Plataformas de metadados “dividem” mercado editorial brasileiro?


POR EDNEI PROCÓPIO

O mercado editorial brasileiro é realmente muito interessante.

Aprendi um bocado de coisas com o mercado editorial quando fiz a coordenação técnica do Cadastro Nacional do Livro, famoso CANAL, lá na Câmara Brasileira do Livro [CBL]. O CANAL, em sua primeira fase, inseriu a pauta da importância dos metadados no mercado. O projeto, que até foi tema em uma das palestras do Congresso Internacional CBL do Livro Digital, foi uma verdadeira escola para mim, não na parte técnica [Onix, XML, CSV, TXT, XLS, sinto hoje que estas coisas importam menos], mas na parte, digamos, dos recursos humanos. Felizmente sou formado em Humanas e já havia aprendido um pouco sobre a sociedade brasileira na Faculdade de Serviço Social; mas uma ideia de criar “união”, seja ela do que for, neste país, superou todas as minhas perspectivas de aprendizado.

Não é nenhuma reclamação de minha parte, longe de mim falar deste país já tão carente de ideias realmente inovadoras, e/ou inéditas. É apenas algo que sinto. E é impressionante o número de ideias e projetos que, de certo modo, são semelhantes, para não dizer cópias uns dos outros, e que poderiam se complementar, somar, em vez de, digamos, dividir.

É claro que tem aquela coisa toda da livre iniciativa, e o importante, para nós, editores, é ter os nossos livros cadastrados no maior número de pontos de vendas. Mas tem sempre alguém neste mercado editorial que acha que pode resolver aquilo que o outro não conseguiu. Recentemente, estive conversando com algumas distribuidoras de livros [impressos], que demonstravam certo interesse em trabalhar em uma frente voltada aos metadados. Eu estava tentando vender uma antiga ideia que tive de eventualmente criarmos uma espécie de Consórcio de Metadados, [tolo eu!]. O que eu percebi das duas distribuidoras com quem conversei, é que, na verdade, o que ambas desejavam, paralelamente, em vez de pensar em uma plataforma única, padrão, era que cada uma delas tivesse a sua própria solução. Os motivos são quase sempre os mesmos: “conheço todo mundo no mercado“, “tenho experiência e uma base robusta em tecnologia“, “sei bem como funciona a coisa toda…” e “blá, blá, blá…“.

Esta minha opinião é bastante particular e intransferível, que fique bem claro isso. Felizmente, existem os parâmetros do padrão Onix para no futuro, quem sabe, dar uma certa unidade a todas estas ferramentas que vem por aí. Mas me dei finalmente conta, tardiamente confesso, de que uma ideia criada para unir, pode também ser usada para dividir. Pois assim como existem os muros, existem as pontes, também existem aqueles que estão de um lado ou de outro.

A CBL ainda hoje tenta colocar o CANAL na ordem do dia, através de um parceiro alemão [tecnologia muito boa por sinal] e talvez, quem sabe, creio eu, precise levantar algum investimento [já que temos aprendido a duras penas que não existe almoço grátis]. Torço para que o CANAL vá em frente e dê certo. A Ubiqui, criada por Rafael Schaffer, e que trabalha com gerenciamento de metadados, está com sua operação à todo vapor e, diga-se de passagem, foi a primeira iniciativa privada, e comercial, neste sentido. Tem uma terceira plataforma que descobri que não vale nem à pena ser citada de tão oportunista que parece ser. E agora descobri, através de um amigo do mercado, este endereço aqui www.mercadoeditorial.org.

Fora autointitular-se “A melhor ferramenta de distribuição de metadados do mercado!“, o template também diz o seguinte… abre aspas:

Nós queremos revolucionar o mercado… O MercadoEditorial.org surge como uma ferramenta para resolver o problema da divulgação das informações dos livros na cadeia produtiva do mercado editorial.

O mais interessante de tudo isso, pelo menos para mim, é que eu já havia dito algo muito semelhante, lá na CBL, para a minha saudosa ex-diretora, a Sra. Lúcia Jurema [que Deus a tenha!]. Ela era extremamente exigente, profissionalmente falando, e eu morria de medo dela; mas me lembro que na ocasião Lúcia me respondeu mais ou menos o seguinte, sobre meu crescente entusiasmo sobre o CANAL:

Muito bacana, Ednei! Pensando, porém, mais nas pessoas que compõem este mercado, e menos na tecnologia em questão, basta agora convencer o tal mercado sobre isso tudo aí.

Enfim, não deve ser lá muito difícil ser visionário em um país sem visão. Costumo dizer que, em terra de cego que tem olho é Hertz. O mais importante, no entanto, é que só é possível ser revolucionário, mesmo, creio eu, depois de ter havido uma revolução.

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