Pense nos detalhes


Por Josué de Oliveira | Publicado originalmente em COLOFÃO | 1 de abril de 2015

O diabo, como dizem, mora nos detalhes. Naquelas coisas pequenas nas quais – pensamos, um tanto inocentes – ninguém vai reparar.

Em se tratando de e-books, há uma vasta gama de moradas possíveis. Já falamos sobre algumas: as variações de visualização entre plataformas, as gradações de cor numa capa, como adaptar títulos, formas de lidar com páginas de crédito de imagens… Não são questões que saltam aos olhos logo que se pensa sobre o todo da produção, mas estão lá e se impõem a qualquer desenvolvedor de e-books.

Vou falar sobre outra, agora –, para que fique ainda mais claro — , e vou usá-la para ilustrar um ponto que julgo importante:

Remissões

As remissões são trechos de um livro que fazem referência a outros trechos, anteriores ou posteriores, do mesmo livro. As formas como se apresentam podem variar muito.

Por exemplo, digamos que, num livro de não-ficção, o autor faça referência a um conceito apresentado na página 125. Ou que relembre o que disse no subtópico X do capítulo Y. Pode ser que a referência seja bem direta (“Ver página X” ou “ver nota 45?), pode ser que não.

O que o desenvolvedor e-book tem nas mãos aqui é uma questão semelhante a das notas e dos créditos de imagens: há um local sendo apontado e o leitor precisa chegar a ele. Como proporcionar isso?

Questão semelhante, resposta idem: links.

(Sim, sei que soa repetitivo, mas esse é um trabalho que depende muito de rotinas e práticas bem definidas. Soluções que abrangem mais de um problema são suas melhores amigas, então nunca é demais enfatizá-las.)

Num livro impresso, a reação de um leitor que queira seguir a indicação apresentada é voltar ou avançar até a página, tópico ou capítulo que é remetido. No e-book, simplesmente manter como está não faz sentido, tanto por uma razão negativa quanto por uma positiva.

A negativa: o número da página no livro impresso perde o sentido no meio digital; será uma informação inútil para o leitor. A positiva: o formato permite um tipo de movimentação pelo livro, através dos hiperlinks, que o impresso é incapaz de proporcionar. Trata-se, portanto, de uma questão de evitar as limitações e exaltar as potencialidades.

De que forma isso pode ser feito? Bem, vou dar apenas um exemplo, o da Intrínseca, onde trabalho. Quando há referências a outras páginas, substituímos o texto original por um que indique a presença do link.

Ver página X –> Ver aqui;

Ver nota Y –> Ver aqui;

Ver tópico XY ou

Como vimos no ponto Z… ou

Veja na nota XXX –> Ver tópico XY / Como vimos no ponto Z / Veja na nota XXX

Como dá para notar, o sublinhado é o elemento de destaque, chamando a atenção para o link.

Nosso padrão é esse. Referências com outro tipo de configuração são analisadas caso a caso, mas é pouco provável que se afastem deste princípio geral.

Voltando aos detalhes

O ponto que quero ilustrar é justamente este: por menores que sejam, não se pode fugir destas questões. Elas sempre estarão ali, e saber resolvê-las pode ser a diferença entre oferecer uma experiência razoável e uma muito boa.

O que me ajuda a estar pronto para lidar com alguns desses detalhes é ter um manual de estilo, desenvolvido com a ajuda do editorial, em que diversos padrões e soluções são descritos. Outras coisas “pequenas” que este manual contempla: padrão para legendas em encartes de imagens, padrão para lidar com tabelas longas, padrão para lidar com elementos separados por barras, padrão para adaptar com mapas… Um manual para o cotejo do e-book, explicando o que deve ser marcado para futuras correções, também é uma ótima pedida, já que o cotejador pode ficar atento a coisas que você sabe que podem estar lá.

A tentativa é ser o mais amplo possível, pescar cada pequeno detalhe e tentar dar a ele uma solução. O objetivo sempre é oferecer a melhor experiência, mesmo naquilo que passa despercebido.

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira

Josué de Oliveira tem 24 anos e trabalha com e-books há pouco mais de dois. Integra a equipe de digitais da editora Intrínseca, lidando diretamente com a produção dos mesmos, da conversão à finalização. É formado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Tem alguns contos publicados em antologias e um romance policial que, segundo rumores, um dia ficará pronto.