Depois de videoarte, ‘gifs’ viram livro disponível na internet


‘A casa assombrada de Zac’ foi criada pelo escritor e performer americano Dennis Cooper

O escritor e performer americano Dennis Cooper | Photo: Divulgação

O escritor e performer americano Dennis Cooper | Photo: Divulgação

RIO | Que os gifs já adquiriram estado de arte é fato inconteste. Cada vez mais artistas visuais, músicos e até fotógrafos de moda absorvem a linguagem digital em seus trabalhos, com resultados surpreendentes. Mas o que o escritor, editor e performer americano Dennis Cooper [sem livros traduzidos no Brasil] fez agora é algo inédito: ele lançou, há alguns meses, o primeiro livro totalmente feito com o formato. Intitulado “Zac’s haunted house” [“A casa assombrada de Zac”, em tradução livre], é um romance de suspense, como o próprio nome sugere — e como os 15 capítulos de trama cheia de reviravoltas sustentam. A obra está disponível no site http://www.kiddiepunk.com/zacshauntedhouse. A ideia faz sucesso, e desde o lançamento, já foram mais de 40 mil downloads. Da França, onde vive atualmente, Dennis Cooper conversou com O GLOBO.

Como você teve a ideia de fazer um romance apenas com gifs?

Eu tenho um blog que alimento diariamente, no endereço http://www.denniscooper-theweaklings.blogspot.com.br. Ele inclui todo tipo de post e tem muitas imagens. Por algum tempo, fui separando o material por temas que se relacionavam. E comecei a incluir gifs animados entre um e outro. Quando fiz isso, comecei a perceber como os gifs se relacionavam de maneira interessante entre si, e separei-os por temas, por ritmo, pela cor ou pelo design. Aos poucos, os agrupamentos foram ficando complexos e ainda mais interessantes. E fui percebendo que já estava tentando fazer ficção com eles, usando os mesmos métodos da minha própria ficção. Era possível “escrever” ficção usando gifsanimados em vez de apenas a linguagem escrita. Então decidi tentar escrever um romance feito de gifs.

Como você pesquisa gifs na internet?

Às vezes eu já tenho uma história que quero ilustrar, e procuro gifs que possam dar conta disso. Outras vezes, encontro gifs que realmente me interessam por buscas aleatórias, temáticas, seja no Google, no Giphy, no Tumblr ou em outros sites que têm um monte deles.

Como o livro foi recebido?

“Zac’s haunted house” já foi baixado 40 mil vezes. Ele foi indicado para prêmios literários e foi selecionado para aparecer em festivais de cinema. Eu não pensei em inventar um novo formato, mas de fato é um novo formato, e as pessoas parecem animadas com o fato de o livro ser algo fresco, o primeiro deste tipo.

Você já disse que gifs são como um “deslize para o olho”. Que novas possibilidades você encontra nessa narrativa? E quais são suas limitações?

O que mais me anima ao fazer ficção com gifs animados é que as demandas naturais de uma ficção escrita — história, personagens e enredo imperiosos — não são necessárias ou talvez até mesmo possíveis de se fazer com gifs. Eu sempre experimentei muito em meus romances, e eu sempre fui mais interessado no que eles fazem formalmente, estruturalmente e estilisticamente do que nas histórias, personagens e enredos. Trabalhar com gifs me permite colocar essas convenções mais sob a superfície. Escrever ficção com gifs é muito libertador para mim. Ao mesmo tempo, há grandes limitações. Pelo menos quando você usa gifs por acaso, como eu faço. Por exemplo, gifs são quase sempre uma pequena comédia, e às vezes eu tenho que disfarçá-la, tentar escondê-la. Gifs são mais abertos do que a linguagem escrita, mas ao mesmo tempo são muito inflexíveis.

Que outras linguagens você gostaria de experimentar em uma narrativa?

Não sei, estou tão imerso no trabalho em gifs agora… Um romance com emoticons, por exemplo, é uma ideia engraçada e encantadora, mas eu acho que a leitura seria muito difícil e chata.

Qual é o futuro do romance?

Eu não faço ideia. Acredito que o romance é uma forma enorme, e que existem muitas, muitas, mas muitas maneiras de se fazer romances que ninguém tenha tentado antes ou tenha conseguido realizar ainda.

LEIA A CRÍTICA DO LIVRO [POR CARLOS ALBERTO TEIXEIRA]:

“Não vi qualquer mensagem no livro. É uma coleção de gif’s noir mal organizada, sem enredo, sem pé nem cabeça. Alguns gif’s são interessantes, mas nada de incrível. Trechos de vídeos e filmes convertidos para gif, só isso. É uma obra de arte, a partir do fato que gera uma emoção em quem a observa. Em mim gerou repulsa, asco e sensações desagradáveis. Meio underground, meio Deep Web. Pode entrar para a história como a primeira iniciativa do gênero. Mas não contribuiu em nada. Se tem alguma sacada mágica nesse “livro”, escapou-me. Não recomendaria a ninguém.”

Por Bolívar Torres | Publicado originalmente em O Globo | 25/09/2015, às 12:27 | Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.