Tecnologia facilita publicação de livros pelo autor


Em breve poderá haver mais pessoas que queiram escrever livros do que pessoas que queiram lê-los. Pelo menos é isso que as evidências sugerem. Vendedores de livros, atingidos pela crise econômica, estão tendo problemas para atrair clientes. Quase todas as editoras de Nova York estão demitindo editores e cortando custos. Pequenas livrarias estão fechando. Grandes cadeias estão demitindo em massa ou considerando pedir falência. Enquanto isso, existe um segmento do setor que está florescendo: capitalizando com o sonho de aspirantes a escritor de ver seu trabalho publicado, companhias que cobram de escritores e fotógrafos para publicar estão crescendo rapidamente numa época em que as grandes editoras perdem espaço.

O crédito pela explosão da publicação independente vai para autores como Jim Bendat, cujo livro Democracy’s Big Day, uma coletânea de histórias curtas sobre as cerimônias de posses presidenciais dos EUA, teve um aumento modesto nas vendas com a comoção em torno da posse do presidente Barack Obama.

Quando não conseguiu um acordo de publicação tradicional em 2000, Bendat, um advogado de defensoria pública de Los Angeles, pagou US$ 99 para publicar a primeira edição de seu livro pela iUniverse, uma editora independente que trabalha sob encomenda. Ele atualizou o livro em 2004 e 2008, e vendeu mais de 2,5 mil cópias. A iUniverse fica com uma grande parte das vendas de cada livro, atualmente na Amazon.com por US$ 11,66.

Como editoras tradicionais buscam reduzir suas listas de livros e dependem cada vez mais de grandes best-sellers, editoras independentes multiplicam seus títulos e ganham dinheiro com livros que vendem apenas cinco cópias, em parte porque o autor, não a editora, custeia o design da capa e a impressão.

Em 2008, a Author Solutions, que opera a iUniverse e outras editoras independentes como AuthorHouse e Wordclay, publicou 13 mil títulos, um aumento de 12% em relação ao ano anterior.No mês passado, a companhia, que é controlada pela Bertram Capital, uma firma de private equity, comprou a rival Xlibris, expandindo sua participação no mercado em rápido crescimento. A junção das companhias representou 19 mil títulos em 2008, quase seis vezes mais do que a Random House, a maior editora de livros para consumidores finais do mundo, lançou no ano passado.

Em 2008, quase 480 mil livros foram publicados ou distribuídos nos Estados Unidos, em comparação a quase 375 mil em 2007, segundo a Bowker, empresa que monitora o setor. A companhia atribuiu uma proporção significativa do crescimento a um aumento no número de livros publicados por encomenda.

Mesmo sentado em um jantar, se perguntarmos quantas pessoas querem escrever um livro, todas vão dizer ‘tenho um livro ou dois em mente,” disse Kevin Weiss, chefe-executivo da Author Solutions. “Não vemos diminuição no número de pessoas interessadas em escrever.

A tendência também é estimulada por profissionais que desejam usar o livro como um cartão de visitas mais elaborado, bem como por pessoas que criam livros como presentes para a família e amigos. “Costumava ser uma elite restrita,” disse Eileen Gittins, chefe-executiva da Blurb, uma editora por encomenda, cuja receita aumentou de US$ 1 milhão para US$ 30 milhões em apenas dois anos, e que publicou mais de 300 mil títulos no ano passado. Muitos desses livros eram pessoais, comprados apenas pelo autor. “Agora qualquer um pode fazer um livro que se parece exatamente com um comprado em uma livraria.

No entanto, a publicação independente é ainda apenas uma fração do amplo setor editorial. A Author Solutions, por exemplo, vendeu um total de 2,5 milhões de cópias no ano passado. A editora Little, Brown vendeu ainda mais cópias de Twilight de Stephenie Meyer apenas nos últimos dois meses de 2008.

Mas em uma era na qual qualquer um pode criar um blog ou postar seus pensamentos no Facebook ou MySpace, as pessoas ainda parecem querem a validação tangível de um livro impresso. “Queria ter a satisfação de segurar o livro nas mãos,” disse Bendat. Como resultado de seu livro lançado pela iUniverse, o canal de notícias britânico Sky News pediu que Bendat comentasse ao vivo no dia da cerimônia de posse de Obama.

Um grupo de hotéis de Washington encomendou 500 exemplares do livro para dar aos convidados que estavam na cidade para o evento. “Certo, não é um best-seller,” Bendat disse, “mas estou feliz pelo que está acontecendo.

Pressões da vaidade existem há décadas, mas a tecnologia facilitou muito a publicação sem grandes custos de livros de autores aspirantes. Já se foram os dias em que a publicação independente significava ter que produzir centenas de cópias que mofariam na garagem.

Agora, por apenas US$ 3, um autor pode carregar um manuscrito ou coletânea de fotos em um website e encomendar a impressão de um livro dentro de uma hora. Muitos livros estarão à venda no Amazon.com; outros serão vendidos através dos websites das editoras independentes. Autores e leitores encomendam mais cópias conforme necessário.

As editoras independentes geralmente ganham dinheiro cobrando taxas dos autores – que podem variar de US$ 99 a US$ 100 mil para uma variedade de serviços, incluindo design personalizado da capa, marketing e distribuição a varejistas online – ou exigindo uma parcela das vendas, ou ambos.

Algumas, como a Lulu Enterprises e a CreateSpace da Amazon.com, permitem que o autor crie um livro gratuitamente, mas ganham dinheiro através de uma pequena cobrança de impressão e da divisão de lucros com o autor.

Para alguns autores, a publicação independente é atraente porque torna possível colocar um livro no mercado muito mais rapidamente do que com editoras tradicionais.

Claro, os autores que decidem seguir esse caminho também abrem mão de muita coisa. Além de não receberem pagamento adiantado, eles freqüentemente precisam pagar de seu próprio bolso antes de ver qualquer retorno. Eles não se beneficiam da astúcia de marketing das editoras tradicionais, e têm menor acesso à vasta distribuição a livrarias que as grandes editoras podem fornecer.

No entanto, muitas editoras independentes permitem que os autores fiquem com mais do que os tradicionais 15% de direitos autorais do preço dos livros de capa dura e 10% dos livros de brochura.

Há pouco mais de um ano, Michelle L. Long, contadora que assessora pequenos negócios, publicou pela editora CreateSpace o livro “Successful QuickBooks Consulting,” um guia para outras pessoas que desejam ajudar empresas a usar um pacote de software da Intuit. Ela disse que ganhou de 45% a 55% do preço de capa e US$ 22 mil em direitos autorais com a venda de mais de duas mil cópias.

Durante a recessão econômica, livros direcionados a públicos tão pequenos podem se sair muito melhor do que títulos de editoras tradicionais que dependem de um apelo mais geral. “Muito conteúdo desse nicho está indo bem em relação ao resto da economia porque é bastante útil para as pessoas com necessidades bem específicas,” disse Aaron Martin, diretor de editoras independentes e publicação por encomenda da Amazon.

Para muitos autores independentes, o nicho é muito pequeno. Weiss da Author Solutions estima que a média de cópias vendidas dos títulos publicados por uma de suas marcas seja de apenas 150. De fato, disse Robert Young, chefe-executivo da Lulu Enterprises, a maioria dos títulos da empresa interessa pouco a qualquer um além dos autores e suas famílias. “Publicamos facilmente a maior coletânea de poesia ruim da história da humanidade,” Young disse.

Mesmo assim, o sonho de muitos autores independentes é ser descoberto por uma grande editora ¿ e isso acontece mesmo, mas raramente. Quando Lisa Genova, ex-consultora de empresas farmacêuticas, escreveu seu primeiro romance, Still Alice, a história de uma mulher com mal de Alzheimer, ela foi rejeitada ou ignorada por 100 agentes literários.

Genova pagou US$ 450 à iUniverse para publicar o livro e vendeu cópias para livrarias independentes. Outro autor descobriu o livro e apresentou Genova a um agente, e ela acabou vendendo Still Alice por um valor adiantado de seis dígitos à Pocket Books, uma editora da Simon & Schuster, que lançou uma nova edição no mês passado. O livro entrou na lista de best-sellers de ficção do New York Times.

Genova associou sua experiência àquela de bandas ou cineastas jovens que usam o MySpace ou YouTube para atrair o público. “É realmente duro entrar no modelo tradicional de se fazer as coisas,” ela disse. Louise Burke, da Pocket Books, disse que as editoras agora buscam novo material pesquisando comentários de leitores sobre livros independentes vendidos online. A publicação independente, ela disse, “não é mais uma palavra suja.

Os livros que se tornam best-sellers, no entanto, ainda são exceção. “Para cada mil títulos que são publicados, talvez existam dois que realmente deveriam ter sido publicados,” disse Cathy Langer, responsável pelo setor de compras das livrarias Tattered Cover em Denver, que recebe inúmeros pedidos de autores independentes para vender seus livros. “As pessoas pensam que só por terem escrito algo, existe mercado para ele. Não é verdade.”

Terra Tecnologia | The New York Times, Tradução: Amy Traduções | 07 de fevereiro de 2009