Criança nunca substituirá o livro pelo eBook, diz curadora da Flipinha


A relação que a criança tem com o livro de papel nunca será subtituída por e-books, celulares ou qualquer outro aprarelho eletrônico.

Essa é a opinião de Gabriela Gibrail, curadora da Flipinha, a versão para crianças da Flip [Festa Literária Internacional de Paraty], que começou nesta quarta [1º] e vai até domingo [5].

Para ela, a tecnologia está tão presente na vida das crianças que o “objeto livro” será cada vez mais valorizado. “Ainda vamos viver ótimas histórias de amor com ele“, opina.

Responsável pela Flipinha desde que ela foi criada, em 2004, Gibrail diz que a programação não foi afetada neste ano pela redução nas verbas. A Flip acontece com o menor orçamento da última década, de R$ 7,4 milhões.

A Ciranda do Autores, principal espaço de debate do festival infantil, tem início nesta quinta [2] e reunirá ao todo 13 escritores e ilustradores [veja galeria abaixo]. O evento também inclui espetáculos, oficinas e um espaço de leitura para crianças.

Leia trechos da entrevista.

Folha – As novas tecnologias estão interferindo no jeito de ler das crianças?

Gabriela Gibrail – Talvez sim, mas eu acho que também tem um movimento contrário: existe tanta tecnologia, tanta coisa tão moderna, que aquele objeto livro acaba tendo até mais valor. É uma outra relação. É diferente da que a criança tem com o celular, com o tablet. Nessa discussão eu sou bem categórica: a relação que você tem com o livro de virar a página, de abraçar, de dobrar, não vai ser substituída. Eu vejo isso no dia a dia com as crianças. O livro tem um poder sobre elas. Claro que com o celular também, mas acho que ainda vamos viver ótimas histórias de amor com o livro.

O Prêmio Jabuti criou uma nova categoria neste ano para livros infantis digitais. O que você acha disso?

Eu já vi ótimos livros digitais para crianças. Não dá para ser purista nisso. O que temos diferenciar é a qualidade, e não a plataforma. O que é bom, é bom, e o que é ruim, é ruim, tanto para o impresso quanto para o digital. Acho que premiar a qualidade é sempre importante para separar o joio do trigo. Com a qualidade não dá para negociar.

A Flipinha tem alguma preocupação nessa área?

Hoje a Flipinha ainda é analógica. Já trouxemos mesas para discutir isso, mas continuamos com o foco no livro impresso. Mas eu não tenho restrições. É que essa estrutura digital não cabe na maneira como a Flipinha se constituiu e se organiza, com os pés de livros [estruturas em que os livros ficam pendurados em árvores] e tudo mais. O evento é a céu aberto, não tem como projetar etc. Tecnicamente isso é muito complexo, tem custos e, principalmente em tempos de crise como esse, precisa-se de uma elaboração, de tempo para pensar.

A literatura infantil está tendo que se adaptar a essa nova realidade ou continua igual?

O que mudou foi que a tecnologia trouxe mais ferramentas. A qualidade da impressão, o modo como você faz uma ilustração, o projeto gráfico, tudo isso melhorou a qualidade do produto. Mas ao mesmo tempo também conheço ilustradores maravilhosos que ainda trabalham à mão.

A Flip, assim como outros festivais e prêmios literários, está enfrentando dificuldades no orçamento neste ano. Essa crise está afetando o meio infantil também?

O impacto no infantil foi menor do que na literatura adulta. É lógico que a crise deve ter atingido, mas a literatura infantil está conseguindo respirar. Os pais podem deixar de comprar livros para eles, mas não para os filhos. De uns oito anos para cá, a questão do incentivo à leitura está muito em pauta.

A gente vê a TV falando, os meios de um modo geral estimulando que o pais leiam para os filhos, as políticas públicas, as bibliotecas de escola. Não é que a crise não tenha vindo, mas existe uma força tão grande que vem se construindo que ela conseguiu minimizar o impacto dessa crise. É como se essas duas ondas acabassem se equilibrando.

Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 06/07/2015 | Colaborou JÚLIA BARBON

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