Construindo uma Biblioteca Digital Escolar


Por Ednei Procópio

Por Ednei Procópio

Atualmente, ouço muitas pessoas dizendo que “é preciso colocar a mão na massa” quando tratam do tema eBook. Por um lado, isso é realmente importante, verdade, mas, por outro, é a primeira vez, em anos, que percebo mais gente dizendo que “é preciso colocar a mão na massa“, do que gente que realmente colocou a mão na massa durante todo esse tempo.

Nascida na década de 1990, a Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro [mais tarde anexada ao Portal Domínio Público] foi uma das primeiras plataformas brasileiras, juntamente com a eBooksBrasil.org [e minha antiga eBookCult, nascida em 2001], a incentivar e tentar um modelo para operacionalização das chamadas bibliotecas digitais. Praticamente duas décadas depois, o tema volta ao cerne das discussões mais uma vez acompanhada de uma velha-nova tentativa de se testar e estabelecer um novo-velho modelo de mimetizar as tais bibliotecas em um cenário digital. Felizmente, porém, o cenário agora se mostra bem mais favorável. Tão favorável que praticamente a totalidade das ferramentas disponíveis são hoje commodities.

Em meu primeiro livro, “Construindo um Biblioteca Digital“, escrito em 2004 [ou seja, há exato uma década atrás] cito exemplos de bibliotecas que estavam no ar testando a internet, traço um cenário para o desenvolvimento de uma biblioteca digital usando as ferramentas disponíveis naquela época de web 1.0.

Aqui, este meu novo artigo [necessariamente extenso], escrito em meados de novembro de 2013, apenas reforço os itens que considero essenciais à construção de uma biblioteca digital, desta vez, voltada ao universo escolar. Este artigo é voltado também ao encorajamento daqueles que pretendem iniciar a criação de sua própria biblioteca digital escolar. Iniciativas de todos os lados são bem-vindos, é claro, mas considero ainda mais importante aprendermos a construir as nossas próprias soluções a fim de criarmos um ambiente bem mais pulverizado, menos concentrado, mais criativo e dinâmico.

O novo cenário

A tecnologia está focando a educação. Recentemente a Google lançou a plataforma educativa YouTube Edu, com 8 mil videoaulas gratuitas [de vinte e seis canais brasileiros]. A plataforma é voltada para estudantes, educadores e colégios do ensino médio, inicialmente.

Pouco tempo depois, a mesma Google também anunciou uma parceria com o governo de São Paulo para capacitar, em 2014, cerca de 300 mil professores da rede estadual dos ensinos fundamental e médio para que estes utilizem nas atividades complementares as ferramentas online como o Gmail e o Google Docs. Na época, não foi citado o Google Books [e deve haver uma razão bem particular para isto].

O governo paulista também anunciou, no final de outubro, através do projeto Escola Virtual de Programas Educacionais [EVESP] uma parceria com a norte-americana Microsoft Corp para utilizar o pacote Office gratuitamente na rede estadual.

Em um último exemplo, o empresário Nolan Bushnell, criador do antológico Atari, sugere uso de videogames e jogos eletrônicos nas escolas como ferramentas de aprendizagem.

Como dito, a tecnologia está focando na educação. Mas, e os livros? Como ficam os livros nesta história toda? O mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é, sem sombra de dúvida, um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks. Só para se ter uma ideia, a educação básica no Brasil possui pelo menos 50 milhões de alunos que necessitam de conteúdo de qualidade para seus estudos diários. E, segundo projeção do Ministério da Educação [MEC], até 2022 deve haver um incremento de 120 bilhões de reais no orçamento da educação.

Se o próximo grande desafio do Brasil é elevar a qualidade da educação, nosso País necessitará de um ecossistema de armazenamento e compartilhamento de conteúdo digital que seja de fácil entendimento e manuseio pelas partes que compõe os ambientes pedagógicos.

Mas como desenvolver um ecossistema de leitura digital voltado à educação?

Neste novo mercado prestes a se intensificar, a questão da interoperabilidade [entre o hardware, o software e o conteúdo] se mostra um dos itens mais importantes para que as bibliotecas digitais não se tornem estantes inacessíveis. O hardware, em sua maioria, são os dispositivos de leitura [reading devices] fabricados por empresas privadas com interesses mercantis bastante díspares. O software, o mediador entre a máquina e o leitor, oscila entre linguagens de programação proprietárias e os chamados códigos abertos [open source]. E o conteúdo, nosso principal item, sempre dependerá dos dois primeiros para ser efetivamente acessado e usado em sala de aula.

Para que os agentes envolvidos e interessados na utilização das bibliotecas escolares [governo, editoras, autores, professores, alunos, etc.] se beneficiassem igualitariamente de um repositório digital, o desenvolvimento de seu ecossistema pode se basear no conceito de open source. Ou seja, de código fonte aberto, de acesso livre e irrestrito. A open source permitiria a democratização do acesso aos eBooks e, a meu ver, é o caminho mais próximo do ideal em médio e longo prazos.

Os acervos digitais, porém, devem estar sustentados por modernos modelos de negócios, porque um dos principais entraves para a construção de bibliotecas digitais é o investimento para se montar sua estrutura de trabalho. O investimento inclui desde a aquisição, a digitalização de obras, quando houver esta necessidade, até o emprego da tecnologia de Digital Rights Management [DRM] empregada para os controles de acesso as obras.

Minha proposta, descrita a seguir, é simular um ecossistema de conteúdo digital voltado à educação. Nesta proposta de trabalho, iremos levar em conta o emprego da tecnologia da informação, porque ela ainda é central quando se fala livros digitais [didáticos, paradidáticos ou de leitura complementar]. Propomos criar uma alternativa, uma solução para a problemática do livro em repositórios bibliodigitais, para que os profissionais interessados possam enfim vislumbrar um projeto factível e voltar suas atenções ao que realmente importa: a formação e a aprendizagem.

Leitura e educação na era digital

Antes de avançar com uma parte mais técnica, vamos contextualizar o cenário de onde partiremos. Algumas ações gerais podem nos ajudar a permear uma escola de leitores, entre elas, o desenvolvimento de uma rotina de leitura e o estímulo à indicação de livros.

Para estas ações anteriormente descritas se desenvolverem na prática, faz-se necessária a criação e manutenção de diversos ambientes interativos, ou salas de leitura digitais e conectadas. E o principal investimento é a criação de um acervo misto de livros em versão digital disponibilizado através do que chamaremos de Biblioteca Digital Escolar que, entre outros benefícios, deve permitir:

O acesso aos livros através de um rico acervo.
A possibilidade dos próprios alunos escolherem os livros que desejam ler.
Atender mais leitores com menos títulos.
Retiradas, devoluções e recolocações automáticas nas prateleiras digitais.
Adicionar mais títulos ao acervo já criado, sem a necessidade de investimentos em espaço físico, infraestrutura ou dispêndio operacional.
Um mecanismo de busca de uma Biblioteca Digital Escolar que permita a pesquisa de palavras em uma obra ou em uma coleção inteira de livros.
Análise dos relatórios detalhados sobre a utilização da biblioteca, melhorando a qualidade das decisões de aquisição de novos títulos.
E deve permitir os mesmos dispositivos de direitos de propriedade dos livros impressos [através de um sistema de gerenciamento digital de Direitos Autorais, o já citado DRM].

Estes e outros benefícios antes descritos podem ser o atrativo para os leitores que estão mais dispersos em outras mídias digitais interativas, fora dos ambientes pedagógicos tradicionais. Uma Biblioteca Digital Escolar é a solução mais adequada para atender a alunos de cursos à distância, ou iniciativas de inclusão digital, por exemplo, que necessitam de acesso a uma biblioteca completa.

Nosso ecossistema terá um servidor central de conteúdo. Este servidor irá literalmente servir as estantes virtuais de eBooks que poderão ser criadas pelos próprios usuários. Estas estantes poderão ser temáticas conforme a necessidade de cada educador ou grupo de alunos. E estas estantes, por fim, irão alimentar as salas de leitura que serão formadas pelos usuários para que se possam realizar os trabalhos pedagógicos comuns a eles [como nas comunidades virtuais de ensino].

O servidor de conteúdo

Podemos utilizar se quisermos as soluções prontas, daquela empresa que quer dominar o mundo. Ou podemos desenvolver nossas próprias soluções. Iremos pelo caminho que nos trará mais aprendizado. Para construir nossa Biblioteca Digital Escolar precisaremos de um servidor de conteúdo, ele será o alicerce do nosso repositório, do nosso acervo central. Por servidor de conteúdo entende-se o sistema tecnológico que irá salvaguardar os objetos digitais e permitirá sua circulação para os usuários nas salas de leitura.

Tecnicamente, vamos chamar a base para a construção da nossa Biblioteca Digital Escolar de Library Content Server. O nome é apenas uma alegoria. Nossa biblioteca digital necessitará de um servidor de conteúdo escalonável e seguro, que pode ser um servidor dedicado ou podemos também, para minimizar os nossos custos, usar um servidor compartilhado de algum serviço de cloud computing [computação em nuvem].

No caso de projetos ligados às iniciativas públicas, há algumas instituições que já mantêm o seu próprio parque tecnológico que pode eventualmente ser usado para suportar nosso servidor. Como dito, o que realmente importa é que o nosso servidor de conteúdo digital será a base tecnológica da nossa biblioteca.

Ainda estamos no campo das ideias, mas o objetivo da nossa Library Content Server será tornar possível a customização de uma central de armazenamento e distribuição de eBooks para alunos e professores, com o controle dos usuários desde o login [ou seja, a entrada do leitor] até o acesso seguro aos conteúdos digitais [já que as editoras e autores fazem tanta questão]. Nossa proposta é uma solução que servirá para a hospedagem, armazenamento, distribuição, acesso e compartilhamento dos livros digitais.

Whitelabel pages

Para melhorar a rotina de utilização, nossa Library Content Server deverá permitir a criação de páginas customizadas para bibliotecas públicas e até particulares. Elas poderão ser usadas para a circulação de livros usando, neste módulo específico, o conceito de whitelabel. Ou seja, de páginas criadas de modo customizado conforme as necessidades e realidade do intermediador do conteúdo [que pode ser o próprio bibliotecário, já que uma lei assim impõe] ou do moderador da leitura [que pode, por exemplo, ser o educador].

Com esta ferramenta, cada escola pode criar a sua própria sala de leitura com suas estantes temáticas, a partir do repositório central, enchê-las de títulos e, mais tarde, permitir o compartilhamento das obras. Com este módulo, cada aluno ou educador poderá criar a sua própria página e organizar a sua própria estante de livros e também compartilhar conteúdo seguro através e com outras salas de leitura.

Através dos principais módulos, nossa Biblioteca Digital Escolar permitiria:

  • Criação de páginas customizadas [salas de leitura] para escolas, professores e alunos.
  • Criação de estantes e bibliotecas digitais portáteis e acessíveis.
  • Acesso ao painel de controle das salas, estantes e eBooks.
  • Acesso ao painel de controle dos Direitos Autorais em tempo real.

Open share

O código-fonte por trás da estrutura da nossa Library Content Server deve ser baseado em uma licença freeware, livre de pagamento de royalties. Os provedores de conteúdo [autores, editoras, distribuidores, etc.] podem obter lucro com a exploração comercial do conteúdo disponibilizado, como hoje ocorre com o mercado de livros impressos, mas não seria estimulada a exploração comercial em cima da plataforma em si [com exceção do suporte técnico necessário].

Há custos envolvendo o desenvolvimento do acervo digital, principalmente na instalação, configuração e manutenção do sistema. Mas instituições, escolas, bibliotecas públicas e entidades que cuidam da questão da leitura poderão desenvolver o servidor de livros digitais Library Content Server sem os altos custos de licenças geralmente existentes em sistemas de igual complexidade.

As tecnologias que podem ser usadas na estrutura da Library Content Server são populares na internet e já amplamente difundidas e utilizadas por milhares de empresas no mundo todo. Nossa Library Content Server teria, salvaguardando alguns pormenores aqui ainda não detalhados, a seguinte estrutura tecnológica básica:

  • Servidor
  • Código fonte [linguagem de programação]
  • Scripts de segurança
  • Banco de dados
  • Front-end de leitura
  • Gateway de e-commerce
  • eBooks

As tecnologias devem ser de uso padrão e podem ser implantadas por profissionais facilmente encontrados em nosso mercado. Estes profissionais já estão familiarizados com estas tecnologias citadas e só precisam de um bom mapa de desenvolvimento para, enfim, construir o acervo central.

Por uma biblioteca descentralizada

Para que o projeto da nossa Biblioteca Digital Escolar não esbarre em corporativismos o e burocracias, precisamos criar mecanismos que criem a independência necessária principalmente para os casos em que nosso projeto esteja abaixo do poder público. Nada contra, creio apenas que o controle da nossa biblioteca deve ser feito de modo prático, descentralizado, com capacidade operacional plena.

Já existe hoje uma diversidade de programas governamentais, como é o caso do Programa Nacional Biblioteca da Escola [PNBE], Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Prossionais da Educação [Fundeb] e Plano de Ações Articuladas [PAR]. É possível levantar patrocínio através da iniciativa privada, que podem nos ajudar a enriquecer o nosso acervo sem precisarmos necessariamente ficar atrelados à supervisão ou controle que burocratize o projeto e torne os livros digitais tão inacessíveis quanto são hoje os livros impressos nas bibliotecas físicas em geral.

Vencido qualquer cenário burocrático neste sentido, há casos, e não é raro, em que o arquivo do livro, por conta de restrições contratuais e ou técnicas, não se encontrará ‘fisicamente’ dentro de nosso repositório central. Neste caso específico, nós poderíamos recorrer [se for o caso] aos metadados. A equação aqui é mais simples que lhe dar com burocratas. Precisamos estabelecer um padrão, de preferência aberto [um exemplo é a Onix for Books, mas, no Brasil, se usa geralmente o protocolo Marc 21] para os dados completos sobre o livro. Criamos uma rica indexação de obras com o objetivo único e final de levar o nosso usuário até os livros, independente de onde os arquivos estejam disponíveis.

Com o uso dos metadados, os dados sobre os livros, nossa biblioteca pode oferecer aos usuários comodidade na busca por títulos, assuntos, temas, escritores, coleções, e uma infinidade de palavras-chave que poderão direcioná-los até a estante mais próxima. O usuário poderá enfim encontrar o conteúdo que busca, mesmo que o material esteja longe do nosso próprio acervo.

Conforme dito, o servidor de nossa biblioteca pode ser construído em cloud computing [computação em nuvem], o mais importante, porém, é que os recursos da Library Content Server devam permitir que os objetos digitais armazenados possam ser acessados prioritariamente via web browsers [navegadores] a qualquer momento, a partir de qualquer dispositivo móvel.

O sistema das salas de leitura não deve restringir ou obrigar o usuário/leitor/aluno à instalação de nenhum aplicativo, componente ou plug-in em seu reading device [dispositivo de leitura]. O ideal é que os recursos de leitura e conteúdo estejam disponíveis dentro da própria solução e ambiente virtual de acesso. Os aplicativos, neste cenário, podem existir desde que não criem nenhum tipo de interferência [dependência] no acesso aos livros. Embora muitos aplicativos ajudem na exploração e experiência, muitos acabam criando muros maiores que os das bibliotecas físicas.

O front-end do sistema Library Content Server [ou seja, a interface final com o usuário — responsável pela montagem de cada estante, sala de leitura ou páginas dos livros] deve ser baseado no conceito de acessibilidade total. Isto quer dizer não só que os objetos digitais possam ser acessados e livremente lidos através principalmente dos navegadores que permitam o acesso à internet, mas que a rotina que permite a leitura deva obedecer às regras básicas da World Web Consortium [W3C] e do consórcio International Digital Publishing Forum [IDPF].

O front-end da biblioteca digital deve ‘rodar’ em qualquer navegador através de hardwares de leitura como desktops, notebooks, laptops, netbooks, ultrabooks, tablets, smartphones, e-readers e até nas lousas digitais. O sistema deve permitir, enfim, o acesso e a leitura de arquivos nos formatos já amplamente utilizados pelos provedores de conteúdo, como PDF, Daisy, HTML5 e, claro, ePub.

O gerenciamento de Direitos Autorais

Os eBooks armazenados na Library Content Server devem ser tratados como objetos independentes, o que permitirá o compartilhamento seguro entre os usuários previamente cadastrados [bibliotecários, professores, alunos, escola, etc.], cada um com o seu perfil de acesso, com login e senha.

Os eBooks devem ser completamente livres de criptografias restritivas para que, portanto, possam ser acessados à partir de qualquer suporte de leitura, bastando apenas haver no mínimo o navegador com conexão via web.

A segurança dos objetos digitais deverá existir, é claro, mas podem tecnicamente estar alocadas em cada biblioteca, estante ou sala de leitura que, por sua vez, estará atrelada a conta de usuário, que necessitará estar previamente registrado na biblioteca para ter acesso aos livros liberados. Livros digitais em regime de Domínio Público, por exemplo, podem ser armazenados no sistema sem a necessidade de criptografia, senhas ou segurança. E, portanto, podem ser acessados mais rapidamente pelos usuários cadastrados.

Muito se tem falado a respeito do empréstimo nas bibliotecas digitais, mas a equação para esta questão é simples. Se há, por exemplo, apenas 100 exemplares digitais de um determinado título, licenciados e a disposição na biblioteca, somente estes 100 exemplares digitais poderão ser emprestados para os usuários. O usuário de número 101 na fila de leitura deve aguardar a devolução de um exemplar para o acervo central de um dos exemplares já emprestados da obra.

Para os livros em regime de Direito Autoral, um gateway de pagamento atrelado a Library Content Server pode permitir os pagamentos. E o repasse dos Direitos Autorais, dos casos específicos, pode ser realizado em tempo real tanto para a editora ou distribuidor, quanto para o autor, que podem resgatar os valores através de um dashboard [painel de controle].

Nenhum livro, porém, deve ‘subir’ para o servidor da Library Content Server sem a autorização prévia da editora, autor, distribuidor ou do detentor dos Direitos Autorais [através de um contrato, de preferência por escrito, de autorização]. Desencorajamos qualquer ação contrária nesse sentido.

É importante incluir no projeto de desenvolvimento uma rotina de trabalho de convencimento dos detentores de conteúdo com relação às licenças, através de uma política de aquisições clara, objetiva e transparente.

Definindo a política de aquisições

Embora tenhamos o desafio nas aquisições dos títulos frente a um mercado carente de entendimento, a logística do livro digital é mais simples do que o problema enfrentado com relação à distribuição e logística dos livros físicos. No caso dos livros impressos, o trabalho do bibliotecário é realizado de modo mais tranquilo porque historicamente os autores e editoras já conhecem a finalidade das compras.

A aquisição de um eBook por parte de um bibliotecário torna-se, porém, um desafio na medida em que os detentores dos Direitos Autorais [editoras, distribuidores, autores] insistem em saber como, onde e de que forma os livros adquiridos serão acessados pelos usuários.

A questão que surge é que não há um nível seguro de conhecimento de todos os envolvidos que permita uma rápida tomada de decisão. O que pode tornar o processo mais lento. E para que o trabalho cotidiano do bibliotecário não se altere drasticamente, o ideal é que o profissional tenha em mãos os limites territoriais, de idioma e de temporalidade de sua biblioteca digital para que o detentor dos Direitos Autorais possa enfim licenciar as obras [e colaborar com o projeto].

Para obter uma quantidade maior de títulos, uma biblioteca não precisa necessariamente estar diretamente atrelada a, por exemplo, uma plataforma de autopublicação. É muito importante ponderar, em nosso projeto, a fase de aquisição de conteúdo digital, e o seu modelo, e separarmos da seção de oferta de títulos para o leitor. Ou seja, em uma ponta nós iremos adquirir os títulos, neste momento, poderíamos até eventualmente manter parceria com projetos de autopublicação; mas, na outra ponta, teremos a disponibilização dos títulos. Uma ferramenta de autopublicação atrelada a nossa biblioteca só iria atrapalhar a nossa curadoria de conteúdo.

Na hora de adquirirmos os títulos para o nosso repositório, temos de ter a clara noção do nosso modelo de oferta. Se a aquisição é perpétua, por meio de uma licença, por um longo ou curto período de tempo, o ideal é que esta aquisição esteja sempre vinculada à demanda e direcionada unicamente ao usuário. Lá na ponta, o usuário tem de estar bastante familiarizado com as possibilidades de acesso ofertadas [assinatura, aluguel, pay per view, etc].

Nossa biblioteca poderá adquirir os títulos através dos próprios autores, de suas respectivas editoras, ou de distribuidores, o que for melhor em cada caso, dependendo da oferta e da demanda do acervo central. Em cada um dos casos, o ideal é que haja um contrato firmado e registrado que estipule as regras mínimas de compartilhamento do conteúdo adquirido.

Para eliminar custos na aquisição de conteúdo, o ideal é que o nosso acervo central seja o próprio ‘agregador’ de conteúdo, dessa forma estaremos mais aptos a negociação com os detentores dos Direitos Autorais.

A aquisição do conteúdo digital será quase sempre orientada ao usuário [usando a aplicação do conceito patron driven acquisition] e independente da política de acesso dispensada ao leitor, o ideal é que esta aquisição do exemplar digital em si seja sempre perpétua.

O ideal também é que toda essa gestão de aquisições e do controle de acesso dos usuários seja realmente desenhada pelo profissional bibliotecário. Que deve estudar minuciosamente o seu público leitor antes de definir prioritariamente a política de acesso [que será obviamente baseada no modelo de negócios], para, enfim, definir o modelo de aquisição dos títulos.

A aquisição de conteúdo estará intimamente ligada com o nosso modelo de disponibilização. Ao mesmo tempo em que elaboramos de que modo podemos adquirir conteúdo para a nossa biblioteca digital, precisamos pensar também de que modo iremos compartilhar este conteúdo com o nosso usuário final [escola, professor, aluno, etc.].

Definindo a política de acesso

Conforme nossa biblioteca for crescendo em tamanho de títulos e usuários, outros desafios virão. A começar pela própria bibliodiversidade até o número de exemplares digitais disponíveis para cada título [que, como já dito, estará por sua vez automaticamente ligado ao modelo de permissão de acesso ao usuário].

A política de acesso de cada biblioteca digital estará intimamente ligada com o seu modelo de negócios. Ou seja, as aquisições e compras só poderão ser efetuadas se o modelo de acesso for bem especificado. Por exemplo, a biblioteca pode ter um modelo na qual o usuário pague uma assinatura [pay per view]. O usuário pode optar pelo empréstimo em curto ou longo prazo.

Cada biblioteca digital pode ter definidas as suas próprias políticas de acesso aos conteúdos. Cada política de acesso deve estar visivelmente bem clara a todos os atores do projeto para que a comunicação, desde a aquisição das coleções, até a sua disponibilização, se mantenha clara e objetiva.

Propomos enfim, em nosso projeto, uma política de acesso universal e irrestrita que mantenha ao mesmo tempo resguardados os Direitos Autorais, mas, principalmente, o direito do acesso à informação e ao conhecimento em primeiro plano.

Eis aqui o nosso check list básico:

  • Definição da política de acesso dos leitores/usuários.
  • Definição da política de compra dos eBooks.
  • Definição do modelo de negócios da biblioteca.

Estes três itens básicos irão melhorar o desempenho da nossa Biblioteca Digital Escolar na medida em que irá baixar o nível de convencimento dos detentores de Direitos Autorais e propiciará melhora na comunicação com o leitor, usuário, aluno, etc.

Nossa arquitetura bibliodigital

Independente do modelo de negócios por trás de um acervo [público ou privado], e para que o modelo a ser seguido obtenha um alto valor agregado, uma arquitetura bibliodigital deve ser inteiramente portátil, ou seja, deverá ser carregada através de qualquer dispositivo móvel.

Insisto [já pedindo desculpas pelas repetições] que essa arquitetura deva ser inteiramente acessível, ou seja, deve permitir o armazenamento e acesso de conteúdo através das tecnologias populares e já amplamente conhecidas.

Desenvolver uma arquitetura bibliodigital exigirá, do projeto e da equipe envolvida, interoperabilidade computacional, integração do ecossistema com outras soluções de ensino a distância, portais de conteúdo e plataformas de eBooks. Estes itens devem ser minuciosamente observados levando-se em conta àqueles tantos outros tão importantes já citados, como:

  • A computação em nuvem [ou seja, uso dos serviços de acesso sob demanda e utilizando-se de recursos computacionais compartilhados].
  • A mobilidade da biblioteca digital proposta.
  • A portabilidade do conteúdo através de diversos dispositivos de leitura.
  • A bibliodiversidade do conteúdo na biblioteca.
  • A acessibilidade total a biblioteca através do uso de softwares livres.

Professor também é leitor

Nossa Biblioteca Digital Escolar poderá ser utilizada não somente pelos alunos, mas também pelos professores, que também carecem muitas vezes de seu próprio hábito de leitura. Se o professor tem a oportunidade de melhorar sua leitura, se tornará ainda mais producente criar e incentivar este hábito no educando.

O educador não precisa substituir o profissional bibliotecário, em seu trabalho mais técnico, mas pode ser o agente de leitura nas salas que permitiremos criar. O educador pode ser o moderador das salas de leitura [comunidade de leitores].

Pensando em um cenário onde ambos os profissionais possam atuar em nosso ambiente de leitura, nós podemos contar com a colaboração tanto dos professores quanto dos bibliotecários nos aspectos que tangem:

A organização do acervo com uma variedade reconhecível de títulos.
Ajudar o leitor a desenvolver o senso crítico do mundo que o cerca.
Colaborar com o desenvolvimento intelectual do aluno.
Colaborar com a formação e o crescimento cultural e, portanto, social dos alunos através de uma leitura complementar.

Ao criar um espaço conectado, de livre frequência, estaremos possibilitando o acesso aos livros sem as intermediações que hoje criam obstáculos para a formação de novos leitores. O ideal é que a nossa biblioteca também crie para o professor a oportunidade de ter acesso a uma produção editorial, tanto quanto os alunos que farão uso para os mais variados objetivos.

Fazendo-se cumprir a lei

A Biblioteca Digital Escolar pode se transformar em uma coleção de livros, materiais e documentos registrados em suporte digital, destinado à consulta, pesquisa, estudo e leitura. Com a Biblioteca Digital Escolar, o professor pode ter em mãos uma poderosa ferramenta de estímulo ao desenvolvimento de jovens estudantes nos campos de leitura e um verdadeiro acervo para a construção da arte do saber e do conhecimento.

Segundo a Lei N°12.244, decretada pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Governo em 25 de maio de 2010, todas as instituições públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País deverão contar com bibliotecas. Com a Biblioteca Digital Escolar, a instituição de ensino poderá se preparar e se antever a realidade da Lei N°12.244 que diz:

“Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos”.

Segundo Dados do Censo Escolar, de 2009, há 99.896 escolas do Ensino Fundamental e 7.174 escolas do Ensino Médio sem bibliotecas. Segundo o Censo Escolar de 2011, seria 113.269 escolas públicas sem biblioteca. É fato que praticamente 80% das escolas públicas não têm bibliotecas. Mas é fato também que, para melhorar o nível de leitura nas escolas, não precisaríamos de novas leis [como é o caso daquela de número 12.244], se realmente colocássemos a mão na massa. Mas já que a lei foi criada, nós podemos usar de suas prerrogativas para ajudar a levar livros às escolas através das bibliotecas conectadas.

Em meados de agosto de 2013 foi aprovada no Congresso Nacional uma lei que destina 75% dos royalties do pré-sal para a educação. É importante lembrar que uma biblioteca digital também pode cumprir o papel de uma biblioteca pública. Um espaço de leitura conectado não deve substituir as tão sonhadas bibliotecas físicas escolares, mas podem criar um caminho alternativo para a construção de um País letrado.

Uma das metas do Plano Nacional de Educação é que pelo menos metade das escolas de educação básica seja de tempo integral até o início da década de 2020, quando se deve alcançar o incremento de 120 bilhões de reais oriundos dos royalties do pré-sal. Se estudantes das escolas públicas terão mais tempo dentro das escolas, precisaremos de mais ferramentas em quantidade e qualidade para aprender mais e melhor.

O País precisaria construir mais de 100 mil bibliotecas até 2020 para cumprir a Lei [mais de 30 unidades por dia]. Precisaremos investir ao mesmo tempo em mais bibliotecas, para atender a lei 12.244 e, ao mesmo tempo, precisaremos de mais laboratórios ou salas de informática. Poderíamos ganhar tempo com a construção das bibliotecas digitais e reinvestir o montante da diferença dos exemplares impressos em mais títulos digitais.

Uma biblioteca digital pode ajudar no desenvolvimento da educação com investimentos menores do que a construção de bibliotecas de tijolos. Nossa ideia, com o nosso projeto de instalação de ambientes de leituras conectados, é criar maneiras sustentáreis de se fazer cumprir a lei, e de colaborar com a expansão do número de leiturasem nosso País.

Inúmeras oportunidades de crescimento

A tecnologia está com seus olhos voltados para a educação e o mercado de conteúdo digital e literário voltado à educação é um dos mais promissores negócios que envolvem os eBooks.

Conforme registrado, os futuros royalties do pré-sal podem gerar um incremento da ordem de mais de 120 bilhões de reais no orçamento da educação até 2022, segundo projeção do próprio Ministério da Educação. Dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação [FNDE], autarquia do MEC responsável pelos programas do livro didático e da biblioteca da escola, mostram que as escolas públicas da educação básica receberam 43 milhões de livros de literatura infantil e infanto-juvenil, no período de2005 a 2010.

Outros números apontam que haverá um aumento de 42% no gasto por estudante da educação básica entre 2014 e 2022. No mesmo período, a média de alunos na pirâmide demográfica brasileira será de aproximadamente 50 milhões de jovens entre 5 e 19 anos.

Existem 5.564 secretarias municipais, e 27 secretarias estaduais, cuidando da educação no País com quem podemos firmar convênios para a construção das salas de leitura digital. Entre elas aquela já citada no início deste artigo que comporta a VESP. No geral, são 190 mil escolas públicas de ensino fundamental e médio. Com dois milhões de professores de educação básica.

Repositórios digitais no futuro

Embora os eBooks possam ser utilizados como ferramenta complementar no sistema de ensino aprendizagem, eles ainda não estão amplamente sendo utilizados na área da educação. Isto ocorre porque ainda estamos em uma fase onde inúmeros projetos ainda tentam de certo modo mimetizar os processos de acesso aos conteúdos já existentes, ao invés de criar um novo cenário utilizando as inúmeras possibilidades que a tecnologia da informação nos permitiria.

Um dos principais motores dessa transformação no modo de ‘ambientalizar’ o processo de aprendizagem é a disseminação dos recursos onipresentes da computação, entre eles a própria internet. Já existem boas alternativas, mas ainda há muitos entraves de ambos os lados, tanto pelo lado da educação, que ainda tenta testar o modelo nas escolas, quanto da própria tecnologia que ainda não se provou realmente eficiente na falta, muitas vezes, do equilíbrio entre a teoria e a prática.

Os impeditivos da utilização dos eBooks na educação passam também pela chamada exclusão digital, pelo analfabetismo funcional, pela falta de acesso e conexão à internet, entre outras questões ainda mais sérias e infelizmente não resolvidas. Os números da falta de leitura no Brasil, por exemplo, são alarmantes. Em qualquer pesquisa ou estudo que se analise, entre eles o indicador Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], o que se percebe é uma lentidão generalizada na construção de novas bibliotecas, na abertura de novas salas de leitura e na formação de novos leitores.

E é neste sentido que a tecnologia do livro digital pode ajudar na disseminação da literatura através de dispositivos móveis em lugares aonde as bibliotecas de tijolos não chegarão até 2020.

Um texto forma uma página. Uma página forma um livro. Um livro forma uma estante. Uma estante forma uma biblioteca. E uma biblioteca pode ajudar na formação de um leitor usando os ambientes virtuais como as salas de leitura aqui propostas.

Os eBooks devem transformar a realidade das bibliotecas no Brasil e no mundo. Com apenas um único dispositivo de leitura em mãos, o leitor pode acessar infinitas páginas, de diversos livros, de muitas estantes, de uma Biblioteca Digital Escolar. E a educação,em nosso País, deve se preparar para lidar com uma nova demanda que já foi criada com o advento do livro digital. Para isso, o reinvento das bibliotecas se torna o próximo desafio para toda a sociedade.

* Ednei Procópio, 37 anos, é empresário e um dos maiores especialistas em livros digitais no Brasil, atuando na área desde 1998.

Publicado originalmente em Notícias do Blog do Galeno | 31/01/2014