Obras que lembram antigas novelas de rádio superam vendas de eBooks


O mercado editorial tem sido bom para Jeffery Deaver. Nos últimos 26 anos, Deaver, um advogado que se tornou escritor de obras de mistério, publicou 35 romances, dos quais foram vendidos 40 milhões de exemplares globalmente.

No entanto, sua obra mais recente, “The Starling Project” [O projeto estorninho], uma história de mistério ambientada em vários países e protagonizada por um investigador de crimes de guerra, não está disponível em livrarias nem será impressa.

A história foi concebida, escrita e produzida como um drama original em áudio para a produtora e loja de audiolivros Audible. Se os leitores de Deaver quiserem saber a história, terão de ouvi-la.

Meus fãs são muito fiéis“, disse o autor. “Se souberem que fiz isso e que se trata de uma história de mistério, acho que vão se interessar.

Lançado em meados de novembro, “The Starling Project” vai testar a aceitação de uma forma de arte emergente que mescla o charme imersivo de antigas novelas radiofônicas com a tecnologia digital. Ele também é o sinal mais recente de que os audiolivros estão ganhando um espaço próprio.

A Audible já produziu cerca de 30 obras originais, que variam de uma série de mistério sobre uma conspiração que deixa a Índia e o Paquistão à beira de uma guerra nuclear a contos originais ambientados no universo das novelas de vampiros de Charlaine Harris.

Nesse campo cheio de oportunidades, não é preciso disputar o olhar das pessoas“, disse Donald Katz, diretor-executivo da Audible. “Para nós, esse é o momento de parar de buscar conteúdo que possa gerar áudios fantásticos e partir para a definição de qual será a base estética dessa nova mídia.

Alguns evitam o termo “audiolivro” e classificam seu conteúdo como “entretenimento em áudio” ou “filmes para os ouvidos”. “The Starling Project” dura pouco mais de quatro horas e conta com 29 atores em 80 personagens.

É compreensível que os autores estejam ansiosos para marcar presença nessa mídia. Nos oito primeiros meses deste ano, as vendas de audiolivros digitais tiveram alta de até 28% em relação ao mesmo período do ano passado, ultrapassando amplamente o crescimento de 6% dos e-books, segundo a Associação de Editoras Americanas. Por sua vez, as vendas de obras impressas de capa dura nos gêneros de ficção adulta e não ficção tiveram uma queda de quase 2%.

As editoras de audiolivros lançaram quase 36 mil títulos em 2013, sendo que em 2010 o número foi de apenas 6.200, segundo a Associação de Editoras de Áudio. Com mais de 170 mil obras, incluindo 18 mil produzidas neste ano, a Audible domina esse mercado.

Deaver disse que quando a Audible lhe propôs que escrevesse uma história original a ser lançada em áudio, ele ficou intimidado. “Era como escrever uma peça não visual“, comparou. Ele havia colaborado em duas outras obras originais em áudio para a Audible, com mais de dez escritores, porém nunca havia escrito algo do início ao fim.

A trama do novo audiolivro acompanha um militar da inteligência reformado, Harold Middleton, que é recrutado para impedir um plano sombrio de assassinato em massa chamado “The Starling Project”. A ação transcorre no México, em Washington, em Londres, em Marselha e na região central da África. Deaver, porém, rapidamente se viu em dificuldades e descobriu que seria útil indicar localizações geográficas por meio de diálogos. Em uma cena, por exemplo, ele optou pelo anúncio de um comissário de bordo dando boas-vindas aos passageiros na França.

Deaver disse esperar que o projeto o ajude a conquistar um novo público de ouvintes.

Há muitas alternativas fracas de leitura por aí, e os autores estão dispostos a enfrentar uma concorrência acirrada com produtos como [os jogos] Assassin’s Creed, Minecraft e Angry Birds“, afirmou ele. “Essa é uma maneira mais fácil de as pessoas terem acesso a boas narrativas.

POR ALEXANDRA ALTER | DO ‘NEW YORK TIMES’ | Folha de S. Paulo | 13/12/2014, às 3h00

Nasce o ubook, serviço de audiolivros por streaming


Os brasileiros contam com uma nova forma de consumir literatura. Em vez de ler, podem ouvir os livros. Nasceu há cerca de um mês o ubook, primeiro serviço de assinatura de audiolivros por streaming. Seu conceito é similar ao do Netflix para vídeos ou do Rdio para música: por uma mensalidade fixa, é possível ter acesso ilimitado a todo o catálogo através de um app móvel, hoje disponível para iOS e HTML5 e, em breve, para Android. Nas primeiras duas semanas, conquistou mais de 40 mil assinantes, a maioria na Claro, primeira operadora com a qual firmou acordo de carrier billing, para cobrança da assinatura na conta telefônica. A projeção é superar 1,5 milhão de assinantes dentro de um ano somente entre as teles – acordos de carrier billing com Oi e TIM entrarão no ar em breve. A mensalidade custa R$ 18,90 no cartão de crédito ou US$ 6,90, pelo iTunes billing. Com as operadoras a cobrança é semanal: R$ 4,99.

O ubook conta hoje com um catálogo entre 800 e 1 mil livros. E 25 novos títulos são acrescentados por semana. A ideia é manter um catálogo enxuto, girando entre 1,5 mil e 2 mil livros, sempre novos. “Não quero ter cauda longa. Fazemos uma curadoria rigorosa. Se um livro ficar seis meses sem nenhum acesso, é retirado de catálogo“, explica Flávio Osso, fundador e CEO do ubook.

As editoras recebem uma remuneração fixa por cada título adicionado ao catálogo e outra que varia de acordo com a audiência do livro. O ubook tem contrato assinado com a Ediouro e com a Novo Conceito, e promete fechar nas próximas semanas com outras dentre as maiores de best sellers do Brasil, diz o executivo.

As editoras reclamam que os jovens não têm hábito de leitura. Mas observamos que esse grupo está sempre com fone no ouvido e celular no bolso. Se o objetivo é fazê-lo consumir cultura, não importa se ele vai ler ou ouvir… Nosso discurso para as editoras é: se você tem dificuldade de entregar esse conteúdo no papel, por que não tentar através de um canal que está no bolso do consumidor?“, relata Osso.

O público-alvo não se restringe aos jovens, mas também àqueles leitores que trabalham muito e tem pouco tempo para a leitura. O executivo cita a si próprio como exemplo: ele escuta livros dentro do carro, durante o trajeto que faz até o trabalho. “Eu passo mais de duas horas no trânsito por dia, tanto para ir quanto para voltar. Cada livro tem entre oito e dez horas de duração. Consigo ler, ou ouvir, um por semana“, afirma. Ele acredita que o serviço não canibalize a venda de livros digitais ou em papel. Pelo contrário, serviria de porta de entrada, fazendo com que o consumidor acabe comprando aqueles títulos que mais gostou de escutar.

O aplicativo do ubook permite que o usuário baixe os livros para escutá-los offline, tal como oferecem alguns serviços de streaming de música. É possível marcar trechos para escutá-los de novo depois e até gravar comentários sobre eles. O app também permite o compartilhamento de trechos nas redes sociais. A empresa planeja lançar uma versão para TVs conectadas no futuro, de forma que o usuário possa continuar a audição de casa do mesmo ponto em que parou no smartphone.

Produção

A produção do áudio é feita pelo própria ubook, com dubladores contratados para a narração. Um livro de 400 páginas gera um arquivo com duração entre oito e dez horas, o que demanda entre 15 e 20 horas de produção a um custo de aproximadamente R$ 15 mil. O valor, contudo, sobe bastante quando são convidadas celebridades como narradores. O livro “1822”, por exemplo, é narrado pelo Pedro Bial. O ator Bruno Mazzeo, por sua vez, foi convidado para narrar “As mentiras que os homens contam”, de Luís Fernando Veríssimo. E Paulo Betti emprestou sua voz em “O selvagem da ópera”, de Rubem Fonseca. Em alguns casos, os próprios autores são convidados para esse trabalho, como Nelson Motta, de “Vale tudo”, biografia do Tim Maia.

História

O mercado editorial chegou a tentar vender audiolivros em CDs no passado, mas o produto não decolou por diversas razões, como, por exemplo, a briga por espaço com os próprios livros nas estantes das livrarias. A experiência do consumidor também não era das melhores: quando parava a audição, não podia retomá-la do mesmo ponto depois. “Costumo dizer que o mercado de audiolivro nem sequer começou no Brasil. Não foi lançado na mídia correta e nem no tempo certo“, avalia Osso.

O ubook se inspirou no modelo da norte-americana Audible, que também cobra uma mensalidade para acesso a audiobooks, mas com limite de um livro por mês. A Audible foi vendida alguns anos atrás para a Amazon por US$ 300 milhões. O ubook tem como investidora a Bizvox, empresa brasileira especializada em portais de voz. Para o ano que vem, a empresa planeja exportar seu serviço para outros mercados da América Latina.

Fernando Paiva | Moble Time | 29/10/14

E audiobook? Você já experimentou?


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 08/10/2014

Não é só de epub que vive o mundo de livro digital. Considero o audiobook um tipo de arquivo que o livro pode se travestir. Mais um formato meio esquecido pelas editoras e o pior, o audiobook carrega uma carga maior de preconceito. Como assim ouvir um livro?

Olha, nem vou entrar no âmbito do quanto isso é importante para os portadores de necessidades especiais. Vou falar da praticidade mesmo.

Há um ano, acho… A Amazon comprou a Audible. Experimentei, e fiquei impressionada com a quantidade de títulos e novamente com a lavada com os gringos nos dão na arte de produzir conteúdo e dar às pessoas acesso a este conteúdo. O grande problema – que nós do ramo do e-book também enfrentamos – é que não tem quase conteúdo nenhum em português brasileiro. Encontrei somente o Adultério do Paulo Coelho. Óbvio que experimentei. Pelo que pude descobrir, o arquivo é produzido pela editora. Caso a Audible produza, ela detêm os direitos de uso de seu conteúdo. Ouvi o Adultério e me incomodava algumas entonações que a locutora fazia… Algumas vezes me questionei se ela seria brasileira… Mas o melhor do app é o uso da velocidade. Você se acostuma a aumentar a velocidade do áudio, sem mudar o timbre da voz. Acho que futuramente teremos pouca paciência de ouvir uma pessoa falar devagar, pois com o uso do app eu fiquei meio gaga, querendo falar depressa [hihi]. Mas isso nem é importante. O mais importante é que é uma forma muito boa e prática de consumo de literatura. Mais uma fonte de renda para as editoras.

Aqui no Brasil experimentei o app Ubook. O que mais gostei é que o app é leve, simples de usar… Pude fazer um plano de R$ 4,99 com a Claro (minha operadora) e esta taxa permite que eu baixe qualquer livro do acervo pra escutar. Ele também tem marcador e espaço para anotações. Muito simpático, porém com deficiência de conteúdo. As editoras mais uma vez, não pensaram nesta forma de “ler” e na produção deste tipo de arquivo.

Toda forma de ler é válida, vamos incentivar a leitura, seja ela como for…. Obra literária é obra literária e se podemos usar a tecnologia para ter mais acesso a elas, por que não?

Será que as outras lojas de livros digitais entrarão no ramo? Ora, quem vende ePub não poderia vender também audiobook?

E pelo amorrrrr…. Esqueça DRM. DRM de áudio já se provou um fracasso!

Alguém tem mais informações sobre audiobook? Ou mais informações do que coloquei na coluna? Me escreva que publicarei para compartilhar com os leitores: camila.cabete@gmail.com

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 08/10/2014

Camila CabeteCamila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books [@CakiBooks], editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial [@ZoEditorial], que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em um paraíso chamado Camboinhas, com sua gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre o dia-a-dia do digital, críticas, novos negócios e produtos.

Oito aplicativos para fazer de você um leitor melhor


A leitura é extremamente importante para o desenvolvimento pessoal. Porém, poucas pessoas se interessam verdadeiramente pelos livros. Se você não se sente tentado a ler e gostaria de mudar essa situação, a tecnologia pode ser uma ótima aliada. Cada vez mais aplicativos são voltados para essa área. Confira 8 que podem tornar você um leitor melhor:

1. Instapaper

O aplicativo permite que você salve e descarregue textos da web para consumi-los off-line. O texto é reformatado, dando um formato mais limpo e fácil de ler, permitindo que você se concentre no mais importante: o conteúdo.

2. Syllable

O principal objetivo deste app é ajudar seus usuários a aprender a velocidade correta para a leitura. Você pode escolher o texto e ele faz o restante para você, deixando seu ritmo e agrupamento completamente personalizáveis.

3. Dictionary.com Dictionary & Thesaurus

Além da funcionalidade óbvia como dicionário, o aplicativo também funciona como uma enciclopédia digitalizada repleta de palavras do cotidiano.

4. Readmill

O Readmill é um aplicativo de e-reader que também permite que o usuário participe de uma comunidade de discussões e análises de qualquer livro que este esteja lendo. Caso seja do seu interesse, você pode ver destaques públicos de outros usuários do app, além de fazer destaques de sua preferência.

5. Goodreads

Com este aplicativo você pode ler, escrever comentários, ranquear livros e ver comentários da comunidade. Além disso, ele também recomenda títulos baseando-se em suas listas de leitura.

6. Longform app for iPad

O Longform também transfere livros para que você leia off-line, mas possui curadoria de artigos para que você não encontre os mesmos conteúdos.

7. Lumosity

O Lumosity tem como objetivo melhorar a memória, o foco e as funções gerais do cérebro de seus usuários. Fazendo o treinamento corretamente, você poderá apresentar melhorias na capacidade de leitura também.

8. Audible

Se você não tem tempo ou não se sente empolgado em pegar um livro ou abrir um aplicativo de leitura, pode contar com o Audible, aplicativo que oferece mais de 150.000 títulos em formato de áudio.

Universia Brasil | 11/11/13

Modelo de assinatura de eBooks: bom para nichos, não para o mercado em geral


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/07/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

Outro novo negócio de venda de ebooks apareceu em nosso escritório este mês, divulgando uma proposta de assinatura. Falei ao empreendedor: “Sou cético sobre o modelo de assinatura para ebooks”, e ele respondeu, “Eu sei”.

Tivemos uma grande conversa, mas eu ainda estou cético. Quando falo isso, quero dizer que sou cético de que um modelo de assinatura oferecendo ebooks em geral possa funcionar.

Certamente, há uma lógica no modelo de assinaturas, especialmente para aqueles que pensam que o mercado editorial deveria aprender com outros mercados de conteúdo. A TV a cabo realmente começou com assinaturas e só mais tarde passou a pay-per-view, que é mais como o modelo de vendas de ebooks [mas não exatamente]. Temos Netflix para filmes e programas de TV, Audible para audiobooks e uma série de serviços para música, sendo que o mais bem-sucedido parece ser o Spotify.

Tenho uma assinatura do Spotify, apesar de não usá-la muito. Talvez seja besteira, mas gosto de pagar $119,88 dólares ao ano [que significa $9,99 por mês] para ter acesso a simplesmente qualquer música que eu poderia querer ouvir instantaneamente quando surge a necessidade [ou sugestão] para ouvi-la. [Spotify raramente me desaponta por não ter a música.] E isso apesar de que a maioria das minhas necessidades é satisfeita com as mais de 6.000 músicas que tenho no meu repositório do iTunes, das quais as 1.000 melhores estão no meu celular.

Spotify foi citado pelo empreendedor que conheci como uma motivação para começar seu negócio de assinatura de ebooks. Como ele corretamente apontou, “compartilhar uma playlist” com um amigo assinante do Spotify permite que ele imediatamente – sem custos ou fricção adicional – “consuma” aquela música. Compartilhar uma playlist no iTunes com alguém o leva a ter de fazer as compras e, além do dinheiro, é preciso tempo e [um considerável] esforço entre receber a playlist desfrutá-la.

Então, foi colocado que esta lógica deveria se aplicar a livros. Com várias exceções compreensíveis, não tenho certeza se pode ser assim, pelo menos no futuro próximo.

Tenho bem fresco um discurso em Washington sobre o que o Departamento de Justiça entende sobre o mercado editorial. A resposta, se resumida a uma única palavra, seria “granularidade”.

De acordo com a associação de produtores, os lançamentos de filmes nos EUA em 2007, 2008 e 2009, foram 609, 633 e 558 respectivamente. Os filmes estrangeiros, e talvez alguns filmes independentes, não foram contabilizados e podem ser adicionados àqueles números para avaliar o que está disponível, mas a magnitude é essa.

As Seis Grandes Editoras lançam em média mais de 3.500 títulos por ano cada. E há muito mais produção de títulos, além das Grandes Seis, do que há produção de filmes fora dos estúdios de Hollywood. Seria muito conservador estimar que haja 100.000 novos títulos produzidos profissionalmente por ano, voltados para o consumo. [Muito mais é publicado para uso profissional ou como textos de escola ou faculdade, além dos e-books autopublicados, que às vezes atingem o grande público, o que multiplicaria várias vezes este número.]

Lançamentos comerciais de música ficariam entre filmes e livros em número, mas muito mais perto dos filmes.

Esta é a resposta curta a por que a maioria das pessoas compartilha música e experiências de filmes com muito mais amigos e conhecidos do que livros. Também é a resposta curta para o motivo pelo qual pessoas fora da indústria editorial simplesmente não entendem; cada um destes livros é um empreendimento criativo e comercial separado, cada um com seu próprio contrato, seu próprio caminho de desenvolvimento e sua própria exigência de marketing.

[Também ajuda explicar por que muitas pessoas que usam bibliotecas para algumas leituras não as usam para todos os tipos de livros. Nenhuma biblioteca terá todos os livros que um sócio voraz gostaria de ler.]

Nos dias anteriores à Amazon.com e aos livros digitais, havia dois tipos de serviços de assinatura que funcionavam para os livros comerciais.

Clubes de livros ofereciam acordos de preço e curadoria [ajuda com a seleção], mas era o acordo de preços que realmente atraía os membros. Antes das livrarias em todos os lugares [algo que chegou nos anos 80], Book-of-Month Club e The Literary Guild tinham os livros com melhor perfil distribuídos a consumidores que teriam dificuldades em consegui-los [assim como aqueles com livrarias próximas que só queriam a conveniência da entrega pelo correio.] Com o crescimento das livrarias, os Clubes descobriram que “clubes de nichos” [ao redor de mistério, ficção científica ou assuntos como jardinagem] aparentemente eram mais lucrativos do que os grandes clubes de interesse geral. [“Aparentemente” é uma palavra bastante operativa, mas a explicação dela vai ter de esperar outro post.]

O outro conceito de assinatura que funcionou foi o de “séries”. O líder de mercado foi a Time-Life Books. Estes livros tratavam de um assunto em especial [II Guerra Mundial, por exemplo] e eram “empacotados” especificamente para a série, não estando disponíveis em lojas. A continuidade se baseava no interesse intenso sobre o assunto e na mentalidade de “coleção”. Alguém que havia começado a colecionar a série não queria ter buracos em sua coleção.

Ambos os modelos foram derrotados pela compra de livros online que, de repente, fez com que todos os livros estivessem disponíveis para entrega em domicílio, para qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Em nichos específicos, os modelos de assinatura podem funcionar muito bem. O avô deles no lado digital é Safari Books Online, originalmente concebido e construído pela O’Reilly em parceira com a Pearson. Safari serve uma comunidade de programadores e possui uma grande coleção de livros instrutivos e de referência voltados para uso profissional. A maioria dos usuários está sempre consultando os livros, e não lendo-os direto. E gostam da ideia de dar uma olhada em vários livros para tratar um problema que estão enfrentando.

Safari foi pioneiro no modelo de dividir a parte das editoras das taxas de assinatura através da métrica do uso. Quanto mais seu livro é visto, mas dinheiro você recebe do total. E como os usuários do Safari vão quase sempre encontrar as respostas que precisam dentro do serviço, deixar seus livros de fora significa que ele não será encontrado e usado. Como pelo menos uma parte do uso do Safari poderia levar à venda do livro em si [mesmo se isso não for muito frequente para a maioria dos livros], este elemento de descoberta é perdido junto com qualquer renda gerada se o livro não estiver incluído no banco de dados. Uma editora pode estar confiante de que não está perdendo muitas vendas se estiver dentro do Safari.

[O modelo que parece ser “tudo que você quiser por um preço único” para o comprador e do tipo “pague pelo uso” para o dono do conteúdo de uma forma ainda mais pura do que o Safari é o acordo oferecido pela Recorded Books e seu serviço de download digital para audiobooks para bibliotecas. Há outros modelos de assinatura no espaço da biblioteca; é uma distração tratá-los neste post, por isso não serão discutidos aqui.]

O’Reilly logo viu que seus livros, sozinhos, não seriam as melhores ofertas de assinatura, então abriram à participação de outros desde o início. Safari é excepcional em pelo menos três pontos: são maiores do que uma editora, são construídos sobre uma base de usuários profissionais, e geram valor principalmente através de trechos, não de leituras de cabo a rabo.

Mas se uma editora é forte num nicho, um serviço de assinatura pode funcionar para eles também: Baen Books [ficção científica] e Harlequin [romance] são duas editoras de nicho que venderam assinaturas com sucesso. [Na verdade, a Harlequin reconhece sub-nichos, segmentando ainda mais sua audiência para ter um alvo melhor.] A editora de ficção científica Angry Robot, da The Osprey, oferece assinaturas. eBooks por assinatura também são parte do modelo da Dzanc, que trabalha mais com livros literários [ficção e não-ficção; não são realmente de nichos, mais de “qualidade”] e será interessante se eles conseguirem fazer o paradigma de “qualidade” funcionar da mesma forma que “romance” e “ficção científica”.

Sourcebooks é uma editora geral, mas possui uma forte lista de romances. A editora está tentando estabelecer um clube e uma comunidade chamada “Discover a New Love” que opera de forma mais parecida com a velha BOMC: assinantes podem escolher um dos quatro títulos em promoção, além de conseguir outros benefícios de descontos em outros livros e a possibilidade de receber antes novos títulos.

Assinaturas são oferecidas na área de livros infantis também. A Disney Digital Books possui um sistema de assinatura mensal, assim como a Sesame Street eBooks. Nos dois casos, o modelo é de entrega baseada em browser em vez de downloads.

A F+W Media é uma editora que funciona em vários nichos verticais. Eles possuem duas grandes vantagens. Uma é simplesmente trabalharem de forma vertical. Possui público definido por seu interesse, o que é a chave para fazer uma oferta de assinatura funcionar no negócio de livros. A outra é que já foram editores de revistas e operadores de clubes de livros, então possuem experiência no contato direto com clientes e na administração destes relacionamentos. Também possuem vários nomes. E a F+W está administrando ofertas de assinaturas para muitas coisas além de ebooks.

A maioria das comunidades da F+W é de não-ficção [específica por assunto] e eles oferecem assinaturas para conteúdo em arte, redação, e design. Mas também estão se aventurando no mercado de romances agora e sua oferta Crimson Romance segue o modelo “tudo que você puder ler”. A Baen introduz o projeto de lançar uma novela em estágios para assinantes, como uma série.

E notamos recentemente que as conferências TED começaram a fazer ebooks [mais ou menos: só funciona em iOS] e um modelo de assinatura é parte do que pensam fazer também. Mais uma vez: num nicho. A app que permite ogerenciamento das assinaturas foi criada por The Atavist, que é outra tentativa de construir uma base para uma editora que se distingue por suas escolhas de conteúdo, como TED ou Dzanc, em vez de manter a divisão por consumidor já estabelecida [romance, ficção científica, ou um tópico como redação ou design.]

Vale a pena notar que há ofertas de assinaturas do tipo “buffet” e outras que são limitadas, mas que oferecem descontos quanto mais compras forem feitas. Essa variação existe em outras mídias também. Spotify é um preço único para tudo; Audible e Netflix medem seu uso e você pode pagar mais se consumir mais.

Há um forte padrão aqui para as ofertas de assinatura que estamos vendo.

Geralmente são feitas pelas editoras. [Safari não é uma editora, mas foi iniciada por editoras.] Isso significa que estão trabalhando com as margens das editoras [maiores do que as de um agregador]. Controlar o fluxo do produto significa que podem fazer bom uso da interação com sua audiência, aprendendo através de dados e conversas quais os próximos passos que deveriam dar. E, mais importante de tudo: do ponto de vista da oferta de um produto, estão focados.

É precisamente o oposto de Spotify, Netflix ou Audible que querem todas as canções, filmes, programas de TV ou audiobooks que puderem.

Então, que tal um modelo de ebooks mais geral?

Ainda não existe e não acho que vai acontecer num futuro próximo, apesar das ambições do meu recente visitante. Os desafios de montar a base de títulos são desencorajadores e, como espero que este post deixe claro, também é fornecer e demonstrar valor persuasivo.

Só consigo ver um player que poderia ser capaz de criar uma oferta de assinaturas mais gerais no médio prazo. [Adivinhem quem é.] Os “por quês” disso serão o tópico de um post futuro.

Uma coisa que é bastante certa é que quando existem muitas editoras oferecendo assinaturas em seus nichos [e algum dia isso vai acontecer], elas usarão algum serviço com base na Nuvem de um tipo ou de outro. Ninguém vai pedir ao departamento de TI que crie o software para trabalhar com isso.

Vou admitir que não programei nada específico sobre “assinaturas” no programa “Book Publishing in the Cloud” que estamos realizando no dia 26 de julho, mas se isso é o que algum participante quiser saber, terá uma grande oportunidade nas sessões de

“Conversas com Especialistas” para conseguir as respostas. Quase todos os palestrantes estarão disponíveis durante um tempo estruturado para conversas, assim como representantes das grandes empresas que estão patrocinando o evento.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/07/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Amazon Kindle continua com falta de suporte ao formato ePub


Kindle [AZW], TXT, PDF, Audible [Audible Enhanced [AA,AAX], MP3, MOBI não protegido, PRC nativamente; HTML, DOC, DOCX, JPEG, GIF, PNG, BMP por meio de conversão.

Esses são os formatos de conteúdo suportados pelo novo Kindle Touch, da Amazon. O modelo mais barato, chamado apenas de Kindle, não reproduz áudio. O tablet Kindle Fire, por sua vez, suporta mais alguns formatos, como OGG, MP4 e VP8.

Foi meio decepcionante ver que nenhum dos novos modelos de Kindle [assim como os velhos] oferece suporte a EPUB, um padrão bem difundido de distribuição de documentos digitais. Gratuito e aberto, é adotado por muitos repositórios de livros eletrônicos e compatível com leitores como Barnes & Noble Nook, iRiver Story e Sony Reader, além de vários tablets. Mas não com o e-reader da Amazon.

Vejo dois perfis de leitores que, por conta dessa limitação, podem se frustrar muito ao ter um Kindle: 1] os que leem sobretudo obras que estão em domínio público; 2] os que não querem ler em inglês.

Para os leitores do primeiro tipo, tenho a impressão de que a coisa está melhorando – parece-me cada vez mais fácil achar obras em domínio público disponíveis no formato do Kindle. Para os do segundo, o negócio é mais complicado. No Brasil, especificamente, as lojas costumam vender e-books apenas em EPUB ou PDF, e o catálogo em português na Amazon é bem limitado.

A farta disponibilidade de obras em domínio público e em português [ou outras línguas que não o inglês] no padrão PDF, que é compatível com o Kindle, não melhora muito as coisas, pois o aparelho da Amazon oferece um suporte muito limitado ao formato. Os níveis de zoom, por exemplo, são todos predefinidos [ajustar para caber, tamanho real, 150%, 200%, 300%] – não é possível dar um zoom de 130%. [Essa opinião sobre o suporte a PDF é baseada na minha experiência com o Kindle 3, atual Kindle Keyboard, mas acredito que os novos modelos – com exceção do Fire – não apresentem melhora significativa nesse quesito.]

Os donos de Kindle nos Estados Unidos ainda sofrem com o problema de muitas bibliotecas trabalharem prioritariamente com EPUB.

A questão do EPUB gera discussões intermináveis, como esta no fórum da Amazon, com 642 posts desde dezembro do ano passado. Não são raros os comentários na linha “comprei um Nook/Sony Reader/outro concorrente em vez de um Kindle por causa da falta de suporte deste a EPUB”.

Uma solução comumente utilizada é converter arquivos em EPUB [ou mesmo em PDF] para MOBI, formato semelhante ao AZW. O resultado, porém, pode variar.

Escrito por Emerson Kimura | Publicado Folha Online | 05/10/2011, 06h54