Sebinho lança “A mais branca sombra do pálido” em Brasília


“A mais branca sombra do pálido” Começa com o divertido e intrigante O testamento do Comendador Fragoso, uma história que se passa na velha São Salvador do início do século passado. O texto é simples; os diálogos honestos e irreverentes; as personagens caricatas o final imprevisível como toda prosa do bardo baiano.

Na sequência vem Imoderada Excitação do Espírito, um dilema que um jovem estudante soteropolitano passa em São Paulo durante uma estadia na casa de um parente. Impressionante a osmose do autor com costumes e viventes de um lugar que ele só conhece superficialmente. Cenas do grotesco e do burlesco inundam o drama do começo ao fim.

Voltando ao cenário Bahia, mais precisamente ao sertão baiano, temos Solstício, onde um serviçal de uma fazenda de sisal sofre uma grave acusação de praticar estupro em uma menor, filha do capataz do lugar. Ele refuta a afronta; jura inocência e luta contra tudo e contra todos para trazer a verdade à tona.

Encerrando o desfile de escritos, o autor toma a Bahia mais uma vez como cenário, mudando apenas de região: a última novela se desenrola no cerne da Chapada Diamantina. Com um enredo aterrorizante, que talvez Stephen King assinasse embaixo, O Mistério da Senhora Foster relata o comportamento estranho de uma mulher que atemoriza todo um lugarejo com atos imprevisíveis e anormais. Seu filho, estudante de Harvard, vem dos Estados Unidos especialmente para resolver a inusitada situação de sua genitora, contudo, termina pondo ainda mais lenha na fogueira. O final – não precisa nem fazer essa observação – é inacreditável.

Enxerguei primeiro um estranho objeto — pendurado na parede —, uma espécie de escultura metálica no formato de roleta, recheada de figuras e objetos intrigantes. Mais ao fundo, perto das velas, uma cama de campanha forrada por um lençol negro, onde jazia uma figura delgada, incrivelmente esquálida, com longos cabelos brancos e rebeldes. O visual de minha mãe naquele momento fazia inveja a qualquer bruxa. Aproximei-me dela com esmero. Ao lado da cama, apenas um criado mudo e, em cima dele, um livro dourado e uma ânfora de metal.

Acima da cama dois castiçais presos à parede, onde as longas velas negras continuavam a bruxulear. Antes de tocar no ser materno, notei que a parede de fundo do porão estava revestida de vidro, um vidro negro, opaco, sem reflexo. Nunca tinha visto nada igual. Então ajoelhei ao lado dela e esperei ela virar o rosto lentamente em minha direção. Seus olhos estavam fundos; a íris quase de cor carmim; polpudas olheiras; as rugas abundavam-lhe a face; a pele ostentava a mais branca sombra do pálido. Nada parecia a mulher viçosa e graciosa dos meus tempos pueris.

Sobre o autor

O escritor baiano Gilmar Duarte Rocha traz à luz o quinto rebento literário. Considera-o como já tivesse sido escrito há mais de um século. A cabeça de Gilmar agora está engendrada em outra dimensão. Breve, promete algo mais profundo, literariamente falando. Cita sempre “que falta nos faz um Guimarães Rosa; um João Ubaldo; um Graciliano; um José Lins; um Mário Palmério; um Jorge Amado.”, apenas para citar alguns autores contemporâneos. Ele sente que o nosso País não pode ficar à mercê da mediocridade literária atual, salvo as raras exceções.

Temos que fazer alguma coisa nova, de vanguarda; arregaçar as mangas; por o coração e a mente para arderem em brasa viva. Precisamos de mais brasilidade, mesclando a realidade inclemente [sem precisar embeber o texto de sangue] com a fantasia, seja ela fantástica ou não, essencial para nutrir a alma do leitor”.