O eBook da discórdia


Editora que publicou ’50 Tons’ online deve pagar soma milionária a sócia

Primeiro livro da série '50 Tons' já foi adaptado para o cinema

Primeiro livro da série ’50 Tons’ já foi adaptado para o cinema

Uma americana que ajudou a publicar a série de livros 50 Tons mas ficou sem receber direitos autorais pode ter direito a ganhar milhões de dólares de indenização.

A Justiça dos Estados Unidos determinou que a australiana Amanda Hayward reservasse US$ 10,7 milhões [mais de R$ 38 milhões] para Jennifer Pedroza, que mora no Texas.

As duas foram sócias em uma pequena editora online que inicialmente lançou na forma de e-book a trilogia de livros eróticos – a qual acabou se transformando em sucesso mundial e filme hollywoodiano.

O e-book então se popularizou e atraiu a atenção da editora Random House, que acabou comprando os direitos autorais. Em fevereiro, um júri nos EUA decidiu que Pedroza foi ludibriada nessa transação efetuada por Hayward, por ter recebido um único pagamento de US$ 100 mil.

Agora, o juiz responsável pelo caso advertiu que a indenização a ser paga por Hayward será definido após um acordo entre as duas partes.

A decisão judicial afirma que Hayward, que assinou o acordo de venda em nome da empresa das duas, a The Writers Coffee Shop, enganou Pedroza de forma a fazer com que a americana assinasse um contrato que a excluía do recebimento dos direitos autorais.

A trilogia 50 Tons, de E.L. James, já vendeu mais de 100 milhões de cópias no mundo. Uma adaptação para o cinema do primeiro livro, 50 Tons de Cinza, foi lançada neste ano e arrecadou mais de US$ 570 milhões [mais de R$ 2 bilhões] no mundo todo.

Publicado originalmente por BBC BRASIL | 27/08/2015

O que vende livros: do boca-a-boca ao byte-a-byte


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/08/2015

‘Booktubers’ e ‘instabookers’ põem o livro na rede

Booktuber Pam Gonçalves, do Garota It, acaba de anunciar que dará um passo natural: vai passar de resenhadora para escritora | © Foto do seu perfil no Facebook

Booktuber Pam Gonçalves, do Garota It, acaba de anunciar que dará um passo natural: vai passar de resenhadora para escritora | © Foto do seu perfil no Facebook

Booktuber Pam Gonçalves, do Garota It, acaba de anunciar que dará um passo natural: vai passar de resenhadora para escritora | © Foto do seu perfil no Facebook

“Busdoor” há de ser a palavra mais feia da língua portuguesa. Ela veio de outra palavra troncha, quando um publicitário substantivou o adjetivo inglês “outdoor” [ao ar livre] e outro engatou o prefixo “bus”. “Busdoor”: em inglês, “porta de ônibus”, em português: um cartaz colado em um ônibus [mas não na porta].

Faço essa digressão etimológica porque há não muito tempo editoras achavam que o que vendia livros era o busdoor. Com o detalhe que as linhas de ônibus disputadas pelas editoras não era as que circulassem mais. Eram as que passassem pela casa ou trabalho dos compradores das grandes livrarias.

Mas estou no mercado há tempo suficiente para lembrar que o que vendia livro mesmo era uma nota na Veja ou uma entrevista no Jô Soares [ainda no SBT]. Quando acontecia uma dessas epifanias, a gente corria para comunicar às livrarias… por fax [#PaleolithicFeelings] e ficava esperando os pedidos. Era o que vendia livro naquela época.

E hoje, o que é que vende livro?

Não, eu não tenho a resposta, só tenho a pergunta. Mas tenho conversado, feito pesquisas, hipóteses. Já notei, por exemplo, uma inversão estratégica. Tradicionalmente, o marketing e a propaganda dos livros seguiam um caminho oblíquo. Primeiro comunicávamos à imprensa, esperando que elas convencessem as livrarias [para onde enviávamos fax e e-mails com as matérias] para que as pilhas de livros estimulassem um consumidor final e, quem sabe, conjurassem aquilo que, ontem, hoje e amanhã, é o que realmente vende: o boca-a-boca. Com as conexões digitais, o caminho não somente ficou mais direto, entre editora e leitor, como também inverteu a mão — a conversa muitas vezes começa no leitor.

Booktuber Bruno Miranda achou quase meio milhão de pessoas para 'conversar'sobre 'Destrua esse diário' no YouTube | © Foto do seu perfil no Facebook

Booktuber Bruno Miranda achou quase meio milhão de pessoas para ‘conversar’sobre ‘Destrua esse diário’ no YouTube | © Foto do seu perfil no Facebook

Tome-se o exemplo dos “Booktubers”. Gente que grava seu depoimento [quase sempre entusiasmado] sobre um livro e espalha pelo YouTube. O que já é um movimento sério começou na empolgação. “Acho que a motivação principal foi ter descoberto uma coisa nova para mim e querer espalhar para todo mundo. Como não tinha ninguém com quem falar sobre livros, fui para a internet”, explica Bruno Miranda, do canal Minha Estante, que achou quase meio milhão de pessoas para “conversar”, com sua video resenha de Destrua esse diário. Booktubers populares interagem com o público, que facilmente ultrapassa a casa dos cem mil e extravasa para a vida “offline” causando alvoroço em bienais e lançamentos. Pam Gonçalves, booktuber do Garota It, acaba de anunciar o passo natural: vai passar de resenhadora para escritora, e dos seus 120 mil seguidores virão seus leitores.

É o círculo perfeito: booktubers que promoviam os livros tornam-se autores de livros que serão resenhados por booktubers. E seguem o caminho de outros autores que passaram dos blogs e vídeos do YouTube para as listas de mais vendidos, como Isabela Freitas, Bruna Vieira, Kéfera Buchman, Christian Figueiredo — este último cativando um público de 4,5 milhões entre assinantes, face-amigos e seguidores.

No Instagram, o popular @christian_fig passa de um milhão de seguidores, mais ou menos o mesmo que o anônimo por trás da conta @trechodelivros. Este meio social foi criado para compartilhar imagens, mas foi adaptado para mostrar e falar de livros. Pululam na rede contas do @Instagram para publicar resenhas, debater enredos e personagens, sugerir leituras, ou mesmo para mostrar [ou ostentar] livros. “Bookgramers”, “Instabooks”, “Bookigers” — não sei se há um nome para o movimento, mas pela quantidade de “likes” e interações, sei que as editoras [e os autores] têm que fazer parte da conversa. De fato, os selos mais populares [ou eficientes] já aparecem no feed de mais de 100 mil seguidores. E mais do que aparecer: as editoras formam parcerias.

Alguns canais podem influenciar de forma bastante intensa, pois são formadores de opinião e ajudam muito no boca a boca. […] A mídia tradicional não consegue abrir espaço para todos”, comenta Cíntia Borges, da Rocco. As parcerias entre as editoras e os blogueiros, youtubers e iggers geralmente envolvem kits de imprensa, exemplares para sorteio, encontros e paparicos. Embora alguns influenciadores tenham receitas significativas [entre royalties do YouTube, participações em eventos e alguns posts publicitários], este ainda é um negócio amador, no estrito senso: feito por quem ama ler. Porém em força e volumes já superam os profissionais — há influenciadores com público maior do que o dos grandes jornais, e em constante interação. Se a audiência dos booktubers e instabookers extrapolar o núcleo jovem-adulto-nerd, este deixará de ser o canal alternativo para tornar-se, de fato e direito, o “o que vende livro” dos próximos anos.

Que mais não seja, participar da grande conversa litero-digital é indispensável para quem trabalha com livros. Para a escritora [e blogueira da Companhia das Letras] Socorro Acioli, “o movimento dos booktubers é um material precioso para quem tem interesse na literatura e nas diversas facetas do mundo editorial sob o ponto de vista de quem compra e lê muito. Nesse momento confuso, quando o mercado precisa se reinventar, nada mais importante do que ouvir os leitores reais. Atentamente. Canal por canal”.

Quem não cair na rede, cai fora.

Julio Silveira

Julio Silveira

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 27/08/2015

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros [Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital. Sua coluna aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes,

A construção de um cânone na esfera digital


Por Ednei Procópio

A I Feira Nordestina do Livro [Fenelivro], inicia amanhã [28] e vai até o próximo dia 7 de setembro. O evento, promovido pela Associação do Nordeste de Distribuidores e Editores de Livros [Andelivros] e pela Câmara Brasileira do Livro [CBL], em parceria com a Companhia Editora de Pernambuco [Cepe], será realizado no Centro de Convenções de Pernambuco.

É a primeira edição do evento. Pelo que pude apurar, a I Feira Nordestina do Livro terá uma programação com workshops, palestras, minicursos e vai contar com uma área de 4 mil m², cerca de 200 estandes e mais de 200 autores convidados. A previsão, segundo os organizadores, é a de que o evento atraia cerca de 150 mil visitantes.

Entre um dos espaços do evento estaremos eu, Maurem Kayna e meu amigo Roberto Bahiense, da Nuvem de Livros, com quem venho trocando ideias e experiências nos últimos anos sobre os eBooks [no Brasil e no mundo].

Achei um pouco exótico o título da nossa mesa na Fenelivro, “A construção de um cânone na esfera digital“, mas, como evangelista dos livros digitais em pelo menos uma década e meia, estou tentando tirar de qualquer iniciativa algum resultado prático que possa ajudar-nos com modelos flexíveis e assertivos para o nosso mercado.

O mercado editorial está inserido em uma esfera de oportunidades que poderia resolver questões seculares, aqueles problemas que não eram possíveis de se solucionar até o advento da Internet. Mas, antes de elucubrações imprecisas, precisamos conceituar o que seria esta esfera digital da qual trata o título da mesa. Esta esfera pode ser a própria digitalização da economia industrial do livro ou até mesmo, preciso melhorar meu entendimento sobre esse assunto, a economia do compartilhamento das coisas.

É fato que o número de superfícies para o acesso, consumo e leitura dos livros, nesta esfera digital, só cresce. A base instalada de devices que podem portabilizar os livros chegam hoje a casa dos 180 milhões de telas. Segundo pesquisa realizada pela eMarketer, o Brasil é o 6º país com o maior número de smartphones. Uma projeção realizada pela mesma empresa norte-americana, revela que em 2018 o Brasil terá 71,9 milhões de smart devices. E, segundo os números da FGV [de abril de 2015], o número de hardwares conectados à verdadeira grande rede de relacionamentos, a Internet, já ultrapassa a casa dos 306 milhões.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um mercado na qual sempre nos espelhamos, 84% da população possui celulares inteligentes capazes de portabilizar os livros, e é por esta mesma razão que 54% de smartphones são utilizados para leitura naquela região.

A abundância de reading devices, no entanto, cuja onipresença não garante conexão, não garante também mais eficiência na publicação, comercialização e divulgações dos livros. A questão central que talvez o mercado editorial ainda não tenha enxergado é que a esfera digital na qual vem se inserindo é repleto do que eu chamaria de “zonas de contradições”, eclipsadas por outras esferas políticas, sociais, econômicas e educacionais.

E é nesse contexto que Maurem Kayna, Roberto Bahiense, e eu, iremos conversar, trocar ideias e experiências para encontrar instrumento de medida, um cânone, ou um conjunto de modelos, capaz de eliminar da indústria criativa do livro suas históricas “zonas de contradições”.

Nos vemos por lá!

Anote aí na sua agenda!

A construção de um cânone na esfera digital
I Feira Nordestina do Livro | Fenelivro
Dia 03/09, quinta-feira, às 15h
Centro de Convenções de Pernambuco, Sala Ariano Suassuna
Com Maurem Kayna, Ednei Procópio [Livrus] e Roberto Bahiense [Nuvem de Livros]