O despreparo brasileiro para lidar com os livros digitais


No meio de outubro, o responsável pelo site eBooksBrasil, Teotônio Simões, recebeu uma notificação da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos [ABDR]. O aviso por e-mail pedia a remoção do livro A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, em 24 horas.

Era para ter sido uma notificação como outras, não fosse um detalhe: Fustel de Coulanges morreu há mais de 70 anos – sua obra, portanto, está em domínio público – e o tradutor, Frederico Ozanam Pessoa de Barros, autorizou a publicação do livro no site. Na resposta à ABDR, Simões citou o artigo 138 do Código Penal [o que define “calúnia”] e avisou a entidade: atribuir falsamente um crime a alguém pode render prisão de até dois anos.

A ABDR é linha-dura em relação à divulgação de obras na internet. Ela segue a cartilha de outras entidades que cuidam de direitos autorais em outras áreas – música e cinema, por exemplo – e vive emitindo pedidos de remoção ao se deparar com conteúdo supostamente pirata na rede.

Um estudante de letras da USP sentiu de perto a política da ABDR: ele foi processado por criar o site Livros de Humanas, que divulgava obras usadas por universitários. Acadêmicos e autores – como Paulo Coelho – se manifestaram publicamente contra a entidade. O autor brasileiro mais vendido de todos os tempos chegou até a publicar em seu blog o telefone e o e-mail da entidade, incitando as pessoas a protestarem contra a ação. “É permitido trollar”, escreveu.

A indústria cultural demora a aceitar que é impossível controlar a internet. E isso nem fica restrito apenas aos blogs. No Twitter, usuários já se organizaram para criar uma biblioteca de obras – tweets com links para download de livros são agrupados por uma hashtag. Quem controla todos os usuários?

Em vez de tirar proveito do potencial de divulgação da rede, as empresas insistem em tentativas de controlar a circulação de obras. Foi assim com a música, com o cinema e, agora, cada vez mais com os livros. E-books já circulam na rede há muito tempo. Há excelentes bibliotecas virtuais que disponibilizam obras na íntegra. Mas o fim de 2012 marca a chegada de grandes empresas no mercado editorial virtual, como Amazon e Google Play, no País. O mercado vai mudar. E, como em toda mudança, há um lado que sente medo.

A Associação Nacional das Livrarias pede que os lançamentos demorem 120 dias para chegar ao digital. Mas quatro meses é tempo suficiente para os usuários escanearem e jogarem a cópia na web. Não dá para jogar contra a internet – é preciso saber lidar com ela. A Amazon sabe disso e investe no digital.

Aqui no Brasil, a diferença é que o consumidor ganha mais uma opção – o que é especialmente animador em um país com índices tão baixos de leitura. Tentar impedir blogs de divulgarem links, emitir notificações e processar estudantes é um modelo que já se mostrou ineficiente em outras indústrias. O mercado editorial terá de aprender na marra que é impossível remar contra a evolução.

Por Tatiana de Mello Dias | LINK do Estadão | 16 de dezembro de 2012, às 18h50

Tensão pré-Amazon


Chegada da loja ao Brasil mexe com mercado editorial, que se mostra reticente à concorrência. Mas livros são só o começo

SÃO PAULO – “A palavra é apreensivo. A Amazon deixou o mercado brasileiro apreensivo.” A visão de Guto Kater, um dos representantes da Associação Nacional das Livrarias [ANL], ilustra o sentimento da indústria editorial do País, que conta os meses que faltam para a chegada da gigante americana do varejo online, a Amazon.

A previsão era de que a empresa iniciaria as operações em setembro, o que por enquanto está descartado. Segundo um dos envolvidos ouvidos pelo Link, os contratos com quase 30 editoras e distribuidoras estão assinados ou em fase de conclusão. Questões de logística estão praticamente solucionadas.

Problemas relacionados a impostos seriam o fator de impedimento. A empresa teria dificuldades em conciliar o sistema usado internacionalmente com os daqui. Além disso, corre no Senado um projeto de lei que tenta incluir e-readers entre os produtos que recebem isenção total na importação, com livros e tablets.

Durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre 9 e 19 de agosto, um grupo de executivos da Amazon vem de Seattle para “um grande anúncio”. Entre eles estão Pedro Huerta, que cuida das operações da Amazon na América Latina, e Russ Grandinetti, responsável pelo conteúdo do Kindle, o e-reader da empresa.

No anúncio, é provável que as dúvidas em torno da chegada da empresa sejam esclarecidas. Lá, os executivos devem dizer se, além de dar início à comercialização de e-books, a Amazon estreia também a venda nacional do e-reader e do tablet Kindle Fire e se venderá mais itens digitais e, em caso positivo, quando.

O que se sabe é que o primeiro passo no Brasil de fato será com livros digitais. Na verdade, seria o segundo passo, já que São Paulo já é endereço [o único na América do Sul] de um data center da empresa, utilizado para serviços de computação em nuvem que a Amazon também oferece.

A venda “completa”, de artigos que vão de games, a barracas de camping e pneus de carro, demandaria um trabalho infinitamente maior – de estoque e logística, por exemplo – e, por isso, demoraria mais.

Pressão. Logo que a Amazon deu início às negociações com as editoras por aqui, há um ano e meio, as livrarias começaram um jogo de pressão. Livrarias, pequenas, médias e grandes se posicionaram contra e começaram a pressionar editoras para que elas não fechassem acordos – ou pelo menos para retardar a chegada da loja ao País.

Para as editoras, o negócio é interessante. A Amazon seria mais um cliente, comprando todo o acervo de livro digital que oferecem. Porém, os mais conservadores têm medo de que o livro digital reduza as vendas dos exemplares de papel.

“Isso é medo do futuro”, diz Carlos Eduardo Ernnany, dono da primeira vendedora de livros digitais do País, a Gato Sabido, e da distribuidora Xeriph. “O editor, que lucra com os livros físicos, tem de sacrificar o que lhe dá dinheiro para investir num mercado que ainda é pequeno, mas que poderá ser importante no futuro. Mas o futuro é daqui 30 dias.”

O presidente da Livraria Saraiva, Marcílio Pousada, não vê necessidade de pressa e diz que ainda “tem muito livro físico para se vender no Brasil para podermos discutir se o digital vai ser mais importante”.

Apesar disso, ele reconhece que a chegada da Amazon é um momento importante para o mercado nacional e prevê disputas. “Ela vai ter de competir com todos nós, que já temos experiência com o Brasil. Vai ter de lidar com rua esburacada, tributos, deficiência dos Correios, malha logística insuficiente. Por isso digo que o serviço de entrega da Amazon não vai ser melhor do que o do resto do mercado.

Mas o dono de uma das maiores livrarias do País não é pessimista. “Vamos competir sem problemas. Estamos preparados. Que venham os concorrentes!

Kater, vice-presidente da ANL, acredita que a salvação das pequenas e médias livrarias está na oferta de serviços, de um melhor relacionamento com o cliente, atendimento personalizado e na aprovação da lei de um preço único para lançamento, evitando práticas anticompetitivas de mercado. “Se as livrarias entenderem que não venderemos mais só livros, mas serviço, pode deixar a Amazon vir”, diz.

Fábio Uehara, chefe do departamento digital e responsável por aplicativos e e-books da Companhia das Letras, diz ser difícil avaliar o impacto da Amazon, mas ele vê a chegada positivamente. “Eu acredito que sempre é importante ter vários players de peso no mercado. A concorrência é saudável”, diz.

A editora é dona de um catálogo de quase 4 mil livros, mas dispõe atualmente de um número dez vezes menor de e-books. Isso porque a conversão do formato PDF para o padrão de e-book [ePub] leva tempo e dinheiro. Mas Uehara garante que a tendência é que logo os títulos sejam lançados nos dois formatos – físico e digital – ao mesmo tempo.

Estamos comprometidos, convertendo tudo o que podemos. Lançamos nosso primeiro título em abril de 2010. No início deste ano, tínhamos 200. Agora temos 400. A meta é chegar no fim do ano com 800 e-books.

A conversão dos livros digitalizados pelas editoras é apontada como um desafios a serem superados para que esse mercado decole. Somando todo o catálogo nacional em português, é possível chegar a um número aproximado de 11 mil títulos. Em comparação, o acervo da Amazon tem quase 1 milhão.

Para Ernnany, a entrada da Amazon pode incentivar as editoras a acelerar esse processo, que diz ser bastante custoso. Para a conversão de cada livro gasta-se em média R$ 450. “O problema é a falta de capacidade de investimento das pequenas e médias editoras brasileiras em converter seu acervo para ePub.

Ele prevê que a Amazon ocupe de 50% a 60% do mercado e, apesar do abalo, isso deve impulsionar a profissionalização do setor e a popularização dos livros digitais, ainda restritos. “Essa história pode custar caro para algumas livrarias que não se prepararam até hoje. Não tem como ficar olhando para ver o que acontece. Se quiser manter os clientes, que faça isso agora”, diz.

O IMPACTO DA AMAZON NO BRASIL

Maior loja online do mundo deverá ser uma pedra no sapato para muita gente:

E-commerce | Sites de varejo online como Submarino [e todo o grupo B2W], Ricardo Eletro, Nova Pontocom e Casas Bahia poderão ter o novo concorrente em 2013.
E-reader | O Kindle não terá dificuldades contra leitores eletrônicos no Brasil; seus maiores rivais serão os tablets, presentes em apenas 1% dos domicílios brasileiros.
Livros | Livrarias físicas e vendedores online de livros ou e-books como Cultura, Saraiva, Submarino e Gato Sabido, serão os primeiros afetados pela gigante americana.
Música | Contra o iTunes da Apple, a Amazon tem lá fora um catálogo de 20 milhões de músicas à venda e um serviço de armazenamento na nuvem.
Filmes | Se a Amazon trouxer seu serviço de filmes por streaming, Netflix, NetMovies, Saraiva Digital, Terra TV Video Store e Net Now serão os mais afetados por aqui.

QUEM AINDA PODE VIR

Kobo | A empresa canadense fundada em 2009 é um dos gigantes neste mercado internacional. Após ser comprada pela japonesa Rakuten em 2011, começou sua expansão pelo mundo e deve chegar ao Brasil no segundo semestre deste ano, garantiu o vice-presidente da empresa, Todd Humphrey, durante um evento em São Paulo em abril.

Apple | A iBook Store, seção de livros digitais da loja virtual da Apple, está disponível no Brasil desde o ano passado quando o iTunes chegou por aqui. No entanto, o acervo disponível se resume a e-books gratuitos de domínio público, por exemplo, clássicos como Moby Dick e algumas obras de Jane Austen. Mas já fala-se que o acervo deve ser expandido em breve.

Google | Segundo o brasileiro Hugo Barra, diretor de produtos para a plataforma móvel Android, a loja de conteúdo digital do Google – Google Play – deve passar a comercializar livros no Brasil a partir dos próximos meses. Com isso, deve ser estreada uma forma de pagamento nova, que deverá incluir as compras do usuário na fatura do aparelho.

Por Murilo Roncolato | O Estado de S. Paulo | 08/07/2012