O conto e a expansão


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em Colofão | 27/05/2015

Como leitor, só posso me definir como um chato. Além de fugir muito pouco dos gêneros de que mais gosto, tenho pouca inclinação a histórias que não sejam bem fechadas. Não consigo evitar a frustração se chego ao final de um livro [ou conto, filme, HQ etc.] e descubro que o autor deixou frações importantes do desfecho na “interpretação do leitor”. Sou fã de A origem, do Christopher Nolan – assisti no cinema duas vezes, e mais outras tantas em DVD – mas queria dar uns tabefes no cara por [SPOILER ALERT! SPOILER ALERT!] não ter derrubado aquele maldito peão na cena final.

Paralelamente a isso, gosto muito da ideia de expandir universos narrativos – pegar um cenário apresentado em determinada obra e desenvolver com mais atenção algum de seus elementos introduzidos na história principal. Trata-se do princípio básico da narrativa transmidiática: um universo temático que flui em diversas direções, em diversas mídias, aproveitando o que cada uma delas tem a oferecer à narrativa.

Hoje, estamos cercados de produtos culturais concebidos dentro dessa lógica, das séries de TV [e Netflix!] da Marvel, todas ambientadas no mesmo universo dos filmes, aos livros de universo expandido de Star Wars [que a Aleph está relançando no Brasil], passando pelos diversos conteúdos situados [livros, filme, HQs] no universo de Doctor Who. Outros bons exemplos são os livros baseados em games – Assassins’s Creed, Starcraft, Gears of Ware séries de TV – The Walking Dead, Homeland, Once Upon a Time, entre outros.

Queria focar aqui num tipo específico de conteúdo que pode ser usado para expandir universos narrativos: os contos em formato exclusivamente digital.

Modo de usar

O princípio é o mesmo aplicado a qualquer outro produto dentro de um universo transmidiático: temos uma narrativa que se deriva de uma outra e ajuda a expandi-la. Isso pode ser feito a partir da exploração de determinado personagem ou de determinado acontecimento, entre diversas outras possibilidades. O resultado ideal é que o conto acrescente ao que já conhecemos do universo retratado, de modo que o leitor tenha mais portas de entrada e possa conhecê-lo ainda mais.

Alguns exemplos

Na série juvenil de ficção científica Os legados de Lorien, de Pittacus Lore, um grupo de alienígenas com poderes vive na Terra e luta para sobreviver aos ataques de seus inimigos, os mogadorianos. A série de livros, já com quatro volumes, se concentra em determinados personagens numa trama linear contínua. No entanto, uma série de contos paralela, Os arquivos perdidos, acompanha personagens menos explorados nos livros, desenvolvendo o passado de muitos deles. O mesmo acontece com a série Endgame [também de ficção científica], de James Frey e Nils Johnson-Shelton: diversos personagens envolvidos na trama central têm seus passados desvendados em novelas lançadas paralelamente. Os contos do primeiro exemplo e as novelas do segundo são exclusivamente digitais.

A escritora Cassandra Clare lançou, em parceria com Maureen Johnson e Sarah Rees Brennan, a série de contos As crônicas de Bane, focadas num dos personagens apresentados nas sagas principais da autora, Os Instrumentos Mortais e As Peças Infernais. Inicialmente lançados somente como e-books, os textos foram posteriormente reunidos e lançados num volume impresso.

A autora Veronica Roth, da bem-sucedida série Divergente, é outra que já trabalhou personagens de sua série principal em contos exclusivamente digitais, que se tornaram mais tarde uma edição física de colecionador.

Entre os brasileiros, ocorre-me Eric Novello, que expande a narrativa de seu livro A sombra no sol através do e-book Dias nublados, descrito como uma “mistura de textos ficcionais e depoimentos, literatura e fotografia, expandindo a experiência de A sombra no sol.”

O potencial

Esse tipo de iniciativa não é novidade, como informam os exemplos citados. As duas coisas – contos e o formato digital – situam-se de modo estratégico na construção cumulativa dos universos desses autores e de diversos outros. O conto, pela brevidade com que pode ser consumido, e o digital, pela maior facilidade de publicação que propicia. Texto e formato muito bem alinhados.

Gostaria de ver mais autores e editoras investindo nesse tipo de estratégia no Brasil. Não sei se estou deixando escapar algo ou procurando nos lugares errados [se for o caso, por favor, apontem nos comentários!], mas a impressão que tenho é que poucas séries brasileiras, independente do gênero literário, utilizam-se de contos digitais para se ramificarem e crescerem. Trata-se do investimento num produto que pode se mostrar mais rico que apenas uma série de livros, fidelizando seus leitores por diferentes vias – e, o que é melhor, com um custo de produção bem menor do que um romance.

Naturalmente, a estratégia exige planejamento e varia em termos práticos de editora para editora, ou de autor[a] para autor[a], no caso de edições independentes. Certos gêneros parecem ser mais propícios para esse tipo de ramificação [fantasia, ficção científica] do que outros, dadas as suas particularidades. Há possibilidades e conjunturas a serem levadas em conta. O passo principal, acredito, precisa ser dado pelos autores, ao conceberem histórias já capazes de se desdobrar em outras, usurfruindo das vantagens que o formato digital lhes oferecem.

Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em Colofão | 27/05/2015

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de três. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.