O site que contém tudo o que já foi e será escrito


Criado pelo escritor Jonathan Basile, o site é a representação virtual de uma ideia de Jorge Luis Borges. No conto “A Biblioteca de Babel”, o escritor argentino descreve um universo que “compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais” que contém livros únicos marcados pela variação de uma sequência de 25 símbolos ortográficos [22 letras, o ponto, a vírgula e o espaço]. Cada um desses livros têm 410 páginas, cada página tem 40 linhas e cada linha tem 80 posições. Ou seja, a Biblioteca contém pelo menos 25^1 312 000 livros [~1,9*10^1 834 097 em notação científica], e não estamos sequer considerando as variações de títulos nessa conta porque Borges não especifica seu limite. Esse é um número tão inimaginavelmente vasto que a quantidade de átomos do universo, estimada em 4*10^81, parece minúscula em comparação. Resumindo, a Biblioteca contém tudo que pode ser escrito com o alfabeto.

Em uma entrevista à Flavor Wire, Basile disse ter se surpreendido quando descobriu que ninguém havia tentado reproduzir a Biblioteca antes, já que ela é “uma extensão tão natural das capacidades de um computador”. O escritor decidiu, então, aprender a programar para suprir essa falta. No final das contas, seu projeto acabou se tornando ainda mais ambicioso quando ele decidiu usar 26 letras, o que amplia o número de livros para 29^1 312 000.

No entanto, o desafio acabou se mostrando um pouco mais difícil do que o antecipado. O primeiro método de reprodução do site consistia em simplesmente gerar documentos de texto randômico e exibi-los para o usuário. Naturalmente, seria impossível recriar a Biblioteca inteira dessa forma. Na verdade, o número total de documentos necessários seria tão vasto que nem um universo inteiro feito de HDs seria suficiente para armazena-los.

Isso fez com que Basile entendesse o verdadeiro poder da representação virtual: seu programa foi reescrito com um algoritmo que cria a página do livro automaticamente a partir de um input em hexadecimal que representa a posição do hexágono que contém o trecho.

Mas isso não quer dizer que o problema da representação fiel foi completamente resolvido. O tamanho quase inimaginável da Biblioteca continua a criar desafios interessantes. Basile precisa trabalhar com números de cerca de 6 000 dígitos, mas as estruturas de dados normais da linguagem que ele está utilizando no momento [C++] só permitem 17 dígitos [64 bits de precisão].

No conto de Borges, a espécie humana gastou suas gerações devassando o labirinto de livros em busca de verdades universais. “Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade.” Mas essa impressão logo se dissipou: a imensa maioria dos livros só continha uma coleção de letras sem nexo.

Quem visitar a Biblioteca virtual vai notar que ela também é dominada pela desordem. No entanto, ela oferece uma tremenda vantagem sobre a Biblioteca física: um campo de busca. No site é possível fazer buscar de trechos de até 3 200 caracteres. Também é possível procurar hexágonos virtuais pelo seu endereço hexadecimal e depois escolher, manualmente, a parede, a prateleira, o volume e a página que talvez contenha uma profecia. Mas na maioria dos casos você se sentirá tão perdido quanto os bibliotecários de Borges.

Mesmo que o motor de busca se torne mais sofisticado, dominar a Biblioteca é uma tarefa impossível. Assim como a coleção de letras “China” têm vários significados em português e outros, distintos, em inglês, qualquer outra coleção de letras pode assumir significados linguísticos e criptográficos completamente imprevisíveis. “Falar é incorrer em tautologias”, como escreveu Borges. A biblioteca mais completa do universo é, portanto, inútil.

Por Leonardo Veras | Publicado originalmente em INFO Online | 25/05/2015

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