PNLD e Bienal: realidades digitais bem distintas


Por Gabriela Dias | Publicado e clipado originalmente de PublishNews | 28/08/2013

O fim de agosto está contrapondo, sem querer, realidades digitais bem distintas. No último dia 23, acabou o prazo de entrega dos e-books do PNLD 2015 [Programa Nacional do Livro Didático]; no dia 29, começa a 16ª Bienal do Livro, que em 2013 comemora 30 anos quase sem falar de livro digital.

Com o PNLD 2015, o segmento didático parece ter dado um salto à frente do resto do mercado no que tange à cultura digital. Instigadas pelo MEC a entregar livros digitais enriquecidos, as editoras didáticas tiveram que aprender [ainda que aos trancos e barrancos] o que significa fazer um e-book – que não basta produzir no formato X ou Y, por exemplo; que há que se considerar também o peso dos arquivos, a[s] forma[s] como eles serão distribuídos e a[s] plataforma[s] de leitura nos diversos dispositivos.

Tudo isso significou um primeiro semestre muito duro para essas editoras: horas extras, incontáveis reuniões, muito investimento e experimentação. O trabalho foi tão intenso que tanto o prazo de entrega dos livros físicos quanto o dos digitais teve que ser adiado – o que, na prática, quer dizer que o segundo semestre será tão ou mais puxado que o anterior.

Mas será que valeu a pena?

Depois da tempestade, vem a bonança

Passada a tempestade de oito meses de incertezas e dúvidas, minha impressão é que esse “intensivão” teve saldo positivo. O período de reorganização de fluxos e processos não só agregou o digital de vez às estruturas produtivas das editoras didáticas, como também fez dele moeda corrente entre os funcionários em geral.

Se até 2012 o digital ainda era visto como “aquela coisa estranha que um departamento específico faz”, em 2013 ele passou a ser assunto de todos e para todos. Essa mudança de mentalidade se refletiu no organograma de algumas editoras, em que o departamento digital deixou de ser algo à parte para ser incorporado às estruturas editorais já existentes.

Pudemos sentir isso na primeira turma do curso Alt+Tab, em maio. Pensado para profissionais de qualquer setor editorial, o curso “Livro Digital: o que você sempre quis saber [mas tinha medo de perguntar]” acabou atraindo 80% de pessoas oriundas de editoras didáticas em sua edição inicial. A ansiedade era grande, e a avidez por informação também – o que se refletiu no engajamento da turma no ambiente online do curso, mesmo após as aulas terminarem.

A mudança é tão forte que até os autores de livros educativos estão começando a se preparar para a nova era. Sua associação, a Abrale, começa este mês uma série de eventos destinados ao debate sobre o livro digital.

Por enquanto, a transformação é mais intensa nas equipes ligadas à criação e à produção dos livros. Mas é questão de tempo para que a mudança se intensifique em áreas como marketing e vendas – basta chegar a hora apropriada, seguindo-se o calendário do PNLD.

Os números [não] mentem

O avanço digital do segmento didático não se refletiu ainda nos números de vendas. Na pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro” referente a 2012, divulgada em julho pela Câmara Brasileira do Livro [CBL] e Sindicato Nacional dos Editores de Livros [SNEL], o setor aparece como o último do mercado em número de e-books e aplicativos vendidos e o penúltimo em faturamento com conteúdo digital.

Mas como interpretar esses dados quando a prática do setor tem sido “dar” o digital como acessório na compra do livro impresso? E como medir a penetração do conteúdo didático digital sem considerar o uso nos sistemas de ensino, cuja venda não se baseia apenas em e-books e apps?

É por essas e outras que, quando me perguntam dos números digitais do setor, sempre digo que não há estatísticas confiáveis. Na verdade, se não nos prepararmos para fazer essa medição de modo apropriado aos novos modelos de negócio trazidos pelo digital, pode ser que continuemos tendo números irrelevantes por um tempo – o que renderia uma coluna à parte.

Enquanto isso, na Bienal…

Apenas seis dias separam a entrega dos e-books do PNLD da Bienal no Rio, mas parecem anos de distância. Só como exercício, tentem buscar a palavra “e-book” no site oficial da feira e vejam o que acontece.

Após muito esforço, consegui descobrir que o evento reservou o digital para públicos como o jovem [no#acampamentonabienal] e o profissional [com a Contec e o colóquio “O acesso à biblioteca no clique do mouse: a Mediateca Digital”]. O mesmo ocorreu na Flip em julho, quando o digital só apareceu em eventos paralelos como os da Casa Kobo Livraria Cultura.

Pelo visto, as iniciativas digitais na Bienal 2013 ficarão por conta dos expositores – Kobo [no pavilhão Azul], Amazon e Google [ambas no pavilhão Verde] terão estandes pela primeira vez. Detalhe: o IBA, plataforma digital da Abril, é patrocinador do Café Literário.

Considerando que o evento é o ponto alto do ano para os setores de obras gerais; religiosas; e científicas, técnicas ou profissionais, e que há apostas de que as vendas de e-books no Brasil cheguem a 3 milhões de unidades já em 2013, será que ainda deveria ser assim?

Por Gabriela Dias | Publicado e clipado originalmente de PublishNews | 28/08/2013

Gabriela Dias

Gabriela Dias

Gabriela Dias [@gabidias] é formada em Editoração pela ECA-USP e transita desde 1996 entre o papel e o virtual. Atualmente, presta consultoria e realiza projetos nas áreas de educação e edição digital.

A coluna Cartas do Front é um relato de quem observa o mercado educacional no Brasil e no mundo. Periodicamente, ela traz novidades e indagações sobre o setor editorial didático – e sobre o impacto da tecnologia nos livros escolares e na sala de aula.

PNLD inclui conteúdo digital pela primeira vez


O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação [FNDE] lançou o edital para a aquisição de livros didáticos dentro do Programa Nacional do Livro Didático [PNLD] para 2014, que engloba obras para os estudantes do sexto ao nono ano do ensino fundamental e traz novidades.

É a primeira vez que o documento engloba conteúdo digital e, para tanto, institui regras também inéditas. De acordo com o edital, as editoras terão a opção de incluir DVD-ROMs nas obras inscritas e, caso optem por fazê-lo, serão obrigadas a disponibilizar o conteúdo do DVD no portal do Ministério da Educação e Cultura [MEC], de forma gratuita e universal.

A inclusão do DVD é entendida pelo FNDE como o primeiro passo no processo de oferecer material digital aos estudantes da rede pública de ensino do país. Segundo Rafael Torino, diretor de ações educacionais da autarquia ligada ao MEC, os editais do PNLD dos próximos anos deverão englobar continuamente diferentes formatos e exigências relacionados a conteúdos digitais.

O edital, publicado no Diário Oficial da União na segunda-feira, dia 07, engloba livros didáticos de língua portuguesa, matemática, ciências, geografia, história e língua estrangeira moderna [inglês ou espanhol]. O período de pré-inscrição das obras estará aberto entre os dias 09 de dezembro e 01 de maio de 2012. De 7 a 11 de maio do ano que vem, as editoras deverão enviar as cópias físicas dos livros. Depois disso, as obras serão avaliadas até março de 2013. Um mês mais tarde, em abril, será lançado o Guia do Livro Didático 2014, por meio do qual as escolas selecionarão os livros que querem adotar. Os contratos de aquisição serão fechados com as editoras em setembro de 2013, após as negociações, e elas terão até janeiro para fornecer todas as remessas contratadas.

A inclusão dos DVDs nas obras do PNLD 2014 é opcional, mas deve gerar um diferencial competitivo para as editoras que os oferecerem. “Claro que os livros com conteúdo digital associado poderão fazer mais sucesso entre os professores e, provavelmente, serão mais escolhidos no guia”, afirma Torino.

Segundo ele, o FNDE estendeu o período de pré-inscrição, tradicionalmente de quatro meses, para seis meses, de forma que as editoras tenham mais tempo para preparar o novo tipo de material.

Os DVDs poderão conter de 10 a 20 conteúdos digitais [temas de ensino] e, cada um deles, poderá ter até cinco objetos digitais [jogos, vídeos, simuladores, animações etc], relativos aos textos dos livros físicos. O conteúdo dos DVDs deverá ser colocado na internet com acesso gratuito e livre a quaisquer pessoas, não apenas aos alunos e professores que utilizam o material em sala de aula. “Vamos pagar pelos livros e pelos DVDs e a disponibilização do conteúdo digital no portal do MEC será uma exigência”, diz Torino.

Segundo ele, as regras foram decididas pelo FNDE depois de diversas conversas com editoras e associações representativas do setor, como a Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares [Abrelivros] e a Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos [Abrale], ao longo do primeiro semestre deste ano.

Veja o posicionamento da Abrelivros

O plano do FNDE é sofisticar as possibilidades de aquisição de material digital e as exigências feitas às editoras nos próximos anos. “Para 2014, só incluímos DVDs e, mesmo assim, de maneira opcional. Em 2015, poderemos definir outro modelo”, afirma Torino. “No futuro, sei lá, daqui a cinco anos, podemos estar comprando livros digitais inteiros, mas por enquanto há muitas barreiras para isso.

Segundo ele, os principais obstáculos são a falta de hardwares – como computadores, tablets e e-readers – nas escolas, a baixa disseminação da rede de banda larga no país e o fato de muitas editoras ainda não estarem preparadas para oferecer conteúdo digital.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 10/11/2011