Acordos para o PNLD 2016


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 07/03/2014

Depois de enormes investimentos digitais de editoras educativas para o PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] 2015, muitas pessoas da comunidade de e-books ficaram surpresas com a diretriz do MEC de voltar aos PDFs para as versões estudantis [o tema foi tratado em reportagem no PublishNews]. [As versões dos professores serão totalmente digitais, mas falaremos disso mais adiante]. Pessoalmente, não fiquei muito surpreso. Acredito que o MEC tomou um gole do coquetel de frutas de padrões que descrevi no meupost de novembro e talvez teve uma reação alérgica.

Na ausência de um único padrão para livros didáticos interativos para o PNLD 2015, as editoras ficaram livres para gerar soluções. O que vimos foi uma variedade de formatos de fazer inveja a um bar de sucos no Rio. Algumas poucas plataformas proprietárias estavam replicando a experiência de um PDF, mas com nomes de arquivos diferentes e proteção anticópia especial. Outras simplesmente mostravam cada “página” do livro como uma imagem [quer dizer, a captura do texto era impossível]. Algumas soluções foram implementadas como apps totalmente personalizadas.

Mas vamos parar para pensar como os e-books interativos seriam realmente usados. Um estudante aprendendo português precisa aprender como navegar por uma app personalizada enquanto um estudante praticando inglês precisa folhear uma “revista digital”? Ou um estudante de química precisa sincronizar suas experiências com a nuvem enquanto o estudante de física precisa inserir um DVD-Rom e instalar o mais recente plug-in de Java para que a app dela funcione? A ideia de suportar tantas soluções diferentes de tantas editoras faz com que minha cabeça gire e olha que adoro tecnologia. Imagine como se sentiria um estudante usando uma tablet pela primeira vez. Não é à toa que o MEC em 2016 parece preferir os PDFs – um padrão de arquivo desde 1993 que quase todo mundo conhece.

A grande vantagem do PDF? É um formato de arquivo usado para representar documentos impressos de uma maneira independente do software, hardware e sistema operacional. A interatividade está limitada a links básicos e navegação, mas qualquer computador com a versão mais recente do Adobe Acrobat pode abrir.

Então, qual é o problema? Não deveríamos ficar feliz com o PDF e tudo bem?

Bom, eu argumentaria que 20 anos depois do PDF, temos outros padrões – tão portáteis e compatíveis quanto o PDF – só que bem mais flexíveis e interativos. Padrões como HTML5 [e seus amigos JavaScript e CSS3]. Padrões abertos que não exigem uma licença nem um grau especial de programação para dominar. Padrões que rodam em qualquer aparelho, e sistema operacional, e não exigem nenhum aplicativo ou mesmo plug-ins [só um simples browser] para funcionar. Padrões que podem ser deixados abertos para que o mundo edite [usando um editor de texto] ou embrulhado em ePub3 para entrega segura em plataformas de leitura ou até embrulhados em uma estrutura básica para lojas de app.

Então, o que fazer?

Para as versões estudantis se precisamos voltar ao básico e aceitar o PDF, que seja. Para as versões dos professores, vamos escolher um padrão aberto moderno que facilite a educação. De qualquer forma, precisamos chegar a um acordo.

Editoras do PNLD, como vocês querem produzir para o edital de 2016? Vão com uma plataforma aberta ou licenciar uma comercial? Vocês veem os padrões abertos como uma forma de facilitar seu trabalho ou sentem que precisam continuar proprietários para se diferenciar? Quero ouvir suas opiniões: greg@hondana.com.br

Greg Bateman

Greg Bateman

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 07/03/2014

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Edição digital – outros lados de várias moedas


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Normalmente a edição digital está associada aos e-books e e-readers. Mas não é tão simples assim. Já mencionei que o uso de formatos digitais pelas editoras do segmento técnico-científico está próxima de comemorar seu vigésimo aniversário.

Na área dos tradicionais livros impressos, os processos gráficos passaram, nos últimos anos, por transformações igualmente grandes e significativas. Aliás, as transformações técnicas dos processos de impressão têm impactos diretos na quantidade e na qualidade dos livros tradicionais ofertados. A mais recente dessas transformações é a da impressão digital.

A eletrofotografia [reprodução por meios eletrostáticos de um original, foto ou texto], desenvolvida pela Xerox, no final nos anos 1950, foi onde tudo começou. Anos depois a Xerox fundou o PARC – Palo Alto Research Center, matriz de inúmeras inovações tecnológicas na área da reprodução [impressoras a jato de tinta e laser], e dos computadores pessoais.

A chamada “xerografia”, como ficou popularmente conhecida, com máquinas cada vez mais complexas, desembocou nos anos 1990 na DocuTech, uma máquina apresentada como a primeira “fábrica de livros”, que imprimia página por página um original, compaginava e apresentava na ponta o miolo do livro, pronto para ser encadernado. A DocuTech foi o primeiro sistema integrado de impressão sob demanda.

Muita água rolou por baixo dessa ponte, e a Xerox há muito deixou de ser quase monopólio de copiadoras e impressoras. Várias empresas entraram no mercado, seja nas impressoras domésticas, máquinas copiadoras ou impressoras de grande porte. Nos últimos anos, os processos de impressões sob demanda [POD, em inglês] vêm assumindo importância crescente. No mercado global de impressões, a impressão digital chega a apenas 4% do total de impressos produzidos, mas o crescimento é contínuo e rápido, segundo Maurício Ferreira, gerente do segmento Indigo & Inkjet Web Press da Hewlett Packard.

Semana passada, assisti como convidado a uma apresentação sobre impressão digital promovida pela HP. Foi um evento direcionado particularmente para o mercado de livros didáticos. Hoje há máquinas capazes de competir com rotativas offset, e com uma vantagem adicional: a capacidade de produzir livros praticamente individualizados. Ou seja, o conteúdo adaptado para um único consumidor/leitor/estudante.

Uma das apresentações mais interessantes do evento foi feita por Allen C. Schulz, que trabalhou 33 anos na McGraw-Hill, onde foi um dos principais arquitetos e desenvolvedores do segmento de livros personalizados, impressos sob demanda.

Acompanho as experiências da McGraw-Hill há vários anos. A empresa foi pioneira na adoção do POD, reduzindo drasticamente estoques. Segundo Schulz, foi também pioneira na produção de livros didáticos customizados, já nos anos 1980. O processo de composição e preparação de originais utilizava a linguagem Postscript, de difícil uso para os propósitos pretendidos.

No entanto, segundo Schulz, o processo valia a pena pela diminuição dos estoques [os livros eram produzidos em tiragens específicas para cada grupo de consumidores], e diminuição do mercado de livros escolares usados. O que aqui acontece de modo quase amador, com os colégios e faculdades fazendo feirinhas nas quais os alunos repassam para os colegas mais novos os livros usados no ano anterior, nos EUA já era um negócio estruturado, com empresas especializadas na compra dos usados, limpeza e recondicionamento e venda.

Nos anos 1990, passam a ser usadas pela McGraw-Hill as suítes Adobe Acrobat e Adobe Creative, de uso bem mais fácil, padronizando os processos. Nessa época também foram instituídas as primeiras bibliotecas digitais de conteúdo. Nessas bibliotecas, os conteúdos dos livros publicados pela McGraw-Hill podiam ser “fatiados” em capítulos, e os próprios professores montavam o conteúdo dos livros adotados. Era uma “pasta do professor” impressa, legalizada e vendida na livraria da universidade. Os próprios professores foram estimulados a produzir material digital que pudesse ser incorporado aos livros [licenciado e remunerado]. Os processos gráficos foram sendo desenvolvidos a partir de uma parceria da editora com a HP e gráficas.

A partir do início do novo século começaram a testar impressoras ink-jet para a produção dos livros. Mais importante ainda, a formatação do material passou a ser em XML, a matriz de praticamente todas as linguagens de formatação gráfica existentes hoje, permitindo uma flexibilidade anteriormente mais difícil.

A associação entre a McGraw-Hill e a HP se desenvolveu em outros segmentos. A editora decidiu transferir todos seus processos de produção e pré-impressão para a Índia. A medida, entretanto, se desenvolveu com uma política estrita de imposição de qualidade e preço. É um processo comum, na situação em que uma grande empresa alcança um tamanho capaz de impor condições estritas aos fornecedores. Ou seja, não é nem privilégio nem foi invenção da Amazon, e muitas outras empresas que alcançam esse nível de controle da produção sistematicamente impõem padrões e preços. Também não é privilégio das empresas. Um exemplo parecido é a que o FNDE impõe aos editores no fornecimento dos livros didáticos aqui.

A introdução da impressão digital, com sua grande flexibilidade, permite a elaboração de conteúdos que podem ser produzidos para atender especificações dirigidas até o consumidor individual. Conjuntos de livros para classes e cursos específicos já são rotina.

Mas a impressão digital provocou outras mudanças importantes. O ajuste da oferta à demanda, por exemplo. Anteriormente, os editores tinham que calcular [com base na sua experiência, cada vez mais sofisticada, é claro], qual deveria ser a tiragem de cada título. A impressão sob demanda deixa de lado essa exigência. Não apenas podem fabricar livros individualizados, como cada tiragem é ajustada perfeitamente à demanda. Portanto, há uma menor dependência na previsão de produção.

Outro aspecto importante é o da redução dos estoques. E a redução dos estoques aliada aos processos de impressão digital, produz outros dois efeitos de grande importância na economia da editora. O primeiro é a eliminação do “mercado secundário” dos livros usados. Porém, ainda mais importante, é o processo de “obsolescência programada” das edições. Na medida em que os livros são produzidos para cada classe [ou pelo menos para cada curso], e modificados facilmente de um ano para o outro com o uso desses enormes “bancos de dados”/bibliotecas digitais de conteúdo, além das notas e contribuições de professores, os livros usados por uma turma são inaproveitáveis para as turmas seguintes. O que, evidentemente, é ótimo para a editora, e péssimo do ponto de vista social. Não existe mais o reaproveitamento do livro usado.

Os processos de “montagem” de conteúdo e impressão em pequenas tiragens permitem também o desenvolvimento de mercado de nichos, ou o teste de conteúdos em nichos específicos e de modo controlado.

Finalmente, o desenvolvimento de facilidades locais para impressão digital proporcionou ainda outra economia em logística. Quanto mais próxima estiver a gráfica digital do consumidor final, menor será o custo de transporte. Recentemente as grandes transportadoras dos EUA tiveram que refazer cálculos de produtividade e ocupação com a proliferação dos armazéns da Amazon. Como o frete é cobrado por faixas de distância calculadas em um raio a partir do ponto de recolhimento, a produção localizada começa a afetar o uso do transporte terrestre.

Essas modificações no sistema de produção gráfica e editorial, decorrentes da introdução de sistemas digitais em uma extensão cada vez maior, ocorre, evidentemente, fora dos olhos do consumidor final. O livro tradicional, impresso, também se transforma com os avanços tecnológicos.

Essas considerações aqui são feitas levando em conta o segmento dos livros didáticos [em todos os níveis de ensino, em maior ou menor grau]. No Brasil ainda estamos bem longe da sofisticação tecnológica dos EUA. Até porque, é bom não esquecer, o maior volume na produção de livros didáticos é o comprado pelos programas governamentais. Segundo informações da Abrelivros [dadas por Antonio Luiz Rios, vice-presidente da entidade no evento da HP], os programas governamentais absorvem 80% da produção, mas geram apenas 50% do faturamento das editoras do setor. Os 20% absorvidos pelo mercado geram a outra metade do faturamento, e essa faixa poderá ser melhor explorada com a sofisticação da produção de conteúdo.

Além do setor tradicional das editoras didáticas, os chamados sistemas de ensino também crescem [e quase todas as editoras também têm sistemas]. Nessa área pode haver um aumento consistente no uso desses processos digitais.

Algumas instituições de ensino superior já usam modelos parecidos. Há universidades particulares que, para alguns cursos, incluem no preço da anuidade o custo do material didático desenhado especialmente, entregue aos alunos. E a ABDR, em uma encabulada retirada da mania persecutória das reprografias, lançou a “Pasta do professor”, uma fórmula que era usada há quase trinta anos pela McGraw-Hill e outras editoras de livros técnico-científicos e universitários dos EUA.

O impacto da impressão sob demanda na área dos livros de interesse geral é outro capítulo, que tentarei abordar melhor em outra ocasião.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 20/08/2013

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.