A internet móvel e o futuro das publicações digitais


É inegável que a web mobile pode contribuir para reduzir a brecha digital. Os desenvolvimentos nesse terreno permitiram um maior acesso aos conteúdos web em numerosos países da África, Ásia e América Latina. No entanto, o que acontece em termos de criação e participação? Como promover uma web mobile aberta na qual os usuários locais sejam protagonistas reais, em vez de consumidores passivos? Para discutir esses temas de vital importância para o mundo editorial, conversamos com Mark Surman, diretor-executivo da fundação Mozilla.

1. A internet móvel está revolucionando o modo de acesso ao conteúdo digital no mundo em desenvolvimento. Como essa tendência vai afetar as vidas de centenas de milhões de habitantes do sul global, não apenas em termos de acesso, mas também de criatividade?

A web mobile está fazendo com que milhares de milhões de usuários possam se conectar, e em 2025 teremos 5 bilhões de indivíduos online – muitos dos quais vão se conectar exclusivamente através de seus celulares. Mas o acesso não é suficiente. Para conseguir um impacto na vida dos indivíduos que vivem em países em desenvolvimento, devemos somar ao acesso à alfabetização digital. Quando esses usuários puderem criar conteúdo local em seus próprios idiomas – me refiro a páginas web e aplicativos –, vai se abrir uma oportunidade social e econômica impressionante.

2. Numerosas fundações internacionais estão colocando em marcha iniciativas para facilitar o acesso às publicações digitais em países de escassos recursos, seja através de conectividade gratuita [Internet.org], doações de e-books [Worldreader] ou serviços “Zero Rating” [Wikipedia Zero]. Qual é a sua opinião sobre esses projetos?

Existem atualmente muitas iniciativas bem-intencionadas, mas insisto: a Mozilla considera que o acesso deve estar unido a propostas de alfabetização digital e a ferramentas abertas que convidem à criatividade e à participação. É assim que fortalecemos os novos usuários.

3. Em um recente artigo, você definiu o conteúdo local como “o canário na mina de carvão”, quer dizer como um bom indicador da saúde do ecossistema digital local. Como poderia ser fomentada a produção de publicações digitais locais nos países em desenvolvimento?

Em primeiro lugar, nos países em desenvolvimento precisamos promover uma web aberta. Muitas pessoas acham que o Facebook representa uma extensão da Internet – mas isso prende os usuários a um sistema fechado onde devem seguir determinadas regras. No entanto, quando os monopólios digitais são desarmados, os indivíduos podem criar suas próprias regras, em vez de seguir os alinhamentos de umas poucas empresas. Assim, tudo se torna possível.

Também podemos estimular a produção de publicações digitais locais graças à integração de ferramentas de criação abertas. Ferramentas intuitivas que permitam aos usuários criar em poucos minutos, mesmo se não tiverem os conhecimentos de programação. Também é necessário adaptar essas ferramentas a uma ampla gama de línguas, tais como bengali, swahili, hindi e outras.

4. Quais são os principais projetos da fundação Mozilla em países em desenvolvimento?

Daqui a algum tempo estaremos apresentando o Webmaker. Trata-se de uma plataforma de criação de conteúdo gratuita, aberta e mobile que permite aos usuários construir [e compartilhar] aplicativos, páginas web e outros objetos multimídia em poucos minutos. As barreiras de entrada são baixas – até os usuários que usam um smartphone pela primeira vez podem se tornar inventores. E Webmaker está adaptado a numerosas línguas.

Também estamos expandindo nossa rede de aprendizagem para incluir os Mozilla Clubs, que permitem a mentores e estudantes de todo o mundo entrar em contato para ensinar e construir a web. Os detalhes sobre os Clubs e nossas outras iniciativas de alfabetização digital podem ser encontradas clicando aqui.

5. Desde o surgimento da web [e em particular da web mobile], a indústria do livro atravessou mudanças profundas. Com seu conhecimento do mundo da web, como vê o futuro da indústria editorial em escala global?

A edição se tornou muito mais democrática, e essa tendência vai continuar. Milhares de milhões de usuários estão se conectando e descobrindo a web aberta – o que significa que inumeráveis autores novos contam com uma plataforma e uma audiência para transmitir suas histórias.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 19/06/2015

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.