — a luz é o conhecimento, a reflexão, a literatura em suma. É divina quando é remota [cera], redentora quando é para poucos [lampião] e perde todo o sentido e valor quando é para todos [lâmpada].

Há um conflito intrínseco entre a literatura de Bernardo Carvalho e a internet. Narrativas como Nove noites eMongólia partem do árido e progridem aos poucos desvendando novas camadas de significados, dando sentido[s] à narrativa. É uma literatura em que é preciso descobrir camadas, sucessivas e cada vez mais puras, como uma cebola. A internet é a anticebola: todas as camadas estão expostas e refogadas. Há tanta informação que ela volta a perder sentido, torna-se apenas estímulo improcessável. Um acelerador hormonal. Escrever como Bernardo Carvalho no ambiente da internet é como fazer um teatro de sombras ao sol a pino.

A síntese está na página 153. A internet é “um diálogo de surdos. Só um decide o que quer ouvir e o que o outro vai dizer”. Uma definição precisa, talvez. Porém, pensando bem, a definição presta-se perfeitamente à própria literatura: “inventar o que o personagem vai dizer e assim decidir o que o leitor quer ouvir. Os chineses vêm aí.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 26/09/2013

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Para o escritor Scott Turow, Google e Amazon representam ‘a lenta morte do autor americano’


O best-seller e advogado é o principal convidado da Pauliceia Literária, evento que será realizado em São Paulo entre os dias 19 e 22 de setembro

Scott Turow. O autor já vendeu milhões de cópias no mundo com romances como “Acima de qualquer suspeita” (1987), “O ônus da prova” (1990) e “O inocente” (2010) M. Spencer Green / Agência O Globo

Scott Turow. O autor já vendeu milhões de cópias no mundo com romances como “Acima de qualquer suspeita” (1987), “O ônus da prova” (1990) e “O inocente” (2010) M. Spencer Green / Agência O Globo

RIO | Seus livros falam de mortes, acusações, desconfianças e de toda uma elaborada disputa jurídica. Neles, já foram descritos estupros, suicídios e assassinatos, sempre com detalhes de quem conhece bem tanto a arte da narrativa quanto a aridez das histórias policiais. Mas o assunto que ultimamente mais tem tomado o tempo do escritor e advogado americano Scott Turow é diferente das tramas de seus romances. Trata-se de um crime, sim, mas um em que é mais difícil encontrar provas e identificar culpados. É o que Turow chama de “A lenta morte do autor americano”.

Os suspeitos, apontados por ele num artigo que publicou em abril no jornal “The New York Times”, sobre os efeitos da era digital para os escritores, são Google, Amazon, a pirataria na internet e até as grandes editoras. Desde então, o assunto vem sendo motivo de debate para esse americano de 64 anos. E certamente será um dos temas abordados por ele na Pauliceia Literária, evento que será realizado em São Paulo entre os dias 19 e 22 de setembro e do qual Turow é o principal convidado — ele fala no dia 20, às 19h, na Associação dos Advogados de São Paulo, com mediação de Arthur Dapieve, colunista do GLOBO.

— Eu costumo chamar a Amazon de “O Darth Vader do mundo literário”. Com uma política pesada de descontos e até pagando aos editores um valor mais alto do que o valor de venda dos livros, a Amazon está forçando a saída de seus competidores do negócio — afirma Turow, em entrevista por telefone ao GLOBO, ao exemplificar seus confrontos com algumas práticas do mercado digital. — As livrarias estão fechando, e as que tentam se arriscar nos e-books não conseguem. Para mim, seria natural alguém querer comprar e-books indo até uma livraria, plugando seu celular ou tablet num cabo e escolhendo o seu livro. Mas algo assim não acontece por causa da pressão que a Amazon faz no mercado.

Processo contra o Google

Não à toa, Turow foi eleito em 2010 para a presidência do Sindicato Americano de Autores, o que é extremamente simbólico para um momento de discussão sobre os direitos na internet e os contratos para e-books. Turow não é apenas responsável por celebrados romances jurídicos, como “Acima de qualquer suspeita” (1987) e “O ônus da prova” (1990), ambos publicados no Brasil pela editora Record, mas é também um advogado atuante, sócio de um grande escritório de Chicago. É, portanto, a figura perfeita para dar voz às preocupações de um sindicato que em 2005 entrou com um processo contra o Google para impedir o Library Project, por meio do qual a empresa pretende digitalizar todos os livros do planeta.

— A ação do Sindicato contra o Google parece interminável, o caso já tem oito anos. Quase chegamos a um acordo em certo momento, mas o juiz o rejeitou. Espero que haja um novo julgamento até o fim deste mês. Mas há outros problemas com o Google e outros buscadores. Você encontra neles o caminho para livros piratas, com uma série de links publicitários ao lado. O Google leva o usuário para baixar todos os meus livros ilegalmente e ainda lucra com isso — diz.

No artigo do “New York Times”, Turow disse que “o valor dos direitos autorais está sendo rapidamente depreciado”. Segundo ele, as mudanças no mercado afetariam sobretudo os autores médios, por conta da política das grandes editoras americanas de fixar um limite de 25% no pagamento de royalties aos autores, apesar de o custo com o livro digital ser, em teoria, menor. O autor lembra, ainda, que a Divisão Antitruste do Departamento de Justiça dos EUA entrou com uma ação contras as editoras e contra a Apple por fixarem preços para os e-books.

A Apple foi considerada culpada em julho, e, há uma semana, a Justiça americana determinou que a empresa altere seus contratos com as editoras e seja acompanhada por um auditor externo durante dois anos. Mas a Apple vai apelar.

— Não gostei da decisão da Justiça contra a Apple, acho que ela serviu para favorecer a Amazon — diz Turow. — O que as editoras e a Apple fizeram foi criar uma nova estrutura de preços, que realmente tornou os livros mais caros, mas elas fizeram isso para barrar a política de monopólio da Amazon, que vende os livros baratos artificialmente para tirar os concorrentes do mercado. Quando você vê livrarias que não a Amazon perdendo dinheiro ao vender e-books, é sinal de que existe alguma distorção, e essa distorção não foi criada pela Apple.

Novo romance sai este ano nos EUA

Em paralelo às lutas do sindicato, Turow ainda encontra tempo para advogar e escrever. O caso mais recente em que atuou, ele explica, foi como consultor num processo contra um político eleito que nomeou para um cargo público sua empregada doméstica. Mas há algo novo a caminho, bem mais interessante para seus leitores: já está em pré-venda em lojas como a Amazon (ops!) seu 12º livro, chamado “Identical”. A previsão de lançamento no Brasil, também pela Record, é para o ano que vem, e seu título provisório em português é “Idênticos”.

— O livro se passa em 2008 e vai tratar de dois gêmeos idênticos. Um, Paul, está prestes a concorrer a prefeito, enquanto o outro, Cass, será solto da prisão depois de 25 anos de condenação por assassinar sua namorada. A partir daí levanta-se a suspeita de que Paul também pode ter tido algum envolvimento no crime — explica Turow.

Antes, o último livro lançado por Turow foi “O inocente”, em 2010, uma sequência para “Acima de qualquer suspeita”, sua obra mais conhecida e que foi parar nos cinemas em 1990 sob a direção de Alan J. Pakula, com Harrison Ford como protagonista. Nele, assim como em seus outros romances, “Identical” inclusive, a trama se passa no fictício Condado de Kindle, o universo criado por Turow para desenvolver histórias que misturam densos casos judiciais com as relações pessoais de seus personagens. Tudo inspirado na realidade de um advogado que Turow conhece tão bem.

— Sempre me senti dividido entre o direito e a literatura, mas eu não sou esquizofrênico. Escritores e advogados têm muito em comum — diz. — Eu pratico direito criminal, e os clientes que me procuram podem ser divididos em duas categorias. A primeira é a de inocentes; e a segunda, maior, é de pessoas que fizeram algo errado e estão com medo de serem pegas. O meu trabalho como advogado, então, é parecido com o meu de romancista: tentar entender as motivações de um cliente ou de um personagem.

Por André Miranda | O Globo | 11/09/2013 | © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Ferreira Gullar ganha site exclusivo


Ferreira Gullar ganha site exclusivo

Ferreira Gullar ganha site exclusivo

A Saraiva lançou hoje um hotsite especial com a vida e obra de Ferreira Gullar. O projeto, em parceria com o Grupo Editorial Record, que edita o poeta através do selo José Olympio, inaugurou essa semana o site com vídeos, poesias, fotos, biografia, conteúdo exclusivo e uma loja virtual, que liga direto aos títulos na loja da Saraiva. Já estão à venda no site alguns exemplares autografados do livro Poema Sujo e reedições de Dentro da noite veloz, Em alguma parte alguma eMuitas vozes. O poeta maranhense, vencedor do prêmio Camões em 2010, teve toda sua obra poética reunida em Toda poesia.

PublishNews | 16/08/2013