Metadata for Dummies


Por Ednei Procópio | Publicado originalmente em Colofão | 10 de dezembro de 2014

Pessoas e empresas que atuam no ramo editorial também estão vivenciando a era das palavras-chave [as chamadas keywords]. Em um novo e rico cenário onde esse atributo se torna um importante ator na busca por produtos e serviços, um leitor não conseguirá adquirir, consumir ou ler um livro, se não souber, no mínimo, da existência da obra.

Com o aprimoramento e a democratização da Tecnologia da Informação e Comunicação, as antigas barreiras para a criação, a publicação e a comercialização de livros se romperam. Em uma época em que o marketing digital domina o mercado, a aquisição de uma obra poderá estar condicionada também à qualidade empregada no tratamento dos dados sobre os livros, não somente ao conteúdo da obra em si.

Antes do advento da chamada Web 2.0, e mais tarde da Web Semântica, onde as palavras-chave ou as tags se tornariam itens de real importância na classificação de páginas, posts e produtos digitais, havia a necessidade de cadastro das nossas páginas na Internet em cada um dos buscadores até então disponíveis. Hoje, porém, através das poderosas ferramentas de SEO [Search Engine Optimization, ou otimização para mecanismos de buscas] é possível recorrer aos modernos e poderosos robôs de pesquisas para que encontrem e mostrem o conteúdo de produtos que nós, escritores e editoras, queremos divulgar, utilizando a semântica das palavras-chave.

Um dos pontos cruciais na atual questão da divulgação dos livros é a identificação dos dados sobre a obra. Sem uma identificação e classificação precisa dos dados sobre o livro, o produto não será encontrado nos diversos sistemas de buscas em bibliotecas, livrarias, sites, redes sociais especializadas etc.

I know

Os metadados são os conjuntos de dados e informações sobre os livros. Eles permitem não só que as ferramentas de Tecnologia da Informação e Comunicação busquem livros através de palavras-chave, como também identifiquem o valor de cada dado encontrado pelo usuário/leitor.

Para o website Last.fm, por exemplo, a palavra-chave identificaria o nome de um dos compositores da canção . Na ferramenta de busca do Google Play, ou Google Books, no entanto, a palavra-chave identificaria o nome do autor do livro . Através dos metadados, no entanto, os sistemas não só reconhecem como o título de um livro, e como o título de uma canção, mas também reconhecem estes dados como sendo uma identificação de objetos, de produtos digitais, de arquivos contendo música e livro. O que permite uma inteligência maior nas informações buscadas, encontradas e mostradas pelos mecanismos de pesquisa.

Esta seria uma das principais aplicações dos metadados voltados ao mercado editorial: dar valor e função a uma determinada palavra-chave para que cada dado tenha vida própria e identificação precisa.

Uma vez que sistemas inteligentes de mapeamento reconhecem como sendo um livro em si e não apenas o título de uma obra, seria mais fácil no futuro, por exemplo, permitir a rastreabilidade de livros digitais em suas versões piratas. Esta é, inclusive, uma aplicação prática em que o próprio Google poderia atuar através de filtros e seleção de conteúdo.

I like

O mercado editorial, já amplamente globalizado, sofre da oferta excessiva e generalizada de conteúdo para livros. Há livros demais sobre todos os gêneros e assuntos. Somente no Brasil, por exemplo, são lançados aproximadamente cerca de 20 a 26 mil títulos a cada ano, entre novas edições e reedições. Com o advento dos livros digitais, e vencidas algumas barreiras que não vêm ao caso neste artigo, a oferta de títulos à venda tende naturalmente a multiplicar-se com o tempo.

Mas e a demanda? Como o leitor pode saber se um determinado livro, encontrado através dos mecanismos de busca na Internet, está sendo vendido na versão impressa ou digital? Através dos metadados. Botões e banners que piscam só ajudam na tomada da decisão, não ajudam os leitores a encontrarem os formatos desejados para o consumo e leitura.

Enquanto há livros demais, os leitores já habituados ao consumo não encontram os que gostariam de ler. O excesso na oferta e a avalanche de informações desencontradas atrapalham a procura e o consumo dos mesmos produtos editoriais que gostaríamos de vender. É uma espécie de concorrência, indireta, mas que interfere diretamente quando uma editora busca atingir um determinado público-alvo.

Neste cenário de livros demais, o leitor só terá a oportunidade de decidir sobre a compra se mantiver um contato mínimo com o novo livro, lançamento ou com os demais títulos em catálogo. No caso de sites, a oferta de dados completos sobre a obra [incluindo a capa, um sumário e até um trecho] ajudaria em muito na tomada de decisão. Mas esta oferta seria apenas o início. Os canais de venda que estão conseguindo utilizar bem as ferramentas de marketing digital voltado ao mercado editorial, com a aplicação dos metadados, são hoje os canais com mais procura pelos leitores.

I want

Citando o estudo que realizei para o meu último livro “A Revolução dos eBooks” [Senai-SP Editora, 2013], as tiragens das atuais edições dos livros impressos são cada vez menores em comparação às edições de uma década atrás. Os catálogos das editoras, porém, são cada vez maiores em números e também mais ricos. Uma vez que a oferta de livros está crescendo, fica cada vez maior o desafio das editoras e autores de levar as suas obras e catálogos aos leitores.

Estimo que, até o final deste ano, sejam catalogadas, através de escritórios e bibliotecários que oferecem este tipo de serviço, cerca de 30 mil obras, no total, muitas das quais já em versão digital. Com mais opções de obras à venda, o leitor terá maior interesse em adquirir livros cuja existência e disponibilidade ele reconheça e com que, de algum modo, teve algum contato. Se o leitor não tiver a oportunidade de folhear a versão impressa da obra, deve pelo menos ter contato com a versão digital, encontrada, quase sempre, através dos ricos metadados.

I need

Os metadados podem ajudar o leitor a encontrar os livros que quer e precisa ler, para o aperfeiçoamento do seu trabalho ou mesmo para o entretenimento. Um exemplo bastante prático da utilização dos metadados aplicado ao universo dos livros é a do website “Todos tus libros” [www.todostuslibros.com], um case desenvolvido na Espanha.

Através do “Todos tus libros” é possível visualizar a capa dos livros, as informações mais básicas sobre a obra [como autor, editora, resenha, primeiro capítulo etc.], mas também é possível buscar pelas livrarias físicas da região onde o leitor se encontra e onde ele poderia comprá-los. Ou seja, definido o livro, o sistema mostra o endereço e o mapa onde o exemplar se encontra à venda.

I have

Os metadados podem ajudar as editoras a organizarem os seus catálogos. Mas quais seriam então os principais dados no caso dos livros? Os principais dados que facilitariam a pesquisa e busca das obras seriam:

#Título da obra
#Autor da obra
#Assunto/categoria/matéria
#Resenha
#Conteúdo rico [trecho da obra, sumário]

Alguns outros dados, menos bibliográficos e mais comerciais, também são considerados como itens obrigatórios quando se trata de metadados de livros:

#Número de páginas
#Preço
#Formato
#Disponibilidade
#Amostra

Através de um website como o “Todos tus libros”, editoras brasileiras podem compartilhar todos estes ricos dados de seus catálogos com distribuidoras, livrarias, bibliotecas e desenvolvedores de soluções para o mercado editorial em geral.

O maior desafio do mercado hoje é realmente estar preparado para atender toda a demanda, tanto em vendas de livrarias físicas quanto em livrarias e bibliotecas online. Não basta apenas que os livros sejam diariamente lançados às estantes, é preciso, para que os exemplares não fiquem parados nos estoques, que todas as obras possam ter os seus dados mapeados com precisão pelas ferramentas de busca para que a procura e o contato com os livros se reverta em vendas para todo o setor.

A tecnologia de metadados aplicada aos livros pode ajudar o mercado a escoar melhor os seus catálogos utilizando as mais modernas ferramentas de comunicação e divulgação de obras.

Por Ednei Procópio | Publicado originalmente em Colofão | 10 de dezembro de 2014