Ode ao colofão no eBook


Eu sei, isso tá com a maior cara de post institucional chapa-branca. Mas prometo que não é. Só que também não posso prometer que é um texto tão prático quanto os que costumam aparecer por aqui

Lembro que quando o Hermida me contou que os e-books da Cosac tinham colofão, eu tive que segurar uma risada [tinha acabado de conhecê-lo]. Mas que ideia ridícula! Colofão em um e-book? O leitor mal lê o do impresso… E o que tinha nele? A gráfica? A edição? O papel? No máximo, o ano em que o arquivo foi feito e, com muita boa vontade, a fonte, já que nem ela é fixa. Imaginei que fosse só algum capricho de editora cult. Só pensei em uma finalidade agora, quase dois anos depois.

Pausa para explicar de onde veio a epifania: tem gente que canta no banho. Que ganha prêmio no banho. Que limpa azulejo no banho. Eu, pedante como sou, dou palestras. No dia em que escrevi este texto, estava contando para uma plateia muito interessada [dois vidros de condicionador e uma saboneteira] a origem do nome do site para o qual eu contribuo¹. Fim da pausa.

Então. Estava refletindo sobre por que um e-book deveria conter um colofão, essa coisa arcaica. Pode haver outros motivos, mas foi justamente a fonte que me deu um lampejo: ele marca uma ausência.

Parece bobo a princípio, mas é uma rebeldia, ao mesmo tempo uma pichação de ônibus e um protesto silencioso na frente de um tanque. Mais uma informação irrelevante para não ser lida, mais duas ou três linhas de código para a loja passar por cima sem compreender o conteúdo. No entanto, para quem trabalha no mercado editorial ou tem um fascínio especial por seus produtos, deve ser um marco. Significa que não importa a configuração que o leitor final usou ou a predefinição que o e-reader descartou, aquilo ali não é só um texto. Você está diante de um livro. Não é só conteúdo, mas também uma intenção editorial. Você pode ler até em Comic Sans, se quiser, mas saiba que alguém gastou algum tempo escolhendo uma tipografia.

Um livro não é só um texto para ser vendido. Não pode ser. Séculos de desenvolvimento não foram uma extravagância, são reflexo da necessidade de uma linguagem não verbal com características próprias para construir um significado que extrapola as palavras. Nenhum espaço narrativo é arbitrário, nenhuma cor é só estética. Há uma intenção. Abandoná-la é empobrecer a leitura. Sinalizá-la é uma obrigação.

Confesso que posso estar viajando loucamente, mas posso garantir uma coisa: os shampoos já confirmaram presença na próxima palestra.

Por Mariana Calil | Publicado originalmente em COLOFÃO | 4/3/2015

Mariana Calil

Mariana Calil

Mariana Calil é formada em Produção Editorial na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passeou pela produção gráfica, fez uma breve visita ao comercial e hoje é assistente editorial. Vive a utopia de que dá para trazer para o mercado a teoria da faculdade e levar para a academia a prática do cotidiano.