Da elaboração de um eBook e do relacionamento com freelancers


Com alguma frequência falamos¹ da importância do diálogo entre os envolvidos na produção de um e-book e, pessoalmente, acredito que ainda tenhamos que bater nessa tecla por algum tempo.

No geral, falamos da realidade dentro das editoras e da necessidade de fluidez desse diálogo entre os departamentos envolvidos. Hoje, todavia, vou falar de uma ponta mais ou menos isolada: vou falar do ponto de vista de um freelancer.

img1

Algumas coisas podem ser muito úteis para que o profissional entregue mais ou menos o que você imagina. Entre elas, um manual de estilo para os digitais que inclua informações comuns a todos os títulos, tais como valores para as proporções de página, corpo, parágrafo básico; alinhamento; cores e decoração de links e chamadas de notas; ordem dos elementos [página de créditos vai pro final?]; o que entra e o que sai dos índices etc.

Esse tipo de informação cria uma melhor experiência para ambos os envolvidos, além de agilizar os processos.

manual

Primeira parte do manual de estilo da Cosac Naify

Outra coisa que é preciso ter em mente é o que você espera do produto e, para isso, é preciso conhecer o produto, manusear e-books, comprá-los, resumindo, consumi-los, em todos os tamanhos e formas. E isso vale tanto para o editor responsável quanto para o freelancer.

“É pra ontem”

Se “é pra ontem”, já está atrasado. Prazos devem ser realistas e, mesmo nesses casos, as coisas podem não sair como o esperado. Para exemplificar, compartilharei aqui uma experiência profissional recente. Mês passado, combinei com a Companhia das Letras a conversão e adaptação do livro Dia de Beauté [lançamento do e-book previsto para o dia 15/11].

img2

 

img3

Como se vê nessas páginas do PDF, a composição dos elementos não se sustentaria num e-book fluido sem muita adaptação e, bem, sendo um livro sobre maquiagem com seções de dicas, é bem provável que seu público o queira à mão, e à mão, hoje, está o celular.

Eu não tinha noção de que daria tanto trabalho, e já na véspera de estourar o prazo, chamei a Marina Pastore e fui sincero: “Dentro do prazo eu consigo entregar um trabalho médio para fraco, avaliei mal os arquivos-base e preciso de mais duas semanas”, ao que ela entendeu e estendeu o prazo.

Posso cortar isso?

Se você, bounty hunter, já tem experiência com adaptação de design para tudo que é tela, aplicativo de loja, e sabe que certas coisas não vão ficar boas, faça sua parte, explique. Você ajuda a editora e entrega um trabalho diferenciado. Eu, por exemplo, uso screenshots rabiscadas e explicações.

img4

img5

Pode parecer enfadonho, mas essas explicações sobre as alterações são fundamentais, especialmente no início de uma relação profissional. Com seriedade e profissionalismo, se consegue confiança e maleabilidade e, eventualmente — mas não de um dia para outro –, carta branca para propor e definir soluções.

Captura de tela de 2015-11-10 23-32-54 Pastore, Marina – sobre responsa e carta branca

“Ah, Hermida, tô curtindo suas dicas e tudo mais, mas e o e-book, como ficou, funcionou no celular?”
Pô, obrigado por perguntar, cara. Ó, funcionou, sim, saca só:

celularTelas de Dia de Beauté num smartphone

Esse e-book, por si só, dava um ou dois posts ao estilo do Moby Dick [História de pescador, no blog da Cosac Naify], e talvez eu os escreva… mas o ponto aqui é outro: estou falando sobre troca e comprometimento entre profissionais de um mercado que, em muitos aspectos, carece demais de profissionalização e seriedade, fatores que determinam se o produto entregue aos leitores está entre ruim e médio ou um produto [e um processo] do qual você se orgulha de ter participado.

Vocês se orgulham dos e-books que estão entregando?

Antonio Hermida

Por Antonio Hermida | Publicado originalmente em Colofão | 11/10/2015

Antonio Hermida cursou Análise de Sistemas [UNESA], Letras – Português-Latim [UFF] e Letras – Português-Literaturas [UFF]. Começou a trabalhar com e-books em 2009, na editora Zahar e, em 2011, passou a atuar como Gerente de Produção para Livros Digitais na Simplíssimo Livros, onde também ministrava cursos [Produzindo E-Books com Software Livre] e prestava consultorias para criação de departamentos digitais em editoras e agências.
Coordenou o departamento de Mídias Digitais da editora Cosac Naify sendo também colunista do blog da editora.
Atualmente presta serviços e consultoria para diversas editoras.

Entre outras coisas, é entusiasta da cultura Open Source e tem Kurt Vonnegut como guru.

Anúncios