Chegada da Amazon ao Brasil acirra guerra de preços de livros


A entrada da Amazon Brasil na venda de livros físicos, há três meses, abalou a estrutura do mercado editorial e acirrou a guerra de preços entre livrarias e o comércio on-line. O resultado é que alguns títulos impressos estão com valores mais baixos que as versões digitais.

Com um alcance maior dos clientes, promoções e facilidade na compra, o e-commerce se fortalece a cada ano.

Porém, com a política de preço cada vez mais agressiva, existe medo de que pequenas livrarias desapareçam.

Para o presidente da ANL [Associação Nacional de Livrarias], Ednilson Xavier, a gigante americana “prejudicou, está prejudicando e irá prejudicar ainda mais” o mercado de livros no país. “A vinda da Amazon só veio ratificar uma condição já existente no Brasil há bastante tempo, que é a concorrência predatória“, afirma.

Leitora faz compras em livraria de SP; concorrência faz títulos impressos ficarem mais baratos que versões digitais | Foto: Davi Ribeiro - 4.jul.2014/Folhapress

Leitora faz compras em livraria de SP; concorrência faz títulos impressos ficarem mais baratos que versões digitais | Foto: Davi Ribeiro – 4.jul.2014/Folhapress

Carlo Carrenho, especialista em mercado editorial e fundador do PublishNews, explica que a Amazon revê os preços de todos os livros de hora em hora, equiparando os valores de qualquer site.

Ninguém chega perto de ter isso no Brasil.

TROCA-TROCA

No início deste mês, o título “Fim”, de Fernanda Torres, era vendido na Amazon Brasil por R$ 16,90. Sua versão digital custava R$ 21,66.

O mesmo livro impresso estava à venda na loja virtual da Livraria Cultura por R$ 25,88 e o digital, por R$ 22,80. Na Saraiva, o exemplar custava R$ 25,90 e o e-book, R$ 22,80. Uma semana depois, a loja americana aumentou o preço para R$ 19,90 e foi desbancada pela Submarino.com, que está vendendo o exemplar por R$ 17,51.

No entanto, quem ganhou essa batalha foi o site Extra.com, que anunciou o livro físico por R$12,90.

Todas as empresas colocaram o valor abaixo do sugerido pela própria editora, a Companhia das Letras, que é de R$ 34,50 para a versão física e R$ 24 para a digital.

Além disso, o preço do livro físico, em muitos casos, é menor que o digital. Carrenho explica que o contrato de livros digitais no Brasil limita o desconto a no máximo 5%.

Há praticamente um preço fixo do livro digital“, diz.

Para Sônia Jardim, presidente da SNEL [Sindicato Nacional dos Editores de Livros], a regra para a venda de títulos às livrarias é uma só. “As editoras sugerem um preço e vendem ao varejista com um desconto de até 50%. Mas alguns estão abrindo mão desse desconto para conquistar mais clientes“, conclui.

Ednílson Xavier diz que a concorrência que parece benéfica ao consumidor, no longo prazo, não é. “Ela impede que as pequenas e médias livrarias sobrevivam e tenham diversidade de títulos. Quando o mercado fica concentrado na mão de grandes, evidentemente se prioriza as mercadorias que têm giro“.

Não vamos dar a receita do bolo“, diz o diretor geral da Amazon no Brasil, Alex Szapiro, quando questionado como a empresa consegue baixar tanto os preços.

Repetindo o lema da empresa, se recusa a falar sobre política de preços e diz que a principal meta da livraria eletrônica é “usar a tecnologia em prol do cliente“.

Carrenho afirma que combater a Amazon com política de preço fixo do livro é “ingenuidade”. Para ele, é preciso melhorar os processos do setor e dar à indústria capacidade para competir.

POR THAIS FASCINA DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 23/11/2014, às 02h00

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Mercado quer controle de preço para peitar Amazon


Editores e livreiros brasileiros defendem limite de desconto para livros

Nos EUA e na Europa, a varejista on-line é acusada de chantagem e abuso de poder para obter os menores preços

Preocupados com os embates entre a Amazon e editoras da Europa e EUA, editores e livreiros brasileiros defendem a adoção de políticas de controle de preço e de descontos nas vendas de livros para enfrentar a varejista on-line norte-americana.

A Amazon vende e-books no Brasil desde 2012. Em breve deve também comercializar livros físicos. A Amazon não divulga a data nem comenta seus atritos com concorrentes.

Até agora, editores daqui descrevem as negociações com a gigante americana como “positivas”. O comércio de e-books no Brasil ainda é ínfimo [2,5% do mercado de livros de interesse geral] e equilibrado [Amazon disputa com Apple, Google e Saraiva].

O cenário internacional, entretanto, causa apreensão.

Nos últimos dois meses, a filial norte-americana da editora Hachette acusa a Amazon de restringir suas vendas e atrasar entregas de seus livros. A briga começou porque a editora não aceitou a política feroz de descontos da varejista.

Nos EUA, segundo especialistas, a Amazon controla 60% do mercado do livro. No ano passado, pela primeira vez no país, a internet [R$ 16,6 bilhões] superou o faturamento das livrarias em vendas de livros [R$ 15,7 bilhões].

Para atrair consumidores, a Amazon busca sempre descontos e promoções, chegando a perder dinheiro na venda de alguns livros.

Na Alemanha, a Amazon é processada pela associação de livrarias. É acusada de chantagem e abuso de posição dominante.

Já a França, na semana passada, estendeu sua política de preço único de livros para os títulos vendidos pela internet. Conhecida informalmente como “Lei anti-Amazon”, impede lojas on-line de praticar o frete grátis e descontos acima de 5%.

Leis de preço único para livros são adotadas em vários países: França, Alemanha, Argentina, Espanha, entre outros. As editoras estabelecem um valor para cada livro lançado. Por um período de tempo, livrarias só podem oferecer descontos entre 5% e 10%.

REGULAMENTAÇÃO

No Brasil, setores do mercado editorial consideram fundamental esse tipo de freio.

Para compensar o grande desconto a alguns títulos, essas grandes lojas on-line acabam por encarecer o preço médio dos demais. É uma política deletéria“, diz Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre [grupo de 120 editoras de pequeno e médio porte].

A ANL [Associação Nacional de Livrarias] também defende políticas de regulamentação: preço único, controle de desconto, apoio à distribuição dos títulos pelo país.

Essa busca pelo menor preço pode quebrar todo o mercado. Com todo o poder centrado na Amazon, ela decide o que você poderá ler ou não. Parece uma situação extrema, mas já começa a acontecer na prática“, diz Afonso Martin, diretor da ANL.

O Snel [Sindicato Nacional dos Editores de Livros] costumava se manifestar contra o preço único, mas agora diz que pretende rever a questão.

“Como as lojas físicas podem concorrer com as varejistas on-line? Nesse novo cenário, elas podem falir. Temos que estudar bem essas leis”, argumenta Sônia Jardim, presidente do sindicato.

Para Carlo Carrenho, fundador do PublishNews, portal dedicado ao mercado editorial, a solução está no aperfeiçoamento da cadeia do livro no Brasil, e não necessariamente na regulamentação.

A Amazon poderá, no futuro, exercer um monopólio extremamente prejudicial. Mas a culpa será mais da ineficiência da indústria brasileira do que da eficiência da empresa americana.

POR MARCO RODRIGO ALMEIDA DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 05/07/2014

Câmara votará isenção tributária apenas para e-readers feitos no país


A equiparação dos e-readers a livros de papel para efeitos tributários foi derrubada pela deputada Fátima Bezerra [PT-RN], relatora de um projeto de lei que atualiza o conceito do que será considerado livro no país. A mudança era defendida por empresas do setor para baratear os aparelhos de leitura e estimular as vendas.

A deputada decidiu alterar texto já aprovado no Senado e excluir do projeto a equiparação dos aparelhos de leitura aos livros, o que garantiria uma tributação menor aos e-readers. Ao invés disso, ela proporá a inclusão dos dispositivos na chamada Lei do Bem, o que garante a isenção de impostos, mas desde que os aparelhos sejam fabricados no Brasil.

Empresários do setor reprovaram a mudança. Sérgio Herz, proprietário da Livraria Cultura, aponta dois gargalos: a falta de demanda suficiente para que os leitores digitais sejam fabricados no país e o alto custo de produção no Brasil.

“[A mudança] não faz sentido nenhum. O leitor digital só serve para ler, ele tem a mesma função do livro de papel. Na prática, incluir o e-reader na Lei do Bem significa que não haverá isenção tributária e, consequentemente, não haverá redução nos preços”, afirma Herz.

Temos um dos aparelhos mais caros do mundo. O que justifica isso?“, diz. A Livraria Cultura comercializa o Kobo, leitor digital desenvolvido no Canadá. O líder do mercado é o Kindle, da norte-americana Amazon.

Fátima Bezerra, relatora do projeto, argumenta que o desenvolvimento de uma indústria nacional pode ser questão de tempo.

Segundo a deputada, os benefícios tributários previstos na Lei do Bem têm o mesmo efeito do que teria a equiparação dos e-readers a livros físicos. Em ambos os casos, eles deixam de pagar ICMS, IPI, PIS/Cofins e o Imposto Sobre Importações, que somados, representam quase metade do valor do produto. A diferença é que na Lei do Livro, os aparelhos deixariam de pagar impostos mesmo sendo produzidos em outros países.

A modificação teve o apoio da Câmara Brasileira do Livro [CBL], da Associação Nacional de Livrarias [ANL] e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], que defendem a isenção de impostos apenas para o conteúdo, ou seja, para os livros digitais e não para os aparelhos.

Tendo em vista que a Lei do Bem trata do Programa de Inclusão Digital e estabelece certas condições para a concessão de incentivos fiscais, entendemos que a inclusão dos e-readers é até uma questão de isonomia e neutralidade econômica” afirma Karine Pansa, presidente da ABL.

O diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura, Fabiano Piuba, afirma que a proposta da relatora tem o apoio do governo.

Não tenho dúvida de que os aparelhos digitais são fundamentais para o acesso ao livro mas cremos que há uma questão conceitual que não pode ficar em segundo plano. O livro é a obra do autor e não o suporte dado a ele. Por isso consideramos que a inclusão dos e-readers na Lei do Bem atende aos nossos anseios“, disse.

De autoria do senador Acir Gurgacz [PDT-RO], o projeto que moderniza a Lei do Livro já foi aprovado pelo Senado e está pronto para ser votado pelas comissões de Cultura e de Constituição e Justiça da Câmara. Se for aprovado, ele deverá voltar para análise dos senadores porque foi modificado na Câmara.

No entanto, é difícil que a conclusão da tramitação da proposta aconteça ainda neste ano.

Com os trabalhos suspensos devido à realização da Copa do Mundo, a Câmara só voltará a funcionar na primeira semana de julho. Devido às campanhas eleitorais, o Congresso realizará apenas esforços concentrados em uma semana de agosto e uma de setembro.

POR MARIANA HAUBERT | DE BRASÍLIA | Publiado originalmente em Folha de S. Paulo | 20/06/2014, às 12h23

As oito perguntas de Fabiano


Diretor da DLLLB do MinC pede que a proposta de isenção dos leitores digitais seja mais discutida, mas aceita a isenção dos e-books

Fotógrafo: Luis Macedo | Câmara dos Deputados

Fotógrafo: Luis Macedo | Câmara dos Deputados

“Dizem que o livro desaparecerá, eu creio que é impossível. Perguntam: que diferença pode haver entre um livro e uma revista ou um disco? A diferença é que uma revista é para ser lida e esquecida, um disco se ouve, e mesmo assim, para o esquecimento, é uma coisa mecânica e, portanto frívola. Um livro se lê para a memória. O conceito de livro sagrado, do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas […] pode estar ultrapassado, porém o livro tem uma espécie de santidade que devemos cuidar para que não se perca.” Foi com estas palavras de Jorge Luis Borges que Fabiano dos Santos Piúba, responsável pela Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas  [DLLLB] do Ministério da Cultura, abriu sua participação na audiência pública organizada pela Câmara dos Deputados para discutir o Projeto de Lei 4534/12 que propõe a equiparação de e-books e de e-readers dedicados ao livro físico, isentando-o de impostos.

Como costuma fazer em eventos deste tipo, Fabiano não improvisou sua fala, mas leu um texto preparado com rigor quase acadêmico e muita pesquisa. Aliás, um texto não, mas dois. Pois Fabiano participou tanto da primeira mesa Que é livro digital, como da terceira, Mercado do Livro Digital no Brasil. Em sua primeira fala, além de citar o grande escritor argentino e discorrer sobre o conceito de livro, Fabiano deixou clara qual era a posição do MinC sobre a pauta do dia. “Somos plenamente favoráveis à atualização da lei com a equiparação do livro digital a livro, gozando assim, de todas as isenções garantidas pelas leis supracitadas. Mas daí, incluir o aparelho de leitor digital nesse rol, parece-me um tanto precipitado, necessitando um debate melhor sobre essa equiparação. Nesses termos, o Ministério da Cultura está em fase de estudo e construindo pareceres técnicos pela DLLLB e pela Diretoria de Direitos Intelectuais [DDI]”, informou o diretor da DLLLB.

Antes de terminar sua primeira fala, Fabiano ainda ressaltou a discussão que o MinC vem promovendo sobre o tema. “Temos recebido, por meio de audiências com a própria Ministra Marta Suplicy, representantes do setor produtivo do livro, a exemplo da CBL, SNEL, LIBRE, ABEU, ANL, além da Amazon, que solicitaram audiências com a Ministra”, relatou.

Mas foi na terceira mesa do dia que o representante do MinC foi objetivo e direto ao assunto como poucos panelistas do dia conseguiram. Após citar Umberto Eco e fazer algumas considerações sobre a isenção fiscal de livros e leitores digitais, Fabiano apresentou oito questões extremamente pertinentes sobre a revisão da Lei do Livro e a equiparação do leitor digital ao livro físico:

1] Um aparelho eletrônico pode ser equiparado a livro? E como consequência, será registrado o ISBN de cada aparelho de leitor digital?

2] Vale esclarecer e debater o que significa na proposta da revisão o termo “função exclusiva ou primordial” para a leitura de textos. Então se um aparelho tem como função primordial a leitura exclusiva de textos e como funções secundárias outros aplicativos e tipos de mídia digital, ele será considerado um livro?

3] Quais as garantias legais que com a isenção fiscal esses aparelhos de leitores digitais serão barateados e aumentaremos com isso o consumo de e-books?

4] Essa proposta de revisão, tal como apresentada, não poderia afetar a livre concorrência?

5] A equiparação do aparelho de leitor digital e sua consequente desoneração fiscal ampliará necessariamente e de maneira expressiva o acesso ao livro e à leitura?

6] Considerando que a primeira diretriz no artigo 1º da Lei do Livro 10.753 de 2003 é “assegurar ao cidadão o pleno exercício do direito de acesso e uso do livro” e que o primeiro eixo do PNLL é a “democratização do acesso”, não seria mais adequado que o acesso remoto ao livro digital ocorra em um número maior e diverso de aparelhos, sejam eles exclusivos para leitura de textos ou não? E complementária a essa questão, qual o impacto de equiparar o leitor de texto digital a livro para os projetos de bibliotecas de empréstimo digital?

7] Que países adotam hoje por meio de leis, a isenção fiscal não só para o livro [físico ou digital], mas também para o aparelho de leitor digital? A produção e comercialização do Kindle estão imunes de impostos e seu aparelho está equiparado a livro nos EUA ou na Holanda?

8] Por que esses aparelhos não podem ser produzidos no Brasil, inclusive podendo contar com isenções de impostos por meio da lei específica que trata do incentivo à inovação tecnológica e do programa de inclusão digital?

As perguntas ficaram no ar e mostraram algumas das preocupações que o MinC tem sobre o tema. O vice-presidente da Amazon, Alexandre Szapiro, falou logo a seguir e conseguiu responder duas das perguntas.

Sobre a questão da política fiscal dos outros países, Szapiro deu uma resposta bastante estratégica. “EUA, Mexico e Canadá são países que oneram o leitor digital da mesma maneira como oneram o livro”, declarou. Mas como era de se esperar, ele não fez questão de enfatizar que nestes países os livros pagam impostos semelhantes às outras mercadorias.

A segunda pergunta que o vice-presidente da Amazon respondeu foi referente às garantias de que a desoneração representasse, de fato, um barateamento do produto. “Nosso comprometimento é que as mesmas faixas de preço que a Amazon pratica hoje nos EUA, México e Canadá seriam as que praticaríamos no Brasil, cabidos os custos inerentes ao Brasil”, comprometeu-se Szapiro.

Agora falta responder as outras seis perguntas.

Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente e clipado à partir de PublishNews | 09/05/2014

Isenção fiscal do Kindle e do Kobo ameaçada


Relatora do Projeto de Lei que isenta livros digitais sugere retirar os e-readers do texto

Fotógrafo | Viola Jr./Câmara dos Deputados

Fotógrafo | Viola Jr./Câmara dos Deputados

Editores e livreiros tiveram que madrugar na manhã de ontem [6], para marcar presença logo cedo na Câmara dos Deputados em Brasília onde as comissões de Cultura e de Educação organizaram a audiência pública O Futuro e o Mercado do Livro Digital no Brasil. Por trás do nome pomposo, o objetivo do encontro era discutir o Projeto de Lei 4534/12 que propõe a equiparação de e-books e de e-readers dedicados ao livro físico, o que isentaria tanto aparelhos dedicados à leitura quanto livros digitais – ou seja, o conteúdo – de absolutamente quaisquer impostos. O voo 3702 da TAM, por exemplo, transportou executivos da Livraria Cultura, da Saraiva e da Amazon de São Paulo para o Distrito Federal, confiando às mãos do piloto que decolou às 6h47 parte do futuro do livro digital no Brasil.

A primeira mesa, intitulada Que é livro digital, teve como destaque a participação do senador Acir Gurgacz, autor do Projeto de Lei do Senado [PLS] 114, de 2010, que viria a se transformar no PL 4534/12. “A intenção é corrigir uma distorção que ocorreu com o passar do tempo na Lei do Livro. É um contrassenso considerar como livros apenas o material impresso”, explicou o senador, que enfatizou a defesa da isenção do leitor dedicado em sua fala, especialmente para o uso entre estudantes. “A isenção diminuiria o preço dos leitores em até 50%.”, lembrou. “A indústria nacional deve ser estimulada, mas não protegida da sadia concorrência internacional. Manter os impostos prejudica os estudantes e alarga a distância da nossa tecnologia daquela que existe no exterior”, prosseguiu. O senador ainda explicitou que o projeto de lei é específico para e-readers dedicados. “Não tenho a intenção de levar a isenção a tablets e computadores, não é essa a ideia.”

O enfoque de Acir Gurgacz na isenção do aparelho não foi gratuita. Conforme o PublishNews já havia noticiado, várias associações do setor do livro, representadas na audiência pela Associação Nacional de Livrarias [ANL], Sindicato Nacional de Editores de Livros [SNEL], e Câmara Brasileira do Livro [CBL], se posicionam contra a inclusão de aparelhos de leitura no projeto de lei, ainda que dedicados, e estavam ali justamente para manifestar sua posição.

Foi isto que a ANL fez logo na segunda mesa do dia, intitulada Plataforma e Formato dos Livros, e que teve como destaque justamente a fala de Ednilson Xavier, presidente da instituição. “Estamos dando um passo maior que a perna ao aceitar esta avalanche do livro digital”, afirmou. E terminou sua fala de forma objetiva, contra a desoneração do leitor digital e criticando especialmente os modelos proprietários como aqueles da Amazon e Apple. “A ANL concorda com o conteúdo digital isento, mas no que se refere aos aparelhos de leitura ela se preocupa com dois riscos: o arquivo digital ser refém de quem possui o software e o aparato tecnológico acabar por limitar o acesso ao conteúdo”.

Mas o melhor estava reservado para a tarde. Por volta das 14h, teve início o painel Mercado do Livro Digital no Brasil, com a presença de tantos representantes que praticamente não couberam na mesa. Estavam ali Karine Pansa [CBL], Amarylis Manole [SNEL], Fabiano Piúba [DLLLB/MinC], José Castilho [PNLL], Fernando Mombelli [Receita Federal], Alexandre Szapiro [Amazon], Sergio Herz [Livraria Cultura], a deputada Alice Portugal [presidente da Comissão de Cultura] e a deputada Fátima Bezerra [PT-RN], relatora do projeto na Câmara.

As participações que abordaram a pauta mais diretamente foram as da CBL e das livrarias digitais presentes. Karine Pansa apresentou vários números sobre a leitura no Brasil antes de concluir manifestando a posição da CBL de se retirar os e-readers do projeto de lei. “Não existe dúvida em relação à isenção do conteúdo, mas existe preocupação no que se refere ao suporte, que deve ser discutido de maneira mais ampla e menos rápida, em outro momento, de forma mais profunda”, sentenciou. Ao PublishNews, quando indagada se a CBL já possuía uma posição sobre a isenção dos leitores dedicados em um processo distinto do atual projeto de lei, a presidente disse que não há nada definido. “Não existe posição formada, mas é algo que precisa ser discutido”, explicou.

O SNEL possui posição semelhante, conforme sua presidente Sonia Jardim já declarara ao PublishNews. O sindicato é contra a desoneração dos leitores digitais neste momento, embora não tenha posição contrária à desoneração dos aparelhos em outro fórum ou em outro momento. “O SNEL não é contra, apenas não queremos juntar as duas questões”, explicou a editora Amarylis Manole, diretora da entidade e presidente da ABDR, resumindo a essência do que estava em discussão.

Na realidade, há total consenso sobre a desoneração dos livros digitais, o conteúdo. O Poder Executivo, consultado informalmente, já se mostrou favorável à isenção. O Ministério da Cultura também apoia a equiparação do e-book ao livro físico, e não há quem se manifeste contra. Por isso, a estratégia de SNEL e CBL é, antes de tudo, pragmática. Como a isenção dos e-books é um consenso geral, faz mais sentido tirar os leitores dedicados do projeto de lei e garantir a aprovação rápida da isenção do conteúdo, equiparando o e-book ao livro. Mantendo-se na proposta a isenção dos aparelhos, é praticamente certa a oposição do Executivo e o projeto de lei poderá demorar um tempo inaceitável para ser aprovado, ainda mais em um ano de eleições. E o mercado precisa de uma definição fiscal dos livros digitais imediatamente.

A Amazon e a Livraria Cultura, que comercializam os leitores dedicados Kindle e Kobo, respectivamente, têm todo interesse em garantir a desoneração dos aparelhos de leitura. Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, salientou que quanto maior a facilidade para o consumidor, mais ele compra livros. “Nossos clientes que possuem e-readers compram quatro vezes mais que aqueles que leem em tablets ou no celular. E aqueles que consomem em nossos três canais – a loja física, a loja virtual e a loja de livros digitais – adquirem seis vezes mais livros que aqueles que consomem em apenas um canal. Ou seja, quanto maior a facilidade ao cliente, mais ele consome.” Herz ainda apontou a necessidade de se baratear os e-readers. “O grande problema hoje para se vender os aparelhos é o preço. Quando abaixamos os preços, chegamos a triplicar as vendas. Não há justificativa nenhuma para o Brasil ter o e-reader mais caro do mundo”, enfatizou o livreiro.

O vice-presidente da Amazon no Brasil, Alexandre Szapiro, se manifestou de forma bastante alinhada à Livraria Cultura. Como não podia deixar de ser, iniciou sua fala lembrando do consumidor. “Quem tem de sair ganhando é o leitor e o consumidor brasileiros”, afirmou. Szapiro também insistiu que o grande concorrente do livro físico não é o livro digital, mas as inúmeras atividades de entretenimento inclusive digitais que existem. “Como o jovem está gastando seu tempo livre?”, provocou. Finalmente, lembrou da isenção que o papel e a tinta possuem no Brasil quando destinados à produção de livros, jornais e revistas, mas não quando utilizados de outra forma, e comparou o modelo aos aparelhos de leitura, defendendo a isenção apenas para os e-readers dedicados. “Quais são os equipamentos que que efetivamente só permitem a leitura de um livro? É este o debate que deve ser feito hoje”, arrematou.

Última a falar entre os participantes da mesa, a deputada Fátima Bezerra apresentou então uma proposta, na posição de relatora do projeto de lei na Câmara, que está bastante alinhada às posições defendidas pelas associações do livro. “Há um consenso sobre a isenção do conteúdo e achamos que é saudável lhe dar o incentivo fiscal, mas no que diz respeito ao aparelho, queremos deixar que se trabalhe via a Lei do Bem”, sugeriu a congressista potiguar já com um espírito de decisão. Embora tenha até defendido incentivos fiscais ao aparelho, a relatora mostrou firmeza na ideia de se deixar a decisão para o âmbito da Ciência e Tecnologia. “Por que não remeter este assunto para a Lei do Bem?”, enfatizou.

Se esta for a sugestão do parecer final da Comissão de Cultura da Câmara, quem sairá perdendo é a Amazon, a Livraria Cultura e qualquer outra empresa que queira comercializar e-readers dedicados. Isto porque a “Lei do Bem”, ou Lei 11.196/05, concede incentivos fiscais apenas às pessoas jurídicas que realizarem pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica no Brasil. Ou seja, as importações hoje praticadas tanto pela Amazon quanto pela Livraria Cultura em nada se beneficiarão se os incentivos aos e-readers forem de fato tratados no âmbito desta lei. Além disso, os benefícios mesmo para a produção nacional são a dedução de 20,4% até 34% no IRPJ e na CSLL dos dispêndios com pesquisa e desenvolvimento, a redução de 50% no IPI na compra de máquinas e equipamentos destinados à pesquisa e desenvolvimento, e a depreciação e amortização acelerada desses bens. Ou seja, os benefícios da Lei do Bem estariam muito aquém de uma equiparação do e-reader ao livro físico, que traria a desoneração total do aparelho. Além disso, como lembrou Sergio Herz, “para o Brasil ser competitivo na produção de aparelhos de leitura com países como China, teríamos de ter uma escala gigantesca de produção”. E definitivamente esta não é a realidade e o mercado de e-readers no Brasil é bastante limitado.

Diante da sugestão da deputada Fátima Bezerra, Alexandre Szapiro manifestou-se de forma conciliatória. “No objetivo comum, estamos de acordo. Sobre a Lei do Bem, teremos de discutir mais”, declarou o executivo da Amazon. Já Sergio Herz lembrou que “quanto mais rápido for, melhor para o povo brasileiro”.

O PublishNews apurou que o parecer da relatora Fátima Bezerra está bastante adiantado e em fase de finalização. A expectativa da equipe da deputada é aprová-lo ainda neste semestre, para que o projeto de lei siga então para a Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania, onde será finalizada a apreciação conclusiva pela Câmara dos Deputados.

Escrito por Carlo Carrenho | Publicado originalmente e clipado à partir de PublishNews | 07/05/2014

Brasília debate o futuro do livro digital


Entidades querem a redefinição do conceito de livros no Brasil, mas abrem mão da isenção fiscal a leitores digitais

Está marcada para amanhã [6] uma audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir o futuro do livro digital no Brasil. No encontro, será tratado o Projeto de Lei 4.534/12, que atualiza e institui a Política Nacional do Livro [PNL], definindo, portanto o que é considerado livro no Brasil. Do jeito que está, o Projeto de Lei, cuja relatoria está a cargo da Deputada Fátima Bezerra, e-books e e-readers estão dentro do mesmo balaio, tratados como livros e, portanto, ambos receberiam a isenção prevista na Constituição Federal. E o pinga fogo vai ser daqueles. De um lado, estão as entidades do livro que defendem a isenção aos conteúdos [aos e-books, portanto] e do outro Amazon e Livraria Cultura que pelejam para que a isenção também seja levada aos leitores digitais. “Quem tudo quer nada tem. A nossa preocupação é que o PL está misturando duas coisas distintas”, comentou Sonia Jardim, presidente do SNEL. De acordo com ela, o medo é que, ao liberar os e-readers dos impostos, abra um precedente para que isente smartphones, tablets e toda sorte de aparelhos pelos quais se podem ler livros. “Numa comparação grosseira, o e-reader é uma estante e o e-book é o livro. Não faz sentido tratar como iguais coisas tão diferentes”, ilustra Sonia.

A CBL está em consonância com o SNEL no caso. A entidade observa que, desde que a questão do e-reder foi trazida para dentro das discussões do Projeto de Lei, só gerou polêmica e atrasou a tão sonhada redefinição do conceito de livro. “O que a CBL tem defendido é a atualização do conceito de livro que é bastante conservador”, observa Fernanda Garcia, gerente jurídico da casa. “A questão dos leitores digitais já atrasou o projeto. Nosso entendimento é que esse assunto deverá ser tratado em outra propositura”, arremata.

Em 2004, a Lei 10.925 foi resultado de um movimento semelhante e que levaram à desoneração de PIS/PASEP-COFINS editoras e livrarias brasileiras. Como contrapartida, os empresários deveriam doar 1% do seu faturamento para construção de um fundo para o financiamento de programas de bibliotecas e promoção da leitura. A contrapartida nunca saiu do papel. Mas as entidades garantem que, o movimento de abrir mão da isenção de e-readers não é uma forma de não trazer a tona as discussões sobre o passado. “Quando você pega a pesquisa da FIPE e compara 2004 e 2012, você vê que houve queda de 41% no preço médio dos livros no Brasil. Quem ficou com o benefício da desoneração foi o leitor”, aponta Sonia. E ela vai além e provoca os fabricantes de leitores digitais: “talvez os fabricantes de e-readers devessem assumir o compromisso de criar um fundo para fomentar as livrarias se elas vierem a ser impactadas nesse processo de migração do físico para o digital. Por que não?”, questiona Sonia.

A audiência pública está marcada para amanhã [6], a partir das 9h, no Plenário 12 da Câmara dos Deputados e terá o senador Acir Gurgacz; José Castilho Marques Neto, secretário do PNLL, a livreira Íris Borges e o escritor Fernando Morais discutindo O que é livro digital, a partir das 9h30. A segunda mesa, a partir das 11h30, vai tratar do tema Plataforma e formato dos livros digitais e terá como debatedores Monica Franco [MEC], Paula Bandeira [advogada] e Francisco Gomes [ANL]. Encerrando a audiência, a partir das 14h, a terceira mesa vai discutir o Mercado de Livros Digital no Brasil, com Fabiano Piuba [MinC], Karine Pansa [CBL], Mariana Zahar [SNEL], Alex Szapiro [Amazon], Sérgio Herz [Livraria Cultura], além de representantes do Ministério da Fazenda e da Receita Federal.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 05/05/2014

Comissões debatem o mercado de livro digital no Brasil


As comissões de Cultura; de Educação da Câmara dos Deputados promovem audiência pública nesta terça-feira [6] sobre o mercado do livro digital no Brasil e o PL 4534/12, que atualiza a definição de livro e a lista de equiparados a livro.

O PL 4534/12 inclui na definição de livro todos os títulos convertidos em formato digital, magnético ou ótico e aqueles impressos em Braille. A lei ainda equipara a livros os periódicos convertidos em formato digital, magnético ou ótico ou impressos no sistema Braille; as matérias avulsas ou artigos autorais originários de periódicos convertidos em formato digital, magnético ou ótico ou impressos no sistema Braille; os equipamentos cuja função exclusiva ou primordial seja a leitura de textos em formato digital e os equipamentos para audição de textos em formato magnético ou ótico de uso exclusivo de deficientes visuais.

O debate foi proposto pelos deputados Fátima Bezerra [PT-RN]; Iriny Lopes [PT-ES]; e Glauber Braga [PSB-RJ].

Foram convidados:

Mesa 1: O que é o livro digital?

  • o autor do PL 4534/2012, senador Acir Gurgacz;
  • o secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e leitura do Ministério da Cultura, José Castilho; e
  • os escritores Fernando Morais e Iris Borges.

Mesa 2: Plataforma e formato dos livros digitais

  • a representante do MEC, Monica Franco;
  • a advogada Paula Bandeira; e
  • o representante da Associação Nacional de Livrarias [ANL], Francisco Gomes.

Mesa 3: Mercado do livro digital no Brasil

  • o representante do Ministério da Cultura, Fabiano Piuba;
  • a representante da Câmara Brasileira do Livro [CBL], Karine Pansa;
  • a representante do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], Mariana Zahar;
  • o representante da Amazon, Alex Szapiro;
  • o representante da Livraria Cultura, Sérgio Herz; e
  • representantes do Ministério da Fazenda e da Receita Federal.

O debate será realizado pela manhã, a partir das 9h30, e à tarde, a partir das 14 horas, no plenário 12.

Agência Câmara | Publicado originalmente em Correio Braziliense | 05/05/2014, às 11:34

“O autor e o novo mercado editorial”, por Ednei Procópio


A Revolução dos eBoks

A Revolução dos eBoks

Agora sim! Minha terceira e mais nova obra será lançada em março próximo, pela Editora SENAI. O título que acabou agradando à editora foi “A Revolução dos eBooks”. Neste livro, falo dos motivos do título e quem, na verdade, antes de mim, cunhou o termo “[e]Book [R]evolution”.

O texto original da obra já estava pronto quando fui à convenção anual da Associação Nacional de Livrarias [ANL], durante a última Bienal do Livro do Rio de Janeiro, para ministrar uma palestra sobre o mercado livreiro. No evento, conversando com um diretor da Editora SENAI, meu livro foi selecionado por eles para publicação. Está sendo uma experiência muito interessante ser, ao mesmo tempo, o editor de uma editora [para quem não sabe, sou o fundador da Livrus Negócios Editoriais], e ter um livro meu publicado por outra casa editorial.

Enquanto meu livro estava no prelo, fiquei pensando na expectativa que a publicação de uma obra gera em nós escritores. Eu, que sempre estive do lado de cá da mesa, atuando como editor tive que provar do meu próprio veneno. Recebi inúmeras recomendações da equipe editorial daquele selo com o objetivo de melhorar minha obra. Percebi que aquele processo todo estava gerando em mim uma ansiedade que há tempos não sentia. Será que minha própria editora gerava essa mesma expectativa em seus autores?

Autores de um novo ecossistema editorial

Neste meu novo livro, deixo claro que, quando falo em revolução dos eBooks Readers, estou me referindo mais aos leitores em si, os consumidores dos livros na era digital, do que as máquinas por eles utilizadas para leitura. A revolução digital permitiu, na outra ponta do ecossistema editorial, que os autores tivessem acesso a dezenas de plataformas de autopublicação que, pela primeira vez desde Gutenberg, oferecem ao autor a possibilidade real de ver seu texto publicado sem as barreiras existentes no antigo modelo.

Na autopublicação, por exemplo, existe a [inter]mediação de uma empresa que, geralmente, faz uso das tecnologias e das mídias digitais para oferecer uma plataforma de publicação. Nestes casos, a empresa que oferece tais ferramentas tem um papel menos atuante no que diz respeito à produção dos livros e exatamente por esta razão, pode haver contraindicações no mau uso destas ferramentas, principalmente se o usuário não se preparar para o processo que vai se desenrolar a partir dali.

A editora que está publicando meu livro, do contrário, mantém uma equipe editorial já treinada que, por mais que eu tentasse acelerar a produção do meu livro, por pressa minha mesmo, por pura ansiedade, não me permitiria errar em itens tão importantes como texto de quarta capa, texto de orelhas, texto sobre o autor, prefácio, sumário, etc.

Por exemplo, sou um nerd assumido, guardo ‘de cabeça’ todas as referências bibliográficas sobre eBooks. Mas, e se eu não incluísse esses dados bibliográficos em meu livro? Tive que entregar à editora a referência completa [tal qual reza a cartilha da ABNT]. Foi item obrigatório para ter meu livro publicado por aquele selo. Também me pediram as notas de rodapé para todas as referências que eu estava fazendo nos capítulos.

Malditas notas de rodapé

Então estava eu lá, um domingo inteiro, buscando as tais notas para entregar na segunda-feira pela manhã, para que meu livro fosse publicado o mais rápido possível. Eu pensava: para que raios serve uma nota de rodapé? Pensando bem, quem lê esse troço?

Um livro de não ficção, que é meu caso, não pode ser considerado um bom livro se não tiver o mínimo que a ABNT sugere para que o material seja efetivamente considerado publicável. Fora ter de cuidar do ISBN e da Ficha Catalográfica [itens considerados obrigatórios pela Lei do Livro, por sinal] nós, autores e editores [nos casos em que não sejamos ao mesmo tempo a mesma pessoa], precisamos observar outros itens para que um livro tenha uma qualidade aceitável. Não importa o formato: se eBook, audioBook ou paperBook.

Será que os autores que se autopublicam [e não são editores] estão preparados para admitir que, para ter um bom livro publicado, a obra terá que passar inevitavelmente por uma preparação de texto, revisão, diagramação, capa, ISBN, Ficha Catalográfica? E que será preciso observar tantos outros itens imprescindíveis como hifenização, viúvas, órfãs, resenhas, release de qualidade, que também fazem parte da publicação de uma obra?

Autor que não é livro que não é editora

Deixando de lado, pelo menos por enquanto, a questão dos custos e financiamento da produção, são três os modelos atuais mais comuns para a publicação de um livro:

O primeiro deles é aquele que chamaremos tradicional; nele, o autor envia o livro para uma editora e a seleção da obra fica a cargo de um conselho editorial, responsável pela curadoria de um determinado catálogo. Neste modelo, a equipe editorial está presente do início ao final da produção do material enviado. É o caso usado por aquela editora na publicação do meu livro.

O segundo modelo, o da autopublicação, é o próprio autor que assume a responsabilidade pela produção de sua obra usando as atuais ferramentas disponíveis nas plataformas de selfpublishing. Neste modelo, é raro a presença de uma equipe editorial, ela não está presente para assessorá-lo. As ferramentas de autopublicação acabam por oferecer uma opção interessante para a edição de livros, criam um ambiente democrático, aberto e acessível; mas estas plataformas não ofertam aos escritores uma equipe editorial que, antes de tudo, primem pela qualidade editorial de sua obra. E o custo zero oferecido por tais empresas é a razão para isto não ocorrer.

E o terceiro modelo são as casas que prestam os serviços necessários para a publicação de um livro, unindo a liberdade da publicação com a qualidade editorial processada por uma equipe. Este é o caso da Livrus. E, antes que me perguntem, sim, os custos e os profissionais estão todos lá, presentes no processo.

Autores que se autopublicam

É realmente fascinante as possibilidades que a Internet, e suas [con]sequências, estão trazendo para o mercado editorial. Mas sabemos que somente a tecnologia não dá o respaldo necessário para que uma determinada obra tenha um bom título, um bom subtítulo, uma boa revisão, etc. Escrever rapidamente um livro e colocá-lo de imediato no ar só porque as ferramentas digitais assim o permitem, pode ser um tiro no próprio pé, principalmente se o autor não dominar os meandros da publicação de um livro. O autor que tiver, por exemplo, um material em potencial em mãos pode perder uma oportunidade única de seu próprio trabalho.

Fora isso, com o tempo, os leitores [os únicos que realmente ‘mandam’ neste novo mercado], inevitavelmente perceberão que as obras que tiveram uma curadoria, uma equipe editorial, são aquelas de fato confiáveis para se ler. Por isso, antes de colocar seu próxima o livro no ar, nestas plataformas automatizadas, pense se você, sozinho, realmente pode e é capaz de realizar o trabalho que uma equipe inteira precisaria fazer para se ter um bom livro. Se for o seu caso, e se assim o considerar, tente a sorte.

Em meu novo livro, busco detalhar a questão atual do financiamento de obras, seja pelo Governo, patrocinadores, concursos culturais, editoras e até pelo próprio autor quando for o caso. Mas, por ser especialista em eBooks desde 1998, talvez parecesse um contra senso eu, agora, atacar, criticar ou mesmo defender as ferramentas digitais de autopublicação. Meu objetivo não é este. Longe disso. Pelo contrário, testei a maioria das ferramentas disponíveis pessoalmente. E afirmo: elas são acessíveis e funcionam, de verdade. São verdadeiramente democráticas se comparadas a qualquer um dos demais modelos.

O fato é que, exatamente por ter estudado a fundo este assunto, cheguei à conclusão de que, se eu quisesse que o meu próprio livro tivesse qualidade que eu desejava, e que não caísse na vala comum de centenas de outros de identificada precariedade, eu não deveria fazer o livro inteiro sozinho, eu necessitava de um corpo editorial.

Felizmente, sou editor e poderia fazê-lo usando a equipe da minha própria editora, a Livrus, se fosse o caso, como alternativa. Mas, felizmente também, o novo mercado editorial está repleto de portas abertas para aqueles que não têm pressa em publicar, mas primam antes de tudo pela qualidade de suas próprias obras. E, por essa razão, encontram alternativas inúmeras, entre as quais as tradicionais.

Nos demais casos, como alternativa, a necessidade nos aponta um ambiente de ferramentas digitais de autopublicação atrelado a uma equipe de curadoria. A primeira automatiza o processo e ajuda a reduzir custos por conta da escala. A segunda assegura a qualidade. Estas duas, digamos, entidades, unidas, ajudam a equalizar a questão do financiamento das publicações e podem oferecer uma resposta adequada aos novos tempos, aos novos livros, enfim, a um novo mercado editorial.

QUER SABER MAIS? ANOTE NA SUA AGENDA
Palestra | O autor e o novo mercado editorial [gratuita]
Quando | 8 de Fevereiro de 2014, sábado
Horário | das 10h às 12h
Local | Livraria Martins Fontes Paulista
Endereço | Avenida Paulista, 509 – Bela Vista – São Paulo
Por Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

* Ednei Procópio, 37 anos, é empresário e um dos maiores especialistas em livros digitais no Brasil, atuando na área desde 1998.

ANL e Amazon e digitais. Hora de verdades?


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 11/12/2012

O anúncio da chegada ao Brasil de três grandes operadoras do comércio eletrônico de livros – Amazon, Kobo e Google – coincidiu com a divulgação do “Diagnóstico ANL do setor livreiro 2012”.

Recentemente a entidade dos livreiros havia divulgado uma carta aberta ao mercado – i.e. às editoras – e ao governo, com suas sugestões para o desenvolvimento do mercado de livros digitais no país. Sugestões, não reivindicações, segundo a própria entidade.

O diagnóstico foi encomendado pela ANL junto à GfK, uma multinacional de pesquisa de mercado, que lançou no primeiro semestre deste ano seu serviço de rastreamento online da venda de livros, é concorrente ao BookScan da Nielsen [que diz que se prepara para entrar logo no mercado brasileiro].

O estudo da GfK tem algumas características interessantes. Enviou questionários, que podiam ser respondidos online, por fax ou e-mail e entrevistas por telefone junto a todos universo conhecido pela ANL, que é de 3.403 livrarias. A pesquisa recebeu respostas com informações de 716 lojas, o que equivale a 21% do total, um índice de respostas muito bom. Destas, 152 respostas foram obtidas através da central de redes de lojas, que disponibilizaram dados de suas filiais, e 564 respostas vieram diretamente de livrarias independentes e grandes redes, com um questionário respondido por cada loja, representando um total de 474 diferentes razões sociais.

Os números indicam que algumas ditas grandes redes não responderam ao questionário, e que a maior parte das respostas veio efetivamente das livrarias independentes e redes regionais, que têm uma presença maior junto à entidade.

Essa impressão é corroborada pelo dado divulgado de 62% dos respondentes possuírem apenas uma loja, e que o principal regime tributário é o simples.

Alguns destaques da pesquisa:

– Estabilidade no número das lojas independentes, e crescimento das grandes cadeias, com um achatamento na posição das cadeias médias. Na pesquisa de 2009, as grandes cadeias, com mais de cem lojas, representavam 6% do mercado livreiro, e passaram a representar 15%. O segmento das cadeias médias diminuiu de 31% para 22%. Ou seja, a concentração, que se verifica também no segmento editorial, aqui se repete. Os dados não permitem concluir se no setor livreiro ocorre a mesma taxa de alta natalidade e mortalidade no segmento das pequenas livrarias. Explico: no setor editorial, que conheço melhor, noto que todos os anos nasce uma boa quantidade de novas editoras, que não sobrevivem mais que dois ou três anos, sempre substituídas por novas levas de pequenas editoras. A estabilidade evidenciada no índice de 62% [contra 63% em 2009] de empresas que possuem apenas uma loja não permite sabermos se são as mesmas lojas, ou se novas empresas surgiram para substituir as que eventualmente fecharam.

– Distribuição das livrarias. Permanece evidente que as regiões mais ricas e escolarizadas do país são as que têm mais livrarias. O sudeste continua sendo a região com mais lojas. Notou-se, em relação aos dados de 2009, duas flutuações leves, mas significativas. Positivamente, a proporção de livrarias na região nordeste aumentou três pontos percentuais, de doze para quinze por cento do total de lojas. Inversamente, a proporção de lojas na região Sul diminuiu de dezenove para dezesseis por cento. O aumento no nordeste talvez seja explicável pelo crescimento dos investimentos em educação na região, que também registrou proporcionalmente um aumento menor na melhoria dos índices socioeconômicos.

– Uma tabela interessante é a que mostra a disposição das livrarias em investir no negócio. Entre as livrarias, 82% delas declararam que pretendem fazer investimentos em suas lojas até o final de 2013. Essa resposta pode ser lida em dois sentidos. O primeiro, positivo, é o de que a maioria dos livreiros compreende e está disposto a fazer investimentos em seu negócio. Mas o fato de 18% dos respondentes declararem que não pensam em investir nada no seu próprio negócio no ano de 2013 revela também que ainda há gente que acha que o mero fato de existir garante sua sobrevivência. Para esses, a vida vai ser complicada.

Mas, para além da decisão de investir, vale a pena ver em que os livreiros pretendem fazer isso. A maioria [71% dos que responderam que farão investimentos] diz que fará reforma na loja. Logo em seguida [64% – as respostas não eram excludentes] estão os que declaram a decisão de investir em tecnologia. A mesma proporção [64%] afirma que investirá na capacitação profissional. Finalmente, 34% afirma que investirá na abertura de novas lojas, índice que sobe para 46% entre os livreiros do nordeste e chega a 65% entre as livrarias que têm cinco ou mais lojas.

Se o investimento em capacitação revela uma preocupação positiva relacionada com o atendimento ao cliente, as perguntas relacionadas à informatização das empresas, para mim, colocam questões preocupantes. Além do fato de 12% do total das empresas não estarem informatizadas [17% entre as livrarias que possuem uma e duas lojas], verifica-se que o chamado “investimento em informática” se refere de maneira avassaladora às questões de gestão empresarial das empresas.

Há uma enorme lacuna no que diz respeito ao uso de mecanismos informatizados para o serviço ao cliente.

Vejamos os dados da pesquisa.

As “áreas informatizadas” [em porcentagens] das livrarias pesquisadas são as seguintes:

92% estão informatizadas no controle de retaguarda [controle de estoques];
89% estão com seus sistemas de caixa [emissor de cupom fiscal] informatizados;
86% estão com os controles financeiros [contas a pagar/receber/bancos/cartões, etc.] informatizados;
78% estão com seus sistemas contábeis [controle fiscal] informatizados.

Não se faz menção a investimentos nos meios informatizados para ajudar no atendimento aos clientes. Aliás, não foram feitas perguntas nesse sentido no questionário, o que revela, por parte da ANL, um desconhecimento da importância dessa questão.

Quando me refiro aos serviços aos clientes com ajuda da informática, estou remetendo principalmente aos processos informatizados para ajudar os clientes a encontrar o livro que desejam, aos processos de comunicação com os clientes, inclusive a geração de feedback sobre atendimento e busca da satisfação das necessidades dos clientes. Em uma palavra: metadados.

Ajudar os clientes a encontrar o que desejam é algo completamente diferente do simples controle de estoque, ou de ter ou não e-commerce. Não se perguntou [ou as respostas não foram tabeladas] sobre a existência de sites, uso das redes sociais [Facebook, Twitter, Orkut ou similares], emissão eletrônica de boletins de novidades. Comunicação ativa e proativa com os clientes.

Os livreiros demonstram uma preocupação crescente com a oferta de espaços “alternativos” para os clientes: áreas para leitura; cafés ou cyber cafés e espaço para eventos foram os mais citados. Da mesma maneira, o aumento da diversidade de itens comercializados é crescente, com três quartos das livrarias ofertando CDs e DVDs, além da tradicional oferta de material de papelaria, hoje acompanhados de suplementos de informática. As livrarias religiosas, particularmente as católicas, oferecem artigos religiosos [santos, quadros, terços e o resto da parafernália de culto].

A lista de tipos de livros comercializados é bem extensa, mas sua utilidade na análise do conjunto se vê prejudicada pela não apresentação de um cruzamento com o tipo de livraria. Por exemplo, 76% das livrarias declaram ter estoque de livros religiosos [contra 46% em 2009], e 69% dizem oferecer livros de autoajuda/esotéricos [contra 46% também em 2009]. Essa informação é difícil de ser processada e entendida se não for cruzada com o tipo de livraria que os oferta.

A declaração dos livreiros sobre os tipos de livros não obedece a nenhuma categorização formalizada. É a percepção sobre o “tipo” de livros que oferecem. Assim, por exemplo, não se sabe se os livros dos padres [Marcelo, Fábio Costa, etc.] estão juntos com o de Edir Macedo, ou como se misturam com os livros psicografados nas categorias de autoajuda ou esotéricos.

Essa mistura reflete, também, a pouca extensão do uso da informática para obter informações mais precisas sobre os livros solicitados/ofertados aos seus clientes. O uso sistemático e extenso de metadados produziria informações de interesse significativo para que os livreiros pudessem melhor conhecer o que, efetivamente, seus clientes buscam, encontram [ou não] e preferem.

Evidentemente esse baixo índice de uso dos mecanismos informáticos para colheita de informações não é responsabilidade apenas dos livreiros. Os editores também não sabem aplicar e usar metadados para conhecer o desempenho de seus livros, muito menos para aproveitar ao máximo as informações que possam ser coletadas.

É nesse contexto que a chegada dos grandes players do comércio eletrônico se transforma em uma ameaça muito maior para a futura saúde e progresso das livrarias independentes. A Amazon, a Google [que é, basicamente, uma empresa de sistemas de busca] e mesmo a Kobo levam isso muito a sério.

A sua chegada, além de permitir que os clientes das localidades menores e mais distantes, que nem dispõem de uma livraria física, possam conhecer e encomendar os livros simultaneamente aos mercados do sul e sudeste, apresenta um desafio adicional e muito importante para os livreiros “físicos”. Grandes e pequenos.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 11/12/2012

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

Novo capítulo


Chegada dos livros eletrônicos da Amazon e do Google Play abre nova fase na venda de conteúdo digital. Mas o Brasil está preparado?

SÃO PAULO | Os livros digitais ou e-books chegaram de vez ao Brasil, país que não só ainda tem uma baixa penetração de e-readers e tablets como também índices baixíssimos de leitura. Amazon, Google, Apple e Kobo estão ansiosos para ver suas lojas virtuais jorrando livros digitais, mas há dúvidas sobre se ou quando isso realmente acontecerá.

O brasileiro em geral lê pouco. Mas a gente pode atingir um novo público atraído pelo digital”, diz Fabio Uehara, responsável pelos negócios digitais da Companhia das Letras. “Se não tem tantas livrarias quanto se deveria, agora com um ponto de internet e um tablet ou e-reader é possível comprar qualquer livro, e tanto faz se estou em São Paulo ou no Oiapoque.

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

Kindle | FOTO: Helvio Romero | Estadão

As livrarias estrangeiras levaram mais tempo para chegar do que o planejado e chegaram com preços não tão baixos quanto o esperado.

Boa parte da responsabilidade é das editoras. Elas se debruçaram sobre os imensos contratos, refizeram alguns acordos mais antigos com autores [de quando não se previa o formato digital], bateram o pé para o preço não ser menor do que 70% do valor do livro físico e demoraram para aprender a converter seu catálogo da forma correta.

Acho que as editoras brasileiras foram muito espertas ao negociar com esses players internacionais”, diz Edward Nawotka, editor do site Publishing Perspectives, especializado no setor. “Elas conseguiram obter contratos de vendas realmente decentes da Amazon. Problemas podem surgir se a Amazon adquirir muita fatia de mercado, então eles passarão a exercer pressão sobre as editoras por acordos melhores para eles, como aconteceu nos Estados Unidos.

Por aqui, a Associação Nacional das Livrarias também se arma. Em uma carta aberta, ela defendeu que lançamentos demorem 120 dias para chegar ao digital. “É bom que o livro digital venha, mas é importante que as livrarias sobrevivam”, diz o vice-presidente da ANL, Augusto Kater. A medida, para a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, só incentivaria mais a pirataria que, para ela, é o “maior inimigo”. “Se o livro que estiver bombando não estiver no digital, as pessoas vão escanear e lerão do mesmo jeito.

Na questão do preço, o Brasil seguiu uma espécie de convenção internacional que limita em 30% o desconto do livro físico para o digital. Isso garante competitividade ao papel, mas não anima o consumidor.

Para analistas, o mercado de e-books deverá ficar restrito a um pequeno público, composto basicamente de pessoas de renda mais alta e que já tenham tido contato com dispositivos móveis de leitura. “Quem compra livros impressos hoje, com preços médios de R$ 50, não terá dificuldade em adquirir e-readers”, diz Gerson Ramos, consultor de mercado editorial para a Nielsen e para a Fundação Biblioteca Nacional. “Estamos falando de um poder aquisitivo bem maior do que a média – grande parte inclusive já possui tais aparelhos.

Ramos diz ainda que o e-reader da Amazon oferece os melhores preços de e-books no Brasil – mas tem limitações. “O Kindle, por ser um aparelho de uso exclusivo tende a ter um alcance menor, pois além de tudo, ele não permite outras funcionalidades além da leitura de e-books.

Há quem aposte no fracasso dos e-readers [que tiveram suas vendas reduzidas em 75% entre o fim de 2011 e o início de 2012] diante dos tablets. Além de serem multifuncionais, os aparelhos estão ficando mais baratos – caso do Kindle Fire e do Google Nexus 7, com preço inicial de US$ 200 – e não demoraram para aterrissar por aqui.

Sai ganhando o aparelho mais amigável e o que oferecer conteúdo mais barato. A Livraria Cultura e seu Kobo, Google e Apple aceitam ler e-books de outras empresas [basta baixar o respectivo aplicativo]. Resta saber se Kindle, restrito apenas ao formato da Amazon e preço de R$ 300 no Brasil, terá aqui a mesma adesão que tem lá fora.

Estantes

Por Murilo Roncolato | Publicado originalmente em LINK | 9 de dezembro de 2012, às 19h21

Livro digital: você ainda vai ler um


Com a estreia de suas operações no Brasil prevista para antes do Natal, Amazon e Google Play Books chegam para popularizar os chamados e-books no mercado nacional

LÁ VEM ELE | Presidente da Amazon, Jeff Bezos exibe seus leitores digitais Kindle, porta de entrada para um acervo com 1,7 milhão de livros

LÁ VEM ELE | Presidente da Amazon, Jeff Bezos exibe seus leitores digitais Kindle, porta de entrada para um acervo com 1,7 milhão de livros

Cerca de 40 milhões de americanos têm um aparelho leitor de livros digitais em mãos. Esse número alavanca outros. A receita de venda dos e-books subiu de US$ 551 milhões para US$ 3,3 bilhões de 2009 a 2012. Gigantes da tecnologia apostam num crescimento ainda maior e abastecem as suas estantes virtuais. Somente na loja de e-books do Google, a Play Books, há cerca de quatro milhões de títulos.

Com seus modestos 20 mil títulos digitalizados em português, o Brasil ainda engatinha nesse mercado. Mas o quadro está prestes a mudar, e rapidamente. São cada vez mais claras as evidências de que a Amazon vai finalmente inaugurar seu site brasileiro de venda de livros eletrônicos no final deste mês ou começo de dezembro e trazer para o País o seu leitor digital, o Kindle. Alimenta os rumores o fato de a empresa americana ter fechado acordo com a Distribuidora de Livros Digitais [DLD], que reúne editoras como Sextante, Objetiva e Record. A Amazon também estaria contratando 14 profissionais no Brasil.

Esse não é o único grande movimento no setor. Pressionado pelo concorrente, o Google estaria acelerando o lançamento de seu tablet Nexus 7 por estas bandas, assim como o início das operações do Google Play Book. Contatadas por ISTOÉ, as empresas não confirmam as informações, mas gente de dentro do mercado e a imprensa especializada apostam que as empresas chegam ao Brasil antes do Natal. Elas estão motivadas pela perspectiva de o consumidor brasileiro se deixar seduzir pelos benefícios dos livros digitais. Entre eles, o preço cerca de 30% menor de cada obra, a capacidade de armazenar centenas de obras e a preservação do ambiente – além de economizar papel, o e-book não necessita de transporte motorizado.

SEM SOMBRA | Com telas que imitam a relação entre tinta e papel, a tela de alguns e-readers não reflete a luz e permite a leitura sob o sol

SEM SOMBRA | Com telas que imitam a relação entre tinta e papel, a tela de alguns e-readers não reflete a luz e permite a leitura sob o sol

Há ainda a comodidade e a rapidez. Se um best-seller sobre bruxos é lançado à meia-noite em Londres, um minuto depois você já pode estar lendo a obra, sem apertos nem filas. Facilidades como essas animam os consumidores ouvidos pela eCRM123, empresa especializada no relacionamento com clientes nas redes sociais. Em estudo publicado nesta semana, 84% dos entrevistados disseram aprovar o desembarque da Amazon no Brasil.

NúmerosSegundo Ednilson Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias, a expectativa para a chegada da empresa é grande – e preocupante. “A Amazon impõe condições draconianas em relação aos preços e mata livrarias menores”, afirma. Para protegê-las, a associação presidida por Xavier pede que haja um intervalo de 120 dias entre o lançamento de um livro impresso e sua versão digital; que os descontos da editora para as livrarias sejam uniformes, ou seja, que as pequenas consigam os mesmos preços que as gigantes; que os livros digitais sejam no máximo 30% mais baratos que os de papel e que, caso as editoras vendam títulos virtuais diretamente ao consumidor, o desconto não passe de 5%.

Para Ednei Procópio, que trabalha com livros eletrônicos desde 1998 e é proprietário de uma editora [a LIVRUS] que leva escritores às plataformas digitais, a vinda da Amazon será positiva para editores e autores, que terão um novo canal de vendas, mas concorda que as livrarias poderão sofrer. “As lojas físicas terão de buscar outros modelos. Uma saída é virar um aparelho cultural, como a Livraria Cultura, que oferece música, teatro, café e promove lançamentos”, diz. A Cultura é, inclusive, uma das empresas nacionais que já correm para enfrentar a concorrência. Irá lançar o Kobo, e-reader fabricado por uma empresa canadense e que será vendido nas lojas da rede. O aparelho terá acesso a um acervo de três milhões de títulos digitais, 15 mil deles em português.

Outra empresa brasileira com armas para enfrentar a nova concorrência é a Gato Sabido, que inaugurou o mercado nacional de livros digitais em dezembro de 2009. Para tanto, conta com seu próprio aparelho, o Cool-er, produzido de forma terceirizada na China e vendido no País a partir de R$ 579. Com ele, o consumidor pode comprar obras com descontos consideráveis. A versão impressa de “Cinquenta Tons de Cinza” tem o preço recomendado de R$ 39,90. No Gato Sabido, o livro sai por R$ 19,92. É bom, mas apenas isso não irá proteger as empresas nacionais contra o rolo compressor que vem por aí. Inovação e qualidade no serviço serão fundamentais.

Fotos: JOE KLAMAR/AFP Photo; EyesWideOpen/Getty Images

Fotos: JOE KLAMAR/AFP Photo; EyesWideOpen/Getty Images

POR Juliana Tiraboschi | Revista ISOTÉ | N° Edição: 2246 | 23.Nov.12, às 15:32

Empurrão para os eBooks


Grupo de estudos da Associação Nacional de Livrarias, que se reúne desde março para analisar formas de facilitar a acesso de livreiros independentes ao livro digital, começa a dar resultado. No último encontro, quarta-feira, a Via Logos, empresa de software para o mercado editorial, contou que vai apresentar o case de sua primeira parceria com uma livraria de bairro durante a Convenção Nacional de Livrarias, em agosto. Ela acaba de assinar com a Casa Cultural Saber e Ler, de Campinas, que até lá estará vendendo e-books aos seus clientes pelo seu site, que se comunicará com o catálogo da Xeriph, distribuidora de livro digital.

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S. Paulo | 19/05/2012

Independentes querem o eBook


Venda de e-book não é um assunto exclusivo das grandes redes de livrarias. Embora as pequenas e médias ainda não tenham dado o primeiro passo nesse sentido, já fazem planos para subir, o quanto antes, no bonde da história. O Levantamento do Setor Livreiro que será apresentado na próxima terça-feira mostrará que apenas 11% das livrarias que não comercializam livros eletrônicos estão confortáveis nessa situação e não pretendem ampliar o negócio. Dos 89% que acreditam que o e-book ainda vai pegar, 62,5% dos entrevistados disseram que o pontapé inicial será dado ainda em 2012. Para 37,5% dos livreiros, o projeto é para até três anos. O restante, 4%, não fixou prazo para inaugurar a sua e-bookstore. Para outros formatos não tradicionais, a adesão é mais avançada: 81,82% das livrarias já trabalham com audiolivro e 63,64% vendem obras impressas sob demanda. A pesquisa vai mostrar também que as vendas de livros pela internet aumentaram quase 10% de 2010 para 2011. O levantamento foi feito pela Associação Nacional de Livrarias [ANL] com seus associados entre março e abril e inclui outras questões como os investimentos para o ano, número de livrarias existentes no Brasil e segmentos de livros em alta no País.

Por Maria Fernanda Rodrigues | O Estado de S. Paulo | 12/05/2012

Como trabalhar com o livro digital nas livrarias


O curso “Como trabalhar com o livro digital nas livrarias” acontecerá no dia 31 de maio das 9 às 13 horas, na sede da ANL [Marques de Itú, 408 coj 72/73].

O curso tem como objetivo trazer novos desafios gerenciais para as livrarias que deverão encontrar formas viáveis de trabalhar dentro do novo cenário do mercado livreiro. Conhecer as diferentes formas de trabalhar de maneira lucrativa com o livro digital, integrando esse novo produto ao mix tradicional das livrarias.

A palestra será ministrada por Ednei Procópio, Coordenador do Cadastro Nacional do Livro, membro da Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e desde 1998 especialista em eBooks.

Associação Nacional de Livrarias

ANL oferece curso de formação e capacitação de livreiros


O curso “Como Trabalhar com o livro digital nas livrarias” acontecerá no dia 31 de maio das 9 às 13 horas, na sede da ANL [Marques de Itú, 408, cj 72/73]. O curso tem como objetivo trazer novos desafios gerenciais para as livrarias que deverão encontrar formas viáveis de trabalhar dentro do novo cenário do mercado livreiro. Conhecer as diferentes formas de trabalhar de maneira lucrativa com o livro digital, integrando esse novo produto ao mix tradicional das livrarias. A palestra será ministrada por Ednei Procópio, Coordenador do Cadastro Nacional do Livro, membro da Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e desde 1998 especialista em eBooks. Mais informações aqui.

CBL  | 05/05/2011