Do digital para o impresso


As peculiaridades de cada suporte

Você já deve ter lido diversos testemunhos sobre os desafios de transpor determinados livros impressos para o formato digital, certo? Algumas obras podem ser mais complexas de acordo com o conteúdo ou peculiaridades de projeto gráfico. Um exemplo interessante é o da obra de Gógol sobre a qual o Antonio Hermida falou tempos atrás e que acabou não sendo editada no formato digital.

Já acompanhei vários relatos a respeito das agruras que se pode encontrar na produção de certos e-books porque me interesso pelos mistérios do formato e sempre desconfiei dos discursos simplificadores quanto à aparente facilidade de se produzi-los, como se um CTRL+C / CTRL+V associado a algum botão mágico de “convert” pudesse resolver qualquer caso.  Recentemente, porém, enfrentei o desafio do caminho contrário: criar a versão impressa de um conteúdo concebido para a web.

A experiência foi rica e me aproximou de gente criativa e competente, mas não foi livre de alguns percalços.

Conteúdo feito para a web sempre cabe no papel?

O começo de tudo foi a provocação do amigo Marcelo Spalding para a criação de uma obra literária especialmente para o meio digital, em finais de 2012.  Assim nasceu Labirintos Sazonais, um site “caseiro” publicado em 2013 e que, mais tarde, foi contemplado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul para sair dos bytes para as páginas.

O[s] texto[s] composto[s] de fragmentos inspirados nas estações do ano aproveitava[m] os recursos da web para oferecer uma experiência de leitura não linear, onde o leitor escolhe uma entre quatro alternativas possíveis de início, de meio e de fim da história, totalizando, por combinações, 64 histórias diferentes conforme a estação do ano eleita para cada trecho.

A surpresa da aprovação do projeto, que previa a publicação de um site mais interativo, um e-book e a versão impressa, trouxe muitos desafios; todavia, o mais assustador foi, sem dúvida, o de criar um projeto gráfico capaz de reproduzir no papel a experiência dos hyperlinks de um modo novo.

O poder das redes sociais [reais]

Já na versão beta do Labirintos Sazonais, que foi publicado em versão trilíngue com o apoio de tradutoras que só conheço virtualmente, pude sentir o poder e o alcance que as boas relações que construímos na web têm na concretização de ideias. Rafa Lombardino, que conheci em função do blog EbookBrasil e do seu trabalho com o site Contemporary Brazilian Short Stories, viabilizou as versões para o inglês e o espanhol.

A ousadia de pensar em uma versão impressa surgiu quando conheci Airton Cattani e seu livro 40 Microcontos Experimentais, que recebeu o 1º lugar no Prêmio Açorianos de Literatura 2011 e 2º lugar no 54º Prêmio Jabuti de Literatura 2012, na categoria projeto gráfico. Isso aconteceu em uma oficina sobre produção de livros do amigo Paulo Tedesco, em Porto Alegre, a partir da qual começamos a discutir as possibilidades de transposição do conteúdo digital para o impresso e fechamos uma parceria bacana.

Cortázar, em O Jogo da Amarelinha, já havia criado um livro que utilizava a lógica dos hyperlinks, mas a “navegação” nas páginas se dava através de indicações ao final de cada capítulo e isso seria visualmente pouco estimulante no caso de Labirintos Sazonais, especialmente porque a ideia, desde o começo, era usar fotografias que estivessem ligadas ao tema.

A solução gráfica

Talvez inspirado na versão em planilha eletrônica do texto [onde a criação e as revisões foram feitas], Cattani criou o livro com uma paginação peculiar. São três páginas-colunas que podem ser manuseadas de modo independente, permitindo a formação de todas as combinações possíveis entre o início / meio / fim das quatro estações do ano. No verso de cada página-coluna estão fotografias alusivas às diferentes estações, mais em termos de cores do que cenas propriamente.

As páginas-coluna de cada idioma são grampeadas em um papel de maior gramatura e o processo se repete para cada idioma.

Antes de chegar a esse formato, houve testes com uma versão das páginas-coluna em dobradura, mas isso limitava a formação de todas as combinações possíveis. Chegamos também a cogitar o uso de páginas-cartões, páginas soltas em um bolsão, como se fosse um jogo, mas também descartamos essa possibilidade pensando no risco de se perderem peças e a completude do texto ser comprometida.

A capa [sim, sei que sou suspeita para opinar, mas ainda assim o faço] traduziu barbaramente a ideia do labirinto e a origem digital da obra.

5ls
As dificuldades operacionais

Até a elaboração da prova final foram confeccionados vários “bonecos” do livro de modo artesanal, pelo próprio Cattani.

Até o processo de orçamento com as gráficas teve de ser feito pessoalmente, pois era muito difícil explicar as peculiaridades do livro sem que ele fosse manuseado.

Naturalmente o custo de impressão e montagem de um livro assim fica muito acima do praticado para impressões “convencionais”. Sem entrar em detalhes de cifras, o custo unitário deste livro com poucas páginas foi 70% superior ao custo de uma tiragem de 500 exemplares de um livro de 120 páginas convencional.

A qualidade gráfica ficou ótima, mas uma parcela dos exemplares apresentou erro de montagem – problema que a gráfica prontamente se dispôs a corrigir recolhendo e substituindo os exemplares com erro.

O saldo

Depois dessa saga toda, fica a pergunta se casos assim de vínculo / aproximação entre o digital e o impresso serão mais frequentes ou ainda continuaremos a insistir em discussões sobre quem “vencerá” – o byte ou o papel? Sou da opinião de que ler no digital deve ser visto como uma possibilidade a mais a serviço dos reais ganhos da leitura, não porque seja uma nova ou melhor maneira de ler. No caso deste trabalho, creio que a experiência do leitor é distinta em cada um dos meios, o site, o livro impresso e o e-book. Não tenho a isenção necessária para opinar sobre as vantagens / desvantagens de cada um. Deixo isso aos curiosos que se aventurarem nos diferentes formatos.

Por Maurem Kayna | Publicado originalmente por Colofão | 14 de janeiro de 2015

Maurem Kayna

Maurem Kayna

Sou engenheira e escritora [talvez um dia a ordem se altere], bailo flamenco e venho publicando textos em coletâneas, revistas e portais de literatura na web, além de apostar na publicação “solo” em e-book desde 2010. A seleção de contos finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2009 – Pedaços de Possibilidade, foi meu primeiro e-book; depois por puro exercício e incapacidade para o ócio, fiz outras experiências de autopublicação, testando várias ferramentas e plataformas para publicação independente.

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