Sobre o uso de fontes tipográficas nos eBooks


POR Lúcia Reis | Publicado originalmente por COLOFÃO | 3 de dezembro de 2014

Algumas editoras utilizam fontes embutidas como forma de caracterizar o projeto gráfico de suas edições digitais. Este recurso, apesar de muitos considerarem meramente estético, pode ajudar a acrescentar significado em determinadas narrativas, como distinguir vozes ou narradores, ou até mesmo destacar uma narrativa dentro da narrativa [como um bilhete encontrado pela personagem ou uma carta datilografada].

O fato é: embutir fontes em e-books necessita de cuidados e testes, pois o recurso mal utilizado pode prejudicar seriamente a leitura. Para os casos em que as fontes acrescentam em sentido à narrativa, é essencial que se sejam mantidas. Portanto vou tentar enumerar alguns cuidados e erros possíveis para orientar nesta etapa da produção.

1. Formatos válidos de fontes para e-book

Não é recomendado utilizar fontes postscript em livros digitais. Elas podem causar diversos problemas e, em alguns casos, como no da Amazon, geram avisos na validação dos arquivos que devem ser levados em conta.

Os formatos mais indicados na utilização de fontes em livros digitais são o .otf e o .ttf. No entanto, mesmos estes podem causar problemas caso os arquivos utilizados estejam com erros no mapa da fonte.

Alguns exemplos comuns de erros possíveis são: a] a fonte não ser reconhecida e o dispositivo de leitura puxar uma fonte padrão; b] a fonte simplesmente não aparecer, fazendo com que o texto também não apareça; c] a fonte trocar todos os caracteres e o texto ficar simplesmente incompreensível; d] todas as anteriores.

Existem três soluções para estes problemas: a] verificar se há outra versão de arquivo para esta fonte; b] editar o arquivo com erro no FontForge, verificando os warnings que aparecem ao abrir a fonte no programa e gerando novo arquivo de fonte; c] substituir a fonte por uma que produza um efeito similar no projeto gráfico do livro.

2. Declarando fontes no CSS

No Sigil, podemos acrescentar fontes simplesmente clicando na pasta Fonts com o botão direito do mouse e selecionando a opção “Add Existing Files…”. Após selecionar os arquivos de fonte e inseri-los no ePub, é necessário acrescentar uma declaração que denomine que seu arquivo utilizará tal fonte para o miolo.

No meu exemplo eu escolhi utilizar a fonte Alegreya. Para fazê-la funcionar, primeiro eu preciso declarar os arquivos dela no meu CSS:

@font-face {font-family: “Alegreya”; font-weight: normal; font-style: normal; src:url[“../Fonts/Alegreya-Regular.otf”];}
@font-face {font-family: “Alegreya”; font-weight: normal; font-style: italic; src:url[“../Fonts/Alegreya-Italic.otf”];}
@font-face {font-family: “Alegreya”; font-weight: bold; font-style: italic; src:url[“../Fonts/Alegreya-BoldItalic.otf”];}
@font-face {font-family: “Alegreya”; font-weight: bold; font-style: normal; src:url[“../Fonts/Alegreya-Bold.otf”];}

Como vocês podem ver, o font-family não muda, independente do arquivo ser Regular, Bold, Italic ou Bold-Italic. Isso permite que você só precise declarar a fonte de corpo uma única vez, no body, e que as marcações do HTML de itálico e bold puxem o estilo certo da fonte em cada caso específico.

body {padding: 0pt; text-align:left; font-family: “Alegreya”, serif; }

3. Fontes no iBooks

Para o iBooks utilizar a declaração acima é necessário o acréscimo de um arquivo XML que mude os parâmetros da Apple. O Josué falou sobre isso em outro post, sobre variações de arquivos em diferentes plataformas. Sugiro que o leiam, tem dicas bem legais além desta da fonte.

4. Projeto gráfico do impresso

Na produção de e-books ainda é normal que o projeto gráfico da versão digital siga o padrão da versão impressa. No geral isso não é um problema, mas há casos nos quais as fontes utilizadas no impresso podem causar problema na versão digital.

Por exemplo, fontes Light ou Extra Light podem não renderizar propriamente nos dispositivos de e-Ink, dificultando a leitura. Neste caso, talvez seja interessante trocar por outra versão da mesma fonte, um pouco mais encorpada, para se manter as características, mas permitir uma leitura mais confortável.

Outro problema muito comum é a utilização de fontes que não possuem versão de estilo itálico e bold no qual o arquivo InDesing força estes estilos. Nesse caso, temos duas alternativas: a] editar as fontes no FontForge criando estes estilos também de maneira forçada; b] substituir a fonte por uma similar que tenha os estilos já criados.

Conclusão

Sei que em alguns casos não dei uma explicação detalhada de como resolver os problemas e prometo escrever outro post com tutoriais de como editar fontes no FontForge, mas acho que deu para perceber que fontes embutidas em e-books é algo com que é preciso ter muito cuidado. O conselho que dou para todos, e este vale para tudo no que diz respeito à produção de e-book, é: teste seus livros e teste na maior variedade possível de e-readers, tablets e apps, pois é muito comum uma fonte funcionar perfeitamente em 99% dos dispositivos e o 1% no qual há falha prejudicar uma quantidade enorme de leitores.

POR Lúcia Reis | Publicado originalmente por COLOFÃO | 3 de dezembro de 2014

Lúcia ReisLúcia Reis é formada em Letras: Português/Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense, trabalha com livros digitais desde 2011 e hoje atua como Coordenadora de Livros Digitais na editora Rocco. Como todo bom leitor compulsivo, tem mais livros do que a prateleira comporta, e possui muitos mais em sua biblioteca virtual! Lê e-books todo dia no trajeto para casa, ao som de sua banda favorita, Thin Lizzy.

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