Guia de revisão de livros digitais


Já falamos sobre a importância de fazer a revisão do livro digital. Mas nem sempre o revisor está apto a fazer o trabalho. Isso pode acontecer por várias razões: o colaborador não ter o hábito de ler e-books ou, se lê, é ocasionalmente, sem explorar as funções que os aplicativos e leitores disponibilizam ou buscar entender por que aquele elemento está meio esquisito. Também pode ser que não tenha recebido as instruções corretamente. Então resolvi juntar uma meia dúzia de dicas que eu já ouvi, outras tantas que acabei usando para não surtar comprometer a qualidade do trabalho.

ATENÇÃO: este guia não substitui o conhecimento que vem com o hábito de ler e-books. As plataformas de leitura estão em constante atualização, e quem se propõe a trabalhar com esse formato de publicação precisa ter experiência com leitura de livros eletrônicos.

Recebendo o arquivo

Ótimo, você recebeu uma proposta de revisão de e-book. A primeira coisa que você deve fazer é: confirme se a empresa que te contratou tem um manual ou padrões específicos. Algumas têm, outras não. Então confira se você tem todas as ferramentas necessárias para cumprir as demandas. No geral, você só precisa do Adobe Digital Editions [ADE] e de um programa que leia PDFs, como o Adobe Reader. Mas às vezes pedem que o e-book seja conferido no formato MOBI, da Amazon, o que torna necessário instalar o programa Kindle para PCKindle Previewer. Também é importante um editor de texto, tanto para fazer o relatório final quanto para algumas anotações. A próxima recomendação é mais besta, mas pode ser de grande ajuda: quando receber o ePub, dê uma passada rápida até o fim, usando o scroll do mouse, mesmo. Em 2012 eu vivia tendo problemas com alguns fornecedores de ePubs, porque em certo ponto do arquivo um erro no código fazia o ADE travar e fechar. Não tenho me deparado com esse problema nos últimos tempos, mas o trauma de estar com o prazo apertado e de repente descobrir que o arquivo que eu tô usando não funciona é mais forte que eu.

A parte invisível

Como tudo no mercado editorial, sempre tem uma parte do trabalho que só vão reparar que você não fez se der problema. Então se garanta fazendo o quanto antes. Verifique se o livro tem sumário interno. Algumas editoras inserem esse sumário no e-book mesmo que não haja um no impresso. Se for esse o seu caso, vá passando pelo PDF e anotando os títulos de capítulo. Usar o TOC pode ser uma referência, mas e se houver algum problema nele? É até melhor usar uma fonte externa ao arquivo, como seria o sumário do livro impresso. Além disso, verifique se o ePub não recebe outros elementos que o impresso não tem, como uma página sobre o autor, obras relacionadas e até encartes de imagem, que nem sempre aparecem no sumário original. Depois confira os links tanto do TOC quanto do sumário interno. Há quem prefira deixar essa parte para o final, mas eu prefiro fazer primeiro porque o prazo sempre acaba ficando apertado é mais garantido.

Cotejo com obstáculos

O cerne da revisão do e-book é quase um cotejo com obstáculos, ainda mais no caso da não ficção. É aqui que o hábito de leitura no formato eletrônico faz a maior diferença. Você precisa entender a aparência do impresso nem sempre pode ser reproduzida no digital e saber apontar possíveis melhorias. Um exemplo simples: sabe quando a primeira linha do capítulo fica toda em versal/versalete? No e-book isso não faz o menor sentido, já que dependendo do tamanho da fonte o efeito pode terminar no meio da linha ou se estender por mais texto que o planejado. Caso você não tenha uma orientação da editora sobre como agir em relação a isso, sinta-se à vontade para fazer uma sugestão, como usar versalete só nas cinco primeiras palavras em todos os capítulos. Outro exemplo: notas de rodapé e final de livro. No geral, as notas de rodapé vão para o fim do capítulo e as de final de livro permanecem lá. Caso o livro tenha as duas hierarquias de nota, confira se elas estão sinalizadas de maneira diferente, para não confundir o leitor. Em livros com muitas notas, evite usar asteriscos, você pode acabar com um imenso ****** no meio do texto. Além disso, confira se todas elas estão indo e voltando. Também é bom ficar atento às imagens. No geral, quando há imagens no meio do texto, elas são deslocadas para o final de um parágrafo. Confira se faz sentido ela estar ali ou se foi mal posicionada. A proporção é outra questão importante, até porque caracteres especiais [desde ideogramas até códigos que podem aparecer em livros de fantasia e aventura] costumam ser transformados em imagem. Será que a imagem tem uma boa legibilidade tanto num tablet quanto num smartphone? Até há um recurso para que a imagem seja proporcional, mas nem sempre ele é lembrado, já que não funciona em todas as plataformas. Ainda assim, é bom sinalizar que pode ser usado. Há várias outras questões, mas hoje vou concentrar o post em facilitar sua rotina na revisão do ePub, ok? Caso você queira entender melhor os problemas que podem acontecer na conversão e suas possíveis soluções, é só falar com a gente

Finalizando e entregando

A essa altura, você já deve ter algumas anotações de problemas no seu editor de texto. Nem todas as editoras encaram bem sugestões editoriais, a menos que sejam erros mesmo, como questões de ortografia, falhas na formatação ou coisas assim. Tente entender qual é o posicionamento de quem te contratou. Depois, revise o relatório para ver se ele está compreensível. Eu costumo deixar algumas observações, como lembrar de verificar se certa formatação é um desvio ou um padrão, o que pode ser muito útil para mim, mas de pouca utilidade para quem vai implementar as mudanças. Se o manual que você recebeu explica como redigir o relatório, siga. Se não, minha sugestão é: número de página no PDF + trecho problemático com uma parte do entorno [ou uma descrição do conteúdo] + correção ou sugestão. Por exemplo:

P.35: em “o cachorro subiu a colina”, a palavra “subiu” deve estar em itálico.

P.114: a legibilidade do texto na imagem com dois dragões está baixa. Sugiro inserir uma legenda.

P.298: o parágrafo que começa com “No final de sua carreira…” parece ser o único com alinhamento à esquerta. Proposital?

Bom, esse não é o único método de trabalho possível, mas tem funcionado para mim há algum tempo. Como você revisa seus livros eletrônicos, ou o que espera de uma boa revisão?

Por Mariana Calil | Publicado originalmente em Colofão | 16/09/2015

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.

Programas indies para edição, validação e testes de livros digitais


Normalmente, quando falamos em edição, validação e testes de livros digitais, falamos no Sigil, EpubCheck, Adobe Digital Editions e Readium. Para exportação: InDesign ou LibreOffice, — os mais radicais podem dizer Quark e/ou BlueGriffon Epub Edition –, certo?

Nada mais normal do que isso, afinal, são programas rotineiros no dia a dia dos desenvolvedores de e-books.
Hoje falarei brevemente sobre outras duas ferramentas não tão famosas quanto as citadas primariamente, todavia, muito interessantes tanto pelos diferentes funcionamentos quanto pelas possibilidades de serem usadas não apenas profissionalmente, mas também para estudo.

1. ePubChef

Trata-se de um projeto que tem a seguinte proposta: “acrescente os ingredientes na panela e ele cozinhará um ePub 3 para você” [impossível não lembrar do Fernando Tavares e suas analogias com comida].

Ele funciona via linha de comando a partir dos ingredientes que você adiciona às pastas dentro de uma estrutura pré-determinada, todavia, altamente customizável.

Esse caráter “customizável” do programa é extremamente útil para quem está interessado em estudar o formato e, de quebra, se estiver interessado em programação, você pode customizar o código da ferramenta em si, e não apenas os de seus arquivos. ;]

Após clonado o repositório, sua estrutura de diretórios é a seguinte:

Na pasta css você encontrará, bem, um CSS [bastante completo e cheio de comentários explicativos]. Nele, você poderá definir as diretrizes básicas do que espera do ePub a ser criado.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Se você estiver pensando em fazer alguns livros de uma mesma coleção, com valores similares, temos aí um bom começo: criar modelos de CSS.

Mãos à massa: cook.py

Vá até a pasta [via terminal] e digite:

python cook.py mybook

Com esse comando ele criará os arquivos para o seu livro. Seguindo o exemplo da wiki usei o “mybook” [você é livre para escolher um nome mais criativo para o arquivo].

Você pode começar a editar e adicionar conteúdos, imagens, fontes na pasta mybook_raw e já preencher os metadados em mybook_recipe.yaml usando qualquer editor de textos simples [como o Bloco de Notas no Windows, por exemplo]. Nesse arquivo você ainda pode determinar a ordem, os nomes dos capítulos etc.

Já os conteúdos você acrescenta nos arquivos TXT. Exemplos de uso [tabelas, itálicos etc.] podem ser encontrados nos arquivos do exemplo [em demo_raw]. A cada edição, basta rodar o comando outra vez, e o programa recriará o arquivo atualizado.

Na página do projeto você encontra o tutorial da instalação e os primeiros passos para uso. Se você tem algum domínio de inglês e está interessado em aprender a fazer um e-book de dentro para fora, o ePubChef é um excelente caminho.

2. jeboorker

O jeboorker é um editor de metadados com algumas funcionalidades bastante úteis.
Para começar, ele permite a edição de metadados não apenas de arquivos ePub, mas também de CBR, CBZ e PDF, desde que os mesmos não se encontrem protegidos por DRM.

Diferente do ePubChef, o desenvolvedor já disponibiliza os pacotes de instalação para as plataformas Windows, Linux e Mac, diretamente na página do projeto no GIT.

A interface dele é bem simples, mas realiza bem o que se dispõe a fazer: editar metadados.

Uma das funções de que mais gostei no jeboorker foi o fato de poder importar diretamente uma pasta inteira em vez de um arquivo por vez, além da possibilidade de editar múltiplos arquivos de uma só vez, acrescentando a todos dados comuns presentes em um dos livros, tais como autor, coleção etc.

Outra coisa legal no programa é poder editar o UUID [arquivos exportados pelo InDesign em alguns casos apresentam um erro de validação referente a isso que, até então, eu corrigia na unha, diretamente no OPF e no NCX].

Além dessas funções, o programa permite fazer download dos metadados do título na internet a partir de dois bancos de dados [um é o do Google] e também editar os já existentes diretamente no XML.

Por fim, o programa é bem leve e não apresentou travamentos ou “comportamentos inesperados” [como fazer bagunça nos arquivos, por exemplo].

Para conhecer outras ferramentas relativas a e-books, vale verificar a listinha do EPUB Zone neste link.

  1. Ainda assim, recomendo que, no uso de Linux, a instalação seja feita diretamente através de repositórios [se disponível na sua distro]. Dessa forma você garante que receberá as atualizações automaticamente sem precisar entrar na página e baixar o programa outra vez. Se você, como eu, usa um derivado do Archlinux, no meu caso, o Manjaro, tem no AUR. ;]
Antonio Hermida

Antonio Hermida

Por Antonio Hermida | Publicado originalmente em Colofão |  29 de abril de 2015

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências. Atualmente, coordena o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify e escreve mensalmente para o blog da editora. Entre outras coisas, é entusiasta de Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Livros em 2020


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 12/11/2014

Apesar de uma queda notável no número de participantes, festas com champanha e hors d’oeuvres, além do burburinho de livros, eu achei que este ano a Feira do Livro de Frankfurt foi mais inspiradora que nunca. O digital estava no ar [literalmente] já que livros didáticos conectados e startups de big data substituíram os fornecedores de serviços terceirizados nos Hotspots por toda Frankfurt Messe.

Vou mostrar algumas das tendências digitais que acho que vão transformar a palavra escrita nos próximos cinco anos.

Livros Didáticos “Context-Aware”
LearnFwd, uma empresa de tecnologia romena com sede em Londres deu incríveis saltos em sua plataforma de livros didáticos colaborativos no último ano. Todos os queixos de uma sala de conferência caíram quando seus próprios celulares foram conectados a uma sala de aula especial através de um livro no browser, simples de usar. LearnFwd é pioneira em uma tecnologia que eles chamaram de livros didáticos “context-aware”. Usando funcionalidades de padrões abertos como JavaScript e CSS, eles desenvolveram mais de 15 widgets ou “mix-ins” que você pode usar no HTML5 com um design receptivo [pense num ePub3 sem o envoltório]. Estes mix-ins transformam o conteúdo em um livro didático context-aware que sabe quando está numa sala de aula, que pode funcionar perfeitamente online e offline e que conecta as salas de aula [diretamente dentro do próprio livro]. Salva seu progresso, suas respostas, além de permitir trabalho em grupos. E tudo dentro do melhor “reader” do mundo: seu próprio browser. Realmente algo do futuro, mas com tecnologia de hoje.

Aprendizado Adaptativo
Apesar de que os Learning Management Systems [LMS] e SCORM já existem há anos, o uso deles se limitava a capturar respostas de testes e uso de estatísticas de uma forma bastante estática. Aquafadas, ao usar a próxima geração de SCORM, chamado TIN CAN ou API de Experiência está provando que o mundo não precisa ser desse jeito. Em Frankfurt, eles mostraram o aprendizado adaptativo, onde a experiência de leitura de um livro didático ou conteúdo educativo muda dependendo das entradas dos usuários. As possibilidades são literalmente infinitas, pois cada estudante pode aprender a seu próprio ritmo, ser desafiado segundo o nível apropriado dele e recompensado pelas respostas corretas. Ao mesmo tempo, a plataforma pode capturar dados sobre os padrões de aprendizado assim as escolas e as editoras podem adaptar as entregas de conteúdo, melhorando continuamente.

Grandes [e pequenos] dados
O Google Analytics já existe há anos. Mas só recentemente os fornecedores da plataforma alavancaram esta captura analítica tanto online quanto offline para que todos na cadeia de valor da indústria editorial pudessem se beneficiar. Alguns poucos fornecedores de apps de leitura começaram a abrir o acesso a estas chamadas estatísticas “big data” como a porcentagem de tempo gasto em um capítulo. Certamente as implicações destes dados são profundas já que também fornecem acesso a “small data” onde os resultados não são necessariamente anônimos e os dados do usuário final [quem lê qual livro] também podem ser expostos. Os riscos de tais posturas ficaram claras com o escândalo Adobe Digital Editions – onde padrões de leitura específicos de usuários eram enviados de volta em texto sem encriptação para um servidor centralizado. No entanto, o uso responsável pode fornecer informações importantes para a indústria de conteúdo, como a Kobo nos mostra aqui.

Animado? Eu estou. Vou apresentar estas tendências e os planos da Hondana para usá-las no Ciclo de Palestras do Centro de Inovação C.E.S.A.R em Recife nesta semana. No espírito da “captura de dados”, seu feedback é sempre bem-vindo! greg@hondana.com.br.

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 12/11/2014

Greg Bateman

Greg Bateman

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Treinamento Prático de Produção de Livros Digitais no Formato ePub3 com Adobe inDesign


Participe de um treinamento prático da Escola do Livro com Jean-Frédéric Pluvinage. O curso apresentará as técnicas e procedimentos para criar e converter seus conteúdos em livros digitais com interatividade, áudio, vídeo e animações, além de outros efeitos especiais no formato ePub3 utilizando o Indesign e recursos de pós-produção.

Jean-Frédéric Pluvinage é diretor da FoxTablet, editora especializada em revistas digitais para tablets. Formado em Design Gráfico pelo SENAC, e em jornalismo pelo CEUNSP. É coautor, junto com Ricardo Minoru, do livro Revistas Digitais para Ipad e outros tabletes, primeiro livro no Brasil e no mundo sobre esse tema. Também é autor do DVD Bem-vindo ao InDesign – uma introdução à diagramação, lançado pelo Grupo PhotoPro. O evento acontecerá na sede da Câmara Brasileira do Livro, R. Cristiano Viana, 91 – Pinheiros – São Paulo/SP. Os alunos deverão trazer seus notebooks com os aplicativos e recursos InDesign CS6 ou superior; Photoshop CS3 ou superior; Dreamweaver CS3 ou superior; Calibre; Sigil; Winzip e Adobe Digital Editions já instalados. Investimento: Associados CBL – R$ 600,00; associados de entidades congêneres, professores e estudantes – R$ 960,00; Não associados – R$ 1.200,00. Consulte sobre parcelamentoem 3 vezes no cartão de crédito. Mais informações do curso podem ser obtidas pelo e-mail escoladolivro@cbl.org.br ou pelo telefone [11] 3069-1300.

Quinta e sexta-feira, 20 e 21/3, das 10h às 18h.

O ePub e os players internacionais


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 16/08/2012

Engraçado que muita gente ainda fala do mercado digital no futuro, confabulando como vai ser, o que vai acontecer. O mercado digital já está aqui. E algumas coisas mudaram. Escrevo hoje sobre essas mudanças com a “humilde” intenção de servir de guia. Será que sua empresa, do setor editorial, está seguindo a tendência? Será que esta tendência é a que deve ser seguida? Vamos por partes!

Setor comercial: o setor comercial está se aproximando cada vez mais dos setores de marketing e editorial. Diria até que muitos comerciais estão fazendo às vezes o papel do setor editorial, quando se trata de livro digital. Parece que sobrou pra eles – Comercial, aproveita que já tem os contatos, se vira aí e coloca os ebooks no ar!…mais ou menos isso. Coitados…mas daí estão saindo vários profissionais muito bons, capacitados e apaixonados pelo assunto digital.

Setor editorial: parece que ainda pensam demais em papel, mas numa boa, estou me surpreendendo com as iniciativas. Como comercial de uma agregadora, estamos fazendo cada vez mais um atendimento passivo. As editoras estão vindo atrás de soluções tecnológicas, segurança, diversidade de formatos. Claro, poderia ser melhor, mas vejo movimento e isso pra mim, que no início falava muitas vezes sozinha, é demais!

Setor de design: os diagramadores realmente estão se superando e buscando melhorias. A tendência é serem quase programadores. Os ePubs no Brasil ainda são muito defeituosos. De todos os ePubs comercializados na base que conheço, a Xeriph, mais da metade apresentaram defeitos que acabam não passando no padrão de qualidade de alguns players. Atenção: não é porque você abre o ePub no Adobe Digital Editions, que ele está dentro dos padrões de qualidade mundial… O resultado é uma correria atrás dos consertos dos epubs. O designers que trabalham mais na parte estética ainda pensam demais em papel. Muito raro ver uma capa de e-book funcional e bonita para Web e devices

Setor de desenvolvimento tecnológico: ainda inexistente nas editoras, mas recomendo fortemente!

Setor de marketing: ahhhh esse tem que melhorar! Ainda estão muito presos às ações de marketing físicas, ou melhor, com os livros físicos. Sim, poderiam fazer mais ações de marketing físicos para promover o digital. Não é porque o livro é digital que as ações devam se limitar às mídias sociais… Acho que o que falta é esse pessoal começar a consumir o produto. Muitos deles nem sabem que produto é este… #ficaadica …Não esquecendo que muitos setores de marketing das empresas se limitam às ordens do comercial e editorial. Comercial e editorial: deem mais liberdade pra eles, vai! Por favor, se souberem de ações legais de marketing para divulgação de e-book no Brasil, não deixem de me enviar.

O setor de livros digitais já é uma realidade e estou muito feliz com isso. Espero na próxima coluna falar somente de novidades… Mas como passei por férias colunísticas, resolvi começar do começo e remexer as bases.

Dúvidas e sugestões: camila.cabete@gmail.com

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 16/08/2012

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História, mas foi responsável pelo setor editorial de uma tradicional editora técnica por alguns anos [Ciência Moderna]. Hoje, é responsável pelo setor editorial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido [@gatosabido]. É ainda consultora comercial da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil e sócia fundadora da Caki Books [@cakibooks], uma editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre tecnologias ligadas a área literária.

Enquanto isso, no mercado editorial…


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 02/08/2012

Engraçado que muita gente ainda fala do mercado digital no futuro, confabulando como vai ser, o que vai acontecer. O mercado digital já está aqui. E algumas coisas mudaram. Escrevo hoje sobre essas mudanças com a “humilde” intenção de servir de guia. Será que sua empresa, do setor editorial, está seguindo a tendência? Será que esta tendência é a que deve ser seguida? Vamos por partes!

Setor comercial: o setor comercial está se aproximando cada vez mais dos setores de marketing e editorial. Diria até que muitos comerciais estão fazendo às vezes o papel do setor editorial, quando se trata de livro digital. Parece que sobrou pra eles – Comercial, aproveita que já tem os contatos, se vira aí e coloca os ebooks no ar!…mais ou menos isso. Coitados…mas daí estão saindo vários profissionais muito bons, capacitados e apaixonados pelo assunto digital.

Setor editorial: parece que ainda pensam demais em papel, mas numa boa, estou me surpreendendo com as iniciativas. Como comercial de uma agregadora, estamos fazendo cada vez mais um atendimento passivo. As editoras estão vindo atrás de soluções tecnológicas, segurança, diversidade de formatos. Claro, poderia ser melhor, mas vejo movimento e isso pra mim, que no início falava muitas vezes sozinha, é demais!

Setor de design: os diagramadores realmente estão se superando e buscando melhorias. A tendência é serem quase programadores. Os ePubs no Brasil ainda são muito defeituosos. De todos os ePubs comercializados na base que conheço, a Xeriph, mais da metade apresentaram defeitos que acabam não passando no padrão de qualidade de alguns players. Atenção: não é porque você abre o ePub no Adobe Digital Editions, que ele está dentro dos padrões de qualidade mundial… O resultado é uma correria atrás dos consertos dos epubs. O designers que trabalham mais na parte estética ainda pensam demais em papel. Muito raro ver uma capa de e-book funcional e bonita para Web e devices

Setor de desenvolvimento tecnológico: ainda inexistente nas editoras, mas recomendo fortemente!

Setor de marketing: ahhhh esse tem que melhorar! Ainda estão muito presos às ações de marketing físicas, ou melhor, com os livros físicos. Sim, poderiam fazer mais ações de marketing físicos para promover o digital. Não é porque o livro é digital que as ações devam se limitar às mídias sociais… Acho que o que falta é esse pessoal começar a consumir o produto. Muitos deles nem sabem que produto é este… #ficaadica …Não esquecendo que muitos setores de marketing das empresas se limitam às ordens do comercial e editorial. Comercial e editorial: deem mais liberdade pra eles, vai! Por favor, se souberem de ações legais de marketing para divulgação de e-book no Brasil, não deixem de me enviar.

O setor de livros digitais já é uma realidade e estou muito feliz com isso. Espero na próxima coluna falar somente de novidades…Mas como passei por férias colunísticas, resolvi começar do começo e remexer as bases.

Dúvidas e sugestões: camila.cabete@gmail.com

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 02/08/2012

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História, mas foi responsável pelo setor editorial de uma tradicional editora técnica por alguns anos [Ciência Moderna]. Hoje, é responsável pelo setor editorial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido [@gatosabido]. É ainda consultora comercial da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil e sócia fundadora da Caki Books [@cakibooks], uma editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre tecnologias ligadas a área literária.

Workshop Produção eBooks em ePub com inscrições abertas


Atividade ocorrerá nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre

As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre receberão nos meses de agosto e setembro o Workshop Produção eBooks em ePub [Nível 1]. A atividade é direcionada para designers, profissionais e estudantes do mercado editorial. Para participar é necessário levar notebook com InDesign CS5 [pode ser versão Trial] e Adobe Digital Editions instalados. O curso tem por objetivo transmitir as técnicas utilizadas para produção profissional do formato ePub, além de dar dicas e truques de como otimizar a produção de eBooks, através de um método de trabalho prático. Para se inscrever e conferir informações sobre o programa, datas e locais do curso nas cidades, clique aqui.

PublishNews | 26/07/2012

Os eBooks e as startups


Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em PublishNews | 17/01/2012

Em primeiro lugar, peço desculpas por me manter no assunto dos e-books quando minha coluna prometia ser uma espécie de conversa sobre os bastidores do departamento editorial. O que ocorre é que o os e-books invadiram o editorial e, principalmente, invadiram minha vida de tal forma que está complicado pensar em outra coisa.

Os livros digitais me fascinam desde que li sobre eles em O negócio dos livros, de Jason Epstein, e não pelo yuppismo tecnológico [apesar de eu não poder negar que os aparelhinhos me divertem], mas pela destruição em massa que eles iriam causar nas certezas editoriais. O editorial [e muitos outros setores das editoras], na minha visão e de outros colegas, estava muito engessado, havia regra para tudo há 500 anos, e fugir delas não era de bom tom. Porém, agora, com o digital, voltamos tão ao zero que sequer sabemos como nossos leitores leem. E, o melhor, é um mercado tão dinâmico que, quando soubermos, eles já poderão estar lendo de outras formas…

Os e-books exigem uma entrega profunda por parte dos que trabalham com eles. Você não pode, por exemplo, simplesmente aprender a converter um “.doc” para “.epub” e repetir isso infinitamente, pois cada “.epub” convertido traz problemas que você nunca viu antes. E isso acontece por diferentes motivos: bugs do software que converte, bugs do software que lê e inexperiência de quase todo mundo no assunto. E, quando dizemos “e-books”, podemos estar falando de pdf, e-books para Kindle, para iBooks, e-books que são aplicativos, formato fixo, ePubs para Adobe Digital Editions… Cada um desses tem custo, contrato, possibilidades de design e formas de produzir diferentes uns dos outros. Diz-se que o formato universal é o ePub para ADE, mas na prática cada conteúdo pede um deles e, se você trabalha com e-books dentro de uma editora, você tem que ler muitas vezes para saber que tipo seria melhor. Por isso, se decidir direcionar sua carreira para essa área, aconselho que goste tanto disso que não se sinta infeliz quando perceber que estará estudando em vários de seus horários livres. E estudar não é pegar um livro e ler; você tem que inventar sua forma de estudar, porque as informações estão espalhadas pela internet. Você tem que aprender onde encontrar as que são realmente relevantes e confiáveis.

Toda essa velocidade nos aproxima muito dos setores de tecnologia, principalmente os relacionados a web. Da mesma forma que já achei [e ainda acho] que poderíamos aprender muito com a engenharia de produção, agora acredito que ganharemos muito analisando as chamadas startups. Meu conhecimento sobre o assunto é raso, mas pretendo, aqui, apenas apresentar a ideia geral para que possamos aprofundá-la depois.

Em uma entrevista para a Exame, em 2010, Yuri Gitahy diz que: “Muitas pessoas dizem que qualquer pequena empresa em seu período inicial pode ser considerada uma startup. Outros defendem que startup é uma empresa com custos de manutenção muito baixos, mas que consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores. Mas há uma definição mais atual, que parece satisfazer a diversos especialistas e investidores: startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.”
 
Além de me identificar com as “condições de extrema incerteza”, uma das coisas que mais me interessam nas startups é sua capacidade e desejo de ouvir as pessoas para desenvolver um produto que elas queiram ou que elas nem sabem que querem, porque nunca acharam que fosse possível produzi-lo. Acho isso diretamente relacionado ao editor de aquisições, que tem que sentir o que um país pode estar querendo ler, mas tem poucas formas de confirmar essa informação.

Para quem trabalha com e-books, é ainda mais fundamental descobrir não necessariamente o que as pessoas querem ler, mas como elas querem. Elas querem que seja igual ao impresso? Elas querem muitas cores? Elas querem animações? Ou até: elas querem mesmo ler livros em aparelhos eletrônicos? Se sim, em quais circunstâncias? As startups desenvolveram seus métodos de lidar com toda essa incerteza. Por que não segui-los?

E, finalmente, chegamos à questão que se repete das mais variadas formas: as editoras estão mesmo dispostas a apostar em inovação ou acreditam que não são como a indústria fonográfica? Eu, sinceramente, não vejo muitas saídas para as editoras que não alterarem seu modelo de negócio e se reinventarem – buscando reinventar também o mercado -, e ficarem apenas esperando que alguma espécie de Spotify venha mostrar um caminho depois de anos de prejuízo.

Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em PublishNews | 17/01/2012

Cindy Leopoldo

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense [UFF]. Trabalha em departamentos editoriais há 7 anos. Escreve quinzenalmente para o PublishNews, sempre às terças-feiras. A coluna Making of trata do mundo que existe do lado de dentro das editoras. Mais especificamente, dentro de seus departamentos editoriais.

Fazendo eBooks


Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 28/06/2011

Há meses vinha pensando que ninguém do mercado editorial brasileiro tinha o perfil geeknecessário para realmente explicar o que diabos era ePub. Ok, me diziam quais eram as vantagens dele em relação ao PDF, que o InDesign fazia a conversão, falavam do mercado americano, dos e-readers, dos direitos autorais, mas quando chegávamos na pergunta “mas como um arquivo .indd se ‘transforma’ num .ePub?” a conversa travava em “ah, aí é com um programador”… E a pergunta que ficava martelando na minha cabeça era: de onde tiraríamos esse programador com noções de design de livro e que aceitaria os valores por lauda do mercado editorial? E a única resposta que me vinha era: dos próprios birôs de diagramação, será apenas um serviço a mais. Assim, inventei o mundo tranquilo do editorial digital, no qual apenas os diagramadores teriam que se aventurar no mundo assustador dos códigos de programação e a nós, produtores editoriais, caberia apenas o trabalho de sempre: isbn, revisão, controle de prazos etc.

Essa tranquilidade foi desaparecendo na medida em que recebíamos os arquivos convertidos: fontes perdidas, imagem de capa desaparecida, sumários confusos ou com pouca informação, imagens que apareciam em um leitor, mas não em outros, links [notas, por exemplo] que jogavam para trechos errados do livro etc. Definitivamente, não era tranquilo pra ninguém, todo o mercado precisava estudar, não havia sequer uma empresa benchmark no setor. Na verdade, não havia nem há o setor!

Cheguei a acreditar que só nos restava esperar que os fornecedores amadurecessem, mas isso me deu um desânimo, uma sensação de impotência, que me fez perceber que eu estava no caminho errado. Um dia, ao sair do trabalho, percebi o óbvio: estava mais uma vez perdendo ânimo e energia por acreditar que o mundo [editorial ou não] é absolutamente previsível e, pior, que eu já o tinha compreendido e catalogado. Mais uma vez, estava paralisada pela odiosa arrogância de quem trabalha há anos na mesma área e abafando minhas dúvidas. Decidi que teria que me livrar de mais esses pré-conceitos, que só servem para nos fazer crer que “nada nunca irá mudar” ou “só eu me interesso por isso”, e iria achar as pessoas de programação que sabiam o que era ePub. Rapidamente a energia voltou! Fazendo buscas e buscas no Google, encontrei um fórum de discussões e me animei: achei o revolução e-book. Lendo as discussões, percebi que havia um senhor que parecia saber bastante sobre os problemas que temos no dia a dia de uma editora, peguei todos os contatos que consegui pra “um dia quem sabe…”, mas nunca tive coragem de ligar ou escrever e expor minha ignorância a ele. E, além disso, o que eu poderia falar com ele? Pedir uma aula? Uma palavra amiga? Não liguei, mas não foi necessário, pois acabamos nos conhecendo dias depois totalmente por acaso no curso da Simplíssimo em Niterói.

O tal “senhor” se chama Antonio Hermida [antoniofhermida@gmail.com] e é bem mais novo que eu… Trabalhava como estagiário de produção editorial em uma editora carioca por ainda estar cursando Letras, mas antes estudou Análise de Sistemas. Com ele inauguro uma nova coluna dentro da coluna, que se ocupará de conhecer [e apresentar] a nova geração editorial.

 
Por que você saiu da informática? Você fez Letras porque queria trabalhar com livros?
Na verdade, sim e não. Comecei a fazer Letras por gostar de latim e literaturas, mas precisava me sustentar antes, daí ter feito informática [área na qual sempre tive facilidade de transitar]. Queria poder me dedicar ao estudo da literatura sem a obrigação de me formar às pressas, com urgência do mercado de trabalho. Sempre quis trabalhar e estar entre livros, mas nunca tive uma ideia muito clara de como faria isso.

O que fazia [dentro de uma editora] quando começou?
Basicamente tudo que faz um estagiário de editorial. Cotejo, pesquisa, padronização de textos, notas, bibliografia…

Quando surgiu o ePub na sua vida? O que espera do ePub3?
Na época, os arquivos em epub estavam sendo convertidos fora do país, o que gerava uma série de problemas ortográficos e, pior que isso, uma demora absurda para correção. Um ciclo sem fim de revisão-emenda-outra revisão-novos erros-emenda-revisão etc. Peguei alguns arquivos para cotejar e, em casa, pesquisei sobre a estrutura do epub e passei a emendá-los diretamente no código. Como a lista de arquivos convertidos [e com problemas] não era curta, pude ir montando um “banco de dados” tanto de erros quanto de efeitos interessantes a serem explorados nas conversões futuras, assim como um manual de estilo para digitais. Acho que foi basicamente isso, comecei a entender os epubs consertando-os. Ainda é das coisas que mais faço [consertar], principalmente quando recebo testes de fornecedores que estão regulares e podem ser aproveitados.

Sobre o epub3, bem, eu cresci brincando com livros-jogos da série Aventuras Fantásticas, justo por isso penso em e-books não só convertidos para o formato, mas concebidos e idealizados como digitais, desde o esboço.

Um bom romance policial não precisaria ser linear, nem ter apenas um final possível, assim como você poderia escolher com que personagem seguir a história, colocar senhas, links externos, pistas em sites… Bem, a própria definição de gênero correria perigo de ser reformulada ou passar a ambientação num caso desses. Fora as demais possibilidades oferecidas por conectividade, geolocalização [no html5], suporte audiovisual…

Você gosta de ler livros digitais? Pra você, o que eles têm de melhor e de pior em relação ao livro impresso? A Faculdade de Letras já fala sobre eles?
Uma edição ruim é cansativa independente do suporte e quando trabalhamos com isso passamos a reparar em detalhes que são ignorados pela maior parte dos leitores. Dentro do que consumo, gosto, claro, de boas edições, impressas ou digitais. Por comodidade tenho lido muito mais digitais [acabo convertendo em casa os textos que recebo dos professores ou livros em domínio público utilizados em algumas literaturas], carrego a maior parte do que preciso ler em um e-reader no lugar de carregar uma resma de papel e livros que, no geral, atacariam minha rinite. É mais cômodo nesse sentido e a leitura proporcionada pela e-ink é confortável. O fato de você poder ajustar o tamanho das fontes, navegar pelas notas, fazer buscas por palavras e consultar suas definições são vantagens indiscutíveis em um e-book. A rigidez do impresso, apesar de às vezes figurar como desvantagem, tem uma segurança da qual sinto falta. Se eu passar um e-book de um e-reader para outro, perco minhas notas e marcações, o mesmo acontece quando acho algum problema na edição e resolvo corrigí-la. Não é mais o mesmo arquivo, e lá se vão minhas notas e marcações outra vez. O que mais gosto num livro é sentir-me avançando nele, por mais que tenhamos a barra de status indicando quantas páginas foram lidas /total, perdemos um pouco desse desbravar. A sensação tátil também perde um pouco, mas isso é pessoal, não acho que seja unânime, nada é. Na Letras a preocupação maior é com o texto em si, com a palavra, não com o suporte, mesmo os professores de idade mais avançada se mostram animados quando eu levo algum e-reader.

Poderia fazer um ranking dos 5 e-readers/tablets/aplicativos que você prefere e explicar o porquê da preferência?
1. Nook [1 e New Nook]: Atualizações frequentes de software, tanto para correção quanto para melhoria, excelente contraste e tempo de resposta [no New então…]. Gosto muito do Kobo Reader também. Fujo da série PRS da Sony, usei até o 600 e não gostei, tanto pelo comportamento peculiar do texto e dos links quanto pelo contraste que é fraco, além de eu ter que ficar desviando do meu reflexo para poder ler.

2. iPad: para ler revistas e livros de fotografias. Imagino que para quem consome livros de arquitetura [por exemplo] não tem opção comparável. As telas e em e-ink são quase todas de mais ou menos 6 polegadas. Excelentes para texto, mas, pelo próprio tamanho, ficam devendo.

3. Lucidor [& Lucifox, sua extensão para o Firefox] é leve, multiplataforma e, na abertura do arquivos, aponta se tem algum problema [inclusive alguns que o epubcheck deixa passar] no epub.

4. Calibre: Também é multiplataforma e funciona como um gerenciador de biblioteca, mas que também faz conversões simples para os mais variados formatos.

5. Adobe Digital Editions: É a tecnologia do ADE que pauta a compatibilidade entre a maioria dos e-readers [embora isso esteja mudando com a emergência epub3]. É leve, simples e intuitivo.

Como você avalia a oferta de fornecedores para “conversão” em ePub? Eles são mais coders ou mais diagramadores?
Melhor do que era 1 ano atrás, mas longe do ideal. No geral são diagramadores com algum suporte de um webdesigner. O maior problema está na mentalidade. “Dá para fazer isso?” [por exemplo, utilizar a tipologia do impresso]. “Dá”. “É a melhor prática?” ou “O resultado compensa?”. “No geral, não.”

Considerando que você analisa e/ou produz códigos de e-books quase todos os dias há mais de um ano, quais dicas você daria aos diagramadores e aos coders? Quais os erros mais comuns que eles cometem?
O maiores problemas são com imagens, grandes e achatadas por código [por exemplo, uma imagem de capa de 1024×1280, que vai ser exibida assim, no código: height:35%; fora isso, o trabalho com as imagens é diferente, as telas ainda são, em sua maioria, monocromáticas, o contraste varia etc.
A tipologia também é um problema. Se não tiver jeito, se uma fonte precisa mesmo ser embutida ao arquivo, dois cuidados devem ser tomados: padronização do tamanho em “Em” e conversão do tipo para otf. Parece pouca coisa, mas, em termos gráficos, são as principais características que compõem uma edição. No mais, testar sempre no maior número de aparelhos e programas a fim de observar as diferentes maneiras como cada um interpreta e, o de praxe, ferramentas como o epubcheck, o validador do Sigil etc.

E quais os erros mais comuns que os editoriais cometem contra os fornecedores de ePubs?
Todos permeiam o mesmo tema: a busca por um e-book igual à edição impressa. São edições diferentes, que se comportam de maneira diversa entre si. A melhor maneira de entender o produto que estão vendendo é consumindo-o. Manipular edições digitais como usuário é a melhor prática de julgamento e o melhor exercício de entendimento. A falta de um manual de estilo [realista] para fornecedores também gera uma série de ruídos de comunicação e não permite ao fornecedor saber o que o se espera.

Quais tipos de arquivos podem ser “convertidos”? Você trabalha com quais softwares?
Qualquer arquivo digital pode ser convertido para epub da mesma maneira que um manuscrito pode tornar-se livro. Alguns formatos dão [muito] mais trabalho que outros. O indd é o mais comum, quase um padrão. Mas não vejo problemas em arquivos de outros tipos desde que os cuidados pós “conversão” sejam feitos. Pessoalmente acho infinitamente mais rápido e fácil trabalhar com doc/odt, o código fica mais limpo, o arquivo mais leve, e fácil de editar/acrescentar coisas.

Utilizo, basicamente o seguinte:

Para edição do arquivo já em epub uso o BlueFish* ou Sigil, dependendo do que é preciso fazer.

Para imagens: Gimp e Inkscape [para imagens svg, as quais dou preferência por não perderem resolução].

Para preparar o texto antes uso o LibreOffice + algumas extensões. No caso de o arquivo ter vindo de um pdf [acontece às vezes], MyTXTCleaner.

E, insisto, o maior número de visualizadores possível.

Quais as características de um e-book bonito?
Se você lê sem notar nada de errado é um bom sinal. Se o arquivo está leve, bem ordenado, de fácil leitura e bem “diagramado” [com imagens variando de acordo com a tela e respeitando as margens], se as notas não estão abrindo entrelinhas [e os links funcionando, uma vez que não é possível ficar folheando para procurar com a mesma facilidade que se tem em uma edição impressa], se está tudo bem padronizado [os espaços, as citações, os títulos] e funcionando mesmo quando o texto é redimensionado… em suma, tudo isso, quando passa imperceptível, causa boa impressão. Os erros é que saltam aos olhos e interrompem a fluidez da leitura.

Sei que você tem prestado consultoria para algumas empresas, mas, além de você e da Simplíssimo, o que mais há que trate do código? Que dica você daria para os estudantes que querem trabalhar com e-books no futuro? Estudem o quê? Onde? Como?
Acho que é uma questão de tempo que “e-books” tornem-se disciplina em produção editorial. Enquanto isso não acontece: xhtml, css e, fundamentalmente, as miudezas que envolvem o “design” de livros. Grosso modo, um diagramador webdesign tem 80% do que é necessário para dar conta de todo o processo.

Criar um blog offline é um exercício bom, embora o formato também tenha suas próprias peculiaridades… Os sites da wc3 e da idpf fornecem material abundante.

Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 28/06/2011

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense [UFF]. Trabalha em departamentos editoriais há 7 anos. Escreve quinzenalmente para o PublishNews, sempre às terças-feiras.
A coluna Making of trata do mundo que existe do lado de dentro das editoras. Mais especificamente, dentro de seus departamentos editoriais.

iFlow permite ler e-books da Cultura no iPad [sem quebrar o DRM]


No início de dezembro de 2010, uma nova app chegou discretamente à loja de apps da Apple. Com o nome de iFlow, a princípio parecia ser apena mais um e-reader para iPhone/iPod e iPad. Mas uma pequena análise do aplicativo já demonstrou que havia algo mais ali. A grande vantagem do iFlow é que, apesar da existência de uma iFlow Bookstore, ele permite que você leia nele qualquer outro livro digital em formato ePub. Até aí os leitores da Kobo e o próprio iBooks fazem isso, mas o iFlow abre ePubs com DRM da Adobe Editions! Isto quer dizer que livros comprados em e-bookstores da Google, Sony, Borders e Kobo podem ser lidos no iFlow! E, no que interessa a nós, tupiniquins, livros comprados nas ebookstores brasileiras como Livraria Cultura, Gato Sabido e Saraiva também podem ser abertos e lidos no novo aplicativo, mantendo-se o DRM dos arquivos intactos.

A vantagem para quem compra livros da Livraria Cultura [e de outras ebookstores menores como a soteropolitana Grioti] é óbvia: graças ao iFlow é possível ler os livros no iPad e iPhone/iPod, já que estas lojas não possuem apps próprias. Para e-bookstores com aplicativos próprios para iPad e iPhone, como a Saraiva e a Gato Sabido, a vantagem pode parecer menor, mas para mim ela ainda é imensa. Explico: assim como ninguém tem em casa uma prateleira para cada livraria onde compra livros, ninguém vai querer ter uma app para cada e-bookstore onde adquire e-books. Assim, apps que aceitam livros com DRM de outras lojas trazem uma grande vantagem.

Eu acredito que a maioria das pessoas vai sempre ter a app da Amazon em seus iGadgets, primeiro por ela ser uma condição sine qua non para usar o modelo proprietário da gigante de Seattle e, segundo, porque a app deles é excelente. Além da app da Amazon, acho que o público leitor de iPads e iPhones terá um ou dois aplicativos em suas telas para ler ePubs. E talvez um destes seja o iFlow. Aliás, vale lembrar que o iBooks não tem agradado muito à torcida. Eu mesmo acho meio patético aquelas páginas virtuais virando…

A outra grande novidade do iFlow é que ele trata os e-books como um conteúdo que flui, ignorando a paginação – daí o nome iFlow. Ou seja, você lê passando as páginas verticalmente, como a leitura que já estamos habituados a fazer em tela. Quem quiser “virar as páginas” também pode por meio de dois botões virtuais. Pode-se também optar pelo fluxo automático das páginas e regular a velocidade… Mas haja concentração!

Para ler os livros de outras lojas no iFlow é preciso fazer o cadastro gratuito no aplicativo ou no site [www.iflowreader.com]. No processo, deve-se cadastrar o username e senha da Adobe Editions. E é aí que vem a pegadinha. Pelo menos por enquanto não é possível importar os ePubs DRMizados no iPad ou no iPhone. Isto tem de ser feito no site, mas é um processo simples e indolor. Basta clicar em “Import a Book” depois de fazer o login e escolher os arquivos .epub dos livros que você quer importar. Os livros da Cultura e Gato Sabido ficam no diretório “My Digital Editions” dentro de “Meus Documentos”. Os eBooks da Saraiva ficam dentro de “Livro Digital Saraiva” também em “Meus Documentos”. Outras lojas virtuais, como a Sony, criam diretórios dentro de “My Books”. Enfim, a primeira vez pode ser difícil achar, mas depois fica fácil.

O iFlow é uma ótima alternativa de app de leitura para iPad e iPhone. Ainda tem muito para melhorar, mas já é melhor que qualquer app de leitura nacional.

Texto escrito por Carlo Carrenho | Publicado originalmente no Blog Tipos Digitais | 08/01/2011