Quadrinhos digitais ainda engatinham no Brasil


POR BRUNO ROMANI | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 16/06/2014, às 02h00

Se os quadrinhos digitais vivem uma fase de crescimento no mundo, no mercado brasileiro eles engatinham.

Há poucas publicações em português e falta uma loja no formato da Comixology para reunir os principais autores e editoras. A produção nacional fica pulverizada –entre iTunes, Amazon e a própria Comixology- ou arrisca-se em aplicativos próprios.

Chama a atenção o fato de as iniciativas digitais no país partirem do mercado independente. Grandes editoras estrangeiras que têm versões traduzidas nas bancas, como a DC, não possuem publicações em português. A exceção é a Marvel, que vende revistas em 12 idiomas em seu app -mas as traduções não são de excelente qualidade.

Além disso, grandes nomes genuinamente brasileiros, como a Turma da Mônica, estão ausentes de tablets.

“O mercado nacional ainda não tem a mesma força que o mercado americano. Mas já temos um projeto para lançar nossos gibis para tablets e smartphones”, diz Marcos Saraiva, responsável pela divisão digital da Mauricio de Sousa Produções.

O IVC (Instituto Verificador de Circulação), por exemplo, acompanha apenas dados das versões impressas de revistas de personagens da Disney e da Turma da Mônica.

“Tablets e smartphones são importantes porque trazem um jeito fácil e seguro para o leitor pagar R$ 1 ou R$ 2”, diz Heinar Maracy, diretor da Digisa, empresa que faz a revista “Siebercomix”, do cartunista Allan Sieber. “Ainda não temos um caso de sucesso porque a oferta é pouca, e o público leitor, também.”

Mas há potencial. Em 2013, o Brasil apareceu entre os dez países em que o Comixology foi o app de iPad mais lucrativo –sem contar games.

Para Fabiano Denardin, criador da loja de HQs digitais Mais Gibis, faltam duas coisas para o mercado crescer no país: melhorar a oferta e consolidar a plataforma.

“Mais conteúdo trará mais público, mais público trará mais produção. Pelo menos, em teoria, é assim que funciona”, diz ele. “Acredito que muita coisa deva acontecer entre este ano e o próximo no Brasil.”

POR BRUNO ROMANI | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 16/06/2014, às 02h00

Em expansão nos tablets, quadrinhos atraem ao ganhar som e movimento


Tudo aquilo que pode ser digitalizado – como músicas, filmes e livros– migrou do mundo físico para o digital. Com as revistas em quadrinhos, o processo também está acontecendo.

Assim como o iPod incentivou os downloads de arquivos MP3, a mudança no universo dos gibis ganhou força, há quatro anos, por conta de uma classe específica de dispositivos, quando o primeiro iPad deu origem aos tablets.

Desde então, o mercado de quadrinhos digitais está em plena expansão. Em 2011 e 2012, apresentou taxa de crescimento de 300% em todo o mundo, segundo a “ICv2”, publicação americana que monitora o setor.

Magenta King

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Coleciono e leio quadrinhos desde os 10 anos. Não compro uma edição física com regularidade há uns dois ou três, enquanto a biblioteca digital vai crescendo em progressão geométrica“, conta Gustavo Vieira, 36, editor do site Espinafrando.com, guia de quadrinhos digitais e cultura pop.

O segmento existe desde o final da década de 1990, mas o que mudou desde a chegada dos tablets?

Primeiro, há o próprio formato do aparelho, muito próximo ao de uma revista, o que melhora a vida de quem antes podia ler só no PC. Em seguida, vem a tela, que realça cores [revistas físicas estão sujeitas a impressões ruins], permite leitura no escuro e tem funções como zoom.

Além disso, há a questão da conveniência. É mais fácil comprar e armazenar as publicações — um fã de quadrinhos não se contenta com uma ou duas revistas, comprando centenas, milhares.

Isso sem contar a introdução de novos elementos, que mudam a experiência de ler gibis, como a leitura guiada (um quadrinho por vez) e a inclusão de som e animações.

A sensação de ler em papel ainda é insuperável, mas o tablet acaba sendo bem mais prático e tem mais recursos“, afirma Vieira.

NOVOS NEGÓCIOS

O potencial de crescimento dos quadrinhos digitais atiçou a sanha infinita da Amazon de vender toda e qualquer coisa. No final de abril, a gigante abocanhou, por uma quantia não revelada, a Comixology, maior loja da internet do ramo.

No ano passado, foi o aplicativo de maior receita para iPad desconsiderando games (e 11º no ranking geral). Em quatro anos de existência, entregou 6 bilhões de páginas de quadrinhos aos leitores e, atualmente, comercializa mais de 50 mil títulos de 75 editoras diferentes.

Além dos números da loja, a Amazon deve ter levado em conta as previsões de vendas de tablets no mundo.

A consultoria Yankee Group calcula que 560 milhões de tablets serão vendidos no ano que vem –em 2017, espera 1 bilhão. Já o Gartner estima que o comércio de pranchetas superará o de PCs e notebooks até 2015.

POR BRUNO ROMANI | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA | Publicado originalmente em Folha de S. Paulo | 16/06/2014, às 02h00