Entrevista Liliana Giusti Serra | Livro digital e bibliotecas


A forma de se consumir livros será alterada e a tendência indica que bibliotecas precisam aprender rapidamente a conviver e manusear acervos híbridos. Quem diz isso é a Liliana Giusti Serra, a autora de Livro digital e bibliotecas, que a Editora FGV acaba se lançar na sua edição de bolso, em formato impresso e eBook. “É um processo que vem ocorrendo, com o amadurecimento de editores, autores, livreiros e leitores”, ela diz, fazendo questão de ressaltar as diferenças com o que ocorreu com a indústria da música: “será diferente, mas isso não significa que o mercado editorial deverá se reinventar como o fonográfico, até porque aprendeu muito com ele”.

O trabalho do bibliotecário em proporcionar o encontro entre livro e leitor se transforma de forma definitiva. Com a modernização e a facilidade de acesso à informação os processos que estavam estabelecidos se alteram. Os bibliotecários se deparam com desafios sobre aplicação de novos modelos de negócio para licenciamento de conteúdo, empréstimo de livros digitais e privacidade dos usuários.

A expectativa dos leitores, a biblioteca do futuro, a alteração da forma física da documentação e os impactos no consumo causados pelas transformações na forma de acesso à leitura são temas atuais e de grande repercussão na estrutura das tradicionais bibliotecas.

Além de todo o avanço tecnológico que essas instituições vêm providenciando na disponibilização de seus acervos, uma outra necessidade deve ser considerada: a atuação profissional do bibliotecário.

Esse ‘novo’ profissional deve alterar sua forma de atuação, priorizando o serviço prestado e a atividade desempenhada, utilizando as disciplinas técnicas como meio e não como atividade-fim da profissão, tornando o espaço da biblioteca um local convidativo de conhecimento, crescimento e troca. O local da biblioteca também deve ser repensado como um ambiente que seja atrativo ao usuário, que permita interação alinhada com liberdade, não sendo apenas um espaço de troca e aprendizado, mas uma opção de lazer, repleto de oportunidades de descobertas e conhecimento.

É nesse cenário de tantas mudanças que a Editora FGV lança a obra Livro digital e bibliotecas, de Liliana Giusti Serra.

A autora, responsável pelo desenvolvimento dos softwares SophiA Biblioteca e SophiA Acervo, respondeu a 3 perguntas nossas. Confira:

Quais são as principais dificuldades encontradas pelas bibliotecas tradicionais na adequação da preservação e do acesso público às obras de seu acervo, funções originais dessas instituições, com o aumento cada vez maior da oferta e da demanda por publicações digitais?

O tratamento e gestão dos livros digitais são distintos dos impressos. As Bibliotecas precisam aos poucos iniciar a inclusão dessas fontes aos acervos. Vejo que o digital não inviabiliza ou inutiliza o impresso. Eles se complementam e permitem às bibliotecas poderem oferecer mais opções de conteúdo ao usuário, com variação de suporte, formato etc. A tendência é as bibliotecas possuírem acervos híbridos, com os ajustes que cada tipo de documento exige. O digital favorece a preservação ao eliminar a manipulação e deslocamento de originais. O acesso é ampliado, com títulos disponíveis nos catálogos das bibliotecas, podendo ser consultados de qualquer lugar, em qualquer horário.

O capítulo Sobre livros e música no formato digital inicia constatando uma certa resistência do mercado editorial sobre o avanço dos livros digitais com base nas grandes mudanças que ocorreram no mercado fonográfico há alguns anos. Até que ponto o futuro da leitura digital pode realmente seguir os mesmos passos da indústria fonográfica?

O mercado editorial está passando por período de transformações e as possibilidades e consequências ainda não são claras. A forma de consumir, ler, produzir livros está alterada. Os impressos coexistirão com os digitais e existe, a meu ver, espaço para essa convivência. Os editores têm resistência pois o caminho é incerto e pode comprometer o negócio do livro. É natural que queiram se cercar de seguranças ou controles, mesmo que isso signifique adicionar barreiras. A forma de consumir livros será alterada. Não tenho dúvidas disso. Porém, é um processo que vem ocorrendo, com o amadurecimento de editores, autores, livreiros e leitores. Será diferente, mas isso não significa que o mercado editorial deverá se reinventar como o fonográfico, até porque aprendeu muito com ele.

Qual a principal contribuição dessa obra para os profissionais envolvidos e leitores diversos?

Os livros digitais não são muito discutidos no Brasil. Ainda é muito novo para bibliotecas e bibliotecários. Se considerarmos que a oferta desses recursos já existe há mais de 10 anos nos Estados Unidos e Europa, podemos dimensionar o quanto temos que caminhar até estarmos familiarizados com o recurso. Os bibliotecários precisam conhecer a complexidade em trabalhar com os livros digitais, visando fazer as escolhas acertadas de fornecedores, modelos de negócios, tipos de conteúdo etc. Se o bibliotecário não conhece, como irá oferecer os livros digitais a seus usuários? A obra busca trazer o tema para discussão, alertando os profissionais da informação sobre a complexidade e possibilidades de aplicação desses recursos. É um tema aberto, com modelos de negócios e suas implicações sendo estabelecidos. Entender o que já foi utilizado em outros países pode auxiliar o Brasil no momento de estabelecer suas políticas de livros digitais para bibliotecas.

Incluir livros digitais exige planejamento – assim como criar bibliotecas digitais. O profissional bibliotecário precisa estar ciente da complexidade da gestão do conteúdo licenciado para posicionar-se no momento da definição de contratação de conteúdo. Dessa forma terá mais subsídios para fazer os acertos necessários em suas atividades profissionais.

Blog do Galeno | Edição 369 | 16/10/2014

Bibliotecas comemoram Dia da Leitura com palestra sobre empréstimo de eBooks e leitura digital


Além de contação de histórias para pequenos leitores e um amplo calendário de atividades literárias que acontecerão pelo país afora, as bibliotecas brasileiras vão comemorar, este ano, o Dia Nacional da Leitura [que coincide com Dia da Criança, que em 2014 cai em um domingo] com uma inovação, que também sinaliza a predisposição dos bibliotecários de se manterem antenados com os tempos atuais, marcados por uma forte presença das tecnologias digitais no mundo dos livros. Junto com a Árvore de Livros, uma plataforma de empréstimo de eBooks, o Conselho Federal de Biblioteconomia vai promover uma palestra virtual, seguida de debate, para mostrar como estão funcionando as primeiras bibliotecas de empréstimo de livros digitais e o impacto sobre a leitura.

O convidado para falar sobre o tema, com a palestra “Dos tabletes de argila aos eBooks: a revolução na palma da mão”, é o ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional Galeno Amorim, autor de pesquisas sobre o assunto e CEO da Árvore, que já opera em mais de 300 bibliotecas em 26 estados brasileiros. Segundo pesquisa do Observatório do Livro e da Leitura, que ele próprio coordenou, dois em cada três bibliotecários consideram que as novas tecnologias de empréstimo de livros devem atrair mais usuários às bibliotecas e, por isso, 97% estão dispostos a se engajar para promover os novos meios de leitura.

A palestra virtual será na terça-feira [14/10], das 11 às 12 horas, com transmissão ao vivo pelo serviço Hangourt, do Google. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo link http://migre.me/m9IHK.

Blog do Galeno | Edição 369 | 16/10/2014

Portal inova com uma ideia de incentivo à leitura


ARKOS é um portal com uma ideia inovadora de incentivo à leitura para classes do 2º ao 5º ano do ensino fundamental. ARKOS motiva alunos a ler mais e a criar o hábito da leitura. O portal usa para este fim conceitos comuns em jogos como pontuação, rankings, níveis, medalhas e adesivos virtuais, entre outros. O projeto foi inspirado em portais existentes na Europa e nos EUA usados por milhões de alunos. E a ideia foi aprimorada e adaptada à realidade brasileira.

Clique aqui para conhecer a ideia.

Tabletes cuneiformes à um clique de distância


POR EDNEI PROCÓPIO | PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 23/11/2012

Tablet da Epopeia de Gilgamesh

Tablet Original da Epopeia de Gilgamesh

Deixando um pouco de lado, apenas como exercício, toda essa questão dos livros digitais empacotados em arquivos ePub, PDF, HTML5 ou Apps, e expandindo um pouco mais o nosso horizonte de alcance, eu gostaria de indicar aos interessados em bibliotecas digitais o ótimo The Cuneiform Digital Library Initiative.

A Biblioteca Digital Cuneiforme [CDLI na sigla original] representa a iniciativa de um grupo de assiriólogos, curadores de museus e historiadores da Ciência, no sentido de disponibilizar, através da Internet [somente através da World Wide Web isto seria possível], a forma e o conteúdo dos tabletes cuneiformes que datam do início da descoberta da escrita, por volta de 3350 antes da Era Cristã.

Os tabletes cuneiformes foram praticamente inventados pelo cultura suméria por volta do IV milênio a.C., e são considerados os primeiros ‘hardwares’ a permitirem o registro e o compartilhamento de informação e conhecimento pelos nossos ancestrais.

E a nossa tecnologia atual, no entanto, está avançando a uma velocidade tão vertiginosa que está permitindo até que conhecimentos antigos, disponíveis antes somente em bibliotecas físicas e museus distantes, estejam disponíveis, olha só que sensacional, através dos modernos tablets.

Segundo os dados do próprio CDLI, o número de documentos como estes atualmente mantidos em coleções públicas e/ou privadas pode exceder 500 mil títulos, dos quais pelo menos 270 mil já foram brilhantemente catalogados pela iniciativa CDLI.

Através de iniciativas como a do CDLI, é possível, por exemplo, ter acesso ao texto original do que é considerado uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial, a “Epopeia de Gilgamesh“, um antigo poema épico da antiga Mesopotâmia [atual Iraque], compilado no século VII a.C. pelo rei Assurbanipal.

Eu vejo o fututo repetir o passado / eu vejo um museu de grandes novidades…” – Cazuza

POR EDNEI PROCÓPIO | PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 23/11/2012