100% digital


Sempre fui um viciado em tecnologia, daqueles que fica esperando uma novidade pra pesquisar, descobrir, usar. Por este motivo o tal do livro digital sempre esteve no meu radar. Mas até 2013 era só mais uma novidade da tecnologia.

Minha relação com os livros é um pouco mais velha. No dia em que minha mãe soube que estava grávida, estava lançando seu primeiro — e único — livro infantil: O Menininho Verde, ainda sem versão digital, ainda. Por este motivo, talvez eu tenha sido, de alguma maneira, contaminado pelos livros e pela leitura antes mesmo de saber o que ela significava.

Quando criança, me lembro muito dos momentos de leitura e de algo que me chamava muita atenção. Meu primeiro contato com o livro além dele mesmo. Ganhei uma coleção inteira de clássicos que vinham com uma fita K7, que narrava toda a história e tornava a experiência da leitura ainda mais completa pra mim. Primórdios do que hoje chamamos de cross-platform.

Mas foi só em 2013 que tive a oportunidade de entrar para o mercado editorial, depois de uma carreira de empreendedorismo que foi do turismo aos softwares de interpretação de imagens de satélite georreferenciadas, com uma faculdade incompleta de psicologia no meio do caminho.

Caiu no meu colo um projeto de transformar o catálogo da editora na qual eu trabalhava em livros digitais. Não tinha a menor ideia de como começar a fazer isso. Dr. Google me ajudou. Descobri que existiam formatos, quais eram as etapas, o que funcionava aonde e aquilo foi me encantando. Conseguimos em poucos meses transpor 50 obras do catálogo para e-book e criar a estratégia de lançamentos simultâneos em papel e digital. Fui o responsável por uma ação de divulgação com uma das grandes lojas internacionais que resultou em 150 mil downloads de um dos livros do catálogo. A partir daí, já não tinha mais volta.

Mas o que me fez realmente tomar a decisão de me tornar 100% digital foi minha primeira ida à Feira de Frankfurt, em 2014. Na minha cabeça o livro digital ainda era muito jovem; mas as conferências, palestras, workshops e reuniões me provaram o contrário. Percebi o tamanho que o digital já tinha e o quanto ele poderia revolucionar o acesso ao conteúdo, para todo mundo, o tempo todo.

Decisão tomada, fui em busca de um desafio que me fizesse viver isso de verdade, no dia a dia de uma editora. Em janeiro de 2015 assumi O Fiel Carteiro. Uma editora 100% digital, que trouxe um universo de possibilidades e desafios e que me faz dia a dia aprender e descobrir, com a velocidade que o digital proporciona, um mundo novo. Não sou pai [ok, sou pai do Sebastião, um shitzu que só encarnou cachorro para não ter que pagar boletos], mas o Fiel se tornou um filho e o carinho que tenho por este projeto me faz vibrar a cada novo livro que colocamos na rua. Eram 35 em janeiro, hoje são 181; 183 amanhã. Temos publicado uma média de 20 livros mês, divididos em seis selos editoriais, que navegam entre diferentes gêneros.

Temos — porque nada se faz sozinho — mergulhado nas infinitas possibilidades do digital todo dia, o dia todo. Precisamos, e temos nos esforçado, para entender que o que mais importa é a experiência de leitura, o que significa em alguns momentos sacrificar aquele projeto gráfico lindíssimo. Mas as possibilidades que temos são fascinantes. Pensar que de São Paulo podemos impactar leitores no mundo todo, em um clique, é uma loucura.

Engraçado como palavras como estoque, entrega e tiragem fazem cada vez menos sentido. Ao mesmo tempo, conteúdo, boas histórias, literatura, fazem ainda mais. Minha grande indignação é pensar o quanto os editores que ainda são resistentes ao digital mais parecem vendedores de papel do que produtores de conteúdo. Não consigo entender muito bem porque uma maneira mais rápida, barata e eficiente [ainda mais quando pensamos no Brasil] ainda não seduziu nosso mercado. Somos a indústria cultural que pior tem se adaptado à entrega de conteúdo pelos meios digitais. Mas ok, alguns podem falar que a música demorou 15 anos para se adaptar. Eu sei, existe um período de acomodação, mas acho que a velocidade digital já não me deixa mais pensar muito devagar.

Aliás, a velocidade do digital é tão útil, seja para aquelas emendas que passam – e elas passam – poderem ser corrigidas quase que instantaneamente, seja pela rapidez com que um leitor no Japão pode ter acesso a um livro produzido no Brasil.

Viver 100% digital tem me trazido muitas alegrias e muitos desafios. Mas a cada dia tenho mais certeza de que este é o caminho, por mais que as estradas ainda estejam sendo construídas.

Por André Palme | Publicado originalmente em Colofon | 23/09/2015, às 9:10 am

André Palme

André Palme

André Palme é apaixonado pela leitura digital e pelas possibilidades deste universo. Hoje está à frente d’O Fiel Carteiro, uma editora 100% digital que possui mais de 180 e-books e audiobooks publicados e está presente em modelos inovadores de leitura. Foi o responsável pelo projeto que publicou o primeiro e-book de um reality show brasileiro, em parceria com o SBT.
Integra a Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro e é Embaixador do Business Club da Feira de Frankfurt no Brasil…e torce para a bateria do celular não acabar durante o dia.