Com a Sopa nas mãos


Para um bom início de conversa, é interessante que eu me apresente. Nasci em 1983 e, alguns anos antes, os computadores pessoais chegaram ao mundo e, de uma forma definitiva, mudaram a maneira como pensamos e lidamos com conteúdo. Eu cresci neste mundo recém modificado, onde o físico começou a dar espaço para o que não ocupa espaço, e as consequências disso foram todas as escolhas que fiz até aqui.

Alguns anos à frente do surgimento dos Personal Computers – antes mesmo de eu ter consciência de quem era –, um novo futuro começava a ser construído a partir do olhar visionário de um homem chamado Tim Berners-Lee e a sua concepção da web.

Não apenas pela facilidade de comunicação que ela proporcionaria, essa invenção foi além de um modelo tecnológico: foi uma doutrina, um novo modo de pensar, que surgia.

A partir da minha geração, todas sofrem com suas influências e, a cada evolução, o pensamento se torna menos linear do que antes. Conexões improváveis vindas de todas as partes colidem em boas ideias e, por muitas vezes, são tão brilhantes quanto a própria web, fazendo com que suas fronteiras sejam empurradas para mais longe. E assim vejo nossos dias serem construídos, repletos de interfaces e desconstruções, mas, ainda, incapazes de compreender o que Berners-Lee nos propôs.

Dessa maneira, acabei acertando de forma intuitiva na formação em Design e seus estudos sobre forma, função, minúcias e detalhes, e mais ainda na concepção de uma empresa com a intenção de discutir sobre o futuro da construção e o uso do conteúdo, mais especificamente nos livros digitais, sendo esse o que for.

Com o Sopa nas mãos, o “Me dá um abraço?” [livro infantil escrito e ilustrado pela Clara Gavilan] é um projeto que exemplifica muito esse debate. No começo, todas as possibilidades estavam disponíveis para a construção do livro: vídeos, áudios, interatividade e tudo mais em um layout fixo. Mas, pensando melhor durante o projeto, pudemos perceber quais eram realmente os nossos objetivos com a obra, e palavras como “contemplativo” e “família” foram se tornando nortes. Desejávamos um “livro” que, além de possuir uma boa história, pudesse cativar sentimentos que antes só estavam disponíveis quando impressos. E foi assim que todas as interatividades que, no início, eram as “meninas de nossos olhos” se tornaram ornamentos e depois excessos, até serem quase que totalmente excluídas; foi um movimento de “simplificar a forma para que o essencial pudesse florescer” [parafraseando Hans Hofmann].

O processo de criação de uma obra digital não é somente formado por interatividades, APIs e códigos. O processo criativo tende a ser mais parecido com uma web do que o próprio WWW de Lee. De variáveis como telas de alta resolução, composições compatíveis com os formatos de leitura e também os “i something”, em que o briefing da autora/ilustradora dizia que os músicos e animadores deveriam estar contidos nessas métricas, foram pontos de diferenciação de um projeto corriqueiro, percebidos pela própria autora.

Ao perceber e dominar essas questões, a plástica ganha força e maturidade nas questões do não objeto, o que, nitidamente, não pretende competir com os livros impressos. Porém, assim como eu fui influenciado lá nos anos 80, hoje somos responsáveis por sugerir lapidações e prosseguir com a evolução do conhecimento. Gosto de pensar que estamos construindo outras formas de interação com o conteúdo e que livros como o “Me dá um abraço?” são apenas reflexos de anos vivendo sob a mentalidade digital. Não que isso faça com que vivamos menos o mundo físico – não acredito que exista essa diferença, muito menos essa competição de formas –, mas sim uma complementariedade mergulhada num movimento que deseja a cada dia ser mais fluida.

Voltando ao processo, nem só de fluidez foi a construção do livro da Clara. Tivemos algumas burocracias indesejáveis, como, por exemplo, descobrir que o Google não deseja mais publicar novas editoras em sua loja; a Apple desejar tantas autenticações que, em certo momento, achamos que seria impossível colocar o livro à venda e, além disso, o Kindle Fire não tem grande expressão em nosso dia a dia.

Mas tudo isso é superável quando observado pelos motivos certos. No final das contas, conseguimos publicar e o livro ficou por algumas semanas no top de vendas da iBookStore. Mas o que mais nos deixa felizes é receber notificações e marcações nas redes sociais de crianças usando nossos livros para construir seus imaginários, as músicas dos livros se tornando trilhas para as primeiras memórias delas, assim como a buzina do ICQ o é para muitos dos meus contemporâneos.

De modo geral, não sei se podemos defender uma teoria de construção dos livros digitais ou do mercado em sí, pois, mesmo que estejamos cercados por um mundo que se desmaterializa aos poucos, ainda somos apegados a maneiras de pensar que complementam o nosso tempo. E por isso, compartilho essa percepção que, muitas vezes, vem acompanhada por frases como “livros são como ideias e merecem transcender a forma física.”

Por Christiano Mere | Publicado originalmente COLOFÃO | 22 de abril de 2015

Fundador do Estúdio Sopa, onde busca a convergência ideal entre o design, conteúdo e tecnologia em busca de boas histórias para serem contadas.

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