​As tendências de venda dos eBooks e outra surpresa: jornais não estão nada mortos


POR MICHAEL CADER | Publicado originalmente pela PublishNews | 02/10/2015

Fundador do Publishers Lunch analisa matéria em que
o NYT decretou o ‘apocalipse do livro digital’ e conclui que a coisa não é bem assim

No outro dia ficamos sabendo que dá para pegar algo que não é novo, colocar na primeira página do NYT, e a coisa vira algo muito importante. Enquanto as pessoas que trabalham na indústria editorial provavelmente deram de ombros para a combinação de tendências bem-estabelecidas e interpretação seletiva – vendas de e-books de editoras tradicionais têm se mantido mais ou menos iguais há anos – começamos a ouvir parentes e amigos [que acharam que havia algo importante aqui] nos dando os parabéns. Agora “Os livros impressos não morreram” junta-se oficialmente ao panteão das piadinhas. Mas vamos esclarecer entre nós pelo menos alguns dos fatos, seguindo a ordem apresentada na matéria:

As Estatísticas: AAP

Sim, as vendas de e-books, como foi relatado por editores que fornecem dados mensais para a Association of American Publishers [AAP], caíram 10,5%, ou US$ 68 milhões, nos primeiros cinco meses de 2015. Isso foi informado em 1º de setembro, e as vendas de e-books caíram por cinco meses seguidos, por isso é um padrão contínuo em vez de um novo desenvolvimento. E a verdadeira mudança aconteceu há algum tempo. As taxas de crescimento do e-book caíram drasticamente no último trimestre de 2012 e o mercado para as editoras tradicionais, medido em dólares, tem se mais ou menos estável desde o início de 2013.

A tese do jornal de que “quem adotou os e-books está voltando para os impressos” deveria se basear em algum tipo de aumento nas vendas de impressos da AAP. Mas sabe qual categoria caiu mais de 10% no mesmo período? Vendas de livros de capa dura. O total de vendas de livros de capa dura, segundo a AAP, até maio 2015 caiu US$ 91 milhões – 11,25% – chegando a US$ 718 milhões. A queda dessas vendas de impressos foi maior em porcentagem e em dólares agregados. Você não saberia disso lendo aquela matéria.

Então, talvez o que os dados disponíveis estão nos dizendo é que os novos lançamentos não venderam bem na primeira parte de 2015, derrubando tanto os livros de capa dura quanto os e-books de forma semelhante. [Além disso, os relatórios de maio não incluem dois dos três principais títulos mais vendidos do ano, Vá, coloque um vigia e Grey].

Os números da Nielsen Bookscan ratificam que um dos maiores padrões para livros impressos até agora em 2015 é de vendas mais baixas de best-sellers. Até o final de maio, as vendas unitárias de impressos dos 200 maiores títulos caíram 15% em comparação com o mesmo período em 2014. Até a atual semana de vendas, os 200 maiores títulos ainda venderam 11,5% menos unidades do que no ano anterior.

Mais amplamente, para o mercado total de impressos, o que a Nielsen Bookscan mostra para 2015 é uma mudança na participação de mercado, em vez de um crescimento significativo. Os estratos de “varejo e clube”, que incluem livrarias físicas e on-line, tem um crescimento em vendas unitárias de 4%, enquanto o segmento de “vendas massivas e outros” viu um declínio das vendas de unidades de impressos de 9%. No total, até a semana atual de setembro, as vendas de impressos medidas pela Nielsen Bookscan cresceram 2% em unidades.

As estatísticas: unidades vs dólares

Quando você está falando sobre a indústria editorial – como geralmente estamos – dólares importa mais, e as estatísticas da AAP só medem dólares, não unidades.

Mas quando você está tentando dizer ao mundo sobre os hábitos dos leitores e a “popularidade” do e-book, quer olhar para unidades, não dólares. Unidades falam sobre os leitores e quantos e-books estão colocando em seus dispositivos, não dólares. Aqui, “os milhões de leitores que migraram para e-books baratos e abundantes autopublicados, que muitas vezes custam menos de um dólar”, certamente estão impulsionando para cima as vendas de e-books.

Há uma série de sinais, não totalmente medidos, de crescimento indeterminado dentro do ambiente Kindle da Amazon. Isso equilibra a visão de que o consumo/ ”popularidade” do e-book está em declínio real – mas, como observamos há um ano e meio, o crescimento em exclusividades da Amazon não contradiz completamente o padrão mais amplo de vendas relativamente estáveis de e-books, tampouco. [Em outras palavras, o NYT está errado, mas também estão as pessoas que insistem que o crescimento dos autopublicados e de livros publicados Amazon são suficientes para mudar radicalmente nossa compreensão da paisagem, especialmente em termos de dólares].

Em parte, isto é atribuível à nossa boa amiga Aritmética: se a Amazon tem 70% do mercado de e-books, e nós trabalhamos com os últimos números do Author Earnings mostrando que os livros autopublicados e os da Amazon representam 37% das vendas em dólares do Kindle durante setembro, até cerca de 26% em janeiro, isso significa que este segmento de crescimento “não mensurado” somou 11% dos 70%, ou 7,7% do total do mercado, e isso incluindo o difícil que é medir o Kindle Unlimited, que está incluído nessas conclusões. [DataGuy no Author Earnings está trabalhando com uma estimativa aproximada de que 1/3 da remuneração para os autores autopublicados na loja Kindle vem de pagamentos do Kindle Unlimited, em vez de vendas diretas ao consumidor]. Enquanto isso, o mercado tradicional medido diminuiu 10,4%.

Mas também, como veremos mais em outro momento, há muitos outros fatores que podem fazer com que a loja Kindle cresça, mesmo que o mercado de e-books nos EUA continue estável. Entre eles, a Amazon pode estar ganhando participação de outros atores [sabemos que as vendas de conteúdo para Nook caíram uma média de 20% já por vários trimestres]; mas também, a loja Kindle com sede nos EUA, na verdade, vende para clientes em todo o mundo, por isso os aumentos também refletem o crescimento das vendas em mercados fora do País. E há efeitos significativos, mas ainda não especificamente conhecido, do Kindle Unlimited – que está, certamente, levando a “leituras” de e-book que não são contadas, no mundo todo [o equivalente a muitos milhões de e-books lidos só no mês passado], mas também está influenciando merchandising e descoberta na loja Kindle ao distorcer suas listas de “mais vendidos”.

Equivalências falsas: o mercado de e-books e o mercado de livros impressos não são idênticos

Comparações diretas de vendas de e-books e vendas de impressos são um instrumento grosseiro na melhor das hipóteses. Todos sabemos que a publicação de livros gerais é formada por vários mercados, não um único. Se formos honestos, as editoras comerciais têm menosprezado o impacto dos e-books por anos [exceto ocasionalmente quando conversa com Wall Street]. Alguns tipos de livros – ficção de gênero e todos os tipos de best-sellers adultos e juvenis – mudaram para o digital muito mais do que outros tipos de livros – não-ficção geral, livros ilustrados, a maioria dos livros infantis. Então percentuais totais de mercado e valores em dólares não são muito reveladores sobre os complexos mercados de impressos e e-books que os editores estão gerenciando.

Nos termos mais gerais, com espaço para muita variação por editora e por lista, a divisão total poderia ser de 75% a 80% de impressos e 20% a 25% digital. Mas quando você olha para livros para adultos, os e-books representam 30% ou mais – e para livros infantis, significa apenas 11%, com todos os compradores adultos de livros juvenis incluídos, e é menor ainda quando tiramos totalmente os livros juvenis. Quando estreitamos o foco mais, para os lançamentos best-sellers, a lente muda completamente. Best-sellers de ficção podem ter uma média de algo ao redor de 2/3 de e-books e 1/3 de impressos, com best-sellers de não-ficção perto de uma divisão igual entre formatos. [Não são números precisos; a questão é que a popularidade e o impacto do digital variam muito dependendo de qual parte do mercado do “livro” você está interessado.] No lançamento de best-sellers é geralmente onde está a maior quantidade de dólares – assim como os maiores giros de estoque, e é quem mobiliza os leitores.

A noção de que o digital é ruim

O NYT fala sobre um potencial “apocalipse digital” e os amplos receios de que um aumento no digital seja per se ruim para a mídia. [“A popularidade em declínio dos e-books pode ser sinal de que o mercado editorial, embora não esteja imune à turbulência tecnológica, vai enfrentar a onda de tecnologia digital melhor do que outras formas de mídia, como música e televisão”]. É interessante que eles não mencionam jornais diretamente, mas achamos que estejam projetando.

Até agora, como já explicamos anteriormente, os e-books são a melhor coisa que aconteceu com os catálogos das editoras. Levaram as margens de lucro das grandes empresas a níveis que pareciam inatingíveis – através de uma combinação de redução de custos, devoluções e custos de inventário mais baixos, e talvez até royalties ainda mais baixos. A preocupação atual não é tanto que os e-books foram ruins para as editoras, mas que o grande lucro que eles trouxeram atingiu seu nível máximo e agora vai diminuir.

Nós já podemos ter passado o “Pico do lucro editorial” por causa do digital e esse lucro poderia agora estar em um declínio irreversível, o que é duplamente em desacordo com a matéria do NYT. Isso é o que as pessoas estão analisando em salas de reuniões, especialmente porque os digitais tendem a manter um teto sobre, ou derrubar, as vendas em comparação com o período anterior nas maiores editoras. Mas mesmo assim, a margem EBITDA da HarperCollins para o seu mais recente ano fiscal foi de 13,25%. A margem da Penguin Random House para o primeiro semestre deste ano – a metade mais tranquila – foi de 12%. Mesmo com o declínio das vendas – em parte devido a “vendas menores dos impressos” – no primeiro semestre de 2015 a margem OIBDA da Simon & Schuster chegou a 11,6%.

A assinatura de e-book fracassou e isso significa que o Digital está em declínio

Os serviços de assinatura de e-books… lutaram para transformar os amantes de livros em leitores digitais”, conta o NYT. Sim, pequenas startups com visões irreais como Oyster e Entitle fecharam. Mas os cortes no Scribd parecem ser devido à demanda – e a gestão dos custos para leitores que leem muito – não uma proposta fracassada. Mais importante, o maior varejista, a Amazon, tem o maior e mais bem-sucedido serviço de assinatura de e-books, então não vamos nos antecipar. [Outros serviços estabelecidos, como o Safari Online, também estão crescendo].

Não só parece estar tendo sucesso, mas também poderia ser responsável sozinho pela diferença nas vendas de e-books do ano. Nós não sabemos quanto o Kindle Unlimited tirou dos consumidores – mas sabemos que já pagou a editoras e autores independentes mais de US$ 80 milhões em 2015 [e lembre-se que as vendas de e-books diminuíram US$ 68 milhões até maio de 2015, segundo a AAP]. O que parece claro, e é provavelmente o maior desenvolvimento do ano passado no mercado de e-books, é que a Amazon está conseguindo alguns de seus principais clientes do Kindle em assinantes de livros digitais.

A surpreendente resistência dos livros impressos ajudou muitos livreiros.

Se estamos avaliando o impacto dos e-books no espaço de prateleira das livrarias, deveríamos olhar para toda o cenário mais amplo. Livrarias – em números, em metros quadrados e no espaço de prateleira – diminuíram. Desde o pico no ano fiscal de 2008, a Barnes & Noble fechou 78 superlivrarias, ou 11% de sua base. [Eles diminuíram 150 mil m² de espaço nas superlivrarias, ou 8,5%, e começaram a dedicar uma porção desconhecida do espaço das lojas para mercadoria que não são livros, de boutiques Nook ao departamento de brinquedos e jogos que está crescendo rapidamente.] A Borders faliu em 2011, fechando 489 superlivrarias e 126 lojas em shopping centers, com a Books-A-Million assumindo uns poucos locais. O desaparecimento dessas lojas da Borders foi um fator importante que ajudou – e está diretamente relacionado com o crescimento das – livrarias independentes.

Sim, todos amamos livrarias independentes, e o crescimento em lojas participantes da American Booksellers Association [ABA] é digno de comemoração. Mas dos 302 membros que a ABA conseguiu nos últimos cinco anos, 1/3 dos membros veio a partir da integração com a associação de livrarias infantis, e o número de membros ainda está bem abaixo do seu pico, na virada do milênio. [Nota: Nós estávamos errados sobre os membros das livrarias infantis. O número de membros cresceu em 102 no ano da fusão, mas a ABA contou que quase todos os membros das livrarias infantis já eram membros da ABA.] Também não temos bons dados sobre os metros quadrados das lojas que fazem parte da ABA, embora, pelo menos, algumas das lojas abertas mais recentemente eram pequenas. As independentes se beneficiaram claramente da grande redução nas redes de livrarias e na queda na venda de livros entre os grandes varejistas e se adaptaram ao que vende bem entre os impressos nas lojas físicas, mas isso é uma história de adaptação de mercado, e não de mudança.

Editoras, buscando capitalizar na mudança, estão investindo em sua infraestrutura e distribuição de livros impressos.

Sim, duas das menores editoras entre as gigantes estão expandindo seus depósitos – mas a Simon & Schuster e o Hachette Book Group citaram o crescimento no negócio de distribuição para outras editoras ao anunciar essas expansões.

E a expansão da Penguin Random House de suas instalações em Crawfordsville, Illinois no ano passado como observado no NYT esteve diretamente relacionada com o fechamento, ao mesmo tempo, de dois depósitos da Penguin, em Pittston e Kirkwood, algo que não é mencionado na história.

Também não foi mencionado a segunda maior editora de livros gerais, a HarperCollins, que está realizando um programa abrangente de fechamento de depósitos já faz algum tempo – eliminando os da Harper, Zondervan e Thomas Nelson e mudando para a Donnelly. Da mesma forma, a Sterling decidiu no início deste ano fechar seu centro de distribuição de 22 mil m² e passar para a Donnelly também. Então, aqui, também, a “reviravolta na história” não é exatamente como foi retratado.

POR MICHAEL CADER | Publicado originalmente pela PublishNews | Tradução Marcelo Barbão | 02/10/2015

Michael Cader é fundador da Publishers Lunch, newsletter diária que discute o mercado editorial norte-americano, e um dos melhores analistas da indústria do livro nos EUA. Para assinar o PL, clique aqui. Para conferir a versão original do artigo, clique aqui.

Vendas de eBooks caem e os impressos estão longes de estarem mortos


 Penguin Random House last year doubled the size of its distribution center in Crawfordsville, Ind., to speed up book distribution. Credit A J Mast for The New York Times

Penguin Random House last year doubled the size of its distribution center in Crawfordsville, Ind., to speed up book distribution. Credit A J Mast for The New York Times

Há cinco anos, o mundo dos livros foi dominado pelo pânico coletivo diante do futuro incerto. À medida em que os leitores nos EUA migravam para os dispositivos digitais, as vendas de e-books cresciam vertiginosamente, crescendo de 1.260% entre 2008 e 2010, alarmando livreiros. Com isso, as vendas de livros impressos caíram, as livrarias enfrentaram dificuldades para manter suas portas abertas, e autores e editores temeram a possibilidade de os e-books, mais baratos que os livros em papel, devorassem a própria indústria. Agora, há sinais que indicam que aqueles que adotaram os e-books estão voltando para o formato impresso, ou se tornando leitores híbridos. As vendas de e-books tiveram queda de 10% nos primeiros cinco meses de 2015, de acordo com a Association of American Publishers. O declínio da popularidade dos livros digitais pode indicar que, embora não sejam imunes às revoluções tecnológicas, as editoras suportarão o maremoto da tecnologia digital melhor do que outras indústrias, como a música ou a TV.

Por Alexandra Alter | New York Times | 22/09/2015

Vendas de eBooks nos EUA alcançam US$ 3 bi 


O relatório BookStats, da Association of American Publishers [AAP] e do Book Industry Study Group [Bisg] confirmaram as previsões anteriores. As receitas provenientes das vendas de e-books nos EUA em 2012 ficaram próximas dos U$ 3 bilhões, acima dos US$ 2,1 bilhões de 2011. A tendência de vendas digitais e os fenômenos de vendas da série 50 tons e Jogos Vorazes são apontados como as causas do crescimento explosivo de 2012. A pisada no freio em 2013 é atribuída, portanto, a uma comparação desfavorável com 2012, com um agravante: o declínio nas vendas de e-readers dedicados e ao aumento das vendas de tablets. As receitas de publicação comercial global nos EUA também permaneceram estáveis em 2013, em US$ 14,6 bilhões, ligeiramente menor do que em 2012, quando apresentou receitas de US$ 15 bi. O relatório BookStats, comercializado pela AAP e pelo Bisg, já está em pré-venda.

Digital Book World | 26/06/2014

eBooks crescem apenas 3,81 por cento em 2013 nos EUA


Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente em Tipos Digitais | 02/04/2014

Desde 2002, a Association of American Publishers [AAP] apura a venda de e-books de seus associados e publica os resultados junto com as demais estatísticas do mercado norte-americano. Está semana, ela divulgou os numerous referente a 2012 e a grande surpresa que as vendas de e-books no segmento de interesse geral [trade] cresceram apenas 3,81%, alcançando US$ 1,3 bi. Em 2012, o faturamento digital deste setor havia ficado em US$ 1,25 bi. A surpresa é que pela primeira vez desde 2002, o crescimento ficou abaixo dos 10%, como demonstra o gráfico abaixo. [Clique nos gráficos para vê-los em tamanho maior.]

Crescimento do Faturamento de E-books no Mercado Trade nos EUA

Vale observar que ao longo dos anos, as estatísticas da AAP sofreram grandes variações em sua base de coleta de dados. O número e a classificação das editoras participantes se alteraram, as definições de formatos foram apuradas e a própria metodologia melhorada. Em 2010, por exemplo, a pesquisa passou a ser feita junto com o Book Industry Study Group, com grandes alterações metodológicas. Portanto, uma comparação ano a ano não pode ser considerada estatisticamente perfeita. Mas ainda assim, com esta grande ressalva, uma análise dos dados ao longo dos anos é uma ótima ferramenta para a visualização de tendências. No próximo gráfico, temos o faturamento digital ao longo dos anos dos editores de interesse geral associados à AAP.

Faturamento dos E-books no Merado Trade dos EUA

Para terminar, o gráfico da participação dos e-books no faturamento do segmento trade. Em 2012, 26,66% das vendas dos editores foram digitais. Como no ano anterior esta participação ficou em 25,87%, a hipótese de que a fatia do mercado digital está chegando a um platô é bastante plausível.

Participação do Faturamento de E-books no Mercado de Trade dos EUA

Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente em Tipos Digitais | 02/04/2014

Vendas subiram 1% em 2013 nos EUA


As vendas totais de livros subiu 1% de 2012 para 2013, alcançando US 15,05 bi, de acordo com resultados da pesquisa StatShpt feita pela Association of American Publishers [AAP] e pelo Book Industry Study Group [Bisg]. Todos os segmentos medidos apresentaram aumento de vendas durante o ano, exceto o segmento infantojuvenil que apresentou queda de 6,6% em relação a 2012, quando Jogos Vorazes foi um ponto fora da curva. Apesar do fenômeno de vendas da Trilogia 50 tons de cinza, de 2012, o segmento adulto conseguiu mostrar um aumento de 0,8% no ano. Os números mostram que as vendas de e-books adultos cresceram 3,8%, alcançando US$ 1,3 bi.

Por Jim Milliot | Publishers Weekly | 01/04/2014

Associação das Editoras Americanas adota plano ambicioso para adoção em massa do ePub3


Por Eduardo Melo | Publicado originalmente e clipado à partir de Revolução eBook | 31/07/2013

O plano, ambicioso, também inclui obter um amplo suporte  entre os vendedores em até seis meses.

Certamente a adoção de um padrão comum, para algo complexo como um livro digital, não é tarefa fácil. Quando o assunto é ePub3, existem vários motivos para os sistemas de leitura [leia-se: os grandes vendedores de ebooks] ainda não aceitarem o formato de forma uniforme. Até agora, a Apple é a livraria que oferece mais suporte. Há previsão de que até o final do ano, a Apple ganhará a companhia de Kobo e Google na arena do ePub3.

Um cenário com mais harmonia, padronização na aceitação do ePub3, tornaria o trabalho e a produção de ebooks avançados bem mais simples, e mais barato, para as editoras. Com isto em mente, a AAP [Association of American Publishers] convidou os maiores vendedores e editoras para participar da sua nova iniciativa, uma série de encontros para esquematizar a adoção do EPUB3. Chamado de “Projeto de Implementação do ePub3?, o objetivo é avançar rapidamente uma harmonização no uso do formato por editoras e vendedores. A informação é do Digital Book World.

A meta da associação é lançar um grande número de títulos em ePub3 no primeiro trimestre de 2014.

A AAP afirma que as editoras americanas estão trabalhando juntamente com “vendedores, distribuidores de conteúdo digital, fabricantes, provedores de sistemas de leitura, especialistas em tecnologia e organização de padrões”. Mas a entidade não comenta ainda quais editoras e vendedores decidiram participar até agora. A entidade afirma estar convidando todos os integrantes do mercado para sentar à mesa.

Por Eduardo Melo | Publicado originalmente e clipado à partir de Revolução eBook | 31/07/2013

A biblioteca da utopia


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 12/06/2012

revista do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, publicou recentemente um artigo sobre o projeto da Harvard University de digitalizar os acervos das bibliotecas universitárias. Comentar sobre o assunto vem bem a calhar no contexto das discussões sobre cópias não autorizadas e digitalizadas para difusão pela internet. Quem se dispõe a analisar o assunto com seriedade logo se vê diante da imensidade de problemas e soluções alternativas, que vão muito além da digitalização não autorizada de uns tantos livros de ciências sociais.

O projeto de Harvard descende diretamente do falecido Google Book Search, o projeto que Larry Page imaginou em 2002 e que pretendia digitalizar todos os livros impressos no mundo. Sim. Todos. Só assim, dizia o cofundador do Google, a empresa poderia cumprir sua missão de tornar toda a informação mundial “universalmente acessível e útil”.

O Google desenvolveu uma tecnologia que permitia o escaneamento ultrarrápido das páginas de um livro, com lentes que compensavam a curvatura das páginas provocadas pela encadernação. Aperfeiçoou também seus programas de Optical Character Recognition [OCR], para os mais variados formatos de letras e idiomas, de modo a permitir o funcionamento dos mecanismos de busca.

Quando lançou publicamente o projeto, em 2004, Page conseguiu de imediato a adesão de cinco das maiores bibliotecas do mundo, incluindo as de Harvard e Oxford. E quase imediatamente começaram as reações contrárias ao projeto, geralmente focando no ponto de que este daria à companhia uma posição altamente favorável para a futura comercialização do conteúdo digitalizado, prejudicando outras empresas. Além disso, a concentração dessa informação pelo Google abriria o espaço para a censura e controle da difusão da informação. Note-se bem: comercialização do conteúdo, que passaria a ser acessível, mas não gratuito. O projeto do Google incluía a posterior comercialização – através de e-books – dos livros. E tudo com o devido pagamento de direitos autorais.

A Association of American Publishers e a Author’s Guild – o sindicato dos autores dos EUA –, imediatamente protestaram, considerando que a empreitada, mesmo se permitisse a consulta a apenas trechos de livros na pesquisa, constituía um enorme ataque aos direitos autorais.

O Google propôs um acordo, envolvendo o pagamento de direitos autorais e a venda de assinaturas para acesso ao conteúdo integral dos livros das bibliotecas, o que só aumentou a resistência. Universidades europeias se recusaram a participar e outras iniciativas começaram a ser esboçadas.

Alguns analistas consideram que, se o Google continuasse a escanear com base no “fair use” da Convenção de Berna – e da legislação dos países signatários – e usasse o material tão somente para indexar informações, poderia ter prosseguido. Mas, ao propor o acordo, que teria chancela do judiciário, se meteu num pântano legal que terminou por liquidar o projeto.

Além da acusação de tentativa de monopolizar a digitalização mundial dos livros, alguns pontos finos da legislação de direito autoral se tornaram pedras no meio do caminho do projeto. Um desses é o das “obras órfãs”. O que é isso?

Uma obra impressa é protegida automaticamente pela legislação, mesmo que seu autor, ou autores, não a registrem nos escritórios de direitos autorais de cada país. Mesmo entre as obras registradas, há uma quantidade delas das quais se sabe o nome do autor, mas não se o próprio ainda está vivo e se o prazo de vigência da proteção legal ainda está ativo. Isso sem falar dos livros publicados, mas que saíram do mercado – as leis de D.A. são, hoje, universalmente retroativas. Essas são as “obras órfãs”. Como se pode perceber, mesmo que houvesse a disposição de pagar direitos por sua reprodução, seria muito difícil encontrar os beneficiários. O Google propôs constituir um fundo que recolheria esses direitos até o aparecimento dos autores ou a certeza de que haviam entrado em domínio público, quando então esses recursos seriam revertidos para ampliação de acervos de bibliotecas, programas de leitura etc.

Não adiantou. O acordo foi definitivamente sepultado há alguns meses pelo judiciário dos EUA.

Mas a ideia da digitalização não morreu.

Um dos críticos mais contundentes do projeto do Google foi o historiador Robert Darnton. Sucede que Darnton foi nomeado, em 2007, como diretor do sistema de bibliotecas da Harvard University. A partir dessa posição, tenta por de pé o projeto da Digital Public Library of America. Que, essencialmente, tem o mesmo escopo do projeto googliano: digitalizar tudo.

Diz a matéria da revista do MIT:

Se bibliotecas e universidades trabalhassem juntas – argumentou Darnton –, financiadas por organizações filantrópicas, poderiam construir uma verdadeira biblioteca pública digital da América. A inspiração de Darnton não veio dos tecnólogos de hoje, e sim dos grandes filósofos do Iluminismo. As ideias circulavam pela Europa e atravessaram o Atlântico no século XVIII, impulsionadas pelas tecnologias da imprensa e dos correios. Pensadores como Voltaire, Rousseau e Thomas Jefferson viam a si mesmos como cidadãos da República das Letras, uma meritocracia de livres pensadores que transcendia as fronteiras nacionais. Era uma época de grande fervor e fermentação intelectual, mas a República das Letras era ‘democrática apenas em princípio’, como Darnton apontou em um ensaio na New York Review of Books: ‘na prática era dominada pelos bem nascidos e pelos ricos’.

E prossegue a matéria:

Com a internet, podemos finalmente retificar essa iniquidade. Ao colocar cópias digitais online, argumentou Darnton, podemos abrir as coleções das grandes bibliotecas do país para quem quer que tenha acesso à rede. Podemos criar uma ‘República Digital das Letras’ que seria realmente livre e aberta e democrática e que nos permitiria ‘efetivar os ideais do Iluminismo a partir dos quais foi fundado nosso país’.

Com um acadêmico de tanto prestígio como Darnton à frente, e princípios tão nobres a justificá-lo, a suposição é de que o projeto poderia avançar sem dificuldades.

Ledo engano.

O sepultamento da proposta de acordo do Google aumentou as expectativas e o projeto de Darnton ganhou apoios importantes, e mecanismos substanciais de financiamento. Começou também a ganhar objeções.

Em maio passado, uma reunião do grupo dos Chief Officers of State Library Agencies [grosso modo, os responsáveis pelos sistemas estaduais de bibliotecas, se tal coisa existisse no Brasil] aprovou uma resolução pedindo que a DPLA mudasse de nome. A razão? Ao se apresentar como “a” Biblioteca Pública do país, a DPLA reforça a “crença infundada de que as bibliotecas públicas podem ser substituídas em 16.000 comunidades nos EUA por uma biblioteca nacional digital”, e que isso dificultaria ainda mais a obtenção de recursos orçamentários para essas bibliotecas. Parou por aí? Não. O projeto foi acusado de arrogante na presunção de que uma única biblioteca pudesse satisfazer as necessidades diferentes do público e de pesquisadores, que são muito diferentes.

E o dissenso continuou. Por exemplo: os arquivos serão centralizados em servidores próprios ou os mecanismos de busca apontariam para os servidores das bibliotecas afiliadas? Que outros materiais, além de livros, seriam incluídos na DPLA? E como a DPLA se apresentaria ao público: com acesso direto ou como uma “câmara de compensação” entre as várias bibliotecas, transferindo o trânsito para os respectivos websites? No mesmo número da revista do MIT que anuncia o projeto de Darnton, é publicado também outro, de autoria de Brester Kahle e Rick Prelinger, que afirma que o projeto centralizador de Darnton pode ser tão perigoso para a liberdade de expressão quanto era o do Google. E Kahle é o fundador do Internet Archive. E os lançamentos? Darnton, por exemplo, diz que só deveriam ser digitalizados os livros com mais de dez anos de lançamento, para “ficar de fora das questões comerciais”. E os metadados, essenciais para a pesquisa e que, como “banco de dados”, são eventualmente produzidos por outras empresas, que prestam serviços para editoras e bibliotecas, e têm uma proteção específica de uso?

Porque, de fato, voltou com toda a força a questão dos direitos autorais. Para o Google e para a DPLA, essa é uma questão não resolvida. Para alguns dos envolvidos, só poderia ser solucionada com medidas internacionais, como uma revisão da Convenção de Berna que diminuísse o tempo de vigência da proteção [hoje é de 70 anos após a morte do autor, na maioria dos países] e estabelecesse outras exceções, todos os dois assuntos muito controversos. Não apenas por parte das editoras e dos próprios autores – os de sucesso cuidam muito bem do seu patrimônio! –, mas também pelos estúdios e outros produtores de materiais audiovisuais.

Além dos direitos autorais, está subjacente também uma questão de patrimônio. Afinal, essas bibliotecas foram financiadas com recursos de várias fontes para aquelas universidades, e não apenas são seu patrimônio como geram renda, de diferentes maneiras, para seu sustento.

O pano de fundo disso tudo é o das condições para a apropriação social da produção intelectual individual. É certo o grande avanço, desde o Iluminismo, do reconhecimento da autoria: a obra é a expressão de um labor intelectual próprio e personalíssimo [ainda que possa ser coletiva], e isso gera direitos do[s] autor[es] sobre sua fruição, inclusive financeira, ainda que por um período determinado de tempo [que foi aumentado progressivamente nos dois séculos e meio desde que as primeiras leis de direito autoral foram promulgadas]. O “domínio público” se estabelece depois desse período de apropriação individual.

Não vale o argumento de que cada autor produz suas obras através das leituras de outros, já que, de qualquer maneira, cada leitura gera uma apropriação e uma expressão individual do conjunto dos conteúdos. Se colocarmos dez “intelectuais leitores” lendo os mesmos dez livros, o que cada um deles irá concluir e eventualmente produzir a partir dessa leitura certamente será diferente da produção dos demais.

Na verdade isso tudo remete à grande questão da apropriação individual do fruto do trabalho versus a apropriação social, coletiva. Algo que outros filósofos debatem também desde o século XVIII, e que encontrou uma expressão sintética no século XIX: “De cada qual segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”, disse o filósofo de Trier, um tal de Karl Marx.

Mas isso exige outro tipo de sociedade, de organização social. Por enquanto, no regime capitalista, o caldo engrossa tanto com a apropriação do trabalho físico quanto do trabalho intelectual.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 12/06/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial.

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Mais sobre eBooks, editoras e bibliotecas


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 28/03/2012

Mike Shatzkin

A relutância da maioria das grandes editoras em tornar os e-books disponíveis para empréstimos em bibliotecas é um tópico de atenção e preocupação. A Associação de Editores Americanos [Association of American Publishers, AAP] dedicou uma parte de seu encontro anual ao tema e o Dr. Anthony Marx, presidente e principal executivo da New York Public Library, usou seu tempo para colocar sua instituição à disposição como voluntária para experimentos, a fim de encontrar um modelo para empréstimos de e-books que funcionaria para as editoras.

Tive a oportunidade de conversar com vários editores das chamadas Big Six no meio do ano passado sobre sua posição em relação a vendas para bibliotecas. Quando eles contaram suas preocupações para mim, muito do que tinham a dizer fazia muito sentido.

O principal foi o medo de que os consumidores num emergente ecossistema de e-books “aprendessem” que consegui-los “grátis” é tão fácil quanto comprar e-books de livrarias. Como só é necessário apontar seu browser numa direção diferente, para muitos editores parecia ser complicado permitir o empréstimo de e-books por bibliotecas. As vendas de livros digitais para bibliotecas não são um grande mercado, então os lucros são limitados. E, com muitas livrarias de e-book lutando para ganhar força num mercado dominado pela Amazon, as consequências de uma perda nas vendas, mesmo que pequena, poderia tirar algumas delas da corrida.

Negar ou limitar as vendas dos e-books a bibliotecas compartilha uma característica importante com os preços do modelo de agenciamento. Nos dois casos, as editoras estão implementando políticas que eles sabem que vão resultar numa redução de seu rendimento no curto prazo para desenvolver o que, acreditam, será uma rede de distribuição mais forte e mais diversificada para e-books no longo prazo.

Vale a pena pensarmos em outra questão aqui. É razoável argumentar que as editoras estão erradas nos dois casos. Essas políticas têm a ver com influenciar o futuro desenvolvimento do canal e prever o impacto de várias políticas com o tempo, então ainda não existem dados para provar que estão certas ou erradas. Tudo que temos são palpites baseados em nosso conhecimento limitado e sem projeção.

Mas as editoras estão mais enfaticamente não se engajando em “ideias de curto prazo”. Estão sacrificando os lucros imediatos pelo que acreditam serão lucros em longo prazo. Nesse sentido, são como a Amazon, que – já sabemos – prefere dar descontos profundos e ter perdas nas vendas atuais para construir um relacionamento no longo prazo com seus clientes. Mas a Amazon consegue crédito por pensar no longo prazo; as editoras, geralmente, não.

Como a maioria das pessoas que acompanham as tribulações de bibliotecas tentando estocar e-books sabe, quatro das Big Six não estão vendendo nenhum e-book disponível [exceto títulos que já eram vendidos no passado]. A Random House continua fornecendo todos os seus títulos para bibliotecas como e-books com a limitação de “um empréstimo por vez por cópia comprada”, mas ela simplesmente aumentou os preços para bibliotecas substancialmente. A HarperCollins foi muito atacada há um ano quando introduziu uma limitação de 26 empréstimos por cópia comprada, mas isto é aparentemente visto agora de forma mais geral como uma limitação aceitável. [Os preços da Random House e a recusa total das outras de entrar no mercado estão fazendo com que a limitação de 26 empréstimos pareça algo bom!]

Eu aceito a premissa maior. Se fosse tão fácil conseguir e-books das bibliotecas como é de livrarias, com o tempo mais clientes migrariam para as bibliotecas. Mas, quanto mais penso nisso, menos aceito a noção de que a recusa total a participar no mercado de bibliotecas seja necessária para criar uma clara vantagem para a livraria como destino de leitores de e-books. Na verdade, é possível que disponibilizar e-books nas bibliotecas, da forma certa, poderia aumentar as vendas nas livrarias. E a única forma de as editoras descobrirem isso é fazer algumas experimentações controladas nesse mercado. Até onde sei, isso não está acontecendo.

Tenho duas histórias que podem jogar alguma luz no assunto.

Numa conferência que organizei alguns anos atrás, ouvimos falar de um brinde que a editora Spiegel & Grau fez para o livro de Suze Orman, por meio da Oprah. Eles disponibilizaram 1,1 milhão de PDFs desprotegidos por 33 horas através. As vendas dos livros aumentaram imediatamente na Amazon, é claro. Mas o mais impressionante, e mais importante, é que o livro conseguiu ficar muitos meses na lista de mais vendidos do New York Times. Em outras palavras, o substancial número de cópias distribuídas reanimou o interesse por um livro de muito sucesso que parecia ter concluído sua vida alguns meses antes. [Claro, aparecer na Oprah tem um efeito próprio, com distribuição gratuita ou não. Acho que o 1,1 milhão de cópias ajudou a estimular as vendas, ou pelo menos não impediu que acontecesse o efeito Oprah. A editora não esperava nada parecido com o resultado comercial que conseguiu.]

E aqui está a outra história. Uns dois ou três anos atrás, eu estava olhando para uns dados que me contariam se as vendas de e-books estavam canibalizando os impressos ou incrementando vendas. Nosso amigo Rick Joyce da Perseus disse que “elas acrescentam unidades” e que ele poderia provar. Eu estava cético, mas ele me convenceu.

O que Rick disse foi que a Perseus tinha convertido em e-books certo número de livros de catálogo que tinham um padrão estabelecido de vendas de impressos. Observaram então o que acontecia nas vendas da “cesta de títulos” geral. As vendas de impressos cresceram, apesar das vendas de e-books. A Perseus atribuiu isso ao aumento do conhecimento sobre os livros gerado por sua presença no mercado de e-books.

Mas talvez ainda mais significativo tenha sido o efeito benéfico do aumento das vendas de títulos que já haviam entrado na cauda longa. Quanto mais fundo no catálogo, maior a ascensão criada pela publicação do e-book.

É forçado fazer a analogia do efeito de um e-book disponível numa biblioteca hoje com o que a publicação de um e-book fez às vendas de impressos há dois anos, mas não é uma hipótese ridícula de se testar. E se um impacto similar resultou de uma disponibilidade na biblioteca? Poderia haver alguns títulos que você quer colocar nas vitrines, mas outros que faria mais sentido vendê-los a bibliotecas mais barato por causa de um efeito de marketing? Poderia haver até alguns livros que valeria a pena dar a algumas bibliotecas de graça?

Estes dois exemplos, apesar de terem mais de dois anos [e, num caso, tratando de PDFs, que é uma forma bem limitada de conseguir um arquivo de e-book], não pode simplesmente ser usado como evidência do que aconteceria hoje. As pessoas que fizeram o download do arquivo de Orman e gostaram, querendo ler todo o livro, acabariam comprando um livro mais fácil de ler. Em 2008, isso teria significado “impresso” para a vasta maioria das pessoas. A Perseus fez sua análise de catálogo na época quando tinham muitos bons livros ainda não disponíveis como e-book e poucos consumidores liam daquela forma. Nenhuma dessas coisas continua sendo verdade. A migração das vendas de impresso para digital é muito rápida agora para que a taxa de vendas de impressos se mantenha. [As vendas no geral poderiam aumentar, mas não o impresso sozinho.]

Mesmo assim, essas duas histórias juntas sugerem pelo menos a possibilidade de que as vendas que as editoras estão perdendo ao deixarem de vender para as bibliotecas é um número maior do que apenas os e-books que não estão sendo emprestados. Eles podem também estar perdendo outras vendas fruto da capacidade de descoberta e do boca-a-boca gerado por leitores de bibliotecas.

Eu acho agora que deixar e-books disponíveis através de bibliotecas quando os títulos estão em trajetória descendente de vendas nas livrarias poderia gerar nova vida para eles, assim como a distribuição gratuita na Oprah fez com Suze Orman. Sim, isso é colocar na vitrine. Se as editoras fizessem isso com seus grandes títulos de e-books, eles copiariam o que Hollywood está fazendo com DVDs de grandes filmes, que é também impedir a distribuição por bibliotecas até ganharem nos cinemas e nas vendas de DVDs.

As grandes editoras com quem falei parecem mais focadas em manter o “atrito” na experiência dos e-books nas bibliotecas para aproximá-la da inconveniência do empréstimo de livros impressos onde você tem de ir à biblioteca para pegar o livro e depois devolvê-lo. Na verdade, a interface imperfeita da OverDrive já faz uma boa parte disso [exceto para os empréstimos do Kindle, que vão para a Amazon e funcionam muito bem]. A ausência de qualquer título novo de quatro das Big Six pode não fornecer “atrito”, mas certamente levaria muitos leitores a um canal de vendas. [Na verdade, sem algumas grandes mudanças na forma em que biblioteca-editora operam, haverá sempre um número maior de títulos disponíveis nas livrarias do que em qualquer biblioteca.]

O que as editoras estão corretas em se preocupar é na forma em que o mercado poderia mudar com o tempo. Com a maioria dos leitores de livros ainda lendo no formato impresso, não sabemos realmente como será o mercado em cinco ou dez anos, quando eu acho que a maioria estará lendo em telas. Isso é parte do que estava por trás dos limites de 26 empréstimos da Harper. Também é um princípio por trás doprograma “Public Library Online” da Bloomsbury [funcionando no Reino Unido há um tempo e recentemente introduzido nos EUA], no qual uma “prateleira” de livros é licenciada a bibliotecas uma vez por ano. [Public Library Online permite múltiplos usuários através de qualquer browser com flash, mas não tem nem a ferramenta mais básica de “marcar página”; cada vez que você voltar a um livro teria de se lembrar onde estava.]

Em geral, limitação de tempo parece uma estratégia muito melhor para mim do que limitação de empréstimo, apesar de que poderia não produzir o mesmo nível de vendas adicionais sobre best-sellers como o limite de empréstimos.

Se qualquer grande editora me pedisse uma opinião sobre políticas em relação a bibliotecas [e nenhuma pediu], isso é o que eu falaria hoje.

1. Comece imediatamente a experimentar com “cestas” de títulos, porque os dados de tendências de vendas para um grupo de títulos será bem mais confiável do que qualquer título isolado. Se títulos são colocados em grupos conjuntos [ficção num gênero, não-ficção em outro, grandes autores], você aumentaria suas chances de conseguir dados que possam ser interpretados e permitem ajustes úteis nas táticas.

2. Um conjunto de experimentos que deveria ser produtivo estaria em títulos que já tiveram grandes vendas. Coloque uns 10 ou 20 destes títulos distribuídos em bibliotecas e olhe para os resultados de vendas dos impressos e dos e-books semana a semana pelo período antes e depois do lançamento nas bibliotecas. [E promova o lançamento na biblioteca para maximizar o impacto potencial.]

3. Olhe os livros na lista a seguir: aqueles que não são de grandes nomes, mas que já garantiram que vendem bem. Divida-os pela metade. Coloque uma metade em bibliotecas e a outra, não. Veja se pode detectar um efeito biblioteca, positivo ou negativo.

4. Licencie títulos por dois ou três anos em vez de limitar o número de empréstimos. Isso vai permitir que a editora os retire de circulação em bibliotecas no futuro se o mercado mudar. Esta é uma pergunta separada em relação a permitir empréstimos simultâneos múltiplos. Esta limitação provavelmente precisa continuar [apesar de que com um limite de número de empréstimos como a HarperCollins aplicou, não vejo por que isso é necessário.]

5. Explore formas de permitir que as bibliotecas vendam e-books para patrocinadores que descubram os títulos através delas, e que, por qualquer motivo, queiram adquiri-los. Indicação de livrarias existentes, com bibliotecas ganhando uma comissão, parece ser a melhor forma de fazer isso. As bibliotecas poderiam vender os e-books diretamente, mas esta postura poderia exacerbar a preocupação que os patronos das bibliotecas poderiam estar “perdidos” para a rede de livrarias.

As preocupações das editoras sobre o impacto dos empréstimos das bibliotecas são razoáveis. Mas responder a esta preocupação simplesmente “congelando” não ajuda ninguém e pode, na verdade, ser ruim para as vendas dos livros que as editoras estão tentando proteger. Não sei, nem as bibliotecas sabem, qual será o impacto no mercado de e-books disponíveis através de bibliotecas, mas as editoras tampouco sabem. É hora de todos começarmos a descobrir.

Acho que as grandes editoras aceitaram no geral uma perspectiva também errada sobre o impacto da pirataria. É provável que a pirataria, como os empréstimos das bibliotecas, tenham um efeito geral de canibalizar alguns títulos e um efeito promocional nos outros. Se você aceita a verdade desta declaração, então deveria entender que saber quais títulos estão em cada um desses casos é o ponto de partida mais importante para criar políticas para cada um deles. Quantas editoras hoje estão consultando seu departamento de marketing quando criam suas políticas antipirataria? Poderia ser uma boa ideia.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 28/03/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

eBooks geram otimismo, mas acervo brasileiro é pequeno


Compatíveis com os formatos de livros eletrônicos, os tablets engoliram os leitores dedicados e geram otimismo.

Na última quinta, a Amazon, um dos maiores varejistas do setor nos EUA, anunciou que, desde 1º de abril, vende 105 livros eletrônicos [ou e-books] para cada cem livros impressos.

Segundo a APP [Associação Americana de Publicadores], entre fevereiro de 2010 e fevereiro deste ano, as vendas de e-books triplicaram, atingindo US$ 90 milhões.

O otimismo do setor nos EUA resultou em uma surpreendente participação da Apple na BookExpo America, importante evento da indústria dos livros em Nova York que começou ontem e termina amanhã. Não é comum para a empresa participar de grandes exposições.

No Brasil, porém, a popularização do formato esbarra em um problema: o tamanho do acervo de livros em português. Na Livraria Saraiva, por exemplo, existem 3.500 títulos em português, contra 220 mil estrangeiros.

Para Mauro Widman, coordenador da equipe de e-books da Cultura, três fatores explicam isso: contratos das editoras com escritores que não contemplam modalidades digitais, a reforma ortográfica [todo o acervo teria que ser revisado antes de ser digitalizado] e limitações técnicas nas editoras para produzir o conteúdo digital.

Isso é refletido nas vendas. A Livraria Cultura revela que as vendas de e-books correspondem a menos de 1% do seu faturamento global. A Saraiva diz que, de suas cem lojas, aquela que vende livros eletrônicos ocupa a octogésima posição.

Ainda assim, os tablets são bem vistos. Embora o PC ainda seja a principal plataforma de e-books, as livrarias já percebem um avanço das pranchetas no país.

BRUNO ROMANI | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA | 28/05/2011 – 13h13

Uma biblioteca ao toque dos dedos


Um relatório da Association of American Publishers, entidade que reúne as 200 principais editoras dos Estados Unidos, publicado recentemente, trouxe uma informação já esperada pelo mercado editorial. A popularidade dos livros eletrônicos [e-books] nos EUA já é maior do que a dos livros de papel, em termos de vendas.

Os números de fevereiro deste ano mostram que a tendência é irreversível. Em relação a fevereiro de 2010, o crescimento no volume de vendas dos e-books foi de mais de 202%, gerando negócios da ordem de mais de US$ 90 milhões.

A popularização dos aparelhos e-readers [como o Kindle, da Amazon, o Reader, da Sony, o Nook, da Barnes & Noble, o e-reader, da Kobo e o Novel, da Pandigital] além dos tablets, com o iPad da Apple e o Xoom da Motorola, só para citar dois já disponíveis no Brasil, alavancou as vendas de livros eletrônicos. Ainda mais a partir do fim do ano passado, quando muitos ganharam ou adquiriram seus aparelhos no Natal.

Por aqui, os e-readers ainda são raros e caros. Mas há muitas alternativas interessantes para desfrutar de e-books em tablets e celulares.

Para ler no celular ou no tablet

Ótimos aplicativos para levar e ler seus e-books em qualquer lugar não faltam para os dois sistemas operacionais para dispositivos móveis mais difundidos na atualidade, o Android, do Google, e o iOS, da Apple.

A Amazon disponibiliza o Kindle para Android e para iOS [iPhone, iPad, iPod touch]. Esse app permite a compra, download e leitura dos livros com proteção digital de direitos autorais [DRM] adquiridos na Kindle Store, que dispõe de cerca de 900.000 títulos, entre eles muitos best sellers.

Lojas eletrônicas brasileiras, como a Saraiva e o Submarino também já oferecem a venda dos livros digitais.

Livros eletrônicos sem proteção de direitos, em arquivos com a extensão .epub – comprados ou convertidos pelo próprio usuário – podem ser lidos em outros apps específicos.

Para o Android, as alternativas mais conhecidas são o Aldiko Book Reader, que tem versões gratuita e paga [R$ 4,71 no Android Market] e o Laputa Reader, gratuito, mas com funcionalidades adicionais mediante doação. O FBReader, também gratuito, lançado recentemente, vem ganhando elogios de quem instalou.

Para adicionar os livros nos celulares e tablets com Android, basta arrastar e soltar os arquivos ao cartão de memória. Os apps localizam e adicionam as obras à biblioteca.

O Laputa Reader para Android

No iOS, certamente o app mais conhecido é o iBooks, da própria Apple. É necessário fazer a sincronização dos arquivos em .epub via iTunes, direto ao iPhone, iPod touch ou iPad. O iBooks permite também a compra de obras pelo próprio dispositivo, através da iTunes store.

O iBooks, no iPad

Em todos esses apps, para ambos os sistemas operacionais, a apresentação dos livros é bem parecida, e bastante agradável. As obras ficam dispostas em prateleiras virtuais.

Uma vez aberto um livro, é possível pesquisar trechos ou palavras, adicionar “favoritos” a capítulos ou frases e marcar onde a leitura parou. Há ainda o efeito gráfico de virar a página, tal como num livro de papel.

Tanto as alternativas para Android quanto as existentes para o iOS permitem também que o usuário faça downloads de obras de domínio público, geralmente obras clássicas e de referência, gratuitamente, em vários sites, e pelos próprios aplicativos. São milhares de opções.

Quem também aderiu à onda do livro digital foi o poderoso Google. O Google Books já tem um app para Android e para iOS, que libera o acesso à biblioteca digital do usuário direto no tablet ou celular. Há muitas obras e trechos de obras gratuitos e pagos para download.

Por Daniel Gonzales | Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo | 18 de abril de 2011 | 17h13

Boom dos eBooks


A Associação de Editores Americanos anunciou que as vendas de e-books em fevereiro totalizaram 90,3 milhões de dólares, um aumento de 202% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a instituição, esse valor faz dos e-books o formato com melhor desempenho entre todas as categorias do mercado. O boom é atribuído por analistas à alta na venda de e-readers nas festas de fim de ano e à crescente disponibilidade de títulos no formato digital, indica a coluna No Prelo.

Por Mànya Millen e Miguel Conde | O Globo | 16/04/2011

Juiz rejeita acordo do Google para biblioteca digital


Um juiz norte-americano rejeitou um acordo de 125 milhões de dólares entre o Google e uma associação de escritores que permitiria ao serviço de buscas publicar versões online de milhões de livros, criando a maior biblioteca digital do mundo.

Denny Chin, juiz federal em Nova York, afirmou que o acordo dava ao Google vantagem competitiva significativa e ‘simplesmente iria longe demais’ ao conceder à empresa o poder de ‘explorar’ trabalhos digitalizados sobre os quais existem direitos autorais, permitindo que vendesse assinaturas para acesso a eles sem permissão dos autores.

O Google digitalizou cerca de 12 milhões de livros do acervo de algumas das melhores bibliotecas norte-americanas, como parte de um esforço definido como tentativa de oferecer acesso mais fácil ao conhecimento humano.

Em 2005, a Authors Guild e a Association of American Publishers abriram processo contra o Google por violação das leis de direitos autorais, mas chegaram a um acordo com a empresa, que concordou em pagar 125 milhões de dólares às pessoas cujos livros foram digitalizados, e localizar os autores que ainda não haviam se apresentado, dividindo com eles as receitas auferidas com as obras digitalizadas.

Ainda assim, alguns críticos alegam que o acordo oferece ao Google vantagem competitiva desleal e representa violação das leis antitruste. Chin, juiz de segunda instância que presidiu o caso quando ainda era juiz de primeira instância, acatou as duas alegações.

O acordo conferiria ao Google vantagem significativa diante dos concorrentes, recompensando a empresa por ter realizado cópias em massa e não autorizadas de obras protegidas por direitos autorais‘, escreveu Chin em sua decisão que rejeita o acordo.

Ele mandou o Google e as organizações que representam autores e editoras a alterar o acordo de forma a incluir apenas obras cujos detentores de direitos autorais tenham aceitado explicitamente o acordo, em lugar do modelo atual, sob o qual os autores que não desejem que suas obras digitalizadas sejam comercializadas pelo Google teriam de optar explicitamente por isso.

Por Diane Bartz | Reuters | 23/03/2011