Tendências contraditórias


Como sabem, trabalho com livro digitais, o que significa que estudos de webdesign se relacionam ao meu trabalho. Apesar do trabalho de produção de e-book não ser exatamente idêntico ao de produção de sites, muitos conhecimentos são partilhados, como noções de HTML e CSS.

Em algumas leituras e experiências com websites recentes percebi que existe uma tendência web para designs responsivos ou fluidos, assim como os comumente utilizados na produção de livros digitais baseados em texto. Isso me fez pensar no mercado de e-books, em especial, na persistente idealização de livros de layout fixo.

Livros de layout fixo geralmente são a solução para livros ilustrados, livros com formatação de almanaque e revista e quadrinhos. Muitas vezes estes livros precisam, além da formatação em layout fixo, de algum outro recurso em javascript para funcionarem perfeitamente, como os pop-ups da Amazon, por exemplo.

Vamos recapitular alguns assuntos já tratados. Já sabemos que existem variações na visualização de e-books de acordo com o player, o sistema operacional e o app utilizado para leitura, certo? Se isso acontece com um livro que é puramente HTML e CSS, com textos que correm fluidamente, se adaptando aos diferentes tamanhos de tela dos dispositivos, imaginem num livro cujos valores são todos fixos e que exige interpretação de outros códigos mais avançados?

Não estou aqui para negar a necessidade de livros em layouts fixos. Acredito que em muitos casos eles funcionam e até funcionam bem, mas os valores fixos que são intrínsecos ao formato parecem se opor à lógica web de adaptabilidade.

Hoje muitos sites possuem versão mobile ou design responsivo, e-mails marketing são feitos com templates igualmente fluidos e, aparentemente, o livro digital está indo contra esta tendência, buscando ainda uma similaridade com o livro impresso que não faz muito sentido manter.

Ok, eu compreendo. Um livro digital em layout fixo com uma diagramação fixa pode ser lindo visualmente e ser prático por estar sempre acessível, não representar peso e todas as vantagens relativas à mobilidade do meio digital. Mas não consigo enxergar essa diagramação como inerente ao formato. Parece forçado, como se não quiséssemos abrir mão de relacionar este estilo de formatação com a identidade do livro.

Na editora Rocco geralmente quando pensamos em layout fixo estamos falando de livros infantis em que gostaríamos de utilizar recursos de animação. Tenho pensado cada vez mais que talvez a saída sejam realmente os aplicativos que possam não necessariamente ser uma versão app do livro impresso, e sim ser algo complementar, como o app desenvolvido pela Spellbound [antiga Magic Book] para o livro Where the wild things are.

Vi que já existem revistas, como a ELLE, que estão usando essa tecnologia de integrar a mídia impressa com a digital. O problema é que o desenvolvimento de apps exige um investimento infinitamente superior ao de um livro de layout fixo, sem necessariamente aumentar a perspectiva de retorno. Talvez a tendência da transmídia também não seja a solução. Talvez a solução seja desapegar na mídia digital das exigências que criamos com a mídia impressa. O que sei é que, apesar de terminar este artigo cheio de incertezas, existem evidências por aí de que o layout fixo precisa ser repensado e seria besteira não prestarmos atenção nelas.

Por Lúcia Reis | Publicado originalmente em COLOFÃO | 6 de maio de 2015