“The Road Ahead” completa 20 anos de acertos


PODE EDNEI PROCÓPIO

A internet é, portanto, o maior veículo de edição independente que já existiu.
— Bill Gates em The Road Ahead

Li The Road Ahead assim que foi publicado, em 1995. Na época, eu tinha dezenove anos e trabalhava como assistente de redação na Assessoria de Imprensa da Microsoft aqui no Brasil. A empresa em que eu trabalhava foi responsável pela divulgação do lançamento de The Road Ahead e do revolucionário Windows 95. Além de lançar e divulgar diversos produtos e serviços da companhia americana, incluindo o Microsoft Reader.

O livro The Road Ahead foi traduzido para diversas línguas ao redor do mundo e, somente nos Estados Unidos, vendeu cerca de 2,5 milhões de exemplares, permanecendo na lista de best-sellers do New York Times por mais de dois meses.

William Henry Gates III, mais conhecido como Bill Gates, é meu guru. A primeira vez que li à respeito de livros digitais foi em The Road Ahead. E continuo lendo a obra cada vez que penso em mudar o foco de minhas ideias, ou sempre que penso em seguir em frente. Gates previu, com duas décadas de antecedência, toda revolução que estava em curso com o advento da Internet, que ele chamava de “A Estrada do Futuro”, e  previu todo o modus operandi da Era Digital na qual nos encontramos inseridos atualmente.

Uma versão online de The Road Ahead pode ser acessada no Scribd, ou comprada na Estante Virtual. Separei algumas passagens do livro, aqui neste post, logo abaixo, pois creio serem pertinentes para o entendimento do cenário pela qual o mercado editorial vem passando. Separei apenas aqueles trechos que, de certo modo, envolvem meu trabalho como editor aqui na Livrus Negócios Editoriais, mas é importante salientar que Gates acertou a maioria das previsões que envolvem também as indústrias de entretenimento, telecomunicações, fonográfica, cinematográficas e, porque não, editorial.

Eu estava pensando em comentar cada parágrafo, abaixo citados, mas creio que o que Gates pensou e escreveu há vinte anos basta. As previsões de Bill Gates podem hoje até parecer óbvias, mas não eram há duas décadas quando li The Road Ahead e tirei dali minha ideias para trabalhar com livros digitais. The Road Ahead vale à pena ser lido e relido na íntegra porque as previsões de Bill Gates são simplesmente geniais.

(…)

Por mais de quinhentos anos, todo conhecimento humano e informações foram armazenados em documentos de papel.

O papel estará conosco indefinidamente, mas sua importância como meio de encontrar, preservar e distribuir informação já está diminuindo.

Quando você pensa em um ‘documento’, provavelmente visualiza pedaços de papel como alguma coisa impressa neles; mas essa definição é limitada. Um documento pode ser qualquer corpo de informação.

Um artigo de jornal é um documento, mas a definição mais ampla inclui também um programa de televisão, uma canção ou um videogame interativo.

Em resumo, esses novos documentos digitais substituirão muitos dos documentos impressos em papel porque eles poderão nos ajudar de novas maneiras.

Mas ainda levará um bom tempo para que isso aconteça. O livro, revista ou jornal de papel ainda tem muitas vantagens sobre suas contrapartidas digitais. Para ler um documento digital você precisa de um aparelho de informação, como um microcomputador, por exemplo. O livro é pequeno, leve, de alta resolução e barato, comparado ao custo de um computador. Por uma década ainda, pelo menos, não será tão confortável ler um longo documento sequencial numa tela quanto lê-lo no papel.

Os constantes melhoramentos tecnológicos dos computadores e das telas, no entanto, nos darão um livros eletrônico, ou e-book, leve e universal, que se aproxima do livro de papel de hoje.

Dentro de um estojo, mais ou menos do mesmo tamanho e peso de um livro de capa dura ou de bolso de hoje, você terá uma tela que mostrará texto, imagens e vídeo de alta resolução. Vai poder virar páginas com os dedos ou usar comandos de voz para encontrar os trechos que quiser. Poderá se ter acesso a qual quer documento da rede com tal aparelho.

(…)

O ponto importante dos documentos eletrônicos não será simplesmente que poderemos lê-los em nossos aparelhos de hardware. A passagem do livro de papel para o eletrônico constitui o estágio final de um processo já bastante adiantado. O aspecto excitante da documentação digital é a redefinição do documento em si.

Isso terá repercussões drásticas. Teremos de repensar não apenas o significado do termo documento, mas também o de autor, editor, escritório, sala de aula e livro.

Dentro de poucos anos os documentos digitais autenticáveis, será o original, e as cópias em papel serão secundárias. Muitas empresas já estão superando o papel e os aparelhos de fax e trocando documentos editáveis, de computador para computador, através do correio eletrônico. Este livro teria sido mais difícil de escrever sem o correio eletrônico. Alguns leitores, cuja opinião solicitei, receberam eletronicamente alguns rascunhos e foi muito útil ver as sugestões de revisão e saber quem as tinha feito e quando.

(…)

Alguns documentos são tão superiores em forma digital que a versão em papel raramente é usada.

(…)

Quando você se acostuma com esse tipo de sistema, descobre que a possibilidade de ver a informação de diferentes maneiras, torna-a mais valiosa. A flexibilidade convida à exploração, e esta é recompensada com a descoberta.

(…)

De todos os tipos de documentos de papel, a narrativa de ficção é a única que não será beneficiada com a organização eletrônica. Quase todo livro de referência tem um índice, mas os romances não precisam de índice, porque não há necessidade de se procurar alguma coisa especifica num romance. Romances são lineares.

Da mesma maneira continuaremos a assistir a maioria dos filmes do começo para o fim. Isso não é um julgamento técnico, mas artístico: a linearidade é inerente ao processo de contar histórias. Novas formas de ficção interativa estarão sendo inventadas, aproveitando as vantagens do mundo eletrônico, mas os romances e os filmes lineares continuarão sendo populares.

(…)

Facilitar a distribuição de documentos digitais a preços baixos, seja qual for a sua forma. Milhões de pessoas e companhias estarão criando documentos e publicando-os na rede. Alguns documentos serão dirigidos a plateias pagantes e alguns serão grátis, para quem estiver disposto a lhes dar atenção.

A armazenagem digital é fantasticamente barata. Unidades de disco rígido para microcomputadores logo estarão custando cerca de quinze centavos de dólar por megabyte (1 milhão de bytes) de informação. Para se ter uma ideia, um megabyte guarda cerca de setecentas páginas de texto, de forma que o custo será algo como 0,00021 dólar por página — cerca 1/200 do que a papelaria mais próxima cobraria por uma fotocópia, se a tabela for de cinco centavos por página.

E, como existe a possibilidade de reutilizar o espaço de armazenamento para outras coisas, o custo passa a ser o de armazenamento por unidade de tempo — em outras palavras, por aluguel do espaço. Se presumirmos quem um drive de disco rígido tem uma vida útil media de apenas três anos, o preço amortizado por página/ano, é de 0,00007 dólar. E a armazenagem está ficando cada dia mais barata. Os preços dos discos rígidos vêm caindo cerca de 50% ao ano, ao longo dos últimos anos.

(…)

É particularmente fácil armazenar texto porque ele é muito compacto em forma digital. O velho ditado de que uma viagem vale por mil palavras é mais do que verdadeiro no mundo digital. Imagens fotográficas de alta qualidade consomem mais espaço do que texto, e o vídeo (que você pode pensar como uma sequência de até trinta novas imagens por segundo) consome ainda mais.

Apenas uma cópia da informação será necessária para todo mundo ter acesso a ela. Os documentos mais populares terão cópias feitas em diversos servidores para evitar atrasos quando houver um número grande demais de usuário querendo acessar.

Como um único investimento, praticamente o mesmo que uma única locadora gasta hoje com um título de vídeo de sucesso, um servidor baseado em disco poderá servir milhares de clientes simultaneamente. O custo extra para cada usuário será simplesmente o de uso da armazenagem em disco durante um curto período de tempo, e as taxas de comunicação. E isto está se tornando extremamente barato. Portanto, o custo extra por usuário será quase zero.

Isso não significa que a informação será grátis, mas o custo de distribuição será muito pequeno. Quando você compra um livro, boa parte de seu dinheiro paga os custos de produção e distribuição dele, não o trabalho do autor. Árvores foram derrubadas e trituradas para fabricar a polpa que se transforma em papel. O livro tem de ser impresso e encadernado. O capital que a maioria dos editores investe numa primeira edição tem por base o número máximo de exemplares que acreditam que será vendido de imediato, porque a tecnologia de impressão só é eficiente se forem feitos muitos exemplares de uma vez. O capital empatado nesse investimento é um risco financeiro para os editores — pode ser que não vendam todos os exemplares e, mesmo que isso ocorra, leva algum tempo para vender todos. Enquanto isso, o editor tem de armazenar os livros, despachá-los para os distribuidores e daí para as livrarias. Todas essas pessoas também investem capital no empreendimento e esperam ter lucros.

Quando, finalmente, o consumidor escolhe um livro e o sininho do caixa tilinta, o lucro do autor pode ser um pedaço muito pequeno do bolo, comparado ao dinheiro que vai para o aspecto físico do fornecimento de informação impressa em polpa de madeira processada. Chamo isso de ‘força de atrito’ da distribuição, porque diminuiu a variedade e desvia dinheiro do autor para outras pessoas.

Essa ausência de força de um atrito na distribuição de informação é incrivelmente importante. Dará oportunidade de um maior número de autores, porque só uma pequena parte do dinheiro do consumidor será gasta em distribuição.

(…)

Quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa, produziu-se a primeira mudança real na força de atrito da distribuição — a imprensa permitiu que a informação sobre qualquer assunto fosse distribuída rapidamente, a custo relativamente baixo. A imprensa criou um meio de massa por que permitiu a duplicação com pouca força de atrito. A proliferação dos livros motivou um interesse público generalizado pela leitura e pela escrita, mas, assim que as pessoas adquiriram essa capacidades, muitas outras coisas puderam ser feitas com a palavra escrita.

Essas aplicações não tinham sido em si mesmas suficientemente atraentes para fazer um número significativo de pessoas aprenderem a ler e escrever. Enquanto não existiu uma razão real para se criar uma massa critica (ou ‘base instalada’, no jargão da informática) de pessoas alfabetizadas, a palavra escrita não foi realmente útil como meio de armazenar informações. Os livros provocam a alfabetização em massa, a ponto de quase podermos dizer que foi a imprensa que nos ensinou a ler.

A imprensa possibilitou que se tirassem muitas cópias de um documento, mas quer dizer das coisas que eram escritas para poucas pessoas?

(…)

Apesar de custar muito menos publicar um livro do que transmitir um programa de televisão, ainda sai muito mais caro, caso se compare com o custo da publicação eletrônica. Para publicar um livro, o editor tem de estar disposta a pagar as despesas iniciais de manufatura, distribuição e venda. A estrada da informação criara uma mídia com menos barreiras de acesso do que jamais se viu.

A internet é, portanto, o maior veículo de edição independente que já existiu.

Em parte, esse investimento ainda não está sendo feito hoje porque os mecanismos para autores e editores poderem cobrar de seus usuários ou de anunciantes ainda estão sendo desenvolvidos.

(…)

A atribuição de valor à propriedade intelectual é mais complicada do que a maior parte das atribuições de valor, porque hoje é relativamente barato fabricar cópias de quase qualquer tipo de propriedade intelectual. A manhã, na estrada da informação, o custo de enviar uma cópia de uma obra — que será a mesma coisa que fabricá-la – será ainda menor, e cairá a cada ano por causa da Lei de Moore.

(…)

Sempre que uma nova mídia é criada, seu conteúdo original é importado de outras mídias. Mas para aproveitar ao máximo as capacidades do meio eletrônico o conteúdo terá de ser especialmente concebido tendo em mente esse veículo. Até agora a vasta maioria do conteúdo que circula on-line foi ‘chupado’ de outra fonte. Editores de jornais e revistas pegam textos já criados para edições de papel e simplesmente os jogam on-line, muitas vezes sem fotos, tabela e ilustrações.

(…)

O sucesso desses jogos estimulou autores a começarem a criar romances e filmes interativos, nos quais fornecem as personagens e as linhas gerais da trama, para que o leitor/jogador decida como desenvolver a história. Ninguém esta sugerindo que todo livro ou filme deva permitir ao leitor ou espectador influenciar o desfecho. Uma boa história, que faz você simplesmente sentar e assistir por umas duas horas é excelente entretenimento.

Você não consegue ao mesmo tempo controlar a trama e entregar sua imaginação a ela. A ficção interativa é tão semelhante e tão diferente das formas mais antigas quanto à poesia é ao mesmo tempo semelhante e diferente da prosa.

(…)

Ao comprar, o que você esta realmente comprando é o papel e a tinta e o direito de ler, e deixar que outros leiam as palavras impressas naquele determinado papel com determinada tinta. Você não é o dono das palavras e não pode reimprimi-las, exceto em circunstâncias muito bem definidas.

A estrada poderia registrar se você comprou o direito de ler determinado livro. Se assim for, você poderá chamá-lo a qualquer terminal, em qualquer lugar. As editoras de livros costumam fazer dois lançamentos, um em capa dura e outro em edição de bolso. Se o consumidor que um livro imediatamente e pode pagar por isso, ele desembolsa vinte ou trinta dólares por seu exemplar. Ou então espera entre seis meses e dois anos para comprar o mesmo livro em formato mais barato e duradouro, por cinco ou dez dólares.

(…)

As bibliotecas públicas serão no futuro lugares onde qualquer pessoa poderá sentar e usar equipamento de alta qualidade para obter acesso. As administrações das bibliotecas poderão usar os cursos orçamentários que hoje servem para comprar livros, discos, filmes e assinaturas para financiar os direitos autorais pagos para usar materiais educacionais eletrônicos. Os autores talvez abram mão de uma parte ou de todos os direitos se suas obras forem usadas numa biblioteca.

(…)

Novas leis de direitos autorais serão necessárias para esclarecer os direitos do comprador sobre o conteúdo, sob diferentes arranjos. A estrada vai nos forçar a pensar mais explicitamente sobre que direitos os usuários tem a propriedade intelectual.

(…)

As livrarias continuarão a estocar livros impressos durante muito tempo, mas obras de não-ficção e, em especial, materiais de referencia serão provavelmente muito mais usados em forma eletrônica do que impressa.

(…)

Documentos de multimídia assumirão alguns dos papeis hoje desenhados por livros de texto, testes e outros materiais pedagógicos.

(…)

Quando a estrada estiver em operação, os textos de milhões de livros estará disponíveis. O leitor poderá fazer perguntas, imprimir o texto, lê-lo na tela, ou mesmo ouvi-lo nas vozes que escolher. Ele poderá fazer perguntas. O texto será seu professor particular.

Porém, à medida que os estoques de livros escolares passarem a ser material interativo, haverá milhares de novas companhias de software trabalhando com professores para criar materiais de aprendizagem interativos com características de entretenimento.

Ednei Procópio

Ednei Procópio

Ednei Procópio é editor e um dos maiores especialistas em livros digitais do país, pioneiro na área desde 1998. Como editor e sócio-fundador de selos editoriais, atua na publicação, comercialização e divulgação de centenas de títulos em versões impressas sob demanda e digitais através da LIVRUS Editorial. Publicou Construindo uma biblioteca digital [2005], O livro na era digital [2010] e em 2013, Procópio lançou seu terceiro livro A Revolução dos eBooks [pela editora do Senai] indicado ao Prêmio Jabuti 2014.

Anúncios

Questões preliminares sobre ePub3


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

O ePub3 é uma atualização do formato ePub que permite criar publicações digitais que operam com base em HTML5 e CSS3. Na prática, isso significa que e-books nesse formato podem conter recursos mais avançados, como áudios, vídeos, animações e certas interatividades. O IDPF, consórcio internacional que define os padrões do formato, o tem como aprovado desde 2011.

Quatro anos, e ainda assim publicar em ePub3 ainda é um desafio. Se as plataformas/ambientes de leitura dão trabalho aos mais simples arquivos ePub2, um formato mais avançado não encontraria caminho menos árduo. Os padrões variantes podem tornar a experiência um tanto complicada.

O que segue abaixo é um conjunto de observações preliminares que podem ajudar na hora de tomar a decisão de produzir ou não em ePub3, e, em caso positivo, como organizar os processos envolvidos.

Observação: o foco serão livros de texto. Não entraremos no terreno do layout fixo, assunto deveras mais complexo que ficará para uma outra ocasião.

Se você ainda está pensando no assunto, há duas questões gerais a considerar:

Não vai funcionar em todos os lugares.
Não se aventure sem ter isso em mente. O formato não é suportado por todos os aplicativos, e há variação entre os que oferecem suporte: o aplicativo iOS de uma loja pode aceitar determinado recurso que não funciona no aplicativo Android da mesma loja. Há ainda os eReaders, onde jamais funcionará. É necessário considerar essa realidade.

Podem ser necessárias várias versões.
A Coleção Ditadura, da Intrínseca, é exemplo disso. As diferenças entre as plataformas obrigaram a equipe a produzir nada menos que cinco versões de cada arquivo, uma vez que a versão “simples” [ePub2/mobi, sem recursos avançados e com preço final menor] também precisava ser lançada. O trabalho de gerenciamento, bem como de produção em si, pode ter um aumento exponencial, dependendo dos recursos que se quer utilizar. Deve-se avaliar o escopo do projeto e ver se há estrutura [e recursos] para isso.

Se já se decidiu por fazer, considere o seguinte:

A dificuldade provavelmente não está onde você imagina.
Num ePub3, o difícil não é a conversão em si para o formato nem inserir vídeos ou áudios. A conversão pode ser feita pelo próprio InDesign ou por um plugin acionado pelo Sigil, e a linha de código para chamar um vídeo ou áudio é tão simples quanto a que serviria para uma imagem. A dificuldade maior está justamente no gerenciamento da produção, sobretudo se também é necessário lançar a versão ePub2/mobi [e ainda a versão avançada para a Amazon!1], como falado acima. As dificuldades técnicas existem, naturalmente, mas — e aqui falo da minha própria experiência — é a organização do workflow que nos pega pelo pé.

1 A Amazon tem seu próprio formato para livros avançados, o KF8, que se assemelha ao ePub3 em alguns pontos. Logo, isso significa mais uma versão do e-book, agora atendendo as especificações desta loja. Detalhe: recursos como áudios e vídeos não funcionam no aplicativo do Kindle para Android, apenas iOS e, naturalmente, no Kindle Fire.

Testes, testes e mais testes.
Testes são um exercício de descoberta, como falei em outro texto. Não existe outra forma de aprender o que funciona e o que não funciona, das muitas possibilidades abarcadas pelo ePub3. Áudios, vídeos, notas em pop-up, conteúdos não lineares, javascript: é essencial conhecer o que o formato permite e refletir, a partir disso, como esses recursos podem beneficiar o projeto.

Como observação mais geral, deixo esta última:

Muito se fala sobre o uso do ePub3 [geralmente associado ao layout fixo] para publicações digitais destinadas ao público infantil, e de fato o formato cai como uma luva para livros desse tipo. No entanto, livros “adultos”, sobretudo de não-ficção, podem ser servidos pelo ePub3 de maneiras igualmente empolgantes. Bons exemplos são a biografia deGetúlio Vargas e A Grande Orquestra da Natureza [baixe uma amostra da Apple, encaixe os fones de ouvido e veja do que estou falando], em que mídias diferentes dialogam com a escrita e expandem a experiência de leitura.

Bem, estas são questões gerais que se impõem quando o assunto é produção de ePub3. Espero que possam ajudar você, editor ou autor, que está pensando no assunto.


Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de julho de 2015

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.

Portais são opções para quem quer vender livros


Levante a mão quem nunca precisou de um livro e não conseguiu encontrar em lugar nenhum. Geralmente, é nessas horas que o leitor desesperado apela para os sebos, com seus acervos e preços atraentes. Garimpar estantes afora não é a única opção. Desde 2005, o site Estante Virtual reúne sebos e livreiros do Brasil, possibilitando ao leitor receber o livro usado na porta de casa.

Para quem deseja comprar sem muito trabalho, um sonho. Para quem vende, no entanto, as taxas e mensalidades cobradas pelo portal podem pesar no orçamento. É nesse cenário que o recém-lançado Portal dos Livreiros representa uma opção mais barata para os vendedores. E, para leitores, portais como SebosOnline e Brasilmix Livros se apresentam como uma opção de busca.

Aumento e insatisfação

Criada por André Garcia em 2005, a Estante Virtual foi ao ar com 12 lojas cadastradas. Hoje, o portal reúne 1.350 livreiros em 339 cidades. “Hoje é impossível você falar com um sebo que não saiba o que é a Estante Virtual“, diz André. Para ser vendedor, é preciso arcar com a mensalidade, que varia entre R$ 42 e R$ 132, de acordo com o acervo, além de comissão cobrada por livro vendido, que aumentou de 6% para uma faixa que varia de 8% a 12% em 2014.

O novo valor resultou de uma viagem feita por Garcia em 2013, em que ouviu dos vendedores sugestões de melhorias. Para realizar as mudanças, precisou aumentar a comissão por venda. “Era impossível, em termos empresariais, prover todas as ferramentas que eles pediam“, esclarece André, que implementou na Estante Virtual  uma nova busca, layout e novas formas de pagamento.

Para alguns vendedores, o aumento gerou insatisfação. Foi assim que Julio Daio Borges, após sete anos, deixou de vender na Estante e criou seu site, o recém-lançado Portal dos Livreiros. “Tive a ideia de fazer um portal novo, sendo que a grande diferença é que a comissão é bem baixa, de 5%“, explica Julio. Assim, com os sócios Adriano Amui, Miguel Cavalcanti e Luis Dolhnikiss, ele desenvolveu o Portal para “atender  vendedores que não estão satisfeitos, como eu não estava“.

Sem mensalidade e com uma comissão de 5% por livro vendido, o site  segue em versão beta desde maio, e já conta com 54 vendedores. Para vender no Portal, as taxas de inscrição variam de R$ 9,90 até R$ 197, de acordo com a quantidade de livros do vendedor. “A gente quis fazer uma coisa mais democrática“, diz Julio.

Além do site, Julio promove no final do mês o Curso de Livreiro. Com 12 módulos e inscrição no valor de R$ 99/módulo, o curso ensina como cadastrar, lidar com fornecedores e plataformas de venda. “Como parei de vender para me dedicar ao Portal, tive a ideia de passar minha experiência como vendedor“, explica.

Mudar, no entanto, não é prioridade para todos. Vera Brandão, uma das donas do Sebo Brandão, no Centro Histórico, mantém o seu cadastro na Estante. “O site da Estante Virtual ainda é o mais solicitado, e um dos mais bem organizados“, opina Vera.

Opções de compra

Além de uma possibilidade para vendedores, sites como o Portal dos Livreiros ajudam o leitor. Pablo Roxo, 26, é mestrando em Ciência da Computação pela Universidade Federal da Bahia e prefere o comodismo da compra online, mesmo sendo cliente de sebos na Pituba e na Praça da Sé. “Sempre faço uma pesquisa de preço antes e vejo se é mais em conta comprar em um desses sebos ou em sebos na internet“, explica.

Para quem pesquisa preço e prefere receber o livro em casa, sites como Brasilmix Livros, Livronauta e SebosOnline também oferecem livros mais baratos do que nas grandes livrarias e lojas.  Em 2007, Alcir Teodoro da Silva criou o site SebosOnline, uma plataforma integrada com um software que desenvolveu em 2004. “No momento em que o funcionário do sebo cadastra o livro no programa, ele já atualiza o nosso SebosOnline”, explica. Assim, além do site, o programa  atua na organização do sebo.

Ao pesquisar um título no site, o leitor encontra livros cadastrados nos 460 sebos e livrarias que utilizam a plataforma. “É tudo sincronizado“, diz Alcir. “Vendeu o livro, ele já sai do SebosOnline“. Assim, o leitor não corre o risco de comprar pela internet um livro que não está mais disponível.

Em agosto, o site do SebosOnline ganha um novo layout, com uma nova ferramenta de busca para auxiliar a compra pela internet.

Por Débora Rezende | Publicado originalmente em A Tarde | 01/07/2015