Os livros digitais do futuro?


Alguns textos atrás, escrevi aqui no Colofão sobre aplicativos. Dediquei alguns parágrafos aos apps que, para mim, usam o meio a seu favor e realmente acrescentam algo à experiência do leitor, ao invés de simplesmente tentar copiar o livro impresso [ou, inversamente, usar elementos interativos sem critério, a ponto de criar uma distração, e não um complemento, ao conteúdo]. Depois percebi que, tentando transformar aquele texto gigante em um post [mais ou menos] legível, acabei deixando de fora um aplicativo de que gosto muito: oComposition nº 1, de Mike Saporta.

A ideia central é simples: como a obra é formada por uma série de pequenos textos independentes, que podem ser lidos em qualquer ordem, a organização linear das páginas de um livro se torna desnecessária. Então, o app permite que o leitor navegue entre os textos de forma aleatória. Embora exista uma versão impressa também – na qual, seguindo a mesma ideia, as páginas não são encadernadas, e sim colocadas soltas numa caixinha –, para mim este é mais um caso de um livro que se adapta muito bem ao meio digital [sem contar que o app tem ainda algumas “surpresinhas”, como uma capa interativa e uma obra de “arte tipográfica” criada a partir do texto do livro].

Lembrei deste app porque caí neste post no site da sua editora, a Visual Editions, detalhando um novo projeto em parceria com o Google. A Visual Editions é uma editora inglesa conhecida por seus projetos ousados, criando livros que são verdadeiras obras de arte, mas não simplesmente porque são bonitos: as inovações de formato estão sempre muito ligadas ao conteúdo, tanto nos livros impressos quanto nos dois projetos digitais que a editora lançou até agora, o Composition nº 1 e o site Where You Are [que eu aconselho vocês a explorarem porque, além de os textos serem ótimos, o site em si é bem lindo]. Pensando nisso, a editora e o Creative Lab do Google fundaram o projeto Editions at Play, cuja ideia principal é criar livros “que sejam imersivos e que tenham sido escritos e desenvolvidos com a ideia de serem digitais”.

Uma das muitas variações do logo no site da Universal Everything

Em outro post com mais detalhes sobre o andamento do Editions at Play, há uma lista de critérios para avaliar este tipo de livro que sintetiza o que eu queria dizer, especialmente nos primeiros dois itens: a interação deve trazer o leitor para dentro do livro, e não distraí-lo; e o livro deve ser “inimprimível”, ou seja, deve ser feito em formato digital simplesmente porque não poderia existir de outra forma. A ideia de dinamismo e de usar ao máximo as possibilidades do meio digital já começa pelo próprio logo do projeto, que é móvel – e que, imagino eu, poderá ganhar uma cara diferente para cada obra.

Falando assim, soa tudo muito mágico e empolgante, mas é difícil imaginar como estes princípios se aplicariam a um livro real, uma vez que o projeto ainda está dando seus primeiros passos. Bem, é difícil de imaginar justamente porque a literatura digital – digital mesmo, no sentido de ser pensada para este meio e usar os recursos próprios dele – ainda precisa ser mais explorada. Neste post de dezembro de 2014, Tom Uglow, do Google’s Creative Labs, faz uma distinção importante entre o que chama de livro eletrônico – o e-book que conhecemos hoje, pouco mais do que uma reprodução do impresso – e o livro digital, capaz de “usar a infraestrutura digital do nosso novo mundo para criar novas maneiras de contar velhas histórias”. No final do texto, ele dá algumas pistas sobre de que maneira isto poderia ser feito, desde mudanças simples – como livros com texto contínuo ao invés de organizados em páginas, ou livros entregues diária, semanal ou mensalmente – até alterações na estrutura do conteúdo, como livros que usam uma segunda ou terceira tela para mostrar conteúdo extra, ou livros que são afetados pela presença de outros leitores nas proximidades. Alguns destes recursos passam por questões que vão além da literatura, como o acesso às ferramentas tecnológicas para produzi-los e, talvez o mais urgente, a questão da privacidade, que sempre vem à tona quando se fala em conteúdo personalizado [especialmente quando o projeto envolve uma empresa que tem acesso a tantas informações sobre seus usuários quanto o Google]. Mas o fato é que são recursos a serem explorados, e só saberemos se eles são ou não capazes de acrescentar algo à experiência de leitura até que alguém experimente.

Marina Pastore

Marina Pastore

Por Marina Pastore | Publicado originalmente em Colofão | 19/08/2015

Marina Pastore é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Descobriu os e-books ainda na faculdade, em 2011, e foi amor ao primeiro download. Vem trabalhando com eles desde então, integrando o departamento de livros digitais da Companhia das Letras. Seu maior orgulhinho profissional foi ver toda a obra de seu autor preferido e muso inspirador, Italo Calvino, disponível em formato digital. Sua vida é basicamente um grande episódio de Seinfeld, mas com menos sucrilhos e mais [muito mais] gifs animados.