Livros de papel estão em queda, rumo à extinção. É questão de tempo?


Uma pergunta que há anos ronda as redações jornalísticas agora começa a também tomar de assalto outros setores, como o editorial e o monetário: o jornal em papel, os livros e o dinheiro físico [a moeda] sobreviverão aos avanços tecnológicos? Se sim, quais mudanças acontecerão [e também quais já estão acontecendo] nas formas de consumo desses bens?

De fato, é difícil imaginar um mundo onde não existam livros que possamos folhear ou onde ganhamos e gastamos dinheiro sem nunca termos tocado nele. Contudo, essa realidade [que alguns chamariam de apocalíptica] não parece tão distante.

Hoje, por exemplo, o total de dinheiro que circula apenas pelos meios eletrônicos é cerca de 74 vezes a quantidade de papel-moeda em posse dos bancos e de 14 vezes a quantidade total de papel-moeda existente, segundo o Instituto Ludwig von Mises- Brasil — uma associação voltada à produção e à disseminação de estudos econômicos e ciências sociais.

Já no mercado editorial brasileiros, os e-books ganham cada vez mais espaço. Segundo a Câmara Brasileira do Livro [CBL], em dois anos a receita da venda de livros digitais cresceu 14 vezes. Hoje, eles representam praticamente 3% do total de vendas das principais editoras.

Revistas e jornais impressos também sangram por conta das mudanças nas formas de comunicação. Em 2012, em um editorial antes de um debate ao vivo, o jornalista Alberto Dines, criador do site Observatório da Imprensa, destacou que a mídia vive tempos de angústia.

A pujança da nossa civilização nos últimos milênios apoiou-se paradoxalmente num produto extremamente frágil, vulnerável, perecível: o papel. E o papel, segundo anunciam as ‘cassandras’, está com os dias contados. O que antes funcionava no espaço e medido em centímetros, agora foi transformado em bits, bytes, impulsos armazenados em chips microscópicos ou nas nuvens.

O mesmo movimento é visto na educação, onde há escolas que aos poucos vão reduzindo a necessidade do caderno e livros físicos e os trocando por meios digitais, como tablets e notebooks.

Mas acabar com o papel ainda é um pensamento distante. Embora aconteça uma migração natural para os meios eletrônicos — dinheiro se transforma em cartão de plástico, livro em e-books e jornal em sites noticiosos — a celulose ainda é uma das grandes invenções da humanidade, e vai estar presente no nosso dia a dia por muito tempo ainda, embora com redução no futuro.

Mas em tempos de preocupação ambiental, essa redução gradativa, quando acontecer, fará um bem para o meio ambiente, já que a materia prima do papel é a celulose extraída das árvores.

Linha do tempo

Livros x e-books, com o passar dos anos

1400

Na Idade Média, ter um livro era um luxo. As obras — em geral manuscritos, feitos com grande quantidade de pergaminho e com o trabalho dos copistas [artesãos que copiavam os manuscritos] — custavam caro, muito caro. Em Paris, o “preço médio” de um livro correspondia a sete dias de “salário e pensão” de um notário ou secretário do rei, equivalente aos conselheiros do Parlamento e os professores da universidade. Uma das mais importantes e maiores bibliotecas da época, a do escrivão do parlamento Nicolas de Baye, possuía 198 volumes.

1450

O surgimento da Bíblia de Gutenberg marcou o início da produção em massa de livros. Uma verdadeira revolução. Hoje, a maior biblioteca do mundo é a do Congresso norte-americano, localizada em Washington, nos Estados Unidos. O local hospeda mais de 155 milhões de itens, sendo mais de 32 milhões de livros catalogados e mais de 63 milhões de manuscritos.

2005

Há uma década a internet vem mudando a cara do mercado editorial. Nos Estados Unidos, as editoras atuam mais em lojas online e vendas de e-books do que em varejistas físicas. Em 2013, as vendas “virtuais” somaram US$ 7,54 bilhões, contra US$ 7,12 bilhões dos livros tradicionais, de acordo com estatísticas da BookStats. Foram 512 milhões de e-books vendidos, um aumento de 10,1% na comparação com os números de 2012.

2013

No Brasil, os livros digitais começam a se consolidar como uma realidade. De 2012 para 2013, a venda de e-books registrou um crescimento de 225,13%, segundo a Pesquisa FIPE/CBL-SNEL 2013. Em 2012, a mesma pesquisa já havia apontado um crescimento de 343,44% sobre o ano anterior. Além disso, no ano retrasado, o mercado do Brasil movimentou R$ 12,7 milhões contra R$ 870 mil em 2011. Contudo, a venda dos e-books ainda representa somente 3% do faturamento das editoras. Algo que em breve deve mudar.

FRASE

É inegável o avanço rápido e assertivo dos livros digitais em nosso país com as livrarias virtuais atraindo, de modo progressivo e constante, leitores de todas as idades e classes sociais. As editoras também têm investido para se adequar a esse novo mercado. Houve avanços em relação ao formato e distribuição, assim como no desenvolvimento de conteúdo. A tendência é de que os formatos convivam. Se por um lado há os recursos tecnológicos que atraem certo público, por outro há pessoas que gostam de folhear o livro, do contato com o papel, de manusear, fazer anotações. Não acredito que o livro impresso acabará”, de Karine Pansa, ex-presidente da Câmara Brasileira do Livro [CBL].

Bem Paraná | 19/02/2015