Bibliotecas digitais vão democratizar acesso aos livros


Confira um bate-papo com Galeno Amorim, criador do Plano Nacional do Livro e Leitura

Galeno Amorim

Galeno Amorim

Galeno Amorim iniciou-se no jornalismo aos 15 anos. Trabalhou por quase duas décadas no jornal O Estado de São Paulo e acumulou passagens por algumas das principais redes de televisão do país. Nesse período, também foi professor do curso de Jornalismo
em Ribeirão Preto [SP], sua cidade natal. Envolvido desde sempre com projetos de fomento à leitura, ele próprio é autor de 17 livros e já realizou mais de 800 palestras no Brasil e no exterior em que busca estimular o debate sobre políticas públicas voltadas para o livro e a leitura. Além disso, tem seu nome ligado à criação de diversas instituições que lidam diretamente com o tema.

Já presidiu organizações internacionais como o Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe [Cerlalc], o único na área do livro e da leitura ligado à Unesco, com sede na Colômbia. Também integrou a equipe do Ministério da Cultura durante o governo Lula, quando, em parceria com o Ministério da Educação, criou o Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL], e presidiu a Fundação Biblioteca Nacional [FBN]. Nesta entrevista, realizada após a sua palestra Dos tablets de argila aos eBooks: Uma revolução na palma da mão, na UFMG, ele fala de sua infância, do engajamento em projetos relacionados à leitura no Brasil e das bibliotecas digitais, formato que, em sua avaliação, veio para ficar.

O sr. é um profissional engajado em ações que buscam incentivar a leitura. Como esse envolvimento começou?

Começou como leitor. Sempre gostei de ler muito. Fui crescendo e comecei a perceber o papel que o livro pode ter na vida das pessoas. Um papel transformador, enquanto ferramenta poderosa para abrir mentes e promover a cidadania. Quando me dei conta, já estava organizando concursos e projetos de incentivo à leitura. De repente, fui convidado a implantar um programa em minha cidade, por meio do qual foram abertas 80 bibliotecas em três anos, que fizeram aumentar muito o índice de leitura. A partir daí, as coisas foram acontecendo.

Como era a sua relação com a leitura na infância?

Minha mãe era analfabeta e meu pai trabalhava na zona rural. O livro não era algo tão presente em casa. Fui criado por uma família na cidade de Sertãozinho. Eis que uma das filhas dessa família quis ser professora e começou a levar um ou outro livro para casa. Quando ela se casou e mudou de lá, conseguiu montar uma coleção de livros do Monteiro Lobato. Eu viajava quilômetros e quilômetros por dia para poder ler esses livros. Até que um dia descobri uma biblioteca, que abriu um cenário maravilhoso pra mim. Eu não me recordo o nome do primeiro livro que li, mas era uma obra que tratava do cangaço. Era sobre um menino que sonhava ser cangaceiro e, de repente, se dá conta da triste situação do lugar em que morava.

Fale um pouco mais sobre a Árvore de Livros. Como funciona?

A Árvore de Livros é uma biblioteca digital que empresta e-books. É uma espécie de Netflix dos livros. Ela está implantada em mais de 500, quase 600 cidades em todos os estados brasileiros. Nessa plataforma, o leitor pode ler em tablets, smartphones e notebooks mais de 14 mil livros de variados gêneros, exceto didáticos.

É uma oportunidade fantástica de facilitar o acesso à leitura. Uma biblioteca que nunca fecha. Como surgiu a ideia?

Eu passo a vida pensando que existem cerca de 140 mil escolas sem bibliotecas no Brasil. Então, sempre pensei em maneiras de atender às demandas, acreditando que a tecnologia vem para resolver um problema concreto.

O que o bibliotecário precisa fazer para lidar melhor com essas novas plataformas digitais?

Primeiramente, o bibliotecário e o estudante de Biblioteconomia devem se dar a oportunidade de conhecer essa possibilidade de leitura. Hoje, há uma quantidade expressiva de leitores que aderem a esse formato, além de um número significativo de jovens que estão prontos para começar a ler digitalmente. Se o bibliotecário não se apodera dessa ferramenta, ele terá dificuldades em fazer a mediação. Então, o primeiro passo é esse: conhecer, se informar e começar a ler digitalmente.

Na palestra de hoje, o sr. questiona o preparo de nossas escolas e bibliotecas frente à chegada dos livros digitais. Acredita que as nossas instituições de ensino estejam prontas para receber e trabalhar com os e-books?

Na verdade, de certa forma, o mundo ainda não estava preparado para receber os livros digitais. Não se trata apenas das escolas. Ninguém estava preparado. Agora é hora de correr atrás do tempo perdido. E aí eu me refiro às próprias bibliotecas, às universidades, aos gestores, aos governos e a todos os setores.

Como avalia o comportamento dos leitores no Brasil, principalmente os jovens, em relação às novas plataformas de leitura, como os e-readers?

Os jovens adoram quando colocados frente a frente com essas oportunidades de leitura digital. Eles têm uma reação altamente positiva. Eu tenho sentido isso com crianças e adolescentes de diversas classes sociais e regiões do Brasil. É algo que tem feito parte da rotina deles. Gerações que acordam e dormem com smartphones e que são muito aderentes a essas tecnologias.

Uma pesquisa feita recentemente pela Bookwire, especializada em distribuição de e-books, diz que as vendas de livros digitais na América Latina devem saltar de 1% para 10% a 15% do total de livros comercializados até 2020. Como as editoras devem
se comportar frente a essa previsão?

Essa pesquisa confirma uma tendência que nós já podemos observar no dia a dia. O mercado editorial está cada vez mais aberto para o digital. Editoras tradicionais que até um ano atrás não se abriam para o e-book – seja para vender ou emprestar – agora já fazem parte de projetos de empréstimos. Elas estão percebendo que algo está acontecendo. As vendas de livros digitais dessas editoras podem representar apenas 3% ou 4% do faturamento, mas há uma tendência a aumentar. E se elas não se prepararem agora, serão atropeladas pela história.

O sr. acredita que há alguma diferença na incorporação dos e-books por escolas públicas e privadas? Se existe, qual é?

Há escolas particulares com problemas e outras que são formidáveis. Há escolas públicas que estão utilizando maravilhosamente bem e aquelas com dificuldades em aderir. Isso significa que o digital depende muito do papel do mediador de leitura. O bibliotecário tem um papel muito mais nobre nesse processo que começa a acontecer agora.

Do ponto de vista pedagógico, quais as vantagens e desvantagens do uso dos e-books nas escolas brasileiras?

Eu não vejo desvantagens. As vantagens que eu vejo são redução de custos, universalidade do acesso e aumento da quantidade de livros disponíveis.

Quais devem ser as estratégias dos governos para que a leitura seja parte efetiva e importante no projeto pedagógico das escolas?

Os governos precisam apoiar projetos de implantação de bibliotecas digitais nas escolas, que devem ser acompanhados de workshops, seminários e atividades de formação dos educadores e bibliotecários, além de dar suporte às políticas de fomento à leitura, como clubes de leitura digital nas redes sociais.

Uma pesquisa realizada pela Fecomércio RJ, divulgada recentemente, mostrou que 70% dos brasileiros não leram nenhum livro em 2014. O que precisa ser feito para melhorar esse cenário?

Essa é uma das pesquisas. Tem outras. Eu não conheço seus critérios e amostras. Mas posso dizer com propriedade sobre a Retratos da Leitura no Brasil, que eu conheço e cuja metodologia ajudei a desenvolver. Essa pesquisa mostrou que há uma pequena redução do índice de leitura, mas também um aumento da população leitora. Ou seja, tem mais gente lendo, porém, há também outras mídias disputando a atenção dos leitores por meio de outras oportunidades de entretenimento e lazer cultural. Temos que criar novas ações para mudar esse cenário, e as políticas públicas têm muita relevância nisso.

O sr. acredita que os índices de leitura no Brasil estão relacionados à renda da população?

Sim. Estão ligados a dois fatores, na verdade: à escolaridade, principalmente, e à renda. Isso não quer dizer que quem tem mais renda lê mais. Quem tem mais recursos tem também maior acesso a bens culturais, como teatro, televisão com canais pagos e livros. À medida que aumenta a renda e a escolaridade, aumenta o índice de leitura. As possibilidades de acesso a esse universo cultural tornam-se muito mais amplas.

Crê que a tecnologia é capaz de democratizar o acesso à leitura?

Eu acredito que a tecnologia é uma grande oportunidade que a civilização moderna tem para ampliar o acesso à leitura. É uma possibilidade também de diminuir o fosso social e, ao mesmo tempo, promover inclusão tecnológica, contribuindo para o acesso à educação.

Em tempos de vasto fluxo de informações na internet, ainda há espaço para o livro como ferramenta de consulta?

Eu acredito que sim. Mas esse questionamento entre físico e digital não tem a menor relevância. O que importa mesmo é o conteúdo.

CRB-6 Informa | n. 1/2015