A experiência de leitura da Pelican Books


Por Joana De Conti | Publicado originalmente em Colofão | 15 de julho de 2015

Em maio de 2014, a Penguin Random House relançou o seu antigo selo Pelican, que em 1987 havia interrompido suas publicações após 47 anos de existência. Tal acontecimento – o surgimento de um novo selo ou coleção – é relativamente corriqueiro no mercado editorial e poderia passar despercebido até mesmo para as pessoas que trabalham na área, mas gerou bastante alvoroço ao apresentar um esforço duplo e inovador: ao mesmo tempo que o projeto gráfico era completamente repensado e modernizado, uma equipe criava uma experiência inédita de leitura digital. A repercussão em território nacional foi incipiente, comparada ao burburinho causado fora do Brasil pela proposta, então pretendo, com este post, explicar um pouco mais e tecer os merecidos elogios à Pelican Books.

O primeiro esforço, e aí já se evidencia o tratamento diferencial da Penguin ao criar a Pelican Books, fica evidente no fato de que a produção da versão impressa do selo foi diretamente influenciada pela sua versão digital. E vice-versa.

Os dois projetos foram pensados simultaneamente, de modo que a produção de uma versão não atrapalhasse ou se sobrepusesse à da outra. Assim, e para citar apenas um exemplo simples, as fontes tipográficas escolhidas teriam, necessariamente, que funcionar em todos os meios nos quais os livros seriam publicados: telas de computador, celular, folhas de papel, tablets etc. É possível saber um pouco mais sobre esse primeiro ponto aqui e aqui.

Este artigo, entretanto, irá focar no segundo esforço da equipe de designers da Penguin, chefiada pelo jovem Matthew Young, que idealizou e lançou a pelicanbooks.com, um espaço para a leitura online dos livros lançados pelo selo. Sem dúvida o grande diferencial do projeto está na maneira como o livro digital é pensado. Young, designer e ávido leitor de e-books, se sentia muito incomodado com os problemas que surgiam na visualização do texto quando se passava de um aparelho de leitura para outro. O título que era perfeitamente visualizado num e-reader se dividia em três linhas irregulares na telha do aparelho celular, como se pode ver na imagem abaixo.

Em um artigo publicado em novembro de 2014, Young afirma que desejava garantir ao leitor uma experiência de leitura agradável independente do tamanho ou da resolução da tela. Do mesmo modo, todos os elementos não-textuais – tabelas, gráficos, mapas etc. – deveriam ser tratados com a mesma importância que o texto. Como as imagens dos e-books de modo geral são extraídas dos arquivos impressos, normalmente imagens aparecem em preto e branco, mesmo que o leitor esteja usando um tablet capaz de renderizar milhões de cores. De acordo com Young [em tradução livre minha]: “Em contraste, se você lê um livro online na pelicanbooks.com, a experiência de leitura é única – desenhada especificamente para a Pelican e adaptada para aproveitar o máximo de cada livro individualmente. Mapas e diagramas são refeitos para a tela e optimizados para que sejam legíveis e facilmente entendidos em qualquer tamanho”.

Young era originalmente um designer de capas. Ele percebeu que, na maior parte dos casos, as capas dos e-books são apenas uma cópia das capas dos livros impressos. Porém, o leitor tem contato constante com a capa do seu livro impresso: a cada vez que vai ler ou ao olhar para o livro fechado em cima da sua mesinha de cabeceira. Na versão digital, a capa se torna apenas um thumbnailútil em termos comerciais, mas que, após o e-book ser adquirido, é apenas visualizado na prateleira virtual do seu aparelho de leitura, ao lado de diversos outros thumbnails. Young projetou as capas dos livros da Pelican para que elas fossem atraentes em quaisquer formatos. Além disso, a aparência das entradas de capítulos é diretamente inspirada na capa, de modo a haver um eco da capa ao longo de todas as partes do e-book, reforçando o estilo do selo e a sua marca.

Não será possível abordar aqui todas as singularidades dos livros da Pelican. Além dos artigos citados, eu recomendo imensamente a visita ao site do selo. Os primeiros capítulos dos livros já publicados estão disponíveis online, possibilitando uma degustação. Você só precisa comprar se quiser continuar a leitura.

Vale ressaltar que pelicanbooks.com não é um aplicativo nem um e-reader. Sua interface, bem como as inovações apresentadas pela proposta, são possíveis pois os livros serão sempre lidos em algum browser. Trata-se de um exemplo ímpar e louvável, que refresca nossas ideias acerca da miríade de possibilidades dos livros digitais e pode – ou melhor, deve – nos fazer refletir sobre o tratamento que damos a cada um dos muitos elementos que compõem os e-books produzidos diariamente por nós.

Por

Joana De Conti

Joana De Conti

| Publicado originalmente em Colofão | 15 de julho de 2015

Joana é formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia, mas abandonou a academia quando descobriu os livros digitais. Neófita no meio editorial, vai escrever aqui tanto sobre suas descobertas e aprendizados técnicos quanto sobre suas impressões acerca da relação entre o digital e o impresso dentro e fora das editoras. Joana trabalha atualmente no departamento de livros digitais da editora Rocco.

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Brasília recebe seminários de tecnologia


Programação acontece em agosto na capital federal

O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia [IBICT], vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, promoverá em Brasília, de 3 a 6 de agosto o 5º Seminário sobre informação na internet e o II Seminário Internacional de Preservação Digital [Sinpred], que visa discutir a preservação digital e difundir o uso de tecnologias para arquivamento de documentos eletrônicos na internet em longo prazo. Os seminários serão realizados no Parlamento Mundial da Fraternidade Ecumênica [Asa Sul – SGAS 915, Lote 75 ]. Para mais informações sobre a programação, clique aqui.

PublishNews | 15/07/2015

Por que amamos as distribuidoras digitais


Por Camila Cabete | Publicado originalmente em PublishNews | 15/07/2015

Estamos em um momento bem engraçado, no mercado de e-books brasileiro. Por um lado, o mercado inteiro sentindo o peso da crise, o peso dos cortes das compras governamentais [livros físicos]. Por outro lado, as vendas dos e-books estabilizaram e apresentam um leve crescimento. Claro que o valor da venda digital vem sem as agruras dos estoques e dinheiro empatado em consignação. Mas acho que este assunto é velho e nas colunas anteriores gastei muitos teclados ao tentar explicar o quanto o digital pode ser “salvador”. Vamos voltar ao hoje.

O quadro é bem interessante: mais de 40 mil e-books publicados e sendo comercializados, as plataformas de autopublicação bombando, as grandes editoras lançando simultaneamente em diversos formatos [até em áudio]. Dentro das editoras as coisas não mudaram muito… O “setor digital” continua contando com uma ou duas pessoas. Algumas editoras até eliminaram esta figura misteriosa da folha de pagamentos, com intuito de distribuir as funções entre os funcionários “normais” da organização.

Como as pessoas que me conhecem sabem, e as que me leem também, sou otimista. Estas mudanças já eram esperadas e seguem um curso natural de arrumação nas editoras. O e-book não deve ter um tratamento diferenciado e isolado. Mas com as saídas das pessoas responsáveis fica um grande vácuo operacional, sentido principalmente por nós, livreiros digitais.

O dia-a-dia digital não é mega ultra fácil: precisa de acompanhamento di-á-rio. Só para citar algumas das responsabilidades ao se administrar um acervo digital, temos a subida do conteúdo [epub, capa e metadados], atualização de preços, agendamento de promoções e ações, consertos de arquivos defeituosos, agendamento de pré-venda… Isso tudo multiplicado pelo número de lojas que você atende. É aí que entram as queridas figuras dos distribuidores digitais. As editoras que não possuem uma força tarefa, ou precisam de uma curva de aprendizado da equipe para este novo produto, por favor, pense com carinho nas distribuidoras. Hoje contamos com nomes nacionais e internacionais, que vieram para somar o negócio. A qualidade dos metadados e dos arquivos melhorou consideravelmente com a ajuda dos distribuidores. Ao contratar o serviço deles, você contrata uma consultoria e um setor responsável para gerir seu acervo digital… E o melhor de tudo, atendendo várias livrarias de uma vez. Eles ajudarão na parte mais chata, que é a operacional, sobrando tempo para pensar no que realmente interessa: vendas, ações de marketing e merchandising, análise de dados com BIG DATA, pensamento em inovação e pesquisa do cliente.

O mercado de digitais, repito pela trocentézima vez, é uma realidade. O setor no educacional continua se arrastando, o operacional das editoras deixa a desejar e o market share das livrarias e editoras tende a se concentrar, mostrando um mercado nada maduro e sustentável. Sem uma administração eficiente do operacional, como crescer? Não tenho a menor autoridade para falar aqui de gestão de negócios, mas tenho aprendido bastante. Mesmo estando no básico nesta disciplina [minha formação e experiência é puramente editorial], já me parece algo totalmente óbvio, porém não óbvio para o nosso mercado.

Quando eu era pequena lá em Barbacena eu achava que os diretores sabiam de tudo… Mas eles são humanos e a criptonita deles é a falta de informação. E os membros da direção que não possuem um canal aberto de informação, são suicidas. Portanto, se você é do setor digital, vê dificuldades e não luta para que esta informação chegue à direção de sua editora, você está cometendo um harakiri e deixando uma granada na empresa, pronta a explodir com baixos resultados, diminuição de market share e zero na nota de inovação. Editoras são empresas como outra qualquer e não é por se tratar de livros que somos especiais e mais inteligentes.

Por Camila Cabete | Publicado originalmente em PublishNews | 15/07/2015

Camila Cabete

Camila Cabete

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books [@CakiBooks], editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial [@ZoEditorial], que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em um paraíso chamado Camboinhas, com sua gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre o dia-a-dia do digital, críticas, novos negócios e produtos.