Chegada da Amazon ao Brasil acirra guerra de preços de livros


A entrada da Amazon Brasil na venda de livros físicos, há três meses, abalou a estrutura do mercado editorial e acirrou a guerra de preços entre livrarias e o comércio on-line. O resultado é que alguns títulos impressos estão com valores mais baixos que as versões digitais.

Com um alcance maior dos clientes, promoções e facilidade na compra, o e-commerce se fortalece a cada ano.

Porém, com a política de preço cada vez mais agressiva, existe medo de que pequenas livrarias desapareçam.

Para o presidente da ANL [Associação Nacional de Livrarias], Ednilson Xavier, a gigante americana “prejudicou, está prejudicando e irá prejudicar ainda mais” o mercado de livros no país. “A vinda da Amazon só veio ratificar uma condição já existente no Brasil há bastante tempo, que é a concorrência predatória“, afirma.

Leitora faz compras em livraria de SP; concorrência faz títulos impressos ficarem mais baratos que versões digitais | Foto: Davi Ribeiro - 4.jul.2014/Folhapress

Leitora faz compras em livraria de SP; concorrência faz títulos impressos ficarem mais baratos que versões digitais | Foto: Davi Ribeiro – 4.jul.2014/Folhapress

Carlo Carrenho, especialista em mercado editorial e fundador do PublishNews, explica que a Amazon revê os preços de todos os livros de hora em hora, equiparando os valores de qualquer site.

Ninguém chega perto de ter isso no Brasil.

TROCA-TROCA

No início deste mês, o título “Fim”, de Fernanda Torres, era vendido na Amazon Brasil por R$ 16,90. Sua versão digital custava R$ 21,66.

O mesmo livro impresso estava à venda na loja virtual da Livraria Cultura por R$ 25,88 e o digital, por R$ 22,80. Na Saraiva, o exemplar custava R$ 25,90 e o e-book, R$ 22,80. Uma semana depois, a loja americana aumentou o preço para R$ 19,90 e foi desbancada pela Submarino.com, que está vendendo o exemplar por R$ 17,51.

No entanto, quem ganhou essa batalha foi o site Extra.com, que anunciou o livro físico por R$12,90.

Todas as empresas colocaram o valor abaixo do sugerido pela própria editora, a Companhia das Letras, que é de R$ 34,50 para a versão física e R$ 24 para a digital.

Além disso, o preço do livro físico, em muitos casos, é menor que o digital. Carrenho explica que o contrato de livros digitais no Brasil limita o desconto a no máximo 5%.

Há praticamente um preço fixo do livro digital“, diz.

Para Sônia Jardim, presidente da SNEL [Sindicato Nacional dos Editores de Livros], a regra para a venda de títulos às livrarias é uma só. “As editoras sugerem um preço e vendem ao varejista com um desconto de até 50%. Mas alguns estão abrindo mão desse desconto para conquistar mais clientes“, conclui.

Ednílson Xavier diz que a concorrência que parece benéfica ao consumidor, no longo prazo, não é. “Ela impede que as pequenas e médias livrarias sobrevivam e tenham diversidade de títulos. Quando o mercado fica concentrado na mão de grandes, evidentemente se prioriza as mercadorias que têm giro“.

Não vamos dar a receita do bolo“, diz o diretor geral da Amazon no Brasil, Alex Szapiro, quando questionado como a empresa consegue baixar tanto os preços.

Repetindo o lema da empresa, se recusa a falar sobre política de preços e diz que a principal meta da livraria eletrônica é “usar a tecnologia em prol do cliente“.

Carrenho afirma que combater a Amazon com política de preço fixo do livro é “ingenuidade”. Para ele, é preciso melhorar os processos do setor e dar à indústria capacidade para competir.

POR THAIS FASCINA DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 23/11/2014, às 02h00

Mercado quer controle de preço para peitar Amazon


Editores e livreiros brasileiros defendem limite de desconto para livros

Nos EUA e na Europa, a varejista on-line é acusada de chantagem e abuso de poder para obter os menores preços

Preocupados com os embates entre a Amazon e editoras da Europa e EUA, editores e livreiros brasileiros defendem a adoção de políticas de controle de preço e de descontos nas vendas de livros para enfrentar a varejista on-line norte-americana.

A Amazon vende e-books no Brasil desde 2012. Em breve deve também comercializar livros físicos. A Amazon não divulga a data nem comenta seus atritos com concorrentes.

Até agora, editores daqui descrevem as negociações com a gigante americana como “positivas”. O comércio de e-books no Brasil ainda é ínfimo [2,5% do mercado de livros de interesse geral] e equilibrado [Amazon disputa com Apple, Google e Saraiva].

O cenário internacional, entretanto, causa apreensão.

Nos últimos dois meses, a filial norte-americana da editora Hachette acusa a Amazon de restringir suas vendas e atrasar entregas de seus livros. A briga começou porque a editora não aceitou a política feroz de descontos da varejista.

Nos EUA, segundo especialistas, a Amazon controla 60% do mercado do livro. No ano passado, pela primeira vez no país, a internet [R$ 16,6 bilhões] superou o faturamento das livrarias em vendas de livros [R$ 15,7 bilhões].

Para atrair consumidores, a Amazon busca sempre descontos e promoções, chegando a perder dinheiro na venda de alguns livros.

Na Alemanha, a Amazon é processada pela associação de livrarias. É acusada de chantagem e abuso de posição dominante.

Já a França, na semana passada, estendeu sua política de preço único de livros para os títulos vendidos pela internet. Conhecida informalmente como “Lei anti-Amazon”, impede lojas on-line de praticar o frete grátis e descontos acima de 5%.

Leis de preço único para livros são adotadas em vários países: França, Alemanha, Argentina, Espanha, entre outros. As editoras estabelecem um valor para cada livro lançado. Por um período de tempo, livrarias só podem oferecer descontos entre 5% e 10%.

REGULAMENTAÇÃO

No Brasil, setores do mercado editorial consideram fundamental esse tipo de freio.

Para compensar o grande desconto a alguns títulos, essas grandes lojas on-line acabam por encarecer o preço médio dos demais. É uma política deletéria“, diz Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre [grupo de 120 editoras de pequeno e médio porte].

A ANL [Associação Nacional de Livrarias] também defende políticas de regulamentação: preço único, controle de desconto, apoio à distribuição dos títulos pelo país.

Essa busca pelo menor preço pode quebrar todo o mercado. Com todo o poder centrado na Amazon, ela decide o que você poderá ler ou não. Parece uma situação extrema, mas já começa a acontecer na prática“, diz Afonso Martin, diretor da ANL.

O Snel [Sindicato Nacional dos Editores de Livros] costumava se manifestar contra o preço único, mas agora diz que pretende rever a questão.

“Como as lojas físicas podem concorrer com as varejistas on-line? Nesse novo cenário, elas podem falir. Temos que estudar bem essas leis”, argumenta Sônia Jardim, presidente do sindicato.

Para Carlo Carrenho, fundador do PublishNews, portal dedicado ao mercado editorial, a solução está no aperfeiçoamento da cadeia do livro no Brasil, e não necessariamente na regulamentação.

A Amazon poderá, no futuro, exercer um monopólio extremamente prejudicial. Mas a culpa será mais da ineficiência da indústria brasileira do que da eficiência da empresa americana.

POR MARCO RODRIGO ALMEIDA DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 05/07/2014

Câmara votará isenção tributária apenas para e-readers feitos no país


A equiparação dos e-readers a livros de papel para efeitos tributários foi derrubada pela deputada Fátima Bezerra [PT-RN], relatora de um projeto de lei que atualiza o conceito do que será considerado livro no país. A mudança era defendida por empresas do setor para baratear os aparelhos de leitura e estimular as vendas.

A deputada decidiu alterar texto já aprovado no Senado e excluir do projeto a equiparação dos aparelhos de leitura aos livros, o que garantiria uma tributação menor aos e-readers. Ao invés disso, ela proporá a inclusão dos dispositivos na chamada Lei do Bem, o que garante a isenção de impostos, mas desde que os aparelhos sejam fabricados no Brasil.

Empresários do setor reprovaram a mudança. Sérgio Herz, proprietário da Livraria Cultura, aponta dois gargalos: a falta de demanda suficiente para que os leitores digitais sejam fabricados no país e o alto custo de produção no Brasil.

“[A mudança] não faz sentido nenhum. O leitor digital só serve para ler, ele tem a mesma função do livro de papel. Na prática, incluir o e-reader na Lei do Bem significa que não haverá isenção tributária e, consequentemente, não haverá redução nos preços”, afirma Herz.

Temos um dos aparelhos mais caros do mundo. O que justifica isso?“, diz. A Livraria Cultura comercializa o Kobo, leitor digital desenvolvido no Canadá. O líder do mercado é o Kindle, da norte-americana Amazon.

Fátima Bezerra, relatora do projeto, argumenta que o desenvolvimento de uma indústria nacional pode ser questão de tempo.

Segundo a deputada, os benefícios tributários previstos na Lei do Bem têm o mesmo efeito do que teria a equiparação dos e-readers a livros físicos. Em ambos os casos, eles deixam de pagar ICMS, IPI, PIS/Cofins e o Imposto Sobre Importações, que somados, representam quase metade do valor do produto. A diferença é que na Lei do Livro, os aparelhos deixariam de pagar impostos mesmo sendo produzidos em outros países.

A modificação teve o apoio da Câmara Brasileira do Livro [CBL], da Associação Nacional de Livrarias [ANL] e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], que defendem a isenção de impostos apenas para o conteúdo, ou seja, para os livros digitais e não para os aparelhos.

Tendo em vista que a Lei do Bem trata do Programa de Inclusão Digital e estabelece certas condições para a concessão de incentivos fiscais, entendemos que a inclusão dos e-readers é até uma questão de isonomia e neutralidade econômica” afirma Karine Pansa, presidente da ABL.

O diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura, Fabiano Piuba, afirma que a proposta da relatora tem o apoio do governo.

Não tenho dúvida de que os aparelhos digitais são fundamentais para o acesso ao livro mas cremos que há uma questão conceitual que não pode ficar em segundo plano. O livro é a obra do autor e não o suporte dado a ele. Por isso consideramos que a inclusão dos e-readers na Lei do Bem atende aos nossos anseios“, disse.

De autoria do senador Acir Gurgacz [PDT-RO], o projeto que moderniza a Lei do Livro já foi aprovado pelo Senado e está pronto para ser votado pelas comissões de Cultura e de Constituição e Justiça da Câmara. Se for aprovado, ele deverá voltar para análise dos senadores porque foi modificado na Câmara.

No entanto, é difícil que a conclusão da tramitação da proposta aconteça ainda neste ano.

Com os trabalhos suspensos devido à realização da Copa do Mundo, a Câmara só voltará a funcionar na primeira semana de julho. Devido às campanhas eleitorais, o Congresso realizará apenas esforços concentrados em uma semana de agosto e uma de setembro.

POR MARIANA HAUBERT | DE BRASÍLIA | Publiado originalmente em Folha de S. Paulo | 20/06/2014, às 12h23

Isenção fiscal do Kindle e do Kobo ameaçada


Relatora do Projeto de Lei que isenta livros digitais sugere retirar os e-readers do texto

Fotógrafo | Viola Jr./Câmara dos Deputados

Fotógrafo | Viola Jr./Câmara dos Deputados

Editores e livreiros tiveram que madrugar na manhã de ontem [6], para marcar presença logo cedo na Câmara dos Deputados em Brasília onde as comissões de Cultura e de Educação organizaram a audiência pública O Futuro e o Mercado do Livro Digital no Brasil. Por trás do nome pomposo, o objetivo do encontro era discutir o Projeto de Lei 4534/12 que propõe a equiparação de e-books e de e-readers dedicados ao livro físico, o que isentaria tanto aparelhos dedicados à leitura quanto livros digitais – ou seja, o conteúdo – de absolutamente quaisquer impostos. O voo 3702 da TAM, por exemplo, transportou executivos da Livraria Cultura, da Saraiva e da Amazon de São Paulo para o Distrito Federal, confiando às mãos do piloto que decolou às 6h47 parte do futuro do livro digital no Brasil.

A primeira mesa, intitulada Que é livro digital, teve como destaque a participação do senador Acir Gurgacz, autor do Projeto de Lei do Senado [PLS] 114, de 2010, que viria a se transformar no PL 4534/12. “A intenção é corrigir uma distorção que ocorreu com o passar do tempo na Lei do Livro. É um contrassenso considerar como livros apenas o material impresso”, explicou o senador, que enfatizou a defesa da isenção do leitor dedicado em sua fala, especialmente para o uso entre estudantes. “A isenção diminuiria o preço dos leitores em até 50%.”, lembrou. “A indústria nacional deve ser estimulada, mas não protegida da sadia concorrência internacional. Manter os impostos prejudica os estudantes e alarga a distância da nossa tecnologia daquela que existe no exterior”, prosseguiu. O senador ainda explicitou que o projeto de lei é específico para e-readers dedicados. “Não tenho a intenção de levar a isenção a tablets e computadores, não é essa a ideia.”

O enfoque de Acir Gurgacz na isenção do aparelho não foi gratuita. Conforme o PublishNews já havia noticiado, várias associações do setor do livro, representadas na audiência pela Associação Nacional de Livrarias [ANL], Sindicato Nacional de Editores de Livros [SNEL], e Câmara Brasileira do Livro [CBL], se posicionam contra a inclusão de aparelhos de leitura no projeto de lei, ainda que dedicados, e estavam ali justamente para manifestar sua posição.

Foi isto que a ANL fez logo na segunda mesa do dia, intitulada Plataforma e Formato dos Livros, e que teve como destaque justamente a fala de Ednilson Xavier, presidente da instituição. “Estamos dando um passo maior que a perna ao aceitar esta avalanche do livro digital”, afirmou. E terminou sua fala de forma objetiva, contra a desoneração do leitor digital e criticando especialmente os modelos proprietários como aqueles da Amazon e Apple. “A ANL concorda com o conteúdo digital isento, mas no que se refere aos aparelhos de leitura ela se preocupa com dois riscos: o arquivo digital ser refém de quem possui o software e o aparato tecnológico acabar por limitar o acesso ao conteúdo”.

Mas o melhor estava reservado para a tarde. Por volta das 14h, teve início o painel Mercado do Livro Digital no Brasil, com a presença de tantos representantes que praticamente não couberam na mesa. Estavam ali Karine Pansa [CBL], Amarylis Manole [SNEL], Fabiano Piúba [DLLLB/MinC], José Castilho [PNLL], Fernando Mombelli [Receita Federal], Alexandre Szapiro [Amazon], Sergio Herz [Livraria Cultura], a deputada Alice Portugal [presidente da Comissão de Cultura] e a deputada Fátima Bezerra [PT-RN], relatora do projeto na Câmara.

As participações que abordaram a pauta mais diretamente foram as da CBL e das livrarias digitais presentes. Karine Pansa apresentou vários números sobre a leitura no Brasil antes de concluir manifestando a posição da CBL de se retirar os e-readers do projeto de lei. “Não existe dúvida em relação à isenção do conteúdo, mas existe preocupação no que se refere ao suporte, que deve ser discutido de maneira mais ampla e menos rápida, em outro momento, de forma mais profunda”, sentenciou. Ao PublishNews, quando indagada se a CBL já possuía uma posição sobre a isenção dos leitores dedicados em um processo distinto do atual projeto de lei, a presidente disse que não há nada definido. “Não existe posição formada, mas é algo que precisa ser discutido”, explicou.

O SNEL possui posição semelhante, conforme sua presidente Sonia Jardim já declarara ao PublishNews. O sindicato é contra a desoneração dos leitores digitais neste momento, embora não tenha posição contrária à desoneração dos aparelhos em outro fórum ou em outro momento. “O SNEL não é contra, apenas não queremos juntar as duas questões”, explicou a editora Amarylis Manole, diretora da entidade e presidente da ABDR, resumindo a essência do que estava em discussão.

Na realidade, há total consenso sobre a desoneração dos livros digitais, o conteúdo. O Poder Executivo, consultado informalmente, já se mostrou favorável à isenção. O Ministério da Cultura também apoia a equiparação do e-book ao livro físico, e não há quem se manifeste contra. Por isso, a estratégia de SNEL e CBL é, antes de tudo, pragmática. Como a isenção dos e-books é um consenso geral, faz mais sentido tirar os leitores dedicados do projeto de lei e garantir a aprovação rápida da isenção do conteúdo, equiparando o e-book ao livro. Mantendo-se na proposta a isenção dos aparelhos, é praticamente certa a oposição do Executivo e o projeto de lei poderá demorar um tempo inaceitável para ser aprovado, ainda mais em um ano de eleições. E o mercado precisa de uma definição fiscal dos livros digitais imediatamente.

A Amazon e a Livraria Cultura, que comercializam os leitores dedicados Kindle e Kobo, respectivamente, têm todo interesse em garantir a desoneração dos aparelhos de leitura. Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, salientou que quanto maior a facilidade para o consumidor, mais ele compra livros. “Nossos clientes que possuem e-readers compram quatro vezes mais que aqueles que leem em tablets ou no celular. E aqueles que consomem em nossos três canais – a loja física, a loja virtual e a loja de livros digitais – adquirem seis vezes mais livros que aqueles que consomem em apenas um canal. Ou seja, quanto maior a facilidade ao cliente, mais ele consome.” Herz ainda apontou a necessidade de se baratear os e-readers. “O grande problema hoje para se vender os aparelhos é o preço. Quando abaixamos os preços, chegamos a triplicar as vendas. Não há justificativa nenhuma para o Brasil ter o e-reader mais caro do mundo”, enfatizou o livreiro.

O vice-presidente da Amazon no Brasil, Alexandre Szapiro, se manifestou de forma bastante alinhada à Livraria Cultura. Como não podia deixar de ser, iniciou sua fala lembrando do consumidor. “Quem tem de sair ganhando é o leitor e o consumidor brasileiros”, afirmou. Szapiro também insistiu que o grande concorrente do livro físico não é o livro digital, mas as inúmeras atividades de entretenimento inclusive digitais que existem. “Como o jovem está gastando seu tempo livre?”, provocou. Finalmente, lembrou da isenção que o papel e a tinta possuem no Brasil quando destinados à produção de livros, jornais e revistas, mas não quando utilizados de outra forma, e comparou o modelo aos aparelhos de leitura, defendendo a isenção apenas para os e-readers dedicados. “Quais são os equipamentos que que efetivamente só permitem a leitura de um livro? É este o debate que deve ser feito hoje”, arrematou.

Última a falar entre os participantes da mesa, a deputada Fátima Bezerra apresentou então uma proposta, na posição de relatora do projeto de lei na Câmara, que está bastante alinhada às posições defendidas pelas associações do livro. “Há um consenso sobre a isenção do conteúdo e achamos que é saudável lhe dar o incentivo fiscal, mas no que diz respeito ao aparelho, queremos deixar que se trabalhe via a Lei do Bem”, sugeriu a congressista potiguar já com um espírito de decisão. Embora tenha até defendido incentivos fiscais ao aparelho, a relatora mostrou firmeza na ideia de se deixar a decisão para o âmbito da Ciência e Tecnologia. “Por que não remeter este assunto para a Lei do Bem?”, enfatizou.

Se esta for a sugestão do parecer final da Comissão de Cultura da Câmara, quem sairá perdendo é a Amazon, a Livraria Cultura e qualquer outra empresa que queira comercializar e-readers dedicados. Isto porque a “Lei do Bem”, ou Lei 11.196/05, concede incentivos fiscais apenas às pessoas jurídicas que realizarem pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica no Brasil. Ou seja, as importações hoje praticadas tanto pela Amazon quanto pela Livraria Cultura em nada se beneficiarão se os incentivos aos e-readers forem de fato tratados no âmbito desta lei. Além disso, os benefícios mesmo para a produção nacional são a dedução de 20,4% até 34% no IRPJ e na CSLL dos dispêndios com pesquisa e desenvolvimento, a redução de 50% no IPI na compra de máquinas e equipamentos destinados à pesquisa e desenvolvimento, e a depreciação e amortização acelerada desses bens. Ou seja, os benefícios da Lei do Bem estariam muito aquém de uma equiparação do e-reader ao livro físico, que traria a desoneração total do aparelho. Além disso, como lembrou Sergio Herz, “para o Brasil ser competitivo na produção de aparelhos de leitura com países como China, teríamos de ter uma escala gigantesca de produção”. E definitivamente esta não é a realidade e o mercado de e-readers no Brasil é bastante limitado.

Diante da sugestão da deputada Fátima Bezerra, Alexandre Szapiro manifestou-se de forma conciliatória. “No objetivo comum, estamos de acordo. Sobre a Lei do Bem, teremos de discutir mais”, declarou o executivo da Amazon. Já Sergio Herz lembrou que “quanto mais rápido for, melhor para o povo brasileiro”.

O PublishNews apurou que o parecer da relatora Fátima Bezerra está bastante adiantado e em fase de finalização. A expectativa da equipe da deputada é aprová-lo ainda neste semestre, para que o projeto de lei siga então para a Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania, onde será finalizada a apreciação conclusiva pela Câmara dos Deputados.

Escrito por Carlo Carrenho | Publicado originalmente e clipado à partir de PublishNews | 07/05/2014

Comissões debatem o mercado de livro digital no Brasil


As comissões de Cultura; de Educação da Câmara dos Deputados promovem audiência pública nesta terça-feira [6] sobre o mercado do livro digital no Brasil e o PL 4534/12, que atualiza a definição de livro e a lista de equiparados a livro.

O PL 4534/12 inclui na definição de livro todos os títulos convertidos em formato digital, magnético ou ótico e aqueles impressos em Braille. A lei ainda equipara a livros os periódicos convertidos em formato digital, magnético ou ótico ou impressos no sistema Braille; as matérias avulsas ou artigos autorais originários de periódicos convertidos em formato digital, magnético ou ótico ou impressos no sistema Braille; os equipamentos cuja função exclusiva ou primordial seja a leitura de textos em formato digital e os equipamentos para audição de textos em formato magnético ou ótico de uso exclusivo de deficientes visuais.

O debate foi proposto pelos deputados Fátima Bezerra [PT-RN]; Iriny Lopes [PT-ES]; e Glauber Braga [PSB-RJ].

Foram convidados:

Mesa 1: O que é o livro digital?

  • o autor do PL 4534/2012, senador Acir Gurgacz;
  • o secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e leitura do Ministério da Cultura, José Castilho; e
  • os escritores Fernando Morais e Iris Borges.

Mesa 2: Plataforma e formato dos livros digitais

  • a representante do MEC, Monica Franco;
  • a advogada Paula Bandeira; e
  • o representante da Associação Nacional de Livrarias [ANL], Francisco Gomes.

Mesa 3: Mercado do livro digital no Brasil

  • o representante do Ministério da Cultura, Fabiano Piuba;
  • a representante da Câmara Brasileira do Livro [CBL], Karine Pansa;
  • a representante do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], Mariana Zahar;
  • o representante da Amazon, Alex Szapiro;
  • o representante da Livraria Cultura, Sérgio Herz; e
  • representantes do Ministério da Fazenda e da Receita Federal.

O debate será realizado pela manhã, a partir das 9h30, e à tarde, a partir das 14 horas, no plenário 12.

Agência Câmara | Publicado originalmente em Correio Braziliense | 05/05/2014, às 11:34

“O autor e o novo mercado editorial”, por Ednei Procópio


A Revolução dos eBoks

A Revolução dos eBoks

Agora sim! Minha terceira e mais nova obra será lançada em março próximo, pela Editora SENAI. O título que acabou agradando à editora foi “A Revolução dos eBooks”. Neste livro, falo dos motivos do título e quem, na verdade, antes de mim, cunhou o termo “[e]Book [R]evolution”.

O texto original da obra já estava pronto quando fui à convenção anual da Associação Nacional de Livrarias [ANL], durante a última Bienal do Livro do Rio de Janeiro, para ministrar uma palestra sobre o mercado livreiro. No evento, conversando com um diretor da Editora SENAI, meu livro foi selecionado por eles para publicação. Está sendo uma experiência muito interessante ser, ao mesmo tempo, o editor de uma editora [para quem não sabe, sou o fundador da Livrus Negócios Editoriais], e ter um livro meu publicado por outra casa editorial.

Enquanto meu livro estava no prelo, fiquei pensando na expectativa que a publicação de uma obra gera em nós escritores. Eu, que sempre estive do lado de cá da mesa, atuando como editor tive que provar do meu próprio veneno. Recebi inúmeras recomendações da equipe editorial daquele selo com o objetivo de melhorar minha obra. Percebi que aquele processo todo estava gerando em mim uma ansiedade que há tempos não sentia. Será que minha própria editora gerava essa mesma expectativa em seus autores?

Autores de um novo ecossistema editorial

Neste meu novo livro, deixo claro que, quando falo em revolução dos eBooks Readers, estou me referindo mais aos leitores em si, os consumidores dos livros na era digital, do que as máquinas por eles utilizadas para leitura. A revolução digital permitiu, na outra ponta do ecossistema editorial, que os autores tivessem acesso a dezenas de plataformas de autopublicação que, pela primeira vez desde Gutenberg, oferecem ao autor a possibilidade real de ver seu texto publicado sem as barreiras existentes no antigo modelo.

Na autopublicação, por exemplo, existe a [inter]mediação de uma empresa que, geralmente, faz uso das tecnologias e das mídias digitais para oferecer uma plataforma de publicação. Nestes casos, a empresa que oferece tais ferramentas tem um papel menos atuante no que diz respeito à produção dos livros e exatamente por esta razão, pode haver contraindicações no mau uso destas ferramentas, principalmente se o usuário não se preparar para o processo que vai se desenrolar a partir dali.

A editora que está publicando meu livro, do contrário, mantém uma equipe editorial já treinada que, por mais que eu tentasse acelerar a produção do meu livro, por pressa minha mesmo, por pura ansiedade, não me permitiria errar em itens tão importantes como texto de quarta capa, texto de orelhas, texto sobre o autor, prefácio, sumário, etc.

Por exemplo, sou um nerd assumido, guardo ‘de cabeça’ todas as referências bibliográficas sobre eBooks. Mas, e se eu não incluísse esses dados bibliográficos em meu livro? Tive que entregar à editora a referência completa [tal qual reza a cartilha da ABNT]. Foi item obrigatório para ter meu livro publicado por aquele selo. Também me pediram as notas de rodapé para todas as referências que eu estava fazendo nos capítulos.

Malditas notas de rodapé

Então estava eu lá, um domingo inteiro, buscando as tais notas para entregar na segunda-feira pela manhã, para que meu livro fosse publicado o mais rápido possível. Eu pensava: para que raios serve uma nota de rodapé? Pensando bem, quem lê esse troço?

Um livro de não ficção, que é meu caso, não pode ser considerado um bom livro se não tiver o mínimo que a ABNT sugere para que o material seja efetivamente considerado publicável. Fora ter de cuidar do ISBN e da Ficha Catalográfica [itens considerados obrigatórios pela Lei do Livro, por sinal] nós, autores e editores [nos casos em que não sejamos ao mesmo tempo a mesma pessoa], precisamos observar outros itens para que um livro tenha uma qualidade aceitável. Não importa o formato: se eBook, audioBook ou paperBook.

Será que os autores que se autopublicam [e não são editores] estão preparados para admitir que, para ter um bom livro publicado, a obra terá que passar inevitavelmente por uma preparação de texto, revisão, diagramação, capa, ISBN, Ficha Catalográfica? E que será preciso observar tantos outros itens imprescindíveis como hifenização, viúvas, órfãs, resenhas, release de qualidade, que também fazem parte da publicação de uma obra?

Autor que não é livro que não é editora

Deixando de lado, pelo menos por enquanto, a questão dos custos e financiamento da produção, são três os modelos atuais mais comuns para a publicação de um livro:

O primeiro deles é aquele que chamaremos tradicional; nele, o autor envia o livro para uma editora e a seleção da obra fica a cargo de um conselho editorial, responsável pela curadoria de um determinado catálogo. Neste modelo, a equipe editorial está presente do início ao final da produção do material enviado. É o caso usado por aquela editora na publicação do meu livro.

O segundo modelo, o da autopublicação, é o próprio autor que assume a responsabilidade pela produção de sua obra usando as atuais ferramentas disponíveis nas plataformas de selfpublishing. Neste modelo, é raro a presença de uma equipe editorial, ela não está presente para assessorá-lo. As ferramentas de autopublicação acabam por oferecer uma opção interessante para a edição de livros, criam um ambiente democrático, aberto e acessível; mas estas plataformas não ofertam aos escritores uma equipe editorial que, antes de tudo, primem pela qualidade editorial de sua obra. E o custo zero oferecido por tais empresas é a razão para isto não ocorrer.

E o terceiro modelo são as casas que prestam os serviços necessários para a publicação de um livro, unindo a liberdade da publicação com a qualidade editorial processada por uma equipe. Este é o caso da Livrus. E, antes que me perguntem, sim, os custos e os profissionais estão todos lá, presentes no processo.

Autores que se autopublicam

É realmente fascinante as possibilidades que a Internet, e suas [con]sequências, estão trazendo para o mercado editorial. Mas sabemos que somente a tecnologia não dá o respaldo necessário para que uma determinada obra tenha um bom título, um bom subtítulo, uma boa revisão, etc. Escrever rapidamente um livro e colocá-lo de imediato no ar só porque as ferramentas digitais assim o permitem, pode ser um tiro no próprio pé, principalmente se o autor não dominar os meandros da publicação de um livro. O autor que tiver, por exemplo, um material em potencial em mãos pode perder uma oportunidade única de seu próprio trabalho.

Fora isso, com o tempo, os leitores [os únicos que realmente ‘mandam’ neste novo mercado], inevitavelmente perceberão que as obras que tiveram uma curadoria, uma equipe editorial, são aquelas de fato confiáveis para se ler. Por isso, antes de colocar seu próxima o livro no ar, nestas plataformas automatizadas, pense se você, sozinho, realmente pode e é capaz de realizar o trabalho que uma equipe inteira precisaria fazer para se ter um bom livro. Se for o seu caso, e se assim o considerar, tente a sorte.

Em meu novo livro, busco detalhar a questão atual do financiamento de obras, seja pelo Governo, patrocinadores, concursos culturais, editoras e até pelo próprio autor quando for o caso. Mas, por ser especialista em eBooks desde 1998, talvez parecesse um contra senso eu, agora, atacar, criticar ou mesmo defender as ferramentas digitais de autopublicação. Meu objetivo não é este. Longe disso. Pelo contrário, testei a maioria das ferramentas disponíveis pessoalmente. E afirmo: elas são acessíveis e funcionam, de verdade. São verdadeiramente democráticas se comparadas a qualquer um dos demais modelos.

O fato é que, exatamente por ter estudado a fundo este assunto, cheguei à conclusão de que, se eu quisesse que o meu próprio livro tivesse qualidade que eu desejava, e que não caísse na vala comum de centenas de outros de identificada precariedade, eu não deveria fazer o livro inteiro sozinho, eu necessitava de um corpo editorial.

Felizmente, sou editor e poderia fazê-lo usando a equipe da minha própria editora, a Livrus, se fosse o caso, como alternativa. Mas, felizmente também, o novo mercado editorial está repleto de portas abertas para aqueles que não têm pressa em publicar, mas primam antes de tudo pela qualidade de suas próprias obras. E, por essa razão, encontram alternativas inúmeras, entre as quais as tradicionais.

Nos demais casos, como alternativa, a necessidade nos aponta um ambiente de ferramentas digitais de autopublicação atrelado a uma equipe de curadoria. A primeira automatiza o processo e ajuda a reduzir custos por conta da escala. A segunda assegura a qualidade. Estas duas, digamos, entidades, unidas, ajudam a equalizar a questão do financiamento das publicações e podem oferecer uma resposta adequada aos novos tempos, aos novos livros, enfim, a um novo mercado editorial.

QUER SABER MAIS? ANOTE NA SUA AGENDA
Palestra | O autor e o novo mercado editorial [gratuita]
Quando | 8 de Fevereiro de 2014, sábado
Horário | das 10h às 12h
Local | Livraria Martins Fontes Paulista
Endereço | Avenida Paulista, 509 – Bela Vista – São Paulo
Por Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

* Ednei Procópio, 37 anos, é empresário e um dos maiores especialistas em livros digitais no Brasil, atuando na área desde 1998.

Livro digital pode dar impulso ao mercado editorial no país


Para um país de mais de 5.500 municípios e apenas 3.481 livrarias, a perspectiva de desenvolvimento do mercado de livros digitais, fortalecida agora com a abertura das filiais brasileiras da Amazon, Kobo e Google – a Apple também já vende e-books nacionais, mas faz isso a partir de sua loja internacional, o que torna o livro mais caro -, é vista com bons olhos por quase todos.

Poder comprar um lançamento no dia em que as livrarias paulistas e cariocas recebem os títulos era, até agora, algo impensável para leitores do interior desses Estados ou para os das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, as que mais sofrem com a falta de lojas, segundo levantamento da Associação Nacional de Livrarias. Hoje, tendo um e-reader – há modelos a partir de R$ 299 -, o leitor compra e recebe instantaneamente – assim é esperado – a obra. E também não gasta com frete.

Abre-se caminho, também, para autores que não têm espaço em editoras tradicionais e autopublicam seus livros, oferecendo-os para leitura digital e impressão sob demanda – outro mercado que tende a crescer.

Passada a fase da insegurança, as editoras, que tinham medo da pirataria e de que os e-books arruinassem o negócio do livro impresso, seu ganha-pão e uma indústria consolidada no Brasil, também estão animadas com a ampliação da área de atuação. Sabem que seu futuro caminha para a produção e distribuição de conteúdo. Onde o consumidor vai ler esse material é decisão dele.

O investimento é alto e foram quase dois anos de preparação para se chegar até aqui – calcula-se que existam 8 mil e-books brasileiros, o dobro de um ano atrás. Essas editoras frequentaram congressos no Brasil e no exterior sobre o tema, observaram os erros e acertos das editoras internacionais e, por fim, colocaram a mão na massa: revendo os contratos com os autores, convertendo os arquivos e discutindo meses a fio os contratos que começam a assinar com esses grandes players, que chegam agora para o terror das pequenas e médias livrarias.

Elas, que resistem bravamente, têm receio de que o digital precipite o funeral das lojas de rua – fenômeno observado nos Estados Unidos e na Inglaterra e que a França tenta conter com uma série de medidas estatais. Aqui, a Associação Nacional de Livrarias pede, em carta endereçada a Dilma Rousseff, Marta Suplicy, editoras e entidades do livro, que a versão digital seja lançada 120 dias depois da versão em papel e que o desconto não ultrapasse 30%. Tudo para não tirar as lojas independentes do jogo. Mas, se elas quiserem vender e-book, também podem, já que há uma série de empresas oferecendo e-bookstores terceirizadas. Contrata-se o serviço, o site vira uma loja virtual e uma distribuidora fica responsável pela venda. O lucro é dividido.

Nem tudo são flores também para as editoras. Para fazer frente às gigantes de tecnologia, algumas delas se uniram para criar a também gigante DLD, que reúne e negocia o conteúdo digital de editoras como a Record, a maior do país, e a Novo Conceito, uma das editoras com maior número de títulos nas listas de mais vendidos. Outras se mantiveram sós, firmes na negociação, como a Companhia das Letras que, durante um ano e meio de idas e vindas, no caso da Amazon, discutiu item por item do contrato. Uma postura prudente – as editoras estrangeiras que o digam.

A oferta de e-readers com preços competitivos e livros mais baratos – editores optaram por descontos em torno de 20%, 30% – são passos importantes para o desenvolvimento do mercado digital e para o acesso ao conhecimento. Mas isso não é tudo. O Brasil não é, ainda, um país de leitores – lê-se, em média, quatro livros por ano, contando a leitura obrigatória na escola. Portanto, não é um grande consumidor de livros.

O que movimenta quase um terço do mercado editorial brasileiro, estimado pela Fipe em R$ 4,8 bilhões, e sustenta muitas editoras, são as compras governamentais. O governo ainda não compra e-book, mas começa a adquirir obras em CD-Rom. Quando o livro digital estiver na mira dos ministérios e secretarias, aí sim todo o investimento poderá ser compensado. A Amazon sabe disso e, antes de inaugurar sua loja, já conversava com o Ministério da Educação.

Hoje, editoras dizem que o faturamento com o digital não chega a 1% do total das vendas. Algumas casas preveem que o valor chegará a 10% em 2013 – isso, só contando com os leitores que embarcarem na leitura digital ou os adeptos da compra por impulso, também bastante comemorada pelo setor. Quando as compras governamentais começarem, a história ganhará outro importante capítulo.

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S.Paulo | 06/12/2012

Livro digital: você ainda vai ler um


Com a estreia de suas operações no Brasil prevista para antes do Natal, Amazon e Google Play Books chegam para popularizar os chamados e-books no mercado nacional

LÁ VEM ELE | Presidente da Amazon, Jeff Bezos exibe seus leitores digitais Kindle, porta de entrada para um acervo com 1,7 milhão de livros

LÁ VEM ELE | Presidente da Amazon, Jeff Bezos exibe seus leitores digitais Kindle, porta de entrada para um acervo com 1,7 milhão de livros

Cerca de 40 milhões de americanos têm um aparelho leitor de livros digitais em mãos. Esse número alavanca outros. A receita de venda dos e-books subiu de US$ 551 milhões para US$ 3,3 bilhões de 2009 a 2012. Gigantes da tecnologia apostam num crescimento ainda maior e abastecem as suas estantes virtuais. Somente na loja de e-books do Google, a Play Books, há cerca de quatro milhões de títulos.

Com seus modestos 20 mil títulos digitalizados em português, o Brasil ainda engatinha nesse mercado. Mas o quadro está prestes a mudar, e rapidamente. São cada vez mais claras as evidências de que a Amazon vai finalmente inaugurar seu site brasileiro de venda de livros eletrônicos no final deste mês ou começo de dezembro e trazer para o País o seu leitor digital, o Kindle. Alimenta os rumores o fato de a empresa americana ter fechado acordo com a Distribuidora de Livros Digitais [DLD], que reúne editoras como Sextante, Objetiva e Record. A Amazon também estaria contratando 14 profissionais no Brasil.

Esse não é o único grande movimento no setor. Pressionado pelo concorrente, o Google estaria acelerando o lançamento de seu tablet Nexus 7 por estas bandas, assim como o início das operações do Google Play Book. Contatadas por ISTOÉ, as empresas não confirmam as informações, mas gente de dentro do mercado e a imprensa especializada apostam que as empresas chegam ao Brasil antes do Natal. Elas estão motivadas pela perspectiva de o consumidor brasileiro se deixar seduzir pelos benefícios dos livros digitais. Entre eles, o preço cerca de 30% menor de cada obra, a capacidade de armazenar centenas de obras e a preservação do ambiente – além de economizar papel, o e-book não necessita de transporte motorizado.

SEM SOMBRA | Com telas que imitam a relação entre tinta e papel, a tela de alguns e-readers não reflete a luz e permite a leitura sob o sol

SEM SOMBRA | Com telas que imitam a relação entre tinta e papel, a tela de alguns e-readers não reflete a luz e permite a leitura sob o sol

Há ainda a comodidade e a rapidez. Se um best-seller sobre bruxos é lançado à meia-noite em Londres, um minuto depois você já pode estar lendo a obra, sem apertos nem filas. Facilidades como essas animam os consumidores ouvidos pela eCRM123, empresa especializada no relacionamento com clientes nas redes sociais. Em estudo publicado nesta semana, 84% dos entrevistados disseram aprovar o desembarque da Amazon no Brasil.

NúmerosSegundo Ednilson Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias, a expectativa para a chegada da empresa é grande – e preocupante. “A Amazon impõe condições draconianas em relação aos preços e mata livrarias menores”, afirma. Para protegê-las, a associação presidida por Xavier pede que haja um intervalo de 120 dias entre o lançamento de um livro impresso e sua versão digital; que os descontos da editora para as livrarias sejam uniformes, ou seja, que as pequenas consigam os mesmos preços que as gigantes; que os livros digitais sejam no máximo 30% mais baratos que os de papel e que, caso as editoras vendam títulos virtuais diretamente ao consumidor, o desconto não passe de 5%.

Para Ednei Procópio, que trabalha com livros eletrônicos desde 1998 e é proprietário de uma editora [a LIVRUS] que leva escritores às plataformas digitais, a vinda da Amazon será positiva para editores e autores, que terão um novo canal de vendas, mas concorda que as livrarias poderão sofrer. “As lojas físicas terão de buscar outros modelos. Uma saída é virar um aparelho cultural, como a Livraria Cultura, que oferece música, teatro, café e promove lançamentos”, diz. A Cultura é, inclusive, uma das empresas nacionais que já correm para enfrentar a concorrência. Irá lançar o Kobo, e-reader fabricado por uma empresa canadense e que será vendido nas lojas da rede. O aparelho terá acesso a um acervo de três milhões de títulos digitais, 15 mil deles em português.

Outra empresa brasileira com armas para enfrentar a nova concorrência é a Gato Sabido, que inaugurou o mercado nacional de livros digitais em dezembro de 2009. Para tanto, conta com seu próprio aparelho, o Cool-er, produzido de forma terceirizada na China e vendido no País a partir de R$ 579. Com ele, o consumidor pode comprar obras com descontos consideráveis. A versão impressa de “Cinquenta Tons de Cinza” tem o preço recomendado de R$ 39,90. No Gato Sabido, o livro sai por R$ 19,92. É bom, mas apenas isso não irá proteger as empresas nacionais contra o rolo compressor que vem por aí. Inovação e qualidade no serviço serão fundamentais.

Fotos: JOE KLAMAR/AFP Photo; EyesWideOpen/Getty Images

Fotos: JOE KLAMAR/AFP Photo; EyesWideOpen/Getty Images

POR Juliana Tiraboschi | Revista ISOTÉ | N° Edição: 2246 | 23.Nov.12, às 15:32

Convenção de Livrarias fecha a programação


Com o tema “Livrari@ – realidades e perspectivas”, a 21ª Convenção Nacional de Livrarias vai acontecer nos dias 29, 30 e 31 de agosto de 2011, no Hotel Sofitel [Avenida Atlântica, 4.240 – Rio de Janeiro/RJ] e vai discutir formas de conquistar e encantar o cliente, as diferenças entre atender e entender, as políticas públicas para o livro e a leitura, a relação do livreiro com o autor e o editor e, como não poderia faltar, o livro digital e os desafios que se abrem às livrarias com a sua popularização. Entre os que já confirmaram presença estão Fabiano dos Santos Piúba, diretor de livro, leitura e literatura da Secretaria de Articulação Institucional do Ministério da Cultura; Galeno Amor, presidente da Fundação Biblioteca Nacional; e André Vianco, escritor. Glorinha Kalil também estará por lá para dar dicas de estilo. A organização é da Associação Nacional de Livrarias. Para participar, inscreva-se no site http://www.anl.org.br ou mande um fax [11] 3361-4622.

PublishNews | 21/06/2011