Caro Jeff Bezos,


POR EDNEI PROCÓPIO | Publicado originalmente na Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Meu nome é Ednei Procópio, sou editor especialista em livros digitais. Não é de hoje que tento acompanhar os passos da Amazon. Tanto nos países onde ela atua quanto no Brasil. Digo tento porque venho apenas observando e evitando ao máximo expressar em público minha opinião pessoal a respeito do tema Amazon. Até mesmo em meu último livro, me esforcei para manter certa imparcialidade com relação ao assunto. Embora confesse ser difícil escrever qualquer coisa sobre eBooks sem citá-la em exemplos.

É que em meu país, mesmo após um hiato de tempo desde uma Ditadura Militar, e uma consequente cultura da censura de ideias, ainda hoje enfrentamos resistências quando exercitamos nossa liberdade de expressão. Muitos canais de comunicação simplesmente fingem ser um espaço democrático de discussão para a aproximação de ideias sobre o mercado editorial. De fato, alguns atuam como formadores de “achismos”, algo como “deformadores de opinião”. Uma verdadeira “panelinha” de manipuladores.

Mas estas não são as únicas razões que me levaram a escrever diretamente ao senhor sem correr o risco de ser mal interpretado pelos párias. Outra razão que exponho para reforçar alguns argumentos meus é que do mesmo modo que o mercado editorial a meu ver erra em inúmeras interpretações, elucubrações e até especulações a respeito de sua companhia, a Amazon também erra feio no modo como conduz suas negociações com este mercado, digamos, desesperado.

“Desespero” seria o adjetivo mais assertivo para este mercado?

É claro que não se aprende apenas observando os erros dos outros. Aprende-se mais, na verdade, com os nossos próprios erros. Mas os desesperados vivem falando em nome da Amazon e temos de admitir que o mercado editorial está agora nas mãos daqueles chamados “novos players”. Embora suspeite que a Amazon não se encaixe nesta categoria, já que ela já não é tão nova assim.

A Amazon é do tempo em que nenhum pseudo-especialista da cadeia produtiva do livro acreditava que um dia a Internet poderia vender mais livros impressos que as livrarias físicas. A Amazon é do tempo em que os barões da mídia zombavam, quando aqui mesmo no Brasil, eu afirmava que o mercado estava correndo um sério risco de um dia atrair mais interesse, audiência, acesso e consumo dos livros digitais em comparação às edições impressas. Pois é, alguém visualizou esta [im]possibilidade. E aqui estamos nós.

Agora, todos têm algo a dizer a respeito do que há poucos anos eram claramente contra.

Segundo a pesquisa anual “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo [FIPE/USP], sob encomenda da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e do Sindicato dos Editores de Livros [SNEL], as livrarias físicas ainda lideram os canais de vendas do mercado. Ou seja, permanecem como o principal canal de comercialização do setor editorial no Brasil. Mas poderíamos especular: até quando? Se a própria Amazon em breve pretende entregar os exemplares impressos com muito mais profissionalismo que muito lojista online local, que não tem lojas físicas?

Hoje, muitos editores reclamam porque só recebem da Amazon a ninharia de uns U$300 mensais da pela venda de seus eBooks. Mais uma vez, testemunho mercadores reclamando e desacreditando os eBooks, usando qualquer desculpa, desta vez a “mixaria” que recebem. E, observe que nem mesmo eles são capazes de investir em algo melhor que a própria Amazon já que comparam U$300 mensais à esmola, o que aqui chamamos de “dinheiro de pinga”.

Não são capazes de perceber ou não querem distinguir que a soma dos valores miseráveis que eles todos juntos julgam receber da sua pontocom, é na verdade, apenas a ponta de um iceberg que, no futuro, se uma negociação entre as partes não for realmente melhor conduzida, vai ser responsável por naufragar toda e qualquer possibilidade de ganho, até mesmo com os livros impressos.

Porque o que falta é o entendimento das partes.

Um indício desse cenário futuro é que, embora a venda de exemplares aqui no Brasil tenha crescido, segundo a pesquisa anual “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, de 2013 para cá, caiu o preço médio constante do livro. Tanto quanto o eBook, as vendas online de exemplares impressos, podem ser, indiretamente, um dos prováveis responsáveis pela queda do preço médio do livro país.

Onde os senhores pensam que isso vai dar?

Caro Jeff, aquele velho legado de editores convictos já se foi. Morreu. Ou melhor, muitos ainda estão por aqui, tentando sobreviver, porém, a maioria morreu. Não no sentido espiritual, mas no sentido social e cultural mesmo. Existem ainda os que vivem da “grana”, usando um termo bem popular, de uma renda, para não usar o termo economia, gerada na maioria das vezes pelos cofres públicos. Poucos são os grandes conglomerados editoriais liderados por homens que conseguiram passar pela revolução digital, focando no mercado varejista, lograram transferir sua história e legado aos profissionais mais jovens, afinal não largam o osso, e mantiveram-se vivos frente a esse admirável mundo novo. De meu país, não posso lhe dar nenhum exemplo sem ser chamado à atenção de algum modo pelos censores de plantão — que distorcem tudo o que a gente diz.

Na última oportunidade que fiz menção a um determinado conglomerado editorial em meu blog, dizendo para tomarem cuidado com a Amazon, recebi uma ligação telefônica me censurando. Eles fingem compartilhar ideias, e convites sociais, mas na verdade são censores da pior espécie

Mas o senhor é um homem dos novos tempos, não vai me censurar por ser direto, não é? Mesmo porque o meu objetivo não é ser agressivo, e com humildade peço desculpas se assim for interpretado. O que eu realmente quero lhe dizer é que ainda há tempo do senhor voltar às origens transformando a Amazon em um fenômeno que pode fortalecer o nosso mercado e não acabar de vez com ele. O que penso realmente da Amazon é que ela, como instituição de visão, não deve deixar pairar este sentimento de que algo sem ética está sendo feito.

Parece-me que hoje, e me corrija, por gentileza, se eu estiver equivocado, players bilionários como a gigante pontocom que o senhor fundou, sempre encarou o mercado editorial como um território a ser colonizado, para ser economicamente explorado e depois descartado após o avanço de um novo estágio em seu real objetivo com novos territórios. Então eu pergunto: por qual preço a Amazon quer se tornar um gigante mundial das mídias?

Ao custo do sucateamento de uma indústria inteira?

Às vezes, players como a Amazon pareceram estar mais interessadas no tipo de consumidor que os eBooks poderiam atrair do que na exploração dos livros propriamente dito. É como se os eBooks fossem para elas uma espécie de isca para os consumidores modernos. Algo como “vamos dar a eles os eBooks de graça e vender a eles geladeiras ou televisores”.

Deste jeito, os senhores se assemelham aos espanhóis na época da busca pelo eldorado. Cuidado para não dar um tiro no próprio pé, Jeff. Imagine se a Amazon não estivesse envolvida com toda essa revolução digital, mas estivéssemos em outras épocas e ela eventualmente envolvida, por exemplo, com a revolução tipográfica ocorrida depois do aprimoramento da prensa de tipo móveis, liderada, o senhor sabe por quem. Se estivéssemos nos referindo a passagem dos livros manuscritos para a manufatura dos livros graficamente impressos, para nos servir de exemplo, e se uma Amazon da vida fosse a detentora da patente da máquina de tipos móveis, é provável que até a imprensa que tanto contribui para a distorção desta realidade não existisse.

A Amazon, se compararmos com uma postura do tipo “vamos dominar o mundo, afinal dinheiro nós temos”, iria querer ser o próprio escriba, seu próprio gráfico, seu próprio livreiro e quem sabe até seu próprio leitor. É como se a sua empresa, caro Jeff, se bastasse para manter toda uma cadeia em torno de si mesma, em seu próprio círculo de existência, sem a presença de mais nenhum outro personagem no contexto.

O mercado editorial espera mais da Amazon. Espera que a Amazon o surpreenda. Mas talvez a Amazon não possa dar ao mercado aquilo que ele gostaria, nem da forma como espera. Sem dúvida algumas iniciativas da Amazon para o mundo dos livros são louváveis: CreateSpace, The Audiobook Creation Exchange, Amazon Author Central, Kindle Unlimited, KDP Select, etc., etc. etc. Mas como é que o senhor deseja, por exemplo, que as editoras regionais sejam parceiras da Amazon, se seu conglomerado também mantém uma editora — que, em última análise, os mercadores aqui de meu país consideram um concorrente direto?

Eles não estão de todo errados. Vou tentar traduzir o que alguns deles pensam. Se a sua companhia mantém uma gráfica de Impressão Sob Demanda, o que faremos com as gráficas digitais que prestam serviços para as editoras e escritores de meu país? Se a sua companhia mantém uma livraria online, como os livreiros de nosso país sobreviverão? Se a sua companhia mantém uma rede social voltada aos livros, o que faremos com os projetos similares disponíveis em nossa rede local? Se a sua companhia mantém o serviço de uma biblioteca digital no modelo de empréstimos, o que faremos com as nossas iniciativas locais?

Enfim, a Amazon, com tantos tentáculos, quer ser a sua própria cadeia produtiva do livro? Resultando que a antiga cadeia, que também deveria ter sido compartilhada há tempo, não está gostando nada disso.

A Amazon não está se equivocando ao enveredar nesse caminho, Jeff?

Porque o final de todo Big Bang aguarda um Big Crunch. E eles farão de tudo para que Amazon seja deportada deste país. E não me refiro a questão da tecnologia do livro digital, destaque de sua pontocom que trouxe finalmente os eBooks à ordem do dia; eu me refiro ao modelo de negócios que a sua empresa está impondo para um mundo editorial que ainda está, por sua vez, se ajustando ao modelo de economia compartilhada. Ora local, ora comunitária, na maioria das vezes global.

Deve ser um modo dos americanos de pensar. Eu não sei. Porque, aqui em meu país, nosso governo está buscando alternativas de financiamento em parceria com outros países emergentes, um deles até mais rico que o país do senhor. Isto se chama compartilhar riquezas. Pois vai chegar um dia em que nós por aqui teremos que compartilhar água para o mundo. Barris de água indexarão a economia global. E se gente como o senhor fosse dono de nossas reservas, no futuro as pessoas teriam que baixar um aplicativo para ter acesso à água potável. Ou ainda mais provável, elas seriam obrigadas a comprar um Kindle H2O.

S. Eliot disse que “num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo”. Felizmente temos outros players na jogada. E felizmente meu país está aprendendo a duras penas com seus próprios erros. Já adquirimos bastante aprendizado quando subestimamos o potencial da Internet. Não estamos inovando, mas ao menos estamos renovando. Porque jovens empreendedores de meu país têm que todos os dias se esquivarem da doutrina dos velhos senhores feudais do mercado editorial que os atrapalham todo o tempo.

Como exercício de uma realidade paralela, pense nesta tecnologia hoje disponível para os livros como uma única e nova impressora capaz de produzir centenas de milhares de páginas por minuto. Imagine se o gênio Johannes Gutenberg fosse um empreendedor arrogante como muitos em meu país, que se assemelham aos que dirigem a Amazon, não colocasse a tecnologia de tipos móveis a disposição do mundo. A Europa, caro Jeff, não teria lindas oficinas prensando páginas para iluminar até a mente daqueles que um dia fundaram o seu país.

E hoje, ao nascer de uma nova era que influencia todas as empresas, o que os senhores pensam que estão fazendo? Saiba que os velhos senhores feudais daqui não entenderiam, mas o senhor sabe bem que esta minha carta não é uma queixa. O mercado editorial tradicional também errou. Errou de forma lastimável quando subestimou a tecnologia rudimentar que estava sendo desenvolvida pela indústria de tecnologia para os livros digitais.

O senhor se recorda quando a Amazon iniciou as vendas do eBookMan? A Franklin fabricava dicionários eletrônicos, lembra-se? Nossos párias aqui também foram um dia tão arrogantes quanto parece hoje sua organização porque naquela época não estavam nem aí para o eBookMan. Não se importavam nem para o Rocket eBook, para o SoftBook. GlassBook. Microsoft Reader. Palm Reader. Mobipocket. E, nossa, são tantos os projetos que antecederam o conceito de eBook até chegarmos ao Kindle!

Mas a Amazon não, ela estava lá, literalmente vendendo todas estas novidades, enquanto o mercado encarava o livro na era digital com desdém. O mercado editorial errou porque em vez de observar o potencial de ruptura tecnológica, mais de seu conceito, optou por observar apenas a superficialidade das diferenças ignóbeis ente o cheiro do papel e a suposta dificuldade de uso do digital pelos consumidores. Menosprezaram seu potencial e subestimaram a capacidade dos jovens leitores deslizar seus dedos por uma tela touchscreen que mais tarde ultrapassaria o papel em legibilidade, usabilidade e portabilidade.

Tem gente aqui, caro Jeff, que acha que a tecnologia touch foi inventada pela Apple. E que livro em HTML5 não passa de um site. Tem gente aqui pensando que foi a Amazon quem inventou o livro digital. Para algum deles, a Amazon é pioneira em tudo, menos em distorcer os números e a realidade deste mercado. E, por acharem que estavam acima do conhecimento compartilhado de décadas de trabalho nos laboratórios de Palo Alto, agora pagam uma conta cara por terem entregado seu maior capital, o livro, ao que consideram um de seus maiores concorrentes: a Amazon.

Agora eles apontam suas catapultas para a sua companhia

A meu ver é assim que o mercado enxerga a Amazon, caro Jeff: como uma concorrente. Um inimigo que deve ser morto. É claro que eles não admitem, mas torcem contra a Amazon. Querem crer, lá no fundo, que isto não vai dar em nada, lutam contra um inimigo oculto, mas consideram que é a Amazon que deve ser exterminada, banida. A Amazon é a ponta de um iceberg, mas o mercado editorial aponta seus binóculos para os chamados grandes players e não percebem que o futuro está nas mãos de uma massa de consumidores modernos que não só lêem os livros impressos. Que lêem os livros. Impressos, em áudio, interativos, digitais, eletrônicos, elétricos, impressos sob demanda, livro aplicativo, livro brinquedo. Enfim, eles lêem livros. E ainda hoje tem gente aqui perdendo tempo discutindo com o Governo o que é um livro.

Alguém já deve ter lhe informado que eles têm o Governo como seu maior cliente. E lá está também a Amazon se infiltrando, tal qual um agente duplo. Afinal, Jeff, de que lado a Amazon está? Porque, do ponto de vista de um mercado em decadência, a Amazon está apenas de seu próprio lado. Conversando com um amigo do mercado, ele disse que “ainda não sabe quem está do lado de quem, o mercado é uma confusão só”. Enquanto isso, a Amazon está atropelando, ela mesma, sua própria história. De tão gigante que se tornou, não consegue mais acompanhar seus próprios passos. Cresceu tanto que não consegue mais olhar para baixo e evitar pisotear naqueles que poderiam ser seus potenciais parceiros, por menores que sejam.

A Amazon erra ao pensar que o mercado todo seria atraído por sua força gravitacional de poder, equivalente a uma espécie de buraco negro. E em vez de se tornar uma opção sustentável para aquele velho e retrógrado mercado, está se tornando um fardo pesado de se carregar. Mesmo com toda sua inovação, se assemelha aqueles conglomerados antigos que queriam ser de tudo ao mesmo tempo: produtora de conteúdo, editora, gráfica, livraria, caixa, empacotador, entregador etc.

A Amazon parece querer ser a constelação de uma estrela só

O senhor vai ter uma ideia melhor do que eu estou tentando dizer quando o Alibaba Group colocar suas ações à venda para o mercado americano. Mas o senhor pode aprender um pouquinho mais com seu conterrâneo, o Sr. Henry Ford. Recomendo que leia sobre a Fordlândia que Ford tentou prosperar aqui em nosso país. Por favor, baixe em seu Kindle a versão digital do livro — que é mais barata que a versão impressa, e o senhor não precisa aguardar aquele drone levar o pacote até a porta da sua casa —, conheça a cidade fantasma que o fordismo deixou de herança aqui pra gente.

Existe uma diferença básica entre o investimento que impulsiona a inovação e a grana que compra coisas prontas, Jeff. E enquanto sua companhia perde tempo se digladiando com velhos senhores feudais do mercado editorial, ela não percebe que está impedindo o trabalho das jovens empresas editoriais que poderiam elevar a segunda potência este mercado. A Amazon não está, honestamente, ajudando em nada. Fica perdendo tempo com os velhos e não percebe que está atrapalhando os jovens empreendedores.

Não bastasse a falta de criatividade de um determinado setor que enxerga a todos como concorrentes de si mesmos, fica todo o tempo copiando as ideias uns dos outros, temos que nos esforçar para compreender os planos de uma empresa, aqui vista mais estrangeira que global, e que age como se quisesse monopolizar o ar que respiramos. Que não sabe se foca em logística usando drones, smartphones que nos dizem o que devemos comprar — como se o consumidor fosse estúpido — ou se foca em venda de serviços de espaço em cloud computing.

Que tal a Amazon nos ajudar com o saneamento básico, Jeff? Também estamos precisando de um aplicativo que ensine os autores independentes a lerem os seus próprios textos, antes destes serem publicados no KDP, sem revisão, sem copydesk, sem ISBN, sem ao menos uma capa decente.

Para finalizar, confesso que os reais objetivos da Amazon, àqueles que eu considerava saber compreender por acompanhar este tema desde 1998, não condizem com a conduta de sua empresa neste momento. Neste ponto, sou obrigado a optar por toda esta generalidade excessiva nesta minha missiva, já que me causaria constrangimentos, não perante aos amigos do mercado que também buscam fundamentos como eu, mas junto àqueles que custam a aceitar uma opinião especializada como a minha.

A Amazon de ontem não é a mesma Amazon de hoje. Temos a Amazon antes e depois do Kindle. E eu não me refiro a inovação. A Amazon depois do Kindle assemelha-se a um cão correndo atrás do próprio rabo. Parecem bastante óbvios os planos dos senhores, mas suas ações estão refletindo uma conduta de distorção no mercado.

E o que nós, das chamadas startups, estamos fazendo? Simples: escalando aquela montanha que se move, com fé em nossos próprios feitos. Temos mais interesse em observar sobre os ombros dos gigantes. Afinal o que é que big players como a Amazon não estão enxergando. Algo que empresas como IBM, Kodak e Palm também não enxergaram. E o destino delas, caro Jeff, todos conhecem muito bem.

Lá do alto deve ser bonito! Mas afinal, o que é que o senhor vê daí de cima, caro Jeff?

Cordialmente,

Ednei Procópio

POR EDNEI PROCÓPIO | Publicado originalmente na Revista Biblioo | Edição 35 | Ano 4 | Nº 08 | Agosto de 2014 | Páginas 16 a 19

Leitura digital torna mais difícil a absorção dos detalhes de um texto, diz pesquisa


Lembrar detalhes de um texto pode se tornar mais fácil através da leitura em papel do que aquela feita através de um Kindle [ou qualquer outro dispositivo eletrônico]. A constatação é de um estudo sobre o impacto da digitalização na leitura, apresentado na Itália, no mês passado, que mostrou que os leitores conseguem resgatar mais informações sobre a trama, lugares e personagens descritos de um texto quando o leem impresso. As informações são do jornal The Guardian.

O estudo foi feito com 50 pessoas. Metade deles teve de ler um livro da escritora Elizabeth George, um texto de 28 páginas, em um Kindle. Os demais leram as mesmas páginas, porém impressas. Em seguida, eles foram questionados sobre detalhes da trama como aspectos da história, personagens e cenários.

Os leitores de Kindle tiveram um desempenho significativamente pior na reconstrução da trama, por exemplo, quando pediram que eles colocassem na ordem correta 14 acontecimentos”, explicou Anne Mangen, pesquisadora da Universidade Stavanger, da Noruega, líder do estudo. Segundo ela, o “retorno tátil da leitura em um Kindle não oferece o mesmo suporte para a reconstrução mental de uma história como um livro impresso traz”.

Quando você lê no papel você percebe a pilha de folhas crescendo à esquerda e diminuindo à direita. Você tem o senso tátil de progresso, além do visual, diferente dos leitores num Kindle. Talvez isso, de alguma forma, ajude o leitor, dando mais consistência ao seu sentido de desdobramento e progresso do texto, e, logo, da própria estória. É interessante para nós que as diferenças [na lembrança dos leitores] são relacionadas à temporalidade. Por que isso?”, acrescentou a pesquisadora, que afirma a necessidade de novos estudos para se responder a essa questão.

extra.globo.com | 21/08/2104

Empresa de TI explica desafio de digitalizar a Biblioteca do Vaticano


A empresa japonesa NTT Data começou, entre março e abril deste ano, um longo processo para digitalizar todo o acervo da Biblioteca Apostólica do Vaticano. Ao todo, são 82 mil manuscritos, totalizando mais de 41 milhões de páginas. São números que já dão uma ideia da dimensão do trabalho que os 50 envolvidos enfrentam – e que fica mais complicado se considerarmos os diferentes tipos de documentos guardados no local e a alta exigência de espaço para armazenar tudo.

Há manuscritos muito frágeis, que precisam de cuidados especiais no manuseio”, explicou a INFO Dalton Dallavecchia, executivo da NTT Data no Brasil. Conforme descreveu o brasileiro, alguns dos documentos não podem ser muito abertos, resistindo no máximo a um ângulo de aberutra de 100 graus. “Usamos suportes especiais de livros nesses casos, além de um software que corrige as imagens que não foram capturadas em um ângulo raso”, completa.

A biblioteca, inaugurada ainda em 1475, ainda conta com algumas obras orientais escritas em rolos enormes, que precisam ser escaneadas aos poucos, em partes separadas. O trabalho todo gera vários pedaços, que depois são unificados com a ajuda de ferramentas dos softwares utilizados no processo de virtualização.

Armazenamento e big data – Para a primeira fase da iniciativa, uma pequena parcela do acervo será escaneada. Mas mesmo que não represente muito, serão necessários 3 Petabytes para armazená-la. E segundo Dallavecchia, o conjunto todo de manuscritos, que deve ser totalmente escaneado em quatro anos, exigirá pelo menos 20 PB de capacidade de armazenamento – ou 20 milhões de GB, para deixar mais claro.

Os arquivos ficam em servidores baseados na tecnologia Isilon, da norte-americana EMC, voltada para guardar documentos por um longo período. O uso da plataforma também está relacionado à ideia da NTT Data e do Vaticano de disponibilizar o acervo digital a pesquisadores e internautas pelo mundo: ela é voltada para gerenciamento de big data, e caracterizada como uma solução escalável [scale-out]. Ou seja, conforme a demanda de acessos ao grande volume de dados da biblioteca cresce, mais nós [nodes] são adicionados, mantendo o sistema estável.

Digitalização – O número aparentemente exagerado de Petabytes, aliás, tem muito a ver com a qualidade das imagens. O executivo da NTT Data explica que o aparelho usado na digitalização “captura a imagem dos manuscritos com resolução óptica de 400 dpi, usando diferentes tipos de fontes de luz para melhorar a qualidade”.

É uma ação complicada, que envolve por vezes até uma armação para segurar as obras apenas parcialmente abertas – mas que leva só “dois minutos para digitalizar uma página do tamanho de uma folha A4”. No fim das contas, cada scanner é capaz de capturar pelo menos 150 volumes em um ano.

Se quiser acompanhar o progresso do trabalho, dá para checar algumas das páginas digitalizadas na página da própria Biblioteca Apostólica do Vaticano. Por ora, estão disponíveis 975 volumes, e para ver cada um deles, é só clicar no respectivo livro aberto e depois na folha que aparecerá à direita.

info.abril.com.br | 21/08/2014

Amazon inicia venda de livros físicos no Brasil


Brasileiros agora podem comprar livros em papel e ainda dispõem da funcionalidade Leia Enquanto Enviamos

A Amazon anunciou em sua página em português, nessa quinta-feira 21, em carta assinada pelo fundador e CEO Jeff Bezos, a expansão de sua loja online no Brasil. Agora, é possível comprar não só livros digitais como também em papel. A varejista, há dois anos no País, passa a oferecer 150 mil títulos em português, além dos 35 mil livros digitais já disponíveis no catálogo do Kindle.

Para quem comprar os impressos, ainda há outra novidade, a função Leia Enquanto Enviamos, que disponibiliza uma amostra digital do livro comprado para a leitura durante o envio do pedido. O acervo com essa funcionalidade, porém, é limitado a cerca de 13 mil obras, dentre elas os mais populares. Outro atrativo da loja é o frete grátis para compras a partir de R$ 69.

POR BRUNA MOLINA | Do Meio & Mensagem | 21/08/2014, às 12:26

Congresso CBL do Livro Digital discute convergências


Evento leva público ao Anhembi para explorar oportunidades

O grande potencial de crescimento do mercado digital no Brasil deve dar a tônica dos debates do 5.º Congresso Internacional CBL do Livro Digital, que começa nesta quinta-feira no Auditório Elis Regina, localizado ao lado do Pavilhão do Parque Anhembi [Avenida Olavo Fontoura, 1.209]. Até sexta-feira, especialistas brasileiros e estrangeiros vão debater a revolução dos livros digitais, modelos de negócio e também os aspectos jurídicos – lacuna importante – dos e-books no Brasil.

A Pesquisa Fipe de Produção e Vendas do Setor Editorial, divulgada em julho, mostrava que, apesar do crescimento expressivo de 225% de 2012 para 2013, o digital ainda ocupa uma fatia muito pequena do mercado editorial brasileiro [menos de 1% do faturamento total]. Dois fatores – pequena participação nos anos iniciais de operação e imenso potencial de crescimento – que são destacados por José Luis Verdes e Rosa Sala, empresários do mercado editorial espanhol que participam do Congresso sexta-feira, às 17 h, na mesa Compartilhando experiências sobre o universo do livro digital.

José Luis Verdes é CEO do Manuscritics, empresa que produz uma plataforma de avaliação online de textos literários, pensada para editores e scouts. Funciona assim: o agente literário submete um texto de um autor para a plataforma, e com ela leitores especializados de qualquer parte do mundo podem dar opiniões, sugerir edições, correções, etc. Com essa recepção, o editor pode ter melhores condições de decidir o que fazer com aquele material. A fase beta da plataforma está no ar desde 18 de julho.

Muitos livros passam pelas mesas dos editores sem que eles tenham a oportunidade de editá-los”, diz Verdes ao Estado, “então a ideia é não perder as chances“.

Rosa Sala. Congresso vai debater potencial do mercado

Rosa Sala. Congresso vai debater potencial do mercado

Ele concorda que o início da operação digital é sempre lento, em qualquer parte do mundo. “Mas em poucos anos o desenvolvimento é muito rápido. Foi assim nos Estados Unidos, no Reino Unido, etc. As editoras brasileiras conhecem esse fenômeno e devem se preparar para a fase de crescimento”, afirma, salientando que, se o processo de atualização do negócio não ocorrer, outras empresas de fora, como a Amazon, chegarão ao mercado para ocupar este espaço.

Creio também que há um terreno com muitas possibilidades de negócio, que vai crescer de maneira exponencial no futuro próximo: startups que colaboram com grandes grupos editoriais“, prevê, otimista.

Já a Digital Tangible, criada por Rosa Sala em julho de 2013, está levando ao mercado espanhol outra iniciativa: o Seebook pretende aproximar a experiência do físico ao digital ao desenvolver cartões com conteúdo digital [que podem ser dados como presentes, ser autografados, vendidos nas livrarias ou em conferências, palestras, etc]. O cartão possui um código QR [que pode ser lido por smartphones] ou alfanumérico que dá acesso ao arquivo, enviado por e-mail ao portador do Seebook, que pode então lê-lo em qualquer plataforma [no próprio computador, smartphone, tablet ou em e-readers].

O grande problema dos livros digitais segue sendo a dificuldade de descobrir novos títulos“, lembra Rosa – o que ela chama de “discoverability”. Para ela, as plataformas online estão pensadas para encontrar algo rapidamente, mas não tanto para descobrir coisas novas. “As mestras nisso continuam sendo as livrarias”, afirma. A ideia então é juntar o útil ao agradável.

Sobre o crescimento do mercado digital, ela concorda que o potencial é grande. “Sobretudo para países de uma extensão tão vasta como o Brasil, em que a chegada de livros de papel pode ser um problema logístico considerável, a leitura digital tem um futuro extraordinário“, diz. “É um mercado que causa muita desconfiança, mas, gostemos ou não, o futuro da leitura vai nessa direção”, conclui.

O Congresso tem como tema Conteúdo e Convergência, e começa nesta quinta-feira às 9 h, com abertura de Karine Pansa, da CBL. Em seguida, Jason Merkoski, ex-evangelista de tecnologia da Amazon fala sobre seu livro mais recente [Burning the Page] e sobre a revolução digital. Em uma entrevista ao Link, doEstado, Merkoski afirmou, categórico, que “uma vez que as pessoas consigam encontrar 80% dos títulos que buscam no digital, a chance de elas migrarem para e-books é de 100%“.

Ainda é possível se inscrever no Congresso: há uma recepção para credenciamento e inscrição hoje no local – a inscrição custa R$ 1.120 para associados de entidades do livro, professores, estudantes e bibliotecários. A programação segue até sexta-feira, às 18 h, quando o encerramento será feito pela Comissão do Livro Digital.

Produção científica e acadêmica vai ser avaliada

O Congresso também abre espaço para trabalhos acadêmicos produzidos nas universidades brasileiras sobre o mercado digital dos livros – em aspectos tecnológicos e econômicos. Dos trabalhos enviados, seis foram selecionados por uma comissão liderada pelo professor da FEA-USP Cesar Alexandre de Souza e serão apresentados hoje no Hotel Holiday Inn, no complexo do Anhembi. Três deles recebem uma ajuda de custo [de até R$ 1.500] e o “vencedor” também apresentará o trabalho nesta sexta-feira, para todo o Congresso. “Esse modelo fomenta a pesquisa e o desenvolvimento na academia brasileira relacionados ao livro e à leitura, sempre relacionados ao mercado digital“, comenta a gerente executivo da CBL, Cristina Lima.

Por Guilherme Sobota | Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo | 21 Agosto 2014, às 03h00

Vade Mecum, da Saraiva, mais barato na Amazon


No fechamento desta edição, o livro custava R$ 111,05 na Amazon e R$ 116,90 na Saraiva

A Amazon começou a vender os livros físicos no Brasil e prova que veio para competir com força. Uma exemplo disso é o Vade Mecum 2014 Saraiva [18ª edição]. No fechamento desta edição, às 9h, o livro estava sendo vendido por R$ 111,05 na Amazon. O mesmo produto na Saraiva – loja do mesmo grupo da editora – estava a R$ 116,90.

PublishNews | 21/08/2014 | Por Leonardo Neto

Saraiva X Amazon


As duas gigantes terão 80% do mercado digital no fim de 2014

O ano de 2013 terminou com Amazon e Apple disputando o primeiro lugar no mercado de livros digitais, seguidos por Google e Saraiva disputando a terceira posição. A grosso modo, uma estimativa aproximada mostraria o seguinte market share nacional:

  • Amazon: 30%
  • Apple: 30%
  • Saraiva: 15%
  • Google: 15%
  • Kobo: 5%
  • Outros: 5%

A explicação para o sucesso de Apple e Google é a forte base de tablets e smartphones com sistemas iOS ou Android instalados no Brasil, o que facilitou a venda de e-books nestes ambientes – muitas vezes para clientes que já compravam outros produtos nas lojas da Apple e Google.

Passados quase oito meses de 2014, no entanto, percebe-se um crescimento da Saraiva e da Amazon. A loja brasileira investiu em seu e-commerce e nos aplicativos de leitura para Android e iOS, o que levou a um aumento das vendas. Já a Amazon continuou crescendo organicamente, aumentando tanto seu catálogo tradicional como o de livros auto-publicados, e ainda investiu fortes em ações demerchandising. Google e Apple, portanto, perderam fatias de mercado, o que é absolutamente natural já que ambas as empresas não focam livros. A Google quer aumentar seu faturamento de publicidade e a Apple, como bem já colocou o editor pernambucano Julio Silveira, está mais interessada em vender coisas que brilham. Vale também lembrar que a IBA, a e-bookstore mais forte entre as classificadas como “Outros” e propriedade da toda-poderosa Abril, está encerrando suas operações.

Atualmente, portanto, o mercado provavelmente apresenta um market share como este a seguir, com uma margem de erro [enorme] de 5%:

  • Amazon: 38%
  • Apple: 25%
  • Saraiva: 20%
  • Google: 10%
  • Kobo: 5%
  • Outros: 2%

Mais importante do que se prender nos números é  enfocar o ranking em si, já que estes números não passam de guesstimates ou, em bom português, chutes estimados. De qualquer forma, não há dúvida que a Amazon assumiu a dianteira e que a Saraiva conquistou a terceira colocação.

E neste mês de agosto, tivemos novidades. Dois lançamentos importantes aconteceram no mercado de livros. A Saraiva lançou seu leitor digital dedicado, o LEV, entrando para o clube das e-bookstores com devices próprios. E a Amazon lançou sua loja de livros físicos. Ou seja, em movimentos curiosamente contrários, a Saraiva entrou de vez na briga do mercado de e-books, enquanto a Amazon estreou na venda de livros físicos.

Embora o potencial do mercado brasileiro de leitores dedicados não seja tão grandeem minha opinião, a chegada do LEV representa muito mais que um gadgetexclusivo para a Saraiva. Na verdade, o lançamento do LEV – feito com maestria pela equipe saraivana liderada por Deric Guilhen – representou toda uma nova postura da empresa em relação ao digital. A Saraiva agora usa sua rede de 114 lojas espalhadas pelo Brasil para promover sua plataforma de livros digitais, conseguiu encantar seus próprios funcionários com um endomarketing bem bolado que envelopou de portas de elevadores a cadeiras de reunião em sua sede paulistana, e ainda convenceu o mercado de que ela está levando o livro digital a sério e que não está para brincadeira. E tudo isso não seria possível sem um marco e sem um símbolo. Daí a importância do LEV. O aparelho da Saraiva é a materialização da estratégia digital da empresa e, ainda que o LEV venda pouco, ele fará toda a diferença.

Já a Amazon, que prometeu a abertura de sua loja de livros físicos para o dia 21 de agosto, passará a ter muito mais tráfego em sua loja. Se antes apenas leitores já convertidos ao digital e consumidores de apps para Android frequentavam suas prateleiras virtuais, agora qualquer leitor de livros estará por lá. Com isso, um público muito maior ficará exposto à plataforma e ao leitor Kindle, com uma conversão não desprezível de leitores de livros físicos em leitores de livros digitais. Vale lembrar que a Amazon mostrará a opção de compra da edição digital nas páginas dos livros físicos. E além disso, oferece 13 mil títulos no seu programa Leia Enquanto Enviamos, onde o consumidor recebe os primeiros trechos do livro em formato digital para iniciar sua leitura enquanto o livro físico não chega. Quantos leitores não responderão ao canto da sereia amazônica de preços menores e acesso mais prático ao conteúdo que os livros do Kindle oferecem?

Considerando as últimas novidades de Amazon e Saraiva, é natural estimar que as duas empresas serão as grandes concorrentes do mercado brasileiro de e-books no fechamento de 2014. A Saraiva seguramente passará a Apple – que continua vendendo em dólar, com IOF – e alcançará a segunda posição. Somadas, as empresas que hoje já possuem cerca de 60% do mercado devem chegar a  80%, obrigando Apple, Google e Kobo a se dilacerarem pelos 20% que sobram. É esperar para ver – de preferência, lendo um e-book.

Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente em Tipos Digitais | 21/08/2014

Amazon agora é de papel?


Dois tipos de comentários eram frequentes no mercado editorial brasileiro nos últimos meses. O primeiro que a Amazon iniciaria sua operação de livros físicos no Brasil nos próximos dias. O segundo que a Amazon estava devagar demais tanto na vendas de livros digitais quanto no lançamento do e-commerce de livros de papel, e que não estava fazendo jus às expectativas. Houve até quem dissesse que a Amazon sairia do Brasil. Mas a partir de hoje, 21/8, os comentaristas profissionais do mercado editorial terão que procurar outros assuntos. Afinal, a loja Amazon de livros físicos está finalmente entrando no ar em www.amazon.com.br/livros.

E se a gigante de Seattle parecia devagar para montar sua operação física no Brasil, o catálogo de 150 mil livros em português que ela está oferecendo no Brasil explica a razão desta demora. Afinal, este número é praticamente o total de livros físicos brasileiros em catálogo – e montar um catálogo deste exige tempo. Considerando-se a baixa qualidade dos metadados brasileiros e a rede de distribuição de livros ainda limitada no Brasil, pode-se dizer que Amazon andou bem rápido. E que seus funcionários podem ser qualquer coisa, menos lentos.

Para abastecer seu estoque, a Amazon negociou com distribuidores, mas também direto com várias editoras. Os seis distribuidores que abastecerão a filial brasileira de Jeff Bezos são Bookpartners, Disal, Acaiaca, Superpedido, Catavento e i-Supply. A empresa não foi agressiva em sua negociação de descontos com as editoras, o que pode ser um sinal de não enfocará tanto nos descontos para conquistar clientes. Em muitas editoras, os descontos negociados para a aquisição de livros pela Amazon foram menores daqueles praticados com outros grandes varejistas.

A logística, segundo matéria do Valor Econômico, está a cargo da Luft, que antes atendia a extinta operação de comércio eletrônico do Carrefour. A seguir os principais destaques do mais novo e-commerce de livros no Brasil:

  • Catálogo de 150 mil livros em português
  • Frete gratuito para compras acima de R$ 69,00
  • Devolução em até 30 dias da data da compra por qualquer motivo [a lei brasileira exige 7 dias]
  • Leia Enquanto Enviamos: funcionalidade disponível para 13 mil livros que permite que o leitor receba trechos iniciais do livro em formato digital para ler enquanto não recebe o livro físico.
  • Entrega em um dia útil para CEPs selecionados da Grande São Paulo para pedidos feitos até as 11h
  • Comparação de preços entre os formato digital e físico

Agora é esperar para ver qual será a performance da Amazon no Brasil. Mas a verdade é que as dificuldades logísticas nacionais não impediram a empresa norte-americana de se lançar no Brasil com um catálogo de gente grande. Resta saber se os consumidores brasileiros serão seduzidos pelo canto das sereias amazônicas.

Por Carlo Carrenho | Tipos Digitais | 21/08/2014

A obsessão da Amazon


Country manager da Amazon no Brasil falou com exclusividade ao PN

Em entrevista concedida com exclusividade ao PublishNews no fim da tarde de ontem, Alex Szapiro, country manager da Amazon no Brasil, repetiu a palavra obsessão quatro vezes. Isso demonstra a forma com que a varejista começa a operar com livros físicos no Brasil. No papo de ontem, encontramos um Alex relaxado, bem humorado e falante. Ele falou um pouco sobre a relação da Amazon com as editoras, sobre como foi montar o gigantesco catálogo de mais de 150 mil títulos em português e, finalmente, respondeu a uma pergunta que o PublishNews fez em 2012, quando a Amazon começou as vendas de livros digitais por aqui. Leia abaixo a íntegra do papo com o executivo.

PublishNews – Finalmente, a Amazon começa a vender os livros físicos no Brasil…

Alex Szapiro – Pois é… A gente está extremamente feliz de estar lançando a loja de livros físicos. Acho que mais do que lançar, tem alguns pontos que a gente tem que trazer à tona. Estamos lançando a loja com o maior catálogo de livros em português do Brasil. Isso é uma coisa importante. Tem mais de 150 mil títulos. Acho que vocês acompanharam a Amazon e sabe da nossa obsessão em ter certeza de que a gente vai ter um catálogo muito bom, não só dos best-sellers, mas também de títulos de cauda longa, de backlist. A gente é bem obsessivo nesse aspecto. O segundo ponto é a logística. Em alguns CEPs da cidade de São Paulo, para pedidos feitos até as 11h da manhã, a gente entrega no dia seguinte. Isso é uma coisa importante.

PN – E há prazos máximos para entrega?

AS – Não sei te dizer. Pode ser mais de dois dias mesmo dentro da cidade de São Paulo. Depende da área, da rota… Mas mais importante que o prazo, tem duas coisas da Amazon. Uma que a gente tem certeza daquilo que a gente promete é o que a gente pode cumprir. Isso não acontece só agora com o início da loja de livros. Mas isso já acontecia desde antes, quando começamos a oferecer um produto físico no Brasil que foi em fevereiro, quando a gente começou a vender o Kindle da própria Amazon. A gente é muito conservador nessa questão. Ou seja, o prazo pode ser de sete a nove dias, mas eu prefiro falar que é nove. A segunda coisa, a gente está lançando uma promoção: para compras acima de 69 reais, frete grátis para todo o Brasil. Se você está comprando dois ou três livros, não importa em que parte do Brasil você esteja, o frete sairá gratuito nas compras acima de R$ 69.

PN – É uma promoção ou é uma política?

AS – É uma promoção. A gente pode mudar a qualquer momento. Não tem uma data. Nesse momento, não sei quanto tempo vai durar

PN – Há planos para praticar frete grátis no Brasil?

AS – A gente não fala de nenhum plano futuro. O plano para agora é frete grátis para compras acima de R$ 69. Uma outra coisa é a vantagem de todas as ferramentas e tecnologia de descoberta e de recomendação de livros que a Amazon tem. Não é que a gente começa do zero. A gente começa com quase dois anos de experiência. Já tem toda uma história com os consumidores digitais. Para essa experiência, a gente não usa só dados do Brasil, mas de todo o mundo. Dados de correlação de compra, de produto, de título, de gênero, etc e tudo isso está aplicado na loja de livros físicos. Isso é uma coisa muito muito importante.

PN – A legislação brasileira garante a devolução de produtos em um prazo bem menor do que o oferecido pela Amazon, de 30 dias.

AS – O que o Procon fala que você pode devolver um item em até sete dias, a Amazon tem dá 30 dias. Mostra como a gente pensa. Se alguém ligar para mim daqui a vinte dias e falar que comprou um livro e quer devolver, nós vamos aceitar.

PN – E você não acha que as pessoas vão abusar dessa facilidade?

AS – Evidentemente a gente tem tecnologia para saber se um cliente faz isso uma, duas, três ou quatro vezes. A gente trabalha em prol do consumidor. Se isso acontecer, não é por causa de um ou outro caso como esse que a gente tem que prejudicar todas as outras pessoas honestas. É assim que a Amazon trabalha.

PN – Qual o efeito a Amazon espera em suas vendas digitais com o início das vendas físicas? Consumidores de livros físicos serão convertidos ao digital?

AS – Isso é uma coisa muito importante que está no DNA da Amazon e que não tenho visto por aí. A experiência digital e física ao mesmo tempo. No mundo todo, a nossa visão é dar a escolha ao cliente. A escolha entre o físico e o digital é uma escolha do cliente. A gente sabe que o digital traz uma série de vantagens. A gente sabe também que a pessoa que lê no digital acaba lendo mais. A história nos diz que quando um cliente não Kindle e passa a ser um cliente Kindle, ele não para de comprar livros físicos, mas ele passa a comprar, em média 3,9 vezes mais livros. Então é uma coisa muito salutar. E, claro, o livro digital tem uma série de outros benefícios: não tem estoque, não tem impressão, não tem frete. Se ele virou obsoleto, a partir do pressuposto que não terá mais nenhuma tiragem, mas a editora ainda tem os direitos autorais, ele pode ser vendido para sempre. Ou talvez, você acaba de vender um livro físico e as vendas foram muito maiores do que você esperava. Até você fazer a reimpressão e etc… se você tem um livro digital, você não perde a venda. Um exemplo disso é o livro Assassinato de reputação, de Romeu Tuma Jr. Ele lançou o livro no final do ano passado e teve uma cobertura da mídia. O livro esgotou em horas. A editora [TopBooks] então colocou o livro a venda via KDP, via autopublicação, e o livro não parava de vender. É uma ótima maneira de muita gente que nunca tinha testado o digital, testar. Não importa se você vem pelo livro ou pelo livro digital, a experiência é a mesma. Os metadados, e você tem sempre a opção de comprar o livro físico ou o livro digital. Baseado nisso, a gente está lançando uma coisa interessante. Junto com o lançamento da loja, a gente está oferecendo uma funcionalidade que a gente chama de Leia Enquanto Enviamos. Isso é uma coisa muito legal para o brasileiro. Não é para todo o catálogo. Dos mais de 150 mil títulos, temos mais ou menos 13 mil nessa disponibilidade. Quando você fechar o pedido, ele vai te perguntar se você quer começar a ler o livro enquanto a gente te manda o livro. E aí você começa a lê-lo no Cloud Reader e aí, evidentemente, você pode começar a ler pelo Kindle App, pelo seu smartphone, no seu tablet ou no seu Kindle. Essa é a mentalidade que a gente está trazendo para a abertura da loja.

PN – E há planos para expandir esse número de 13 mil títulos dentro dessa funcionalidade?

AS – Sem dúvidas. E essa expansão se dá dentro do crescimento do catálogo digital. Quando a gente abriu a loja há 20 meses, a gente abriu a loja digital com 13 mil títulos. Hoje temos mais de 35 mil. Então, se você analisar, em 20 meses, quase que triplicou. A nossa obsessão é estar sempre melhorando o catálogo. Pode ter certeza de que esse catálogo está crescendo.

PN – E por falar em catálogo, foi muito difícil levantar esses 150 mil títulos? Foi mais trabalhoso do que o esperado?

AS – O que você chama de muito difícil? Eu recebi muitas perguntas quando a gente lançou a loja de livros digitais e eu não tenho nenhum problema em responder isso. Toda as vezes que você vai começar uma relação comercial. Em especial para a Amazon que não estava no País. E toda negociação comercial, até você chegar no que é bom para ambas as partes, tem um Delta T, um esforço. E isso aconteceu há vinte meses. Como os publishers veem a relação com a Amazon, o que eles acham da forma como tratamos os livros digitais, eles é que precisam responder. Eu não posso julgar. Quem tem que julgar é o nosso consumidor e talvez alguns dos nossos fornecedores. Sempre faço um paralelo: se você vai comprar uma casa amanhã, eu imagino que você vá fazer uma negociação até fechar preço, contrato etc… Você não vai chegar e falar: vou comprar essa casa e pronto. Você fala que quer assim ou quer assado. Então, isso aconteceu muito há dois anos. Foram negociações que fazem parte até que a gente começasse a vender. Nós trabalhamos para o bem comum que atender ao consumidor que quer comprar um livro. Seria estranho se uma editora falasse que não quer vender. É claro que ela tem a opção de falar “olha, eu não quero vender para esse fornecedor”. E para você ter ideia, estamos lançando e o total do nosso catálogo representa mais de 2.100 editoras.

PN – Por que o Matchbook, programa da Amazon que permite que leitores que adquirem o livro físico comprem o digital com um preço que é uma fração do valor, não está sendo oferecido aqui? Há planos para oferecê-lo?

AS – A gente não comenta planos futuros. Você poderia me perguntar também se vamos oferecer o Kindle Unlimited. A gente não fala disso.

PN -Então perguntando algo do passado. Quando, há vinte meses, a Amazon chegou vendendo os e-books e lançando o Kindle no Brasil, o PublishNews perguntou para você o que era ser livreiro no Brasil. Na época, você disse que não dava para responder ainda a essa pergunta. Passados esses vinte meses, você tem uma resposta para essa pergunta?

AS – A gente é mais do que livreiro (risos). O que eu posso te responder é que a Amazon tem essa obsessão e a gente trabalha muito nisso. A gente tem a premissa de começar pelo cliente e, a partir dele, a gente vai para trás. Tudo o que a gente faz, a gente olha o que o cliente quer e como a gente pode atendê-lo. A forma como a gente bola nossos serviços e nossos produtos está baseado muito no cliente. Para mim, a minha visão de ser livreiro é o que a gente tem para fazer para atender o leitor. É ter certeza de que a gente tem um catálogo completo e catálogo é uma coisa viva, precisa estar sempre crescendo. Ter certeza de que a gente tem uma facilidade de busca. A maneira como coloco o gênero, a maneira como faço o merchandising é realmente a melhor maneira? Não tem coisa mais chata do que você estar procurando um livro, entra na loja e não encontra. Não vou dizer que isso não acontece na Amazon. Acontece com a gente também, mas a gente tem que trabalhar para que isso não acontecer. Outra coisa é: está tudo funcionando? A experiência é uma experiência fácil? Ou seja, eu não tenho que colocar cinquenta passos para que a pessoa compre o que quer. A terceira coisa é a “descobertabilidade”, a facilidade de descoberta. A pergunta é: a gente está fazendo o papel do bom livreiro que é ajudar você a descobrir produtos, de ter boas ofertas e ter certeza de que a minha tecnologia funciona? Se a resposta for sim, isso é ser um bom livreiro no Brasil. Para mim esse é o DNA do livreiro.

Por Leonardo Neto | PublishNews | 21/08/2014

Com 150 mil títulos, Amazon começa a vender livros físicos no Brasil


No lançamento, varejista oferece frete grátis em compras acima de R$ 69

A partir dessa quinta-feira [21], os brasileiros poderão finalmente comprar livros físicos pela Amazon. Para o início das operações, a varejista compôs um catálogo de 150 mil títulos. Para marcar o lançamento, a Amazon oferecerá frete grátis para compras acima de R$ 69 e entrega no dia seguinte para compras feitas antes das 11h da manhã por consumidores de algumas localidades da cidade de São Paulo. Em entrevista que concedeu nesta quarta-feira, com exclusividade ao PublishNews, Alex Szapiro, country manager da Amazon no Brasil, disse que outra funcionalidade estará disponível imediatamente aos brasileiros. É o Leia Enquanto Enviamos, que permitirá que o cliente comece a ler o livro no digital – por meio do Kindle Cloud Reader – enquanto é feito o envio do livro físico. Essa funcionalidade está disponível para 13 mil títulos, com possibilidade de expansão. “Essa experiência que transita entre o digital e o físico ao mesmo tempo está no DNA da Amazon”, disse ao PublishNews.

Catálogo

O catálogo de 150 mil títulos é composto por obras de 2.100 editoras. Os títulos vão desde os best-sellers até livros de fundo de catálogo. “Estamos lançando a loja com o maior catálogo de livros em português do Brasil. Quem acompanha a história da Amazon sabe da nossa obsessão em ter certeza de que temos um catálogo muito bom, não só composto por best-sellers, mas também por títulos de cauda longa e de backlists”, disse Szapiro.

Logística

De acordo com Szapiro, outa obsessão da Amazon é pelo cumprimento de prazos prometidos. Para alguns CEPs da cidade de São Paulo, para pedidos feitos até as 11h da manhã, a Amazon promete entregar no dia útil seguinte. Para as demais localidades, a Amazon trabalha com prazos distintos. “A gente tem certeza de que aquilo que a gente promete é aquilo que a gente pode cumprir”, defendeu. “Isso já acontecia desde antes, quando começamos a oferecer o Kindle”, completou o executivo. O frete grátis para compras acima de R$ 69 vale para todo o território nacional. Outra inovação apresentada pela Amazon é a possibilidade de o cliente devolver o livro dentro do período de 30 dias, caso o produto não atenda às suas expectativas. Ao ser perguntado sobre a possibilidade de alguns clientes se aproveitarem dessa facilidade para comprar livros, ler e depois devolver, Szapiro disse que usará a tecnologia contra esses casos: “a gente tem tecnologia para saber se um cliente faz isso uma, duas, três ou quatro vezes. A gente trabalha em prol do consumidor. Não é por causa de um ou outro caso como esse que a gente tem que prejudicar todas as outras pessoas honestas. É assim que a Amazon trabalha”.

Retrospecto da Amazon no Brasil

A Amazon começou a operar no Brasil em dezembro de 2012, com o lançamento da Amazon.com.br, da loja Kindle Brasil, do Kindle Direct Publishing [KDP] e dos e-readers Kindle que eram oferecidos em lojas da Livraria da Vila e do Pontofrio.com. No ano passado, a varejista lançou a Amazon Appstore no Brasil e, no começo de 2014, iniciou as vendas de Kindle e Kindle Paperwhite diretamente pelo seu site. Agora, além do lançamento da loja de livros físicos, a Amazon fará o seu debut em uma bienal. Pela primeira vez, a varejista terá um estande na Bienal do Livro de São Paulo, que começa na próxima sexta-feira [22].

Por Leonardo Neto | PublishNews | 21/08/2014