Comprando um livro no futuro


POR EDNEI PROCÓPIO

— Bom dia, minha senhora, seja bem vinda ao nosso sistema de Total Convergência. Em que posso ajudá-la?

— Eu gostaria de comprar um livro.

— Sim, claro, nós temos mais de oito milhões de títulos em nosso super hiper mega acervo digital.

— Uau! Quem lê tanto livro?

— Na verdade, metade de nosso catálogo está disponível para pronta entrega em várias extensões, desde as mais antigas, e para leitura em diversas superfícies, desde que…

— Sim, sim. Sei, sei…

— … a outra metade pode ser acessada e lida através da nuvem no nosso sistema de aluguel, empréstimo ou troca. O cliente pode escolher. Qual é o título que a senhora procura?

— “O Décimo Segundo Planeta”.

— Só um minuto… vou buscar o título desejado em nosso sistema de metadados intercambiáveis… Desde a criação da base central de livros, tudo ficou uma maravilha!

— Que bom que você encontrou!

— Só um momento por favor. Deixe-me ver… É isso. Infelizmente não temos este livro para pronta entrega…

— Como não? Ele está aparecendo aqui na tela do meu Glass Reader…

— O que está aparecendo na sua retina são apenas os metadados mesmo. O livro está esgotado… Aconteceu o que acontecia naquela velha livraria, lembra, a Sara…

— Mas… Como assim esgotado? Como pode um livro digital esgotar-se? O senhor tem certeza?

— Compreendo sua aflição mas, veja, nós investimos mais de dois milhões… de dólares, hein!… em uma plataforma cujo algoritmo interpreta os dados, quer dizer, os metadados, com nível de erro próximo ao zero. Acho muito difícil errar na coleta de dados. A não ser que o distribuidor deste livro tenha digitado o dado errado, ou provavelmente desconheça o padrão Onix for Books. Isto ocorre muito com os chamados autores independentes.

— Autor independente? Como assim? O autor deste livro já até morreu…

— Ah, então deve ser isso! A senhora não sabia? Existe uma nova nomenclatura nas fichas catalográficas para autores independentes que morreram. Sabe como é, eles não tinham quem os representasse. Qual é mesmo o nome do autor?

— Zecharia Sitchin.

— Hum! Deixe-me ver. O sistema está um pouco lento hoje porque fomos obrigados a migrar o nosso banco de dados para ‘youSQL’ depois que os hackers, na verdade crackers, se juntaram para acabar com a segurança imposta pela Oracle antes dela ser comprada pela Google… A Google anda comprando todo mundo. Mas, enfim, aqui está… Segundo os resultados, temos disponível todos os títulos desse escritor.

— Sério? Este sistema é realmente muito bom!

— Metade disponível no sistema de download, metade no sistema de pay per read, alguns para leitura online, aqueles em formatos abertos, sabe… e outros no sistema de compra por capítulos. Esta última categoria eu chamaria de pay by chapters.

— Nossa! Porque alguém compraria apenas um capítulo de um dos livros do Sitchin?

— Os sistemas ficam disponíveis para que editoras e autores utilizem. Mas não são todas as editoras que fracionam os livros para vender. Na verdade isto só serve para livros de contos, poesias, ou algo assim… enfim…

— Entendo. Então, quero aproveitar e comprar todos os títulos do Sitchin disponíveis. Há possibilidade de vocês darem descontos?

— Mas é claro que sim. A senhora já possui o nosso cartão fidelidade? O Cartão do Leitor?

— Não. Para ser honesta é a primeira vez que eu compro um eBook. Havia jurado pra mim mesma que nunc…

— Entendo. Um dia a pessoa acaba comprando, não é mesmo? Gostaria de adquirir os livros em qual idioma?

— Ué! Como assim? Não estamos falando em português?

— Sim, claro. Mas é que, depois da Convenção em Genebra, contra a Google Books, nós conseguimos reunir títulos em vários idiomas.

— Interessante!

— Temos títulos do Zecharia Sitchin em português, inglês, japonês…

— Eu quero em português mesmo, ok? Pode ser em português?

— Que pena! O problema é que não temos todos os títulos deste autor no seu idioma favorito.

— Mas você não acabou de dizer que tinha todos os livros dele?

— E tenho. Alguns em português, outros em inglês…

— Que complicação.

— Calma, é que apesar da ratificação assinada pelos países membros do bloco contra o Google Translator, há a questão da territorialidade comercial que impede que alguns eBooks sejam…

— Está bem… Quais o senhor tem aí em português?

— Somente dois títulos. E nenhum deles é “O Décimo Segundo Planeta”.

— Mas, como assim? Eu acabei de ver todos em versão impressa, lá na Glass Library…

— Sim. Mas a senhora precisa compreender que nem todos os títulos impressos foram digitalizados pela Amaz…

— Tudo bem. Me vê em inglês mesmo…

— Só um momento, já estamos finalizando a sua compra.

— E o que mais falta? Eu só queria comprar um livro.

— Já estamos no fim. Basta a senhora se cadastrar em nossa base de leitores, escolher o formato da obra…

— Formato?

— Claro. Aqui a senhora pode escolher o seu livro em PDF, HTML5, ePub e até nos formatos…

— Escuta só. Eu tenho um smartablet… Será q…

— Neste caso, eu aconselho o formato ePub7.

— Ah, que bom!

— As versões anteriores do ePub só rodam nos antiquados smartphones e tablets, que ninguém mais usa. O problema é que… Espere um pouco… Nós não temos todos os títulos que a senhora quer comprar no formato ePub7… Desculpe, eu sinto muito mesmo…

— E agora?

— Calma, existe uma solução. A senhora pode usar os nossos exclusivos serviços de conversão de arquivos, disponíveis para clientes do cartão fidelidade. De qualquer maneira a senhora vai ter que usá-los para obter os descontos mesmo…

— É verdade. É possível isso?

— A senhora vai querer comprar os arquivos com ou sem DRM?

— E o que é isso? Dê érre ême?

— Comprando livros sem DRM a senhora mesma poderá converter os arquivos sem nenhum tipo de restrição…

— Que bom!

— E poderá, inclusive, até usar o nosso serviço de tradução automática. Para uso pessoal, claro… A senhora me entende, não é?

— Sim, sim! Claro! Embora eu continue não confiando em tradutores automáticos.

— Só mais um minuto que eu preciso recalcular os valores.

— Que valores?

— O preço de capa, oras… É que os livros sem DRM são mais caros que os livros com DRM…

— Mais caros?!

— Pois é, minha senhora, é que os livros com DRM são mais baratos que os similares sem DRM que estariam suscetíveis a pirataria… fora isso, tem a questão do preço de capa único que em alguns países…

— Escuta, eu não vou piratear uma coisa que eu mesma comprei, não é?

— Sem dúvida que não, o problema são os hackers, eles podem invadir seu micro…

— Mas ninguém mais usa micro… O mundo todo usa smartablets.

— A senhora que pensa. Tem gente que ainda usa até iPad! E, olha só, a verdade é que nenhum sistema é 100% seguro.

— O pior é que é verdade.

— Se a senhora quiser, eu incluo DRM nos seus livros e eles ficam mais baratos…

— Que seja, eu só queria comprar um livro. Eu não sabia que era tão difícil comprar um eBook…

— É por esta razão que nós investimos 600 mil dólares nesta plataforma de teleatendimento, para facilitar a vida dos leitores que querem comprar um livro digital…

— Dá pra terminar logo esta conversa! Eu só queria comprar um livro…

— Pronto. Terminamos. A senhora pode me passar o seu Id da Adobe?

— Mas do que é que você está falando, cara? Você me irrita tanto que já estou falando que nem minha neta.

— Vejo que a senhora está chateada, pode me passar a sua conta do Facebook também, nós integramos o nosso sistema…

— Caralho, bicho. Que porra é essa? Quem é o filho da puta que hoje em dia usa Facebook?

— É verdade. A senhora tem toda razão, é que o nossos sistemas de criptografia não possibilitam que eBooks sejam compartilhados nem em redes sociais ou redes P2P.

— Chega! Escuta, vocês não vendem livros impressos não?

— Mas é claro que sim, o nosso sistema usa o conceito da Total Convergência criado pelo evangelista Ednei Proc…

— Foda-se o imbecil que inventou esta merda. Se você tem os livros impressos porque não me disse logo?

— Tem toda razão. Aguarde um instante que eu vou consultar em nosso sistema integrado de printing on demand, quais títulos do escritor Sitchin estão disponíveis para que…

— Ah, deixa pra lá…

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