Editoras como empresas de mídia


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em Colofão | 30/09/2015

O que uma editora faz?

Como qualquer empresa de mídia, a editora é responsável por fazer com que certos conteúdos possam ser consumidos por pessoas neles interessadas. Emissoras de TV e serviços de streaming produzem séries, produtoras e estúdios de cinema lançam filmes, produtoras de games nos dão jogos eletrônicos e editoras lançam livros. O livro, muito simplificadamente, é um volume com determinado conteúdo escrito. Associá-lo a um conteúdo “impresso” já não bastaria, pois os livros já não são reféns da materialidade. [Há pelo menos uma centena de livros nesse pequeno dispositivo e-Ink que está aqui na minha mesa enquanto escrevo.]

Editoras, portanto, nos dão livros. Estes podem ser muito diversos entre si, mas, majoritariamente, têm em comum comunicarem seus conteúdos por meio da escrita.

Foram mencionados outros tipos de empresas de mídia. Cada uma delas, em seu contexto, é responsável pela produção e entrega de um certo produto ao mercado. As características desses produtos os diferenciam dos demais, e assim temos um mercado cheio de opções: o consumidor, por vezes numa mesma loja, pode comprar livros, games, boxes de séries, DVDs de filmes. Ele também pode ter acesso a todos esses produtos online, por meios legais ou por outros nem tanto.

Em resumo, o consumidor tem diante de si um universo amplo de narrativas. Essa constatação tem sido bastante enfatizada em debates concernentes ao futuro do livro e do mercado editorial. Num cenário em que promoções na Steamlevam jovens a comprar dezenas de games, as pessoas fazem binge-watching de suas séries favoritas, e outras inusitadas modalidades de consumo [binge-listening] surgindo, como o livro [e a editora] vai sobreviver? Como se manterão relevantes? Como essas narrativas escritas, com as quais não se pode interagir, vão competir com todos esses outros produtos culturais que circulam tão livremente, graças à convergência midiática, à massificação da cultura digital e à popularização dos aparelhos como tablets e smartphones?

Uma resposta oferecida é que toda a gama de “competição”, por assim dizer, enfrentada pelo livro atualmente deveria levar a uma redução dos preços, para que o livro possa se manter atrativo em meio a outros produtos. A aposta em gêneros específicos, como o de livros para jovens – apontados como responsáveis pelo bom retorno da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, ocorrida nesse ano –, e outros mais localizados, como ficção científica e fantasia – investimento em nichos – também pode ser apontada como forma válida de se colocar nesse novo contexto. Ambas as respostas merecem uma análise mais aprofundada do que me proponho a fazer aqui. Quero, antes disso, especular sobre um outro cenário possível – e é, antes de tudo isso, uma especulação, e vinda de um não-especialista.

Faria sentido que editoras alargassem a própria definição e investissem em outros tipos de narrativas para além dos livros? Faria sentido que editoras abraçassem a diversidade de produtos midiáticos em circulação, vendo nela um caminho possível de crescimento e expansão? Vejam, não estou falando desobrevivência, como se esse fosse o único caminho para a “salvação” da editora. Estou falando da possibilidade de acrescentar um novo rumo ao já existente [publicar livros].

Do que eu estou falando? Ok, ainda não está totalmente claro nem para mim mesmo. Mas pensem num podcast como Serial. Breve resumo: trata-se de um podcast que teve doze episódios em sua primeira temporada. O tema é o assassinato da estudante Hae Min Lee, ocorrido em 1999 na cidade de Baltimore, cujo desfecho – a prisão de seu ex-namorado Adnan Syed – deixou muita gente pouco convencida. A jornalista Sarah Koenig e sua equipe reinvestigaram o caso, e o resultado foi dividido nos doze episódios da primeira temporada.

O comentário de muita gente é que ouvir Serial é uma experiência semelhante a assistir a uma série: você não consegue terminar um episódio sem pular para o seguinte [daí o termo binge-listening]. Há vários pontos interessantes: o trabalho de investigação envolvido, a criação de uma narrativa em torno dos acontecimentos, o uso da lógica seriada para expor esta narrativa.

Agora, tentemos associar a investigação encabeçada por Koenig a uma editora. A imaginação não deve ter ido muito longe: muito provavelmente imaginamos um livro de não ficção escrito pela autora, relatando seu envolvimento com o caso, certo? E, por tudo que o podcast mostrou, de certo teríamos um ótimo livro.

O que estou pensando, no entanto, é não precisar necessariamente chegar a esse ponto. E se a editora investisse no podcast em si, como se investe num livro de não ficção, entendendo-o como um produto seu? Afinal, trata-se de uma narrativa, e editoras têm experiência em entregá-las ao público. Seria apenas um tipo diferente de narrativa, um que expande o próprio escopo de atuação da editora, impondo também outros tipos de problemática – vendê-la, não vendê-la, de que modo vendê-la, como chamar a atenção do público etc.

Mudando um pouco o exemplo [e chegando talvez num nível mais megalomaníaco]: games. Temos alguns jogos e aplicativos que flertam com a narrativa literária, alguns dos quais a Marina Pastore já mencionou por aqui. Os pensados diretamente para o formato digital, como The Silent History [que também tem uma versão impressa Device 6são particularmente interessantes. O game independente The Novelist também vem à mente como representante dessa categoria de jogos que se apropria de elementos literários para criar narrativas híbridas, difíceis de situar. De novo: editoras nos dão narrativas. Seria interessante pensar nesse tipo de conteúdo original partindo da editora, através de parcerias com empresas e desenvolvedores, por exemplo? Seria interessante que, futuramente, editoras tenham equipes próprias para tocar projetos como esse, e outros igualmente fora da caixa tradicional de uma editora?

A resposta para essas perguntas pode perfeitamente ser não. E é justo dizer que essas especulações deixam de fora diversos fatores, como o porte financeiro da editora. De toda forma, as perguntas e a especulação me parecem apontar para um cenário interessante, em que editoras atuem como empresas de mídia mais abrangentes e cresçam, a partir disso, em força e relevância.

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em Colofão | 30/09/2015

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

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