Consumo da literatura é mediado pelas redes sociais


Estudo apresentado na Flip mostra que web virou ferramenta para disseminar o texto literário

Paulo Leminski começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país | Imagem Márcio Santos / Agência O Globo

Paulo Leminski começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país | Imagem Márcio Santos / Agência O Globo

SÃO PAULO — O consumo de literatura é cada vez mais mediado pelas redes sociais. No entanto, o impacto dessas mídias na produção, consumo, distribuição e troca de trabalhos literários ainda não foi mensurado a contento. Para Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Pesquisador sobre Imagem e Cibercultura [Labic] da Universidade Federal do Espírito Santo, essa transformação traz novos públicos, novos espaços de circulação da literatura e novos mediadores, transformando a obra literária de diferentes escritores em discursos espalhados pela internet, fazendo de alguns autores celebridades da rede.

Para preencher em parte essa lacuna, Malini dedicou-se a observar a propagação da literatura brasileira no Twitter e no Facebook. A pesquisa, encomendada pelo Itaú Cultural, será apresentada nesta quarta na programação da instituição na Flip, e publicada na edição 17 da revista “Observatório cultural”.

O estudo mostra que a propagação de citações é o modo mais utilizado para disseminar o texto literário nas redes sociais. Na literatura contemporânea, observa-se a construção de um autor que, ao mesmo tempo, publica e constitui uma relação íntima com seus públicos na rede. E estes espalham visões críticas e afetos pelas obras que lhe interessam.

— O consumo de literatura nas redes sociais vem alterando o comportamento dos escritores. Em seus perfis, eles passaram a revelar bastidores de seu processo de produção, ao mesmo tempo em que divulgam suas obras. Especialmente os autores dedicados ao público juvenil: esses estão em constante presença nas redes, quase como personagens — explica Malini, lembrando que a escritora Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook, com mais de 300 mil fãs que interagem continuamente com sua página na rede social.

Segundo o pesquisador, Thalita faz de sua página uma espécie de diário virtual reproduzindo a própria discursividade adolescente na rede. No lugar de um narrador mais recolhido, dedicado à obra, a escritora radicaliza a linguagem do selfie, com inúmeros autorretratos. Assim, seu público pode consumir não apenas a sua literatura, mas a sua vida. É uma situação de alta visibilidade em tempo real.

Mas não é só o público juvenil que está em busca de um contato mais próximo com escritores nas redes sociais. Malini acredita que essa avidez por comunicação cria uma geração de autores mais abertos em sua subjetividade literária, motivados por um público que deseja vislumbrar uma produção até então baseada no recolhimento.

— O público não só busca maior compreensão da obra de seus autores favoritos, como também gosta de observar sua visão de mundo, suas posições políticas — observa o especialista.

Outro aspecto do consumo de literatura nas redes é a cultura de fãs de autores que já morreram, tais como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Paulo Leminsky e Caio Fernando Abreu.

Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook | Foto: Eduardo Naddar | Agência O Globo

Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook | Foto: Eduardo Naddar | Agência O Globo

Os autores mais citados pelo mundo acadêmico não são os mais populares nas redes sociais. Obras de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Mário de Andrade são menos citadas, curtidas e compartilhadas. Já as do poeta Carlos Drummond de Andrade e do escritor Machado de Assis alavancam diferentes apropriações pelos usuários. As páginas de Drummond, Caio e Clarice são as campeãs de fãs no Facebook: juntas mobilizam mais de 1 milhão de seguidores.

— Os perfis desses autores brasileiros já falecidos geralmente são administrados por literatos ou escritores. Daí a cultura do remix literário, ou seja, a liberdade que esses administradores de fan pages têm em assumir características marcantes do autor e criar suas próprias frases, numa espécie de emulação. Citações que têm algo de autoajuda quando tiradas de seu contexto fazem muito sucesso. Em alguns casos, servem como indiretas ao serem compartilhadas — detalha o acadêmico sobre o comportamento do leitor brasileiro na web.

Paulo Leminski, por exemplo, começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país, há pouco mais de um ano. Esse movimento nas redes sociais levou a antologia “Toda poesia” de Leminski a figurar diversas semanas na lista de mais vendidos.

Ecoando o desejo dos manifestantes de humanizar o espaço urbano, um poema de Leminski [“Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”] foi retuitado centenas de vezes. Nos dias 15 e 16 de junho de 2013, a tag #todarevoluçãocomeçacomumafaísca esteve entre as mais populares no Brasil, uma alusão à trilogia juvenil “Jogos vorazes”, outro best-seller.

A tese de que perfis de redes sociais não discutem literatura em tempo real é uma especulação simplista, acredita Malini. A rede se tornou um manancial de novos críticos, novos mediadores da literatura, por onde as obras da nova geração e dos autores “mortos” ganham vida e sobrevida.

— É impressionante o que as redes sociais têm feito pela popularização da poesia brasileira, gênero historicamente renegado. É reducionista acusar a rede de gerar um consumo fácil e rápido de literatura, assim como é simplista acreditar que só o livro oferece leitura de qualidade. As redes sociais são portas de entrada para leitores, escritores e críticos, democratizando o consumo e a produção literária — acredita Malini.

Por Márcia Abos | O Globo | 30/07/2014, às 12:08

Anúncios