Ligação direta com o leitor


Com a popularização de ferramentas para produção e venda de ebooks e o sucesso de obras lançadas sem mediação de grandes editoras, escritores investem na autopublicação, que dá nova cara ao mercado, inclusive no Brasil, onde a Amazon começou suas operações há duas semanas

Até o meio da semana, a segunda posição da lista de ebooks mais vendidos pela Amazon nos Estados Unidos era ocupada por “Stop the wedding!”, romance da americana Stephanie Bond. O livro, sobre como uma advogada e um investidor tentam impedir seus pais de se casarem mas acabam se apaixonando, foi lançado em novembro. Ele não existe em versão física e, até o momento, não está à venda em outro lugar que não seja o site da Amazon. Sua editora é uma tal NeedtoRead Books, casa que tem em seu catálogo 16 livros. Todos de Stephanie Bond. O que a autora tem feito é utilizar os recursos da Amazon para lançar seus próprios livros, sem a necessidade de uma grande editora como intermediária. Ela é um dos mais recentes exemplos da popularização de uma prática que está transformando o mercado editorial: a autopublicação.

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Casos como o de “Stop the wedding!” vêm se repetindo. Ao longo de 2012, foi comum a inclusão, na lista de mais vendidos do jornal “The New York Times”, de livros lançados pelos próprios autores. Foram obras como “Slammed”, de Collen Hoover, “Playing for keeps”, de R.L. Mathewson, ou “Training Tessa”, de Lyla Sinclair. Elas existem porque a Amazon tem um sistema que permite a qualquer pessoa colocar um ebook à venda no site. Em geral, são livros baratos [“Stop the wedding!”, por exemplo, custa US$ 0,99], com temas que “variam” da comédia romântica ao drama romântico, com especial destaque para o erotismo romântico — a sensação do ano, a trilogia erótica “Cinquenta tons de cinza”, de E.L. James, foi publicada pela primeira vez pela própria autora num fórum de fãs de “Crepúsculo”, antes de a editora Vintage Books lançá-la nos moldes tradicionais.

Mas há livros de turismo, acadêmicos, de fantasia ou reportagens sendo “autopublicados” com sucesso, inclusive no Brasil, onde a Amazon começou suas operações há duas semanas. Eles representam uma democratização no acesso a um mercado antes restrito [qualquer desconhecido que já tentou publicar um livro por uma editora sabe da dificuldade que é ter seus originais aceitos] e um desafio para as editoras.

— Com a autopublicação, qualquer um, empresa, universidade ou autor, pode se tornar sua própria editora. Se as grandes casas editoriais não se mexerem, elas certamente serão afetadas por esse panorama — afirma Harald Henzler, diretor-geral da empresa alemã de consultoria para negócios digitais Smart Digits.

A história da autopublicação remonta às origens do mercado editorial. No século XIX, era comum autores que depois teriam sucesso bancarem a publicação de seus próprios livros. No século XX, mimeógrafos foram constantemente utilizados para a reprodução de livros de escritores que não conseguiam contratos com editoras ou não tinham autorização para lançar suas obras por questões políticas. Com a popularização da internet, há pouco mais de uma década, jovens autores lançaram romances em sites ou blogs. Mas o que todos queriam mesmo era um contrato com uma editora, o que possibilitaria que um livro chegasse a uma grande livraria com destaque, tivesse uma divulgação organizada e, por consequência, ganhasse mais leitores.

A diferença, hoje, é que se pode ter tudo isso por conta própria, até mesmo de uma maneira profissional. Na esteira do serviço de autopublicação da Amazon, surgiram empresas que oferecem aos autores um pouco da expertise de uma editora. Antes de pensar em lançar seu livro, o autor pode contratar a revisão, a produção da capa, a conversão do texto para o formato digital e até mesmo a edição do texto. Um livro autopublicado pode, sim, ter um tratamento tão bom quanto o oferecido por uma editora tradicional. O que ele não vai ter é a marca. E isso, para muita gente, ainda faz diferença.

— A editora sempre vai ter um peso, ao menos o peso da credibilidade — diz Ana Paula Maia, que, antes de se tornar uma escritora reconhecida, já pagou parte da publicação de “O habitante das falhas subterrâneas” em 2003, pela 7Letras [o livro será relançado na semana que vem pela editora Oito e Meio] e também publicou um romance inteiro num blog [“Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, de 2006, posteriormente lançado pela editora Record]. — Existe um valor grande agregado a uma grande editora. Ela indica para os leitores um padrão de qualidade, mas o que também não quer dizer que você é um grande autor só por estar numa editora. Neste mundo novo, acho que a editora vai ter um papel mais opinativo. Não vai ditar mais as regras, mas vai ser um filtro.

‘A marca das editoras é muito forte’

A questão é que, neste mundo novo descrito por Ana Paula, as editoras tradicionais estão tentando seguir essa estrada da autopublicação. Em julho, a Penguin comprou por US$ 116 milhões a Author Solutions, uma das principais plataformas de autopublicação na web dos EUA. O trabalho da Author Solutions consiste exatamente em oferecer a autores os recursos necessários para lançar seus livros com uma roupagem de qualidade: em seu site, a empresa fundada em 2007 diz já ter “ajudado mais de 100 mil autores a publicar mais de 170 mil títulos e alcançar seus objetivos editoriais”.

Antes, a própria Penguin já havia lançado um braço próprio para oferecer a autores a possibilidade de autopublicação, ideia que foi seguida por outras editoras, como a Random House.

— As editoras enxergam a autopublicação como uma forma de descobrir novos autores e testar novos conceitos — diz o americano Greg Bateman. — Mas elas não vão perder terreno com a prática. Com os livros digitais, haverá um espaço grande para todos crescerem. O futuro é muito bom para todos.

Bateman participou da equipe que desenvolveu o Kindle, o leitor digital da Amazon lançado em 2007, e é o criador do Vook, uma plataforma de produção de ebooks. Desde o início deste ano, ele está morando em São Paulo, justamente por acreditar que há um terreno fértil no Brasil para o crescimento do livro digital. Na próxima terça-feira, às 19h30m, ele estará no Oi Futuro do Flamengo, para participar do evento Zona Digital, em que vai abordar o tema do “livro aplicativo”.

— No Brasil, a marca das editoras é muito forte. Mas o poder do automarketing, de redes sociais como Facebook e Twitter, também é muito forte. Então as marcas não são mais 100% necessárias para vender livros. É preciso buscar outras formas, e é isso que os profissionais que lidam com autopublicação estão fazendo — afirma Bateman.

Um dos pilares da autopublicação está em se libertar do que seriam as amarras do mercado. Um autor que paga por sua obra não precisa esperar na fila de uma editora, muito menos precisa ouvir opiniões de um editor [muitas vezes duras, mas também reais] sobre seu livro. Para ele, vale a divulgação pela internet, em redes sociais e sobretudo nas resenhas escritas pelos próprios leitores [e, claro, por que não?, por amigos e parentes] no site da Amazon.

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De acordo com um relatório da Bowker, a agência que cuida dos registros americanos do ISBN, cerca de 87 mil ebooks foram publicados por seus próprios autores nos EUA, um número 129% maior do que o de 2006, antes de o Kindle ser lançado. Só que lançamento ainda não é sinônimo de venda. Por enquanto, a maioria dos livros de autopublicação não é comprada por mais de cem leitores.

— Uma editora tradicional sabe como trabalhar um livro comercialmente, tem todo um conhecimento que não pode ser menosprezado — afirma Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras. — Minha impressão é que a Amazon tinha a expectativa de que a autopublicação fosse estourar e dar certo muito rápido. Mas não aconteceu com a velocidade que esperavam, e a própria Amazon acabou lançando uma editora nos moldes tradicionais.

Marques da Costa argumenta, ainda, que o que vem ocorrendo hoje com o sucesso de algumas obras publicadas de forma independente é mais um fenômeno de nicho do que uma ameaça ao formato consagrado pelas editoras.

— Esses grandes fenômenos de autopublicação costumam ser romances femininos ou eróticos. Raramente algo diferente aparece. Mas, mesmo nesses casos, geralmente os autores acabam assinando depois com as grandes editoras, como foi o caso do “Cinquenta tons de cinza” — diz ele. — Para o leitor, o julgamento de uma grande editora, do que deve ou não vir a público, é muito importante.

Na última quarta-feira, a versão em ebook de “Cinquenta tons de cinza”, lançada no Brasil pela editora Intrínseca, estava em sexto lugar na lista dos mais vendidos no site brasileiro da Amazon. Já em sétimo, logo atrás do maior sucesso de 2012 no mercado editorial, aparecia um livro chamado “Paris para principiantes”, um guia de viagem com texto e fotos de Paulo de Faria Pinho.

‘A filosofia é outra’

Ao preço de R$ 1,99, “Paris para principiantes” foi lançado pela KBR, uma empresa com 91 títulos no catálogo, em que os próprios autores pagam pela publicação de seus livros. A sede da KBR fica em Petrópolis, região serrana do estado do Rio, na casa de sua fundadora, CEO, única funcionária e uma de suas principais autoras, Noga Sklar.

— O jogo ficou aberto para todo mundo. Antes da chegada da Amazon, a KBR não era nada. Agora, estou aqui pensando no que vai ser o futuro da empresa — explica Noga. — Até agora, o editor era aquele santo no altar, ninguém conseguia falar com ele. Eu como autora sempre fui maltratada, sofria rejeição. Mas há milhões de outras saídas, não precisa ficar na fila de uma editora por três anos, esperando alguma coisa acontecer.

Também no site brasileiro da Amazon, um dos livros mais vendidos dentro da categoria “erótico” é “Sem graus de separação”, um dos oito já lançados por Noga. A KBR foi criada justamente para levar à Amazon americana os livros de sua fundadora e cresceu quando ela passou a ser procurada por outros autores interessados em oportunidades semelhantes de levar sua obra para o público. Noga costuma chamar seus autores de “sócios” da empresa, já que eles financiam boa parte do trabalho de produção.

— Se as grandes editoras não perceberem que o negócio mudou, elas vão ter problemas. A filosofia é outra. Essa coisa de as editoras fazerem tiragem vai acabar. Elas também vão ter que começar a olhar mais para as redes sociais e outros canais de promoção. O que a Amazon faz melhor é tratar bem o consumidor. É tudo personalizado. Eles te chamam pelo nome, sabem seu gosto. E permitem que você compartilhe suas impressões sobre um livro em avaliações que têm tanto valor quanto a de qualquer profissional — diz Noga.

Porém, mesmo com o bom resultado de “Paris para principiantes” na lista de mais vendidos da Amazon, havia até o meio da semana uma única avaliação de consumidor sobre o livro. “O ‘Paris’ de Paulo Pinho é uma caixa de surpresas e uma joia de livro, com crônicas deliciosas, lindas fotos do próprio autor e dicas inusitadas”, diz a resenha, acompanhado da cotação máxima de cinco estrelas, escrita pela própria Noga Sklar.

Definitivamente, uma característica fundamental do universo da autopublicação é saber vender o próprio peixe.

Por André Miranda | Publicado originalmente em O Globo | 15/12/2012

Os modelos de negócio estão mudando: é o momento de tentativa e erro


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 12/12/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

O anúncio no final da semana passada de que a Random House está lançando três selos que priorizam o digital foi só o exemplo mais recente de como as editoras estão explorando novos modelos de negócios. Poucos dias antes recebemos a notícia da parceria entre a Simon & Schuster e a Author Solutions fazendo com que a S&S seja a terceira maior editora – depois da titã de publicações cristãs Thomas Nelson e da Harlequin, forte na área de romances – a colocar seu nome no setor de “serviços ao autor”.

A S&S não é a primeira das Seis Grandes a dar este grande passo, a Pearson, empresa coligada à Penguin, comprou a Author Solutions há alguns meses e a HarperCollins comprou a Thomas Nelson no ano passado. Então, na verdade, três das Seis Grandes agora estão envolvidas com serviços ao autor – e são, na verdade, quatro das seis, lembrando a outra recente grande notícia de que a Penguin e a Random House estão em processo de fusão. [E não estou contando iniciativas mais modestas como o “Authonomy” da HarperCollins ou o “Book Country” da Penguin.]

Eu me lembro de ter participado de um painel no Canadá alguns anos atrás com Carolyn Pittis, a pioneira digital, uma pessoa muito inteligente, da HarperCollins, que citou a forma como a maioria das editoras faz negócios – comprando o direito de explorar copyrights e depois monetizando em cima deles – como um dos possíveis modelos de negócios para uma editora. Ela explicitamente mencionou “serviços ao autor” como outra. Isso foi antes de sua empresa ter lançado o Authonomy, alguns anos antes do “Book Country”. Em outras palavras, grandes editoras já estão pensando há um tempo sobre modelos “autor-paga” [assim como os editores profissionais].

Todos eles seguem o caminho da Amazon, que há anos vende à la carte todos os componentes de sua própria cadeia de valores. Recentemente li um e-book chamado “The Amazon Economy” publicado pelo Financial Times [um exemplo de uma editora não especializada em livros ajustando seu próprio modelo de negócios para ser uma editora de livros, falaremos mais disso outro dia] que sugeria que a Amazon na verdade ganha mais dinheiro disponibilizando sua infraestrutura para outros do que vendendo coisas.

Em outras palavras, há um potencial de lucro na desconstrução da cadeia de valor de uma empresa e a venda de acesso a ela em pedaços.

Em certo sentido, as editoras sabem disso há muito tempo. Elas tornaram a parte de suas operações externas ao livro [estoque, distribuição, crédito, recolhimento e vendas] disponíveis a outras editoras há anos. Algumas editoras, como a Random House, transformaram a distribuição em um negócio importante com suas próprias estruturas de gerenciamento dentro da corporação. A Perseus, que é uma editora montada em cima de vários selos pequenos, construiu um serviço de distribuição que possui mais de 300 clientes. A Ingram, cuja operação central é de venda por atacado combinado com a subsidiária Ligthning que montou nos anos 90 para fornecer serviços de impressão sob demanda e, mais tarde, serviços digitais, possui uma oferta de distribuição comparável.

Mas o que a Author Solutions – e vários concorrentes menos robustos [e bem mais baratos] – mostraram é que há uma forte demanda para os serviços que precedem a entrega do livro para a venda.

Não tenho outro método, a não ser a inferência, para saber como a Thomas Nelson e a Harlequin estão fazendo com sua oferta de serviços ao autor baseada na Author Solutions, mas o fato é que a Pearson, empresa-mãe da Penguin, comprou as duas e  a S&S fechou um acordo, e isso certamente sugere que a ASI possui um bom histórico. Claro, eles são líderes do mercado porque ganham dinheiro e ganham dinheiro tendo boas margens. E os preços dos serviços da iniciativa Archway – o projeto da ASI com a S&S – são mais altos do que em outras plataformas. Isso não significa que eles não vão convencer muitos aspirantes a autores a usá-los.

Isso é tudo muito lógico, mas também muito enganador. A maioria das editoras – pelo menos até bem recentemente – considerava os serviços de distribuição que eles oferecem como commodities, ou seja, amplamente disponível e altamente comparável. É verdade que qualquer uma das grandes editoras, muitas das menores, e os distribuidores, além da Ingram e da Perseus, podem distribuir as capacidades centrais: contas ativas com todos os grandes varejistas, a capacidade de fazer negócios com eles e recolher o dinheiro, e a disponibilidade do livro em toda a cadeia de suprimento. Obviamente, todos lutam para serem melhores que os concorrentes e assim justificar seus preços mais altos.

Mas, acima de tudo, o orgulho e a crença da editora em uma diferença qualitativa entre o que oferecem e o que a concorrência resulta em um valor muito maior. As editoras geralmente acreditam em seus editores e marqueteiros mais do que acreditam em suas forças de vendas e estoques. [Gente como eu, há 20 anos em vendas, costumava dizer, com ironia consciente, que havia dois tipos de livros: sucessos editoriais e fracassos de vendas e marketing.] Eles veem seu tempo e sua atenção como algo muito precioso. Eles são muito mais relutantes para tornar este tempo disponível para alugar e, de fato, parece que todos os três acordos de editoras com a Author Solutions têm como base o fornecimento dessa capacidade pela ASI. Elas não vêm das próprias editoras.

Tudo isto significa um desvio de outro componente importante para uma publicação bem-sucedida: a coordenação de todas estas atividades. A publicação bem-sucedida é o resultado de várias pequenas decisões: na edição, na apresentação [tanto do livro em si e do metadado, como cópia de catálogos e press releases, que servem como apoio], e, cada vez mais, nas tags de SEO, sinais sobre “colocação” que estão incluídos no arquivo digital do livro, ou metadado de marketing. Na era digital, estas coisas podem mudar com o tempo. As notícias diárias – sobre votos na ONU ou escândalos sexuais no Pentágono ou qualquer outra coisa – poderiam pedir uma mudança nos metadados de um livro publicado há um mês ou um ano para deixá-lo com maior probabilidade de ser mostrado pelos mecanismos de busca hoje.

[O e-book do FT sobre a Amazon, que eu recomendo, deixa claro que a empresa também vende “coordenação” do lado varejo como um valor adicional extremamente importante, e aparentemente muito apreciado.]

Na verdade, a decisão de colocar mais ou menos esforço em um livro está – ou deveria estar – baseada em uma análise de vendas e tendências de busca, assim como em medidas mais tradicionais, como análise de resenhas.

Nos velhos tempos pré-Internet, publicar livros era como lançar foguetes. A maioria caía na Terra, alguns entravam em órbita. Mas os esforços do editor – na maioria das vezes – se limitavam ao lançamento. Então, a equipe de marketing poderia entrar em ação. Isso não era uma forma de fazer negócios que agradava aos autores, mas era consistente com as realidades do mercado. As grandes redes de livrarias não matinham um título em estoque se seu apelo de vendas não ficasse evidente no caixa em 90 dias. Sem cópias de um título nas lojas, não havia motivo para a editora insistir.

Isso é algo que mudou muito na era digital. Com alguns títulos e gêneros representando metade de suas vendas através de e-books ou vendas online, não há mais limite de tempo em relação à eficiência do marketing. No que é um assunto que vamos certamente explorar em uma conferência futura, isso pode estar causando engarrafamentos nos departamentos de marketing das editoras. Eles não podem mais esperar que os títulos mais antigos continuem abrindo espaço e ao mesmo tempo trabalhar nos mais novos.

A Open Road é uma editora exclusivamente digital que trabalha principalmente, mas não exclusivamente, com catálogos. [Eles parecem estar também se especializando em publicar livros de editoras estrangeiras e em ajudar editoras de livros ilustrados a entrar no mundo dos e-books.] O que me impressionou quando eu me encontrei com eles há um ano foi que eles não distinguiam entre “lançamentos” e “catálogos”. Eles faziam marketing de acordo com o calendário, em eventos e feriados, e não nos livros mais novos. Acredito que isso na verdade trouxe maior relevância a seu marketing. Obviamente, isso também vinha de uma necessidade, pois eles não têm um fluxo de “novos” livros para agenciar. Mas também capitalizaram em cima de uma nova situação, onde os livros não ficam de repente indisponíveis porque as lojas os tiram das prateleiras.

Um produto secundário de vendas de longo prazo é a maior facilidade para as editoras agruparem os livros para o marketing. Agora quatro livros em um tópico similar podem ser unidos, mesmo se tiverem sido publicados meses ou até anos depois. A Open Road faz um amplo uso desta realidade.

Estes são desafios e oportunidades que forçam os editores a repensar a organização de seus departamentos de marketing e a disposição de seus recursos de marketing. É uma oportunidade para uma editora aumentar o valor de um autor se conseguir dar uma nova vida a um livro seis meses ou um ano depois de lançado, quando outros títulos parecidos chegarem ao mercado ou um evento faz com que um livro antigo volte a ser relevante. Como autores estão cada vez mais dispostos a fazer algumas coisas úteis por si mesmos para capitalizar nestas oportunidades, eles ficarão cada vez mais impacientes com as editoras que desistirem dos seus livros cedo demais.

Há coisas que os autores simplesmente não podem fazer. Eles não podem ajustar o metadado e adicionar tags ao livro. Eles não conseguem fazer promoção com as livrarias quando o novo livro de outra pessoa faz com que o dele volte a ser relevante. Autores tampouco têm o benefício de chegar às melhores práticas da marketing e às regras práticas ao examinar os dados de desempenho por vários grupos de títulos: grandes conjuntos de títulos, categorias, vendas comparadas e outros. Estão contando com que as editoras façam isso.

O papel da editora ao coordenar e administrar uma miríade de detalhes sempre foi uma das principais formas de acrescentar valor e pode ser ainda maior na era digital. Mas só se eles realmente fizerem isso, e há uma pequena indicação de que têm esta intenção pelos títulos que estão sendo pagos.

Jane Friedman [a blogueira e consultora para escritores, não a CEO da Open Road] aponta que sua alma mater, Writers Digest e Hay House – a editora vertical em mente-corpo-espírito que conseguiu interagir tão bem com seu público – também fez um acordo com a ASI. Ela aponta que os grandes sucessos que todos conhecemos entre os autores autopublicados – John Locke, Joe Konrath e Amanda Hocking estão entre os mais famosos – não publicaram pela ASI. Jane discorda da promessa da ASI de ajudar editoras a “monetizar manuscritos não publicados”. É difícil discordar que editoras que pagam autores para publicá-los podem estar andando na corda bamba ao ter paralelamente um modelo de negócios onde elas cobram dos autores por serviços que provavelmente não lhe trarão dinheiro.

Por outro lado, a Random House tinha feito uma declaração enfática sobre o valor que editoras legítimas podem trazer com o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza, originalmente uma história autopublicada e agora, graças à editora, o maior sucesso comercial de todos os tempos. Nenhum livro autopublicado chegou perto e demorará muito tempo antes de aparecer outro. Vejo que esta postura de privilegiar o digital [no qual eles não são os primeiros, mas parecem ser os primeiros a promover agressivamente a diáspora de autopublicação] como um passo em direção a um modelo de negócio diferente, que reconhece as novas realidades comerciais do mercado editorial. Ele permite a publicação com menores investimentos – os autores nestas editoras digitais dificilmente receberão adiantamentos em níveis próximos aos dos livros da Random House – e talvez receberão menos atenção também. O marketing é simplificado pelo fato de que não se trata de livros impressos e, portanto, não envolve as livrarias. Assim, o limiar da lucratividade é muito mais baixo e, como descobrimos, eles ainda podem decidir dar a qualquer livro nestes novos selos o “tratamento completo” – livros impressos estocados em livrarias – mais tarde, se quiserem.

É muito cedo para julgar se a relação entre editoras e serviços de autores vai agregar valor para todos. Todas essas editoras agora têm ou terão, pelo menos, um grupo estável de autores autopublicados que estão contribuindo marginalmente a eles e que significam um interesse financeiro [mesmo sem investimento inicial]. Há definitivamente um conflito inerente entre, de um lado, tentar lucrar o máximo com um autor contratando serviços editoriais e, de outro, recrutar autores e livros que serão bem-sucedidos comercialmente.

Mas as editoras ainda sabem, mais do que o resto, como fazer para que livros com potencial comercial vendam. Se a ASI e suas editoras parceiras podem encontrar a fórmula para que a promessa inerente de sucesso da marca de uma editora chegue efetivamente aos autores que contratam serviços, será respondido nos próximos meses.

Ter mais empresas tentando descobrir isso certamente melhora as chances de alguém conseguir [e a ASI tem muito interesse em espalhar as melhores práticas quando elas aparecerem]. E com serviços cada vez mais baratos para estes aspectos de autopublicação que realmente são commodities, isso significa que ASI e todos seus parceiros terão de demonstrar de forma bastante convincente que eles podem acrescentar o marketing eficiente a sua oferta mista, isso se quiserem continuar por aqui daqui a dez anos.

Michael Cader e eu estamos fazendo nossa primeira apresentação da Authors Launch, em parceira com nossos amigos na Digital Book World, em 18 de janeiro, sexta-feira, o dia seguinte à DBW 2013. A questão de onde se unem as linhas entre os esforços das editoras e dos autores é um tópico importante. Temos um grande grupo de especialistas para trabalhar: a já mencionada Jane Friedman, junto com Porter Anderson, Jason Allen Ashlock, Dan Blank, o ex-marqueteiro da Random House Pete McCarthy, coautores Randy Susan Meyers e M. J. Rose, Meryl Moss e David Wilk. Entre os editores estão Matt Baldacci da Macmillan, Rachel Chou da Open Road, Rick Joyce da Perseus e Matt Schwartz da Random House. Esta é uma conferência realmente voltada para autores publicados em vez deautopublicados, mas ensinará habilidades e dará ideias a qualquer autor disposto a investir tempo e esforço para vender seu livro.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 12/12/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].