Convertei-vos e crede.. no digital


Por José Fernando Tavares | Publicado original em Colofão | 13/05/2015

É sempre difícil para nós [ao menos para mim] aceitar de bom grado as mudanças.

Parece que somos sempre levados a permanecer com os pés grudados no território já conquistado, com medo de nos lançarmos em busca de novas terras.

A sensação de insegurança que o novo mostra se contrapõe de modo brutal com a segurança que temos ao olharmos para trás e vermos o que já conhecemos. Foi assim, provavelmente, para o primeiro homem que ousou enfrentar o mar em busca de novas terras. É assim todos os dias de nossas vidas. Temos sempre receio de mudar e desconfiamos das coisas novas, sem nem mesmo conhecê-las.

Não é diferente para o mundo editorial, que olha os livros digitais como o pai coruja olha o primeiro namoradinho da sua filha. Temos medo e pouco conhecimento e, em consequência, tentamos modelar este novo à imagem do que já conhecemos.

A reflexão da Lúcia [veja aqui] já nos convidava a repensar um pouco o modo como estamos criando nossos livros digitais. Comprovo isto naqueles projetos que preveem a passagem de uma versão impressa para uma digital. Os critérios adotados pelos editores/autores/designers para esta “conversão” são sempre relacionados ao formato impresso, na tentativa de manter exatamente a mesma “cara”. O que, sabemos, não é possível. Surge assim a frase que todo designer de livros impressos diz: “Mas assim perdemos a riqueza do design”.

E é difícil convencer de que design é muito mais que espaçamento ou cor de fundo nas páginas. Existem muitos sites lindos [esteticamente falando] e que são feitos com a mesma tecnologia dos e-books no formato ePub; portanto, um e-book não deve ser necessariamente “feio”. Pode e deve ser “bonito”, seja qual for o significado de “bonito”.

O que precisamos é de uma “metanoia”1, palavra grega traduzida por conversão, mas que significa muito mais do que isso. É uma mudança nos critérios, no ponto de vista.2

Na prática, como podemos iniciar este processo? Repensando a apresentação do conteúdo e levando em consideração o novo suporte onde será apresentado. Não adianta manter todos aqueles espaçamentos que a página impressa permitia [ou exigia], porque a tela de um e-reader, tablet ou smartphone é pequena! Não adianta querer que a imagem passe de uma página para outra, pois um e-reader não tem página dupla3; não adianta querer que a minha capa seja quadrada como no impresso. Afinal, as estantes das lojas e os e-readers apresentam um espaço vertical.

Surge então a pergunta: por que perder este precioso espaço de marketing só para imitar o impresso?

Produzir um livro digital exige critério e não deve ser feito ao acaso, simplesmente eliminando as partes que não funcionam bem. Seria útil pensar a partir do leitor que irá pôr as mãos naquele aparelho e se confrontará com o conteúdo fornecido.

Algumas perguntas podem nos ajudar: é realmente relevante o modo como eu estou apresentando o conteúdo? Este design ajuda a perceber e viver melhor o texto? Agrega algo esta imagem, este enfeite, ou serve só para “encher linguiça”?

Lógico, para chegar a este ponto é necessário estudar, entender e sobretudo LER no formato digital.

Então, a primeira regra de ouro para quem produz conteúdo no formato digital é: LEIAM o que vocês estão produzindo em e-readers, tablets, smartphones4 e sintam se a apresentação do conteúdo era realmente o que vocês tinham intenção de comunicar.

Segunda regra: quando possível, criem primeiro a versão digital e depois a impressa.5

Finalizo com outro elemento prático que teremos oportunidade de aprofundar: pensem em um formato que possa agregar qualidades típicas do digital ao seu conteúdo, como o ePub3 fluido, que oferece a capacidade de adaptação para os vários tamanhos de tela, melhor navegação no conteúdo, integração com elementos multimídia e capacidade de poder apresentar o conteúdo seja online ou offline.

1. meta = mudança, ir além; nus = mente, mentalidade.
2. O “nus” para os gregos era o princípio que tudo governa e dá sentido à existência.
3. A menos que eu o vire na horizontal e tenha assim a simulação de uma dupla página. Isto, na realidade, causa mais problemas do que soluções.
4. Ler realmente e não simplesmente dar uma olhadinha ou fazer testes. A leitura prolongada de um texto vai ajudar a encontrar os pontos fortes da versão digital e as fraquezas do design.
5. A experiência da Maurem Kayna [confira aqui] é significativa neste sentido. Também fiz uma experiência parecida com um livro infantil e foi uma experiência muito interessante.

José Fernando Tavares

José Fernando Tavares

Por José Fernando Tavares | Publicado original em Colofão | 13/05/2015

Trabalha com livros digitais desde o início de 2009. Com formação humanística, viveu 20 anos na Itália, onde atuou como gráfico e diagramador de livros. Ali conheceu e se apaixonou pelos livros digitais. Fundou como sócio a Simplíssimo Livros e, no início de 2014, a Booknando Livros, uma empresa voltada à produção e à formação de profissionais da área com cursos e palestras sobre o tema. Ama uma boa macarronada e um bom vinho!