Produzindo eBooks pra criançada


Por Suria Scapin e Isabela Parada | Publicado originalmente em Colofão | 22 de julho de 2015

Apesar de ainda ser um mercado muito pequeno, há dois anos começamos a produzir livros digitais voltados ao público infantil. Mas por que apostamos em e-books infantis? Bom, vamos por partes.

Os livros infantis e suas diversas linguagens

O livro infantil sempre favoreceu a incorporação de outras linguagens, e isso desde o primeiro livro para crianças, que já apresentava a união da linguagem escrita com as ilustrações.

Orbis Pictus,1 escrito por Comenius, foi o primeiro livro produzido para crianças, em 1658. O próximo livro infantil foi escrito apenas depois de quase 40 anos, e ambos claramente continham lições de moral para as crianças

Orbis Pictus,1 escrito por Comenius, foi o primeiro livro produzido para crianças, em 1658. O próximo livro infantil foi escrito apenas depois de quase 40 anos, e ambos claramente continham lições de moral para as crianças

A ilustração do livro [infantil] nasceu com ele próprio”, já bem disse Rodrigues2, mas a sua importância cresceu muito no último século, e as ilustrações passaram a oferecer elementos de interpretação da história que dão informações narrativas e se somam às informações escritas. Em paralelo, vimos uma mudança no conceito do objeto livro, que passou a poder apresentar características como cortes especiais e pop-ups, fornecendo ainda mais elementos de interpretação da narrativa.

Todos esses recursos já vinham trabalhando o modo híbrido como o nosso pensamento funciona, mas no formato material, concreto. Santaella enfatizou essa característica do pensamento em sua palestra no lançamento do prêmio Jabuti deste ano: “Nosso pensamento não é só verbal. Ele é um pensamento que se desenvolve através de imagens, relações, às vezes tensões, polaridades, sentimentos, vontades… quer dizer, tudo isso compõe o nosso pensamento”.

A partir do desenvolvimento tecnológico, passamos a ter a possibilidade de fazer livros digitais com animações, interações, sonoplastia ou outros recursos. E já que, como disse Lajolo3, o livro infantil sempre foi pioneiro na inserção de novas linguagens, receber também a digital é um caminho que, historicamente, parece ser o natural dos livros infantis.

Os recursos digitais nos e-books infantis

Os recursos que a linguagem digital oferece têm muito a acrescentar aos livros infantis, mas, se é preciso ser criterioso na produção editorial infantil de livros impressos, no caso de livros digitais existe uma outra grande responsabilidade: a de inserir essa nova linguagem para enriquecer a história, que é o foco do livro, sem transformar a leitura em um jogo.

Primeiro, porque as crianças sabem muito bem quando querem jogar e quando querem ler; a leitura é uma atividade muito mais introspectiva do que o jogo, mais individual e onde o ritmo de cada um é fator importante. Segundo, porque elas já têm acesso a inúmeros jogos no ambiente digital, e, como os dispostitivos digitais vêm sendo usados cada vez mais cedo, é importante que as crianças também tenham acesso, ali, a conteúdos de outras naturezas, como a literária.

A interação, para um livro, no nosso entender, tem de ser opcional, pois, se imposta, a história é transformada em jogo — é como se a criança tivesse que passar por um desafio para poder prosseguir na leitura. É importante reconhecer que as interações oferecem uma possibilidade de enriquecer o livro quando permitem integrar ainda mais as linguagens presentes nele, como, por exemplo, neste livro em que os personagens se tornam alimentos.

Página do livro O que você quer ser quando comer?4 antes e depois da interação. O toque nos personagens faz com que eles se transformem em alimentos, ideia que é o mote central da história.

Página do livro O que você quer ser quando comer?4 antes e depois da interação. O toque nos personagens faz com que eles se transformem em alimentos, ideia que é o mote central da história.

Ou neste, em que é possível ler de modo linear, virando as páginas normalmente, ou de modo interativo, ao escolher aleatoriamente os olhos de um dos personagens que está no guarda-roupa.

Na interação do livro No meu guarda-roupa5, cada um dos olhos no guarda-roupa leva a uma página diferente do livro. Para voltar a esta página inicial, é preciso tocar no ícone do guarda-roupa, ao lado do texto.

Na interação do livro No meu guarda-roupa5, cada um dos olhos no guarda-roupa leva a uma página diferente do livro. Para voltar a esta página inicial, é preciso tocar no ícone do guarda-roupa, ao lado do texto.

Além do recurso interativo, há o sonoro. A contação da história, unida à sonoplastia, envolve escolhas que vão desde o tom da narrativa até sensações que os sons podem passar aos pequenos leitores. Podemos pensar em provocar uma ambientação ou em usar a linguagem sonora para enfatizar os sentimentos dos personagens. Ou, ainda, há a opção de inserir apenas uma trilha sonora ao livro. E, sim, os recursos sonoros também são opcionais.

Desta maneira, com os recursos ativos, as crianças procuram antever o que virá da interação ou conseguem imaginar com maior riqueza de detalhes os ambientes das histórias, por exemplo. Sem os recursos, a imaginação percorre outro caminho e é interessante que elas possam escolher se querem manter os recursos ativados ou não. A animação é o único recurso que, até agora, não pode ser opcional, o que exige que a escolha seja muito cuidadosa para não retirar a atenção que a criança dedicaria à história.

A criançada e os recursos

Com e-books em mãos, a criançada põe em movimento todo um processo imaginativo. De acordo com Vigotski6, elas pegam as memórias que vêm das experiências anteriores para reorganizá-las e, assim, criar algo novo. E esse novo, no caso dos livros, é uma história única7, que une a imaginação das crianças com a imaginação que foi materializada nos livros em forma de escrita, de imagens, de sons, de interações…
Quando as crianças são maiores, já têm mais experiências vividas, por isso temos em mente que produzir para crianças de 3 anos é completamente diferente de produzir para crianças [nem tão crianças mais] de 12 anos. Não dá para pensar da mesma forma na produção, mas quando os recursos são opcionais, fica mais fácil, também, que aquele livro possa ser lido por um público mais amplo: afinal, nada impede que alguém de 12 goste do livro que fizemos pensando na criança de 3, ou vice-versa!
Nós vemos os recursos dos e-books como uma maneira de nos comunicarmos de forma mais direta com os nativos digitais — eles nasceram imersos em uma tecnologia já desenvolvida para funcionar de forma que se assemelhe ao pensamento humano; para eles, o uso das novas tecnologias é absolutamente natural. Mas é preciso que cada projeto seja pensado com cautela, para que exista harmonia entre recursos e história, sem atrapalhar a leitura.

Entendemos que os e-books podem aproximar da leitura algumas crianças que não têm o hábito de ler, mas têm o hábito de usar tablets e smartphones, e é por isso que pensamos ser essencial o desenvolvimento do mercado de e-books infantis. As bibliotecas digitais podem ser um passo importante nesse sentido, mas isso seria assunto para um outro texto.


1. Imagem daqui: http://bit.ly/1UiqbxZ.
2. RODRIGUES, Maria Lúcia Costa. A narrativa visual em livros no Brasil: histórico e leituras analíticas. 2011. 192 f. Dissertação [Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade] – Universidade da Região de Joinville, Joinville, 2011.
3. Marisa Lajolo deu a palestra “O pioneirismo dos livros infantis brasileiros – do livro ao tablet”, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2014, onde ela defendeu essa ideia que mencionamos. Nós aprofundamos esta questão em um texto publicado no blog Pipoca Azul: http://bit.ly/1ErDeSN.
4. Livro escrito por Marcelo Jucá com ilustrações do Otacoiza Estúdio.
5. Livro escrito por Carla Chaubet com ilustrações do Estúdio 1+2.
6. Lev Semenovitch Vigotski, psicólogo bielo-russo, produziu uma obra densa sobre a gênese das funções psicológicas superiores, sendo uma referência para estudos sobre desenvolvimento da imaginação infantil.
7. Assim disse Bartolomeu Campos de Queiróz: “O fenômeno literário, talvez, seja a fantasia do escritor dialogando com a fantasia do leitor e construindo uma terceira obra, que nunca vai ser escrita”. Aqui:http://bit.ly/1NCjsd5.

Por Suria Scapin e Isabela Parada | Publicado originalmente em Colofão | 22 de julho de 2015

Suria Scapin
Começou a trabalhar no mercado editorial com 16 anos e passou por editoras como Madras, Atual, Abril, Leya e Sarandi, além de ter atendido muitas mais pela S4 Editorial. Com formação em Desenho Industrial e em Língua Portuguesa e Literatura, ambas pelo Mackenzie, sempre revezou entre texto e arte, até que resolveu unir os dois conhecimentos e tornar-se a responsável editorial da Editora Pipoca.

Isabela Parada
Para buscar compreender como funciona a cabecinha dos pequenos, Isabela foi estudar Pedagogia na UEMG, onde encontrou seus fundamentos teóricos e participou do grupo de pesquisa e estudos Contra-Violência na Infância. Na Escola Pés no Chão [Belo Horizonte], aprofundou os estudos sobre a Pedagogia Freinet. Hoje é pedagoga da Pipoca e contadora de história na creche de Milho Verde [MG], pelo Instituto Milho Verde. Aprendeu que o crescimento das crianças é também o processo de criação delas mesmas e entende que essa criação é individual e única.