Notícias de Guadalajara


Nós estivemos na Feira Internacional de Libro de Guadalajara [FIL] e as notícias que trazemos de lá são muito boas! A começar que o projeto “Pipoca na FIL”, em nome da Suria, foi selecionado pelo MinC para compor uma delegação que representou a bibliodiversidade brasileira.

[Foto 1: Delegação brasileira do MinC]

[Foto 1: Delegação brasileira do MinC]

E o mais bacana é que, além de nós, havia outra proposta de digitais infantis neste grupo de 24 pessoas, a Storymax, que produz Apps-books infantis e estava representada pela Samira Almeida. Tivemos um estande onde pudemos expor nosso catálogo e, claro, demos uma boa andada na feira buscando as iniciativas voltadas para este nosso nicho.

[Foto 2: Estande do MinC na Área Internacional da FIL]

[Foto 2: Estande do MinC na Área Internacional da FIL]

[Foto 3: Dois iPads no stand do Brasil, um com os Apps da Storymax e outro com o nosso catálogo]

[Foto 3: Dois iPads no stand do Brasil, um com os Apps da Storymax e outro com o nosso catálogo]

Mas não foi só nesta caminhada pela FIL que vimos propostas relacionadas ao digital, a própria organização da feira tinha também este foco, então na Área Internacional havia a Área do Livro Eletrônico e fazia parte da programação, em um dos auditórios, a Oficina de Edição Digital. Buscadoras de eventos formativos que somos* [a participação nestes, aliás, foi o principal objetivo que propusemos ao MinC], participamos desta oficina, realizada pelo argentino Daniel Benchimol. Foi bem rico.

Para editores como nós, que já trabalham com livros digitais, muitas informações não eram novas, mas houve uma rica discussão sobre DRM e o Daniel, como observador das alterações que o digital provoca na cultura como um todo, como produtor de conteúdos digitais e como alguém que estuda e analisa este movimento de mudança, é a favor de que as editoras retirem os DRMs e, com isso, tenham mais liberdade de criação e de vendas em sites próprios: “Neste momento de alteração, é muito importante que a industria editorial seja protagonista, mas o DRM significa manter o modelo de negócio dos livros impressos, quando o digital traz novos paradigmas de leitura e de contato com livros”.

Diante de tudo o que vimos e ouvimos, o que mais ficou claro para nós nesta feira foi como o modelo de negócio de digitais tem que levar em consideração não só o mercado de livros, mas também a indústria dos livros, industria que, aliás, como o próprio Benchimol disse, é muito antiga e resistente a mudanças. Mas o fato é que ela existe e que terá dificuldade em incorporar o digital se ele estiver totalmente desarticulado dela.

Quando André Palme trouxe notícias de Frankfurt,** um dos comentários dele foi este: que em feiras grandes é que vemos com clareza que os livros são parte de uma indústria enorme e global. O que nós acrescentamos é que esta indústria gira com peças que envolvem os editores, os distribuidores, os autores [incluindo aqui ilustradores, no caso de infantis], os leitores e, focando nos digitais, os programadores. Além das bibliotecas e bibliotecários, das escolas e dos professores, dos promotores de leitura, etc! São estas peças que movimentam o mercado. É toda uma engrenagem que já está estabelecida há séculos e que simplesmente não vai sofrer alterações bruscas e radicais porque surgiram os livros digitais.

Mas como as novas produções entram em convergência com essa industria já tão estabelecida? A partir da adaptação daqui e dali… É enorme a quantidade de bibliotecas digitais e de serviços de subscrição a plataformas de livros [estilo Netflix] que já existem fora do Brasil e que podem, sim, servir como canal de distribuição de nossos conteúdos. Se o objetivo de uma feira internacional de livros, em termos de negócios para livros impressos, é vender direitos, a nós parece que no caso de digitais, o mais importante é buscar ferramentas de distribuição que, realmente, possam capilarizar o alcance dos livros.

Na área do livro eletrônico eram quinze espaços de negociação — sendo 13 com esse objetivo de distribuição e capilarização — além de um local onde aconteciam palestras informativas sobre estes serviços. Ao lado dos tablets [ou das telas touchs que literalmente estavam lá para ampliar a visibilidade dos e-books], as pessoas ensinavam o funcionamento das plataformas, dos livros, das compras… um trabalho educativo, mesmo.

[Foto 4: Área do livro eletrônico, na área internacional da FIL]

[Foto 4: Área do livro eletrônico, na área internacional da FIL]

[Foto 5 e 6: Telas touch para ampliar a visibilidade do livro digital]

[Foto 5 e 6: Telas touch para ampliar a visibilidade do livro digital]

Já estávamos felizes com o que tínhamos visto. Novas possibilidades de distribuição, televisões touch enormes que incitavam a interação, esclarecimento do nosso modelo de negócios… Eis que fomos a uma palestra no Encontro de Promotores de Leitura e, quando nem esperávamos escutar nada sobre os livros digitais, ouvimos o historiador francês Roger Chartier dizer: “Qual será nosso futuro? Quem sabe? O que sabemos é que cada momento de mudança sempre produziu uma coexistência com o passado, e aconteceu com transformações e não com revoluções. O que sabemos é que os novos leitores, os nativos digitais, entrarão na leitura por meio do digital”.

E, falando especificamente de crianças, um dos organizadores da feira é o Conaculta, que é o equivalente ao nosso MinC, só que no México. Eles têm salas de leitura por todo o país e investem em livros digitais e em aplicativos de criação literária ou incentivo à leitura e em livros didáticos e audiolivros para escolas [não sabemos como acontece na prática, mas o investimento em si já é bem interessante]. E quando passamos por seus espaços, o que vimos foram crianças e adolescentes utilizando os tablets e os livros impressos. Passeando entre os dois ambientes com absoluta naturalidade. Vale destacar que os conteúdos desenvolvidos para crianças também atraíam os adolescentes, será que isso pode ser demonstrativo de uma demanda de aplicativos relacionados a livros para eles? Fica a pergunta.

[Fotos 7 e 8: Espaço de livros digitais do programa Salas de Lectura, do Conaculta - Mx]

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[Fotos 7 e 8: Espaço de livros digitais do programa Salas de Lectura, do Conaculta – Mx]

[Foto 9: Espaço de divulgação dos livros didáticos e áudio-livros adotados pelo sistema de educação do México]

[Foto 9: Espaço de divulgação dos livros didáticos e áudio-livros adotados pelo sistema de educação do México]

Uma outra coisa que não sabíamos é que a Colômbia está investindo muito nesse mercado e um projeto colombiano que nos encantou foi uma plataforma de leitura online gratuita, que apresenta áudio, fotos, músicas e outras produções relacionadas ao livros digitalizados além da produção de livros de arte impressos [lindos], que pertence a uma fundação de preservação literária, a Fundación El Libro Total. Muita coisa acontecendo que envolve toda a cadeia produtiva do livro.

[Foto 10: Plataforma de leitura online da Fundación El Libro Total]

[Foto 10: Plataforma de leitura online da Fundación El Libro Total]

[Foto 11: Livro impresso de exposição da Fundación El Libro Total]

[Foto 11: Livro impresso de exposição da Fundación El Libro Total]

É claro que já sabíamos que, qualquer que seja a produção editorial digital que se queira fazer, não dá pra ignorar toda a indústria do livro já tão estabelecida. Mas não tínhamos tão claro o tanto que as possibilidades de distribuição estavam se desenvolvendo, quais delas já estavam aceitando os diversos formatos, entre outras novidades menos divulgadas que são muito ricas. E é interessante pensarmos nas possibilidades de difusão gratuita, também. A Wordlreader, que já tem representação no Brasil e disponibiliza gratuitamente livros digitais para as áreas mais pobres do mundo, fez uma apresentação linda no Encontro de Promotores de Leitura, com dados incríveis de alcance desta iniciativa de incentivo à leitura. Nem sempre os editores podem disponibilizar conteúdos gratuitamente, por conta dos contratos, mas vale a pena conhecer a iniciativa e pensar em uma maneira de participar.

Unindo todas estas informações sobre modelos de negócio, investimentos, indústria e mercado de livros, distribuição e alcance dos livros digitais, o que dizemos é que vir pra FIL – Guadalajara foi uma felicidade enorme, pois vimos o tanto que este negócio está em expansão e o tanto que o mercado está em movimento, considerando toda esta indústria do livro. E voltando lá ao comecinho deste texto: é parte da bibliodiversidade brasileira. É gratificante participar deste movimento.


* no nosso blog [www.pipocaazul.editorapipoca.com.br] sempre escrevemos sobre os eventos de que participamos.

** tanto aqui no colofão [link?] quanto em um evento na livraria Blooks.

Editora Pipoca

Por Suria Scapin | Editora Pipoca |Publicado originalmente em COLOFÃO |

Começou a trabalhar no mercado editorial com 16 anos e passou por editoras como Madras, Atual, Abril, Leya e Sarandi, além de ter atendido muitas mais pela S4 Editorial. Com formação em Desenho Industrial e em Língua Portuguesa e Literatura, ambas pelo Mackenzie, sempre revezou entre texto e arte, até que resolveu unir os dois conhecimentos e tornar-se a responsável editorial da Editora Pipoca.

Isabela Parada
Para buscar compreender como funciona a cabecinha dos pequenos, Isabela foi estudar Pedagogia na UEMG, onde encontrou seus fundamentos teóricos e participou do grupo de pesquisa e estudos Contra-Violência na Infância. Na Escola Pés no Chão [Belo Horizonte], aprofundou os estudos sobre a Pedagogia Freinet. Hoje é pedagoga da Pipoca e contadora de história na creche de Milho Verde [MG], pelo Instituto Milho Verde. Aprendeu que o crescimento das crianças é também o processo de criação delas mesmas e entende que essa criação é individual e única.